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TOTTA k FICORES
JUNCOS CHINESES
de louis Audemard
Título original / LES JONQUES CHINOISES Autor /LOUIS AUDEMARD Editor / MUSEU MARÍTIMO DE MACAU
Edição patrocinada / BANCO TOTTA & AÇORES Direcção gráfica / KAM FAI LEONG Tradução /C.Alm. MANUEL
LEAL VILARINHO Composição / TIPOGRAFIA MARTINHO | Selecção de cores / TIPOGRAFIA MARTINHO
Impressão e acabamentos / TIPOGRAFIA MARTINHO | Edição / NOVEMBRO DE 1994 MACAU Tiragem / 1.300
EXEMPLARES O/ 1957 MUSEUM VOOR LAND EN VOLKENKUNDE EN HET MARITIEM MUSEUM " PRINS
HENDRIK ". Roterdão, Holanda.
São reservados todos os direitos desta obra, incluindo o de tradução ou reprodução de toda ou qualquer parte,
por qualquer forma ou processo.
ÍNDICE DAS MATÉRIAS
I História do junco HI Ornamentação e tipos
Nota do Editor
Nota de Abertura
Ornamentos de juncos
Long Chuan
Biografia do cap.frag. L. Audemard Qiying
Prefácio Juncos imperiais
A imensidade da frota chinesa
Instalação duma eclusa no Canal Imperial
O declínio dos juncos Superstições
Marinha Chinesa Antiga - Juncos de comércio População marítima
Marinha Chinesa Antiga - Juncos militares Pirataria
Descrição dos Navios de Guerra Notas chinesas
Relações com o Estrangeiro
Descoberta da América pelos Chineses IV Descrição dos juncos
Notas chinesas
Preâmbulo
IH Construção do junco Niuzhuang
Tianjin
Origens da construção Zhifu
Construção de um junco Changtung - Jiaozhou
Costado trincado Shanghai
Anteparas estanques Suzhou
Operários chineses. Ferramentas Zhenjtang
Calafeto Nanjing
Leme Wuhu
Leme de porta ordinária Jiujiang
Leme com porta perfurada Hankou
Leme de porta compensada Yuezhou
Mastros Shashi
Velas Yichang
pru E bambu Chongging
Moitões Ningbo
Ancoras Fuzhou
Âncoras e fateixas de ferro Xiamen
Ancoras flutuantes Ilha Formosa
Cabrestante Shantou
Guinchos Cantão
Cabeços Ilha da Lapa
Remos Mengzishi
Remo de gimgar Ilha de Hainan
Remo de gingar lateral Longzhou
Sao Beihai
Bússola marítima
Notas chinesas
Notas chinesas
V Alto Yangzi Jiang
Navegação dos juncos
Transposição de um rápido
Tripulações de juncos
Navegação na descida
Recrutamento dos cules para a alagem
26 Hankou - Junco de carga
Grande junco de comércio
Kua Zi
Instalações interiores de um Kua Zi
Casa do leme
Refeição da tripulação
Dormitório
Largada
Alijamento da carga nos juncos
Protecção das espias de alagem
Mayangzi
Wu Ban
Jinsha Jiang
Grande junco de Jialing
Juncos médios
Chen Bo Zi
Wai Pi Gu Chuan
Junco do Zi Liu Jing
Junco das salinas de Guizhou Fu
Xu Fu
Min Jiang
Jangadas
Barcos do Jinsha Jiang
Hong Jiang
Barca de Hu Kou Zhou
Barca do Pudu He
Barca de Machan
Barca de Jinjiangia
Barca de Tangmi
Jangada de bambu do Ya He
Barca do Tong He
Barco de salvamento
Barcos de salvamento do Baixo Yangzi Jiang
Pesca com alcatraz
Notas chinesas
10
VI Baixo Yangzi Jiang
Porto de Hankou
Juncos de comércio
Juncos de carga
Lago Poyang
Gan Chuan
Lago Dongting
Junco do Yang He
Junco de Zhen Jiang
Han Jiang
Lago Dongting
Sha Chuan - Barcas de pesca
Taihu
Barco de pesca, Tiao Bai Yu Chuan
Juncos desmontáveis - Mao Ban Chuan
Barcos de correio, Xin Hua Zi
Barcos de patos, Ya Zi Chuan
Jangada do Yangzi Jiang, Mu Pai
Junco de polícia, Pao Chuan
Juncos para viajantes, Gong Si Chuan
Lago Dongting, Mayang Zi
Juncos mistos de viajantes e de comércio
Junco de viajantes
Junco de mandarim
Barco-pedal ou barco-correio, Jiao Da Chuan
Shanghai - Sampana
Shanghai - Junco para arroz, Mi Bao Zi
Shanghai - Juncos de carga
Baixo Yangzi Jiang - Juncos de carga
Baixo Yangzi Jiang - Juncos de Chongming
VII Costas Norte da China
Generalidades
Sha Chuan
Junco do Bei Zhili
Junco de pesca
Junco de Jinzhou (Hong Tou Chuan)
Xiao Wu Z1. Gua Luo Lou
Juncos de Bei He
Junco de rio
Jangadas de peles
VIII Costas Sul da China
Porto de Cantão
Juncos de mar e de rio
Construção
Ancoras
Barcos de mar
Barcos de rio
Barcos para o transporte de mercadorias
Barcos do governo
Pequenos barcos de rio
Barcos diversos
Sumpana Tan Ke
Sampana para passageiros
Plano duma sampana para passageiros
Grande junco de carga
Barcaça
Navio de roda (Lun Chuan)
Barco de flores (Hua Chuan)
Pequeno barco de flores (Xiao Hua Chuan)
Kuai Chuan
Juncos de comércio
Junco da ilha de Hainan
Junco de balanceiro
Sampana pirata
Armas e engenhos diversos duma sampana pirata
Junco de Man Hao
Junco de Mangjie
Juncos chineses no estrangeiro
Junco de Singapura
Junco do Estreito de Malaca
Navio de cabotagem malaio
Barcaça malaia de Singapura
Barcaça chinesa de Singapura
Junco de Sandakan (Ilha de Bornéu)
Sampanas de Penang
Notas chinesas
IX Costas Leste
Juncos das costas do Zhe Jiang e do Fujian
Lorcha (Hua Ting)
Junco de polícia do Baixo Yangzi Jiang
Juncos de polícia das Hhas Zhouzhan (Panshan)
H
Pao Chuan
Juncos de Hangzhou
Junco de Qing Hai (Dan Chuan)
Grande junco de comércio de Fuzhou
Juncos para transporte de madeira
Mao Lan
Shandong Chuan, Bei Chuan, Bei Bo
Descrição do plano do Shandong Chuan
Yan Chuan
Navio mercante
Navio à vela
Estampa chinesa
Juncos de pesca das costas do Zhejiang
Barcos de pesca - Ningho Chuan
Mu Yu Chuan
has Zhoushan
Juncos de pesca da ilha de Haimen
Da Bu Chuan
Tai Chuan
Sampanas de pesca
Sampana da ilha Pu Tou
Juncos de carga
Rio de Ningbo - Juncos de passageiros
Pai Guan Chuan
Ni Mou
Costas do Fujian - Juncos de pesca
Yuan Di
Tou Chuan
Junco de comércio. Po Chuan
Juncos para viajantes.
Juncos de mandarim Guan Cao Chuan
Sampana. Dao Zi Chuan (barco de ladrões)
Fu Zhou, Sampana para passageiros
Juncos de rio. Shan Seu Pa
Juncos dos rápidos
Juncos de Xiamen
Juncos de comércio
Juncos de pesca. Be Tou Chuan
Juncos de comércio
Juncos de rio
Sampana para passageiros
Barcaça de rio
Sampana
Jangada
Catamaran. Zhou Pai
Baía de Nimrod. Grande junco de pesca
Baía de San Men. Junco de pesca
Baía de Tai Zhou
Baía de Wen Zhou
Baía de Nan Guan
Baía de San Sha e de Sandu Ao
Baía de Sandu Ao, Junco de comércio (Anan
Soun)
Be Ti Chuan
Juncos de Xiamen
Notas chinesas
X Indochina
Tonquim - Sampana familiar da baía de Along
Haiphong - Sampana para passageiros
Manh - Junco de mar anamita
Gai Bao - Navio de cabotagem Anamita
Annam - Sampana com bordas cosidas
Annam - Sampana com carena entrançada da baía
de Quinhone
Gai Nane - Navio de cabotagem anamita
Doh - Barco de passagem do rio de Hue
Gai Reuh - Pesca com camaroeiro, rio de Hue
Junco de Fai Fo
Hue - Junco Real
Junco de guerra indochinês em 1685, segundo
Baron
Goh - Navio de cabotagem anamita de
Quang Binh
Saigão - Junco de mar
Saigão - Sampana para passageiros
Grande junco de carga de Cholen
Saigão - Barco de roda
Planos esquemáticos da maquinaria de um barco
de roda
Jangada do rio de Saigão
Método de construção anamita. Mastros,
aparelho, velas
Jangadas e pirogas do Laos
Laos - Piroga de Vien Tiane
Piroga de corrida - Piroga de cerimónia
Conclusão
12
ÍNDICE DAS GRAVURAS
1 História do junco
| Junco de guerrilha
Ja Junco com Pogan
2.24 Junco couraçado de assalto
3.3a Junco de vários pavimentos
4,4a Junco corredor
5,5a Junco de combate
6,64 Escuna
7 Junco cantonês
8 Junco cantonês de popa pequena
9 Junco cantonês de proa grande
10 Grande junco Fuquinense
1 Junco herbáceo
12 Junco de mar
13 Junco quebra vagas
14 Junco de popa realçada
15 Junco palagu
16 Junco de convés calvo
17 Junco de Cang Shan
18 Junco de oito remos
19 Junco Aguia
20 Junco de pesca
21 Junco vai-vem com rede
22 Junco com duas cabeças
23 Junco de areia
24 Junco centopeia
25 Junco bico de pássaro
26 Junco de patos mandarins
27 Junco de Mãe e Criança
28 Junco de rodas
29 Junco Dragão vermelho
30 Junco Dragão de fogo
31 Juncos ligados por correntes
IH Construção do junco
32 Construção de um junco
33 Junco de Bei Zhili - pormenores
34 Ferramentas
35 Ferramentas de carpinteiro
36 Formas de lemes de junco de mar
37 Formas de lemes de junco de rio
38:39 Instalação do leme
Va;
40 Instalação do leme
41 Aparelhos de mastreação
42 Mastros
43:46 Velas de junco de mar
44 Velas de junco de Cantão
45 Velas de junco de rio
47 Velas de junco de Bei Zhili
47aVelas de junco do Alto Yangzi Jiang
48 Espia de bambu
49 Ancoras
50 Ancoras de madeira
51 Ancoras de ferro
52 Ancoras flutuantes
53 Amarração com antena
54 Guinchos para a manobra
55 Tipos de cabrestantes
56 Sao de junco
57 Bússolas
HI Ornamentação e tipos
58:59 Ornamentações - olhos
60;61;62:63;64 Ornamentações - pinturas
65:66:67 Ornamentações
68:69:70 Cata-ventos
71:72 Pavilhões
73;14;75:16:77 Diferentes tipos
78:19:80;81 Medalha comemorativa
82 Junco imperial
83 Junco de recreio imperial
84 Junco de transporte
85 Eclusa do canal imperial
86 Eclusa
87 Passagem de eclusa (plano inclinado)
88 Momento de paragem
89 Junco frente ao templo
90 Cerimónia para acalmar as águas
91 Inscrições
V Alto Yangzi Jiang
| Vista panorâmica de um rápido
2 Sirga de um junco
3 Sirga nas gargantas de Fu Jiang
4 Kua Zi subindo o rio
5 Cozinha da tripulação
6 Tracção da espia de alagem
7 Calçado de cule
8 Junco de comércio
9 Kua Zi do Min Jiang
IO Interior de um Kua Zi de mandarim
11 Porta de entrada do salão de recepção
12 Casa do leme
13 Refeição da tripulação
14 Dormitório da tripulação
15 A tripulação aos remos
16 Transbordo de um fardo de algodão
17 Transporte às costas
18 Protecção das espias de alagem
19 Protecção das espias de alagem
20 Mayangzi subindo o rio
21 Mayangzi transportando passageiros
22 Wu Ban fundeado
23 Junco do Jialing Jiang
24 Lou Chuan - Junco de comércio (Mao Pan)
25 Lou Chuan - Junco de comércio (Mao Pan)
26 Lou Chuan - Junco de comércio
27 Lou Chuan - Junco de comércio
28 Junco de comércio Chen Bo Zi
29 Chen Bo Zi, visto de popa
30 Wai Pi Gu Chuan (Junco do Wu Jiang Z1)
31 Wai Pi Gu Chuan (3 estampas)
32 Junco de Zi Liu Jing (3 estampas)
33 Salinas de Guizhou Fu, Junco para transporte
de sal
34 Jinsha Jiang - Nan He Chuan
35 Xu Fu - Ban Tou Chuan
36 Lou Chuan - Zhongyuan Bo
37 Jinsha Jiang - Wu Ban de Man Yn Seu
38 Min Jiang - Junco de viajantes do tipo Kua Zi
39 Min Jiang - grande junco de comércio
40 Wu Ban navegando nos arredores de Chengdu
41 Plano de um dispositivo para navegação de
pequenos fundos
42 Jangada de bambus do Min Jiang
43 Pequena jangada de bambus do Min Jiang
44 Piroga no Jinhsa Jiang
45 Jiasha Jiang Barca de Hu Kou Zhou
46 Jiasha Jiang Barca de Machan
47 Jiasha Jiang Barca de Machan
48 Jiasha Jiang Barca de Jinjiangjia
49 Jiasha Jiang Barca de Tangmi
50 Jangada de bambu do Ya He - Ba Qian Chuan
51 Barco do Tong He
52 Barcos de salvamento (Hong Chuan)
53 Barco de salvamento de Zhenjiang
54 Barco de salvamento de Nanjing
55 Barco de salvamento de Wuhu
56 Barco de salvamento de Hankou
57 Pesca com alcatraz
VI Baixo Yangzi Jiang
| Porto de Hankou
2 Porto de Hankou
3 Hankou - Junco de comércio
4 Hankou - Junco de comércio
5 Jiujiang - Junco misto (com./pass.)
6 Parte de ré do junco da Estampa 3
7 Jiujiang - Junco misto (com./pass.)
8 Jiujiang -. “ z
9 Jiujiang -
10 Nanjing - Junco de carga
1 Nanjing - Junco de carga
12 Junco de Wuhu
13 Hankou - Sha Chun. Junco de comércio
14 Jiujiang - Junco de carga
15 Jiujiang - Junco de carga
16 Nanjing - Junco de carga
17 Hankou - Junco de carga
18 Hankou - Junco de carga
19 Zhenjiang - Junco de carga
20 Zhenjiang - Junco de carga
21 Hankou - Junco de carga
22 Hankou - Junco de carga
23 Hankou - Junco de carga
24 Hankou - Junco de carga
25 Parte de ré do junco da Estampa 21
26 Hankou - Junco de carga
27 Parte de vante do junco da Estampa 22
28 Hankou - Junco de comércio
29 Junco do lago Poyang
30 Plano do junco do lago Poyang
31 Junco do lago Poyang
32 Junco do lago Poyang
33 Junco do lago Poyang
34 Junco do lago Poyang
35 Junco do lago Poyang
36 Junco do lago Dongting
37 Lago Dongting - Junco de comércio
38 Hankou - Junco tipo Gua Lou
39 Plano do junco da Estampa 33
40 Jiujiang - Pequeno junco de carga
41 Jiujiang - Junco de comércio
42 Jiujiang - Grande junco de carga
43 Parte de ré do junco da Estampa 37
44 Sampana de junco
45 Zhenjiang - Junco misto (com./pass.)
46 Yang He - Pequeno junco de carga (2 fig.)
47 Zhenjiang - Junco de carga
48 Nanjing - Pequeno junco de passagem
49 Nanjing - Wuhu - Pequeno junco de passagem
50 Zhenjiang - Sampana de passagem
51 Barcaça do porto de Hankou
52 Barcaça do porto de Hankou
53 Junco de carga do porto de Hankou
54 Junco do rio Han
55 Junco do rio Han
56 Junco do rio Han
57 Vista da popa do junco do rio Han (est.50)
58 Junco de Shashi
59 Junco de Shashi
60 Junco do lago Dongting
61 Junco do lago Dongting
62 Junco do lago Dongting
63 Junco do lago Dongting
64 Junco do lago Dongting
65 Junco do lago Dongting
66 Junco do lago Dongting
67 Junco do lago Dongting
68 Lago Dongting - Junco de comércio
69 Lago Dongting - Junco de passageiros
70 Barco de pesca
71 Barco de pesca
72 Barco de pesca com espelho - Tiao Bai Yu
Chuan
73 Estação de Lijin (Alfândega local)
74 Junco desmontável - (Mao Ban Chuan)
75 Barco-cartas - (Xin Hua Zi)
76 Barcos-pato - (Ya Zi Chuan)
77 Plano duma grande jangada - (Mu Pai)
78 Jangada, comboio de madeiras - (Mu Pai)
79 Parte de vante de um comboio de madeiras
80 Chata com pau de carga (Acessório da
jangada)
81 Lançamento à água duma âncora flutuante
(Acessório da jangada)
82 Junco de polícia - (Pao Chuan)
83 Suzhou - Junco de pass.(Gong Si Chuan)
84 Suzhou - Junco de pass.(Gong Si Chuan)
85 Zhenjiang - Wuhu - Junco de passageiros
86 Vista Jiang, lago Dongting. Junco misto de
com./pass.
87 Junco misto - comércio e passageiros (lago
Dongting)
88 Hunan - Junco de passageiros - (Mayang Zi)
89 Shanghai, Nanjing - Junco misto de com./pass.
90 Zhenjiang - Junco misto de com./pass.
91 Zhenjiang - Junco misto de com./pass.
92 Zhenjiang - Junco misto de com./pass.
93 Han Jiang - Junco de pass.- (Mayang Zi)
94 Hankou, Shashi - Junco de passageiros
95 Junco de mandarim (Guan Chuan)
96 Barco-pedal Jiao Da Chuan)
97 Barco-pedal, visto da popa
98 Barco-correio
99 Shanghai - Sampana para pass. (Xiao San Ban
Da Ke)
100 Shanghai - Sampana para pass. (Xiao San
Ban Da Ke)
101 Grande sampana de Shanghai
102 Sampana de Shanghai
103 Sampana de “rapadores”
104 Sampana de “rapadores”
105 Junco para transporte de arroz (Mi Bao Zi)
106 Shanghai - Junco de carga
107 Shanghai - Junco de carga - vante
108 Shanghai - Junco de carga - ré
109 Shanghai - Junco de carga - ré
110 Shanghai - Junco de carga
29 Grande sampana para excursões
30 Grande sampana num arroio da Cochinchina
31 Grande junco de carga de Cholen
32 O mesmo junco visto de vante
33 Junco de carga navegando num arroio
34 Saigão - Junco de carga
35 Saigão - Barco de roda
36 Plano esq.da mag. dum barco de roda
37 Jangada do rio de Saigão
38 Diversos aspectos do leme
39 Alto Mekong - Jangada de bambu
40 Alto Mekong - Jangada de bambu sobre
pirogas
41 Laos - Piroga de Vien Tiane
42 Laos - Piroga de Louang prabang
43 Alto Laos - Louang prabang - Piroga de
cerimónia
I8
NOTA DO EDITOR
O Museu Marítimo de Macau, ao propor-se editar em português o presente livro, teve como
principal objectivo divulgar uma obra sobre um tema marítimo de inegável interesse, e dar a conhecer
aos leitores de língua portuguesa a importância dos transportes marítimos na China desde tempos
imemoriais, através das suas embarcações específicas, desenhadas em conformidade com os fins que se
propunham satisfazer e com os obstáculos a vencer nessa teia imensa de ligações marítimas e fluviais.
Ao Museum Voor Land En Volkenkunde, expressa o seu agradecimento pela autorização graciosa da
utilização dos direitos de autor e, ao Banco Totta & Açores, manifesta o seu reconhecimento pelo apoio
concedido.
O EDITOR
Macau, Novembro de 1994
I
HISTÓRIA DO JUNCO
NOTA DE ABERTURA
Em 1948, o senhor barão R. de Kerchove, de Belém, chamou-nos a atenção para a existência de um
volumoso manuscrito, com centenas de desenhos, da autoria do senhor Comandante L. Audemard.
O autor tinha reunido nesse manuscrito os seus amplos conhecimentos sobre os barcos e a navegação na
China, recolhidos durante longos anos de permanência no Extremo Oriente. O senhor de Kerchove, autor de um
dicionário naval internacional e grande conhecedor de navios do mundo inteiro, procurava em vão os meios
para editar o manuscrito, esforços em que era secundado pelo senhor Comandante L. Guilleux la Roérie,
especialista de renome da história marítima. Uma edição comercial revelava-se impossível, dado o grande
volume da obra e a quantidade dos desenhos. O seu conteúdo não é suficientemente popular para interessar um
público numeroso.
No entanto, dada a importância da navegação e da arquitectura naval chinesa para a história marítima
comparada e para a etnologia naval, esta obra recheada de dados exactos devia estar à disposição dos especialistas
destas ciências, julgando-se que a edição era também importante para os sinólogos.
Durante muito tempo os nossos conhecimentos da navegação chinesa, tanto de alto mar como fluvial
foram bem restritos, visto que os elementos existentes estavam espalhados por muitas publicações de valor
muito diferente. Já tínhamos há muito tempo os desenhos e as descrições do almirante Paris e havia alguns
artigos de especialistas que tratavam de barcos específicos. Foram os livros de G. R. €. Worcester, antigo
marinheiro, que fora até ao seu regresso em 1948, durante algumas dezenas de anos, inspector das alfândegas
chinesas, que revelaram a riqueza e a grandeza da navegação deste país.
Muitas vezes se supôs que a arquitectura naval chinesa assentava em alto grau na tradição e que era
imutável. No entanto, o estudo dos povos de cultura mais atrasada que a nossa, ensinou-nos que essas culturas
são mais tradicionais, mas de forma nenhuma incapazes de evoluir. E no caso da cultura chinesa menos ainda.
À arquitectura naval, por exemplo, adaptou-se perfeitamente às condições locais de ordem natural e às exigências
da vida social e económica. As condições locais não mudam muito, mas as exigências de ordem cultural variam
com o tempo e não se duvida que tiveram uma profunda influência sobre a arte da navegação e sobre as formas
dos navios. A descrição dos navios chineses de Worcester é um corte no tempo e documenta os fenómenos
náuticos que viu durante a sua estada na China.
Por sua vez, o Comandante Audemard viu a China num período anterior e observou navios com formas
mais antigas. Muitos pormenores que Worcester pôde mencionar, porque o ouviu dizer, foram observados
directamente pelo Comandante Audemard. De resto, o autor inglês, desenhador preciso e por vezes cheio de
humor, é comparável ao oficial de marinha francês, que não é menos preciso e desenha com um gosto
verdadeiramente artístico.
É extremamente raro ter do mesmo objecto duas descrições igualmente exaustivas, cobrindo períodos
diferentes e permitindo uma perspectiva histórica. Foi esta consideração que nos levou a decidir publicar o
manuscrito do Comandante Audemard.
Em 1939, a Sociedade dos Amigos do Museu de Marinha de Paris tentou a publicação do manuscrito,
inserindo no número 35 do volume IH do seu primeiro Boletim Trimestral de 1939, a pgs. 205-2 1 | uma pequena
selecção de centenas de desenhos a preto e branco e a cor, acompanhada de um texto, sob o título, “Alguns
apontamentos sobre os juncos chineses”, (com 6 estampas e ilustrações), tendente à obter subscrições para uma
edição integral do livro. O eclodir da guerra impediu esta publicação dispendiosa, e as matrizes, já prontas,
desapareceram.
Por causa dos custos muito elevados da edição, somos forçados a dividir o texto em cinco tomos e num
maior número de volumes e de escalonar a publicação por vários anos.
O volume que aparece agora é uma parte do primeiro tomo que o autor concebeu. Este volume contém
descrições e relatos da história dos navios e da navegação da China. Dois outros conterão a história do célebre
Qiying, as descrições dos juncos imperiais, do Canal Imperial, das eclusas, da construção dos navios, dos
ornamentos e ainda da nomenclatura e das tonelagens.
Os outros volumes tratarão dos navios do Alto Yangzi Jiang. do Baixo Yangzi Jiang, das costas do Norte,
do Sul e do Leste, e por fim da Indochina. O assunto deste último volume já foi objecto do livro escrito pelo
falecido Pierre Paris, publicado na nossa série. Mas os elementos de Paris são ainda mais modernos que os
dados de Worcester, tratando o manuscrito do Comandante Audemard de um período mais antigo, mas não
menos interessante.
Durante os anos de preparação, mantivemos correspondência com o autor, que deu o seu consentimento
entusiástico às nossas intenções. Infelizmente não viveu o suficiente para ver impresso o primeiro volume. Nos
seus últimos dias de vida, foi a sua sobrinha, Mme Fernande Boissier, que lhe escrevia as cartas. E depois da sua
morte, à mesma senhora, mostrou-se vivamente interessada nos preparativos. Teve a boa vontade de escrever a
história da vida do seu tio e forneceu-nos o seu retrato. Exprimimos-lhe a nossa sincera gratidão pela ajuda que
nos prestou.
Como consideramos a obra do Comandante Audemard importante para a etnologia naval da mesma
forma que para a arqueologia naval, fazemos deste livro uma publicação conjunta do Museu de Etnologia e do
Museu de História Marítima.
Por vezes houve quem se admirasse por estes dois museus terem uma só direcção. Este livro prova que há
temas de pesquisa comuns aos dois. E o tema deste livro não é o único.
Dr. €. Nooteboom.
As notas em itálico são da Redacção.
Capitão de fraguta L. AUDEMARD
ai
E
BIOGRAFIA DO CAPITÃO DE FRAGATA L. AUDEMA RD
O Comandante Louis Audemard nasceu em Vergêze-Gard-France a 9 de Janeiro de 1865, numa velha
tamília huguenote, fiel às suas tradições. Em | de Outubro de 1882 entrou para o Borda (Escola Militar Naval)
onde se tornou notado pela sua inteligência, vivacidade de espírito e pela sua aplicação no trabalho. Queria ser
oficial de marinha e todo o seu entusiasmo juvenil se concentrava neste objectivo. O seu esforço foi recompensado.
Em ! de Agosto de 1884, saía desta escola, promovido a aspirante de 2º classe. Embarcou imediatamente
para o Extremo Oriente no cruzador “Laclocheterie”. No Tonguim cruza as águas da baía de Along a bordo do
“La Licorne” e começa a escrever as suas recordações de viagem e a desenhar tudo o que vê, tudo o que
impressiona o seu espírito, pois é notavelmente dotado para esta arte e todas as suas viagens ficaram daí em
diante registadas em inúmeros esboços à pena e em aguarela. sendo muitos verdadeiras obras primas.
Em Dezembro de 1885 entra em campanha e no ano seguinte recebe por esse facto a medalha comemorativa
do Tonquim. Jovem oficial de valor, é promovido a segundo tenente em 1887 e embarca no cruzador “Courbet”
da Esquadra do Mediterrâneo. É na Tunísia que recebe a comenda de oficial da ordem do Nichau Iftihar pelas
suas escavações em Cartago, pois também se ocupa com a arqueologia.
Em 1893 é promovido a primeiro tenente e faz a campanha da Islândia, apoiando a flotilha de pescadores
imortalizados por Pierre Loti. Ao longo da sua carreira terá ocasião de encontrar este escritor, mais antigo do
que ele e seu correligionário, e este, tendo-o tomado em grande estima, pedir-lhe-á que ilustre alguns dos seus
livros, entre outros, “Pêcheurs d'Islande” e “Mon frêre Yves”. O próprio Audemard escreve, durante esta
campanha da Islândia, o seu diário íntimo que ilustra com belas águas-fortes.
Quando regressa é colocado no serviço hidrográfico. Embarca no “| Elan” a bordo do qual, durante um
ano, levantou toda a costa de França e os seus cursos de água navegáveis.
No dia 5 de Outubro de 1896 recebe a bordo do seu navio o Czar e a Czarina da Rússia que o condecoram
com a comenda de Santa Ana da Rússia. A 29 de Março de 1899 é nomeado cavaleiro da Legião de Honra.
Alguns meses mais tarde embarca de novo para o Extremo Oriente à bordo do “Triaut”, onde faz a
campanha do corpo expedicionário, de 3 de Novembro de 1900 a 8 de Outubro de 1902, Recebe então a
medalha comemorativa da China, Por decisão ministerial com data de 21 de Outubro de 1902 é nomeado
comandante da canhoneira “"Obry”. Af ficará dois anos, navegando no Alto Yangzi Jiang no meio dos perigosos
rápidos deste rio.
Descontente com este velho navio, em sua opinião muito lento para transpor os rápidos chineses, pede ao
Ministério da Marinha autorização para mandar construir, segundo planos seus, uma canhoneira melhor adaptada
ao esforço pedido. Depois de muitas demoras administrativas é-lhe dada finalmente satisfação e regressa a
França para dirigir a construção do seu navio, o “Le Doudait de Lagréc”, nos estaleiros de Saint Nazaire,
Terminada a construção do navio, é nomeado seu comandante e vai para Xangai, onde se fará a montagem. As
experiências são bem sucedidas. O novo navio não só bate todos os máximos até então estabelecidos, pela sua
velocidade e estabilidade e pela forma, como transpõe os rápidos chineses. Dirigirá igualmente a construção do
“Balmy”, navio do mesmo tipo do antecedente, e também com planos seus.
Parte em seguida com o Conde Charles de Polignac, em missão pessoal de exploração, a | de Dezembro
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de 1909, utilizando para isso o seu tempo de licença. A exploração tinha por objectivo encontrar a nascente do
Yangzi Jiang, desconhecida até então. para o que haveria que atravessar regiões inexploradas e perigosas de um
rio considerado impossível de navegar, com rápidos intransponíveis, € regiões infestadas pelas tribus “Lolos”,
inimigas de todos aqueles que passassem pelo seu território. Com coragem tranquila vai tentar passar. Quer
fazer o levantamento da carta do rio que mais tarde doa à Sociedade de Geografia de França, que a registará
com a anotação “Missão Audemard”, A partir de 10 de Mato, o Conde de Polignac é chamado à França e deixa-
-o sozinho. O Comandante Audemard prossegue a exploração, numa barca, com alguns remadores chineses. E
assim que chega até Souífou, tendo percorrido cerca de 1.050 quilómetros em 32 etapas, tendo transposto 410
rápidos.'
Acabada à sua licença, embarca no couraçado “Démocratie”. Eis o que o Comandante Jaurês escreve a
seu respeito ao Ministério da Marinha: “O capitão de fragata Audemard, oficial muito distinto, de inteligência
muito viva. de grande cultura geral, trabalhador metódico, dotado duma mente íntegra. de espírito reflectido.
com um sentido marinheiro muito agudo. qualidades estas. que todas fazem dele um colaborador precioso”.
Recebe o prémio Logerot da Sociedade de Geografia (Medalha de Ouro) e o prémio Ducros-Aubert
(também com medalha de ouro). assim como uma placa de prata do Ministério das Colónias por esta exploração
do Alto Yangzi Jiang.
Em 1913 é nomeado Comandante do “dIberville”, torpedeiro de esquadra da Divisão Naval do Extremo
Oriente. Aí se manterá até 1915. O fim da guerra vê-o ainda a comandar o cruzador “Amiral Kléber” e o “Du
Pleix”.
Depois da guerra, em 1918, pede a sua demissão e recolhe-se ao castelo de Sablen, na Bretanha, onde
instala um verdadeiro museu, com os seus “bibelots" e as suas colecções, lembranças das suas viagens. Ali,
consagra os seus tempos livres a afinar o seu trabalho sobre os juncos chineses, ordenando os desenhos e os
textos desta obra formidável, que bem resume a sua carreira de desenhador de grande talento. Desta obra
ressalta nitidamente o seu espírito consequente e metódico, nada deixando ao acaso, pondo em relevo cada
pormenor com a sua pena precisa. Vai passar os seus dias a completar esta obra que tomou a peito, entregando-
-se também à leitura, e ao trabalho manual,
Muito hábil e dotado para tudo, faz escultura em madeira, modelismo, marcenaria artística.
Duma grande inteireza de coração e de espírito, era um homem notável sob todos os pontos de vista.
Grande senhor e, no entanto, simples e bom para todos. Não houve miséria que apelasse em vão à sua pessoa.
Depois da morte da sua mulher transferiu-se para o Castelo de Boissitres. no sul da França, no Gard, sua
terra natal, à qual sempre ficou ligado. Foi aí que morreu suavemente, aos 90 anos, depois duma vida bem
cheia.
Fernande Boissier,
Sobrinha do Comandante Audemard.
o ; eai TST SRD STR PORN
1) Ver pormenores desta expedição no Boletim da Sociedade de Geografia de França, de 191,
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PREFÁCIO
O almirante PÁRIS na sua magistral publicação do Museu de Marinha do Louvre, destinada, tal como,
a sua Colectânea de Recordações de Marinha, a salvar as construções marítimas actuais do esquecimento em
que caíram quase todas as que as precederam, pronuncia-se assim acerca desta ameaçadora eventualidade:
“É mais que tempo de recolher, de passar ao papel, o que ainda existe, o que, pela sua multiplicidade,
assim como pela sua dispersão, promete durar mais que a madeira ou o ferro. Não será preciso apressar-nos em
reunir o que sabemos provável ou certo, para que o futuro não faça cair sobre a nossa época uma escuridão tão
completa como a que nos esconde o passado e isto sem poder apresentar como desculpa a ignorância e a falta de
meios de execução”
Por várias vezes o sábio Almirante, que foi um activo conservador do Museu de Marinha de 1871 a 1893,
fez um premente apelo aos construtores e às marinhas de todas as nações para o ajudarem a continuar a sua
obra, a que dedicava todos os seus tempos livres e a maior parte dos seus haveres pessoais. Mas, com grande
decepção sua. este grito de alarme várias vezes renovado só encontrou fraco eco tanto em França como no
estrangeiro, quer por indiferença em relação ao que só interessa à história, quer por inércia daqueles a quem era
endereçado.
Seja como for, esta erudita e preciosa publicação, Colectânea de Recordações de Marinha, começada em
1882 e continuada até 1908, época em que saiu a sua 6º e última parte, teve uma paragem quase completa depois
da morte do almirante Paris, em 1893, pouco depois da publicação da 5º parte, que ele próprio preparara.
Depois desta época, a Academia das Ciências, reconhecendo grande interesse na continuação da obra do
seu ilustre membro, fazia publicar a 6º parte sob a direcção de dois dos seus membros mais qualificados, os
senhores BUSSY e BERTIN, Engenheiros Generais da Marinha.
Passaram trinta anos, e parece que na hora presente a obra do almirante PÁRIS está completamente
esquecida, mesmo por aqueles a quem endereçava os seus mais prementes apelos e, no entanto, o assunto está
longe de estar esgotado, podendo mesmo dizer-se que mal foi aflorado de entre os problemas tão variados das
tão diversas construções navais ainda existentes no mundo inteiro.
Daremos só um exemplo bem marcante, o da marinha chinesa:
Apesar da quantidade de obras de alto valor publicadas em todas as línguas, a China, de que tanto se tem
falado e de que se conhece tão pouco, possui uma marinha de que não se fala porque se não conhece. Esta
marinha tão diferente, tão distante da nossa, torna-se depressa interessante a quem se quiser dar ao trabalho de
a estudar sem opiniões preconcebidas. Compõe-se de navios à vela e à remo que sulcam ainda, em flotilhas
numerosas, Os rios € os mares, raros sendo os que estão descritos c representados nas 360 estampas da Colectânea
de Recordações de Marinha, quando a China, pela diversidade e pelo número das suas construções navais
possui, só por si, mais tipos de navios que todas as outras nações do mundo juntas.
1) Nota do tradutor.
O título original é: “Souvenirs de Marine Conserves”.
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Como explicar esta espécie de ostracismo a que foi votada, em todas as épocas, a marinha chinesa? As
causas são numerosas e parecerão inexplicáveis aos espíritos esclarecidos e isentos de preconceitos em relação
à civilização chinesa. É certo que, para quem quer que seja que navegue nas costas da China, a vista de um
junco de formas pesadas e antiquadas, incita Jogo a sorrir, se não inspira piedade. Neste exame superficial
porque se ficam tantos viajantes, tanto marinheiros como turistas, estas construções arcaicas só oferecem a seus
olhos o interesse do pitoresco, suficiente apenas para suscitar a curiosidade do artista, o qual, com o pincel ou
a pena, traduz o seu modelo em contornos fantasistas e por vezes grotescos, tão caros aos amantes de chinesices
de exibição.
Seria preciso menosprezar verdadeiramente o génio prático da China e a amplidão da experiência
adquiridos no curso dos séculos, para admitir sem verificação que esta civilização, várias vezes milenária, não
pudesse trazer nenhuma contribuição séria aos conhecimentos marítimos das nações ocidentais.
São com efeito numerosas as invenções de que a China pode reivindicar a prioridade em relação aos
ocidentais. em especial, e que teriam sido férteis em consequências proveitosas para o desenvolvimento da
construção naval e da navegação se tivessem sido conhecidas e aplicadas aquando dos primeiros contactos
ocidentais com o Extremo Oriente.
Entre estes conhecimentos, citemos em primeiro lugar a agulha magnética, cujas propriedades eram já
conhecidas na China antes da era cristã, o emprego das anteparas estanques referido por Marco Paulo no século
XII, o leme compensado, aplicado desde tempos imemoriais nos juncos do Alto Yangzi Jiang, os lemes laterais,
tão comuns na Holanda e na Inglaterra nos navios de fraco calado, e tantas outras invenções que examinaremos
no seguimento deste estudo. Entre outras, citaremos os navios de rodas que desde as épocas mais recuadas
sulcam os rios apenas impelídos pela força muscular dos homens e, por fim, por estranho que pareça, os navios
construídos totalmente em ferro, citados pelo célebre filósofo Huai Nanzi. que viveu 160 anos antes de Cristo,
Os quais nós não começámos a construir timidamente senão no fim do século passado.
Não será este rápido inventário a melhor ilustração do interesse que tem o estudo da construção naval
chinesa? Interesse puramente retrospectivo, sem dúvida, se se considerarem os progressos dos últimos cinquenta
anos em todos os ramos da arte naval, mas interesse sempre actual para aqueles que se sentem ligados às coisas
de um passado distante.
A China ainda é hoje de certo modo um museu vivo, guardando preciosas relíquias do passado, cuja
concepção é contemporânea dos povos mais antigos, desaparecidos da cena do mundo. Neste império, cujo
berço remonta à infância do mundo e em que as dinastias preocupadas em conservar as tradições antigas se
sucederam sem soluções de continuidade até à proclamação da Républica, em Fevereiro de 1912, sopra um
vento de modernismo entre as novas gerações que colhem nas univerdades estrangeiras as suas ideias muitas
vezes subversivas. Se, como tudo o leva a crer, à China for levada pelos acontecimentos a mudar de face e por
conseguinte a renegar o seu passado milenário para se adaptar às necessidades da civilização ocidental que lhe
leva meios mais rápidos de comunicação e de transporte, caminhos de ferro, navios a vapor e agora aviões, a
sua vetusta marinha deixará de existir.
E porque é evidente para nós que a China vai perder a sua fisionomia nativa e tão original, pensámos que
era do maior interesse relembrar o grito de alarme do Almirante PÁRIS, isto se se quiser preservar do esquecimento
esta produção única do engenho humano, que num futuro muito próximo não deixará nenhum vestígio vivo no
seu país de origem.
A China é o único país do mundo que nos oferece ainda uma visão quase completa dos vários meios de
transporte aquáticos utilizados pelo homem desde os tempos mais recuados. Podemos aí encontrar, por exemplo,
a piroga primitiva escavada num tronco de árvore pelos processos mais rudimentares: a jangada formada por
bambus ou por troncos de árvore ligados entre si por lianas; a barca construída com pranchas, sem esquadria,
ligadas, à falta dos pregos em ferro. por simples cordas ou lianas: e a imensa flotilha de embarcações de todas
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as formas, de todas as dimensões que sulcam rios e lagos, enfim, o grande junco oceânico que, pelas formas
sobrelevadas à popa, e pela sua pesada mastreação lembra as naves da Idade Média.
Esta simples enumeração mostra já toda a amplidão que pode atingir o estudo da marinha chinesa, sobretudo
se pensarmos na grande variedade e número imenso de juncos. pequenos e grandes, e em todos os outros meios
de transporte que percorrem este vasto império que possui uma rede navegável quase infinita.
O comprimento das vias acessíveis à navegação é avaliado em cerca de 20.000 quilómetros. Numerosos
canais artificiais foram construídos em várias épocas para ligar entre si todos os lagos e rios navegáveis do
império, de modo que é possível navegar através de todas as províncias sem nunca deixar o navio.
Na Europa, para fins de economia e de simplificação resultantes da padronização dos métodos industriais,
a uniformidade dos meios de transporte é quase geral em todas as nações.
Quer se vá de Norte para Sul, ou de Leste para Oeste, por toda a parte se vê nos canais € nos rios os
mesmos pesados batelões, as espaçosas barcaças, construídos sensivelmente a partir do mesmo modelo.
Apenas os navios costeiros, destinados à pesca ou à cabotagem apresentam ainda, duma região para
outra, algumas variedades, que de resto vão desaparecendo pouco a pouco, diante da adopção de barcos a
motor, de modelo mais ou menos uniforme em todos os países.
Na China ainda não é assim. Cada região, cada lago ou rio, possui os seus tipos próprios destinados à
navegação costeira ou à das vias Iluviais, ou ainda ao transporte de certas mercadorias que possam exigir
formas especiais, sendo cada tipo construído para se adaptar da melhor maneira às necessidades comerciais e
da navegação.
Assim não nos deve espantar que a unanimidade dos estrangeiros atribua à China mais navios do que ao
resto do mundo.
Qualquer que seja o valor desta afirmação, não é menos certo que a descrição dos diversos tipos que
compõem esta imensa frota é um empreendimento de que não é possível avaliar a importância. Este estudo é de
tanto mais difícil realização quanto o material sobre o qual se suporta está disseminado por todo este vasto
império, de acesso por vezes difícil aos estrangeiros e estando, por outro lado, os elementos duma tal monografia
espalhados por numerosas publicações devidas aos viajantes de todos os países sendo bem raras aquelas que
merecem ser consideradas para esse efeito. Quanto à documentação chinesa, esta é praticamente inexistente, à
parte raras descrições sumárias contidas nos antigos anais, de que se encontrarão mais adiante alguns extractos.
Para aqueles dos nossos leitores que desejem documentar-se sobre a marinha chinesa com à ajuda de
desenhos a cores, originais do século XVII, reproduzimos o seguinte artigo extraído da Viagem da Embaixada
da Companhia das Indias Orientais Holandesa ao Imperador da China nos anos de 1794-1795.
“NOTICIA sobre os navios, barcos, chalupas e barcas que constituem a colecção de desenhos chineses
do senhor ANDRE EVERARD VAN BRAAM HOUCKGEEST.
Dois volumes contendo cada um cinquenta desenhos de dezasseis polegadas e meia de largura,
representando os navios de toda a espécie tal como se utilizam na China, nos diversos ramos da navegação.
Foram todos pintados e coloridos in loco, pelo que se podem avaliar todas as formas da arquitectura naval
chinesa desde os navios de guerra à mais pequena barca. Os ornamentos exteriores, os pormenores interiores, as
combinações relativas ao emprego dos vários navios, tudo aí está marcado.
Destaca-se a Champana, ou navio de prazer destinado ao Imperador, caracterizada por uma espécie de
cúpula onde se pintaram plumas de pavão e dragões com cinco garras; outras champanas, desde aquela que é
usada pelo Mandarim de primeira categoria ou pela cortesã que se dedica ao culto do prazer, até aquela que o
simples particular queira alugar.
Encontram-se nesta colecção os navios de longo curso, as barcas costeiras, Os juncos, Os tates, as
champanetas, os navios de visita da alfândega, aqueles que a profundidade dos vários rios e ribeiros exige, quer
seja para viajar, quer seja para transportar 0 sal, o arroz, o algodão, o chá, a lenha, os óleos, as pedras, etc;
30
aqueles em que os comerciantes de vários ramos expõem e levam as mercadorias que querem vender. entre os
quais se conta a loja do carniceiro, a da florista, a do vendedor de frutas, etc.
As várias espécies de barcas de pescadores, as barcaças de água ou de passageiros, o barco que serve para
a criação dos patos e para a incubação dos seus ovos, fazem parte desta colecção.
Encontram-se também aí comboios ou jangadas que transportam o arroz, a lenha ou a madeira para
construção, as canoas destinadas a fazer corridas rápidas e que se empregam em certas épocas lunares em
corridas ao desafio em que os marinheiros procuram fazer brilhar a sua perícia ou a sua força, ultrapassando-se
uns aos outros.*
Entre estes barcos há alguns com uma ou mais velas, outros a remos, outros, enfim, utilizando um remo
para pangaiar. É o caso das canoas de competição que chegam a ter vinte seis remadores. Nos rios usam-se às
vezes cabos ou mesmo varas para permitir navegar.
Independentemente da variedade que os objectos só por si mostram nestes dois volumes, a vista fica
encantada pelo acabamento do desenho, pela elegância e delicadeza dos pormenores, e o leitor encontra ainda
notas sobre os trajes, Os vários usos e, nomeadamente, sobre a indicação por siglas convencionais do destino
habitual ou momentâneo da embarcação, ou da categoria das pessoas que transporta.
Enfim, se reflectirmos que na China vários milhões de indivíduos nascem e morrem em barcos, sem
nunca terem tido outra habitação que não sejam estas casas flutuantes, onde famílias inteiras levam uma existência
de certo modo anfíbia, ainda mais vivo é o interesse que desperta esta parte da colecção, que de resto nos
recorda o que o homem tentou de mais audacioso.
Não deixará de ter interesse saber que o senhor Van Braam ofereceu esta colecção ao Directório Executivo
da República Francesa, que o Ministro dos Negócios Estrangeiros, que conhece o seu mérito, e que não pode
ser acusado de deixar passar as ocasiões que se lhe apresentam para favorecer os Artistas e as Artes, aceitou esta
interessante homenagem, em nome do Governo e que, em breve, o público terá ocasião de comparar a colecção
com a narração do editor.
A nosso pedido, o senhor Ch. de la Ronciêre, conservador da Biblioteca Nacional, aquiesceu amavelmente
a empreender a pesquisa destes preciosos documentos. pesquisa que não deu resultado, como o expõe na seguinte
carta:
“De facto nada existe da colecção Van Braam, no catálogo dos manuscritos do Senado, entre os quais
deveria estar esta colecção, se tivesse sido entregue ao Directório Executivo. Mas possuimos a Viagem da
Embaixada da Companhia das Indias Holandesas ao Imperador da China ( 1794-1795 ), tirada do diário de
André Evérard Van Braam, publicado em francês por L.E.Morecau de St. Méry em Filadélfia, em 1795, onde o
historiador de St. Dominique se tinha fixado como livreiro.
Moreau de St. Méry fala-nos, com efeito, de 38 volumes, contendo cerca de 1800 desenhos que descreve
sob o título “Colecção de desenhos chineses do senhor Van Braam” e igualmente duma grande quantidade de
curiosidades chinesas: móveis, ornatos, € diz-nos que tudo em casa do senhor Van Braam lembra a China, e que
a propriedade que ele comprou para ser a sua habitação a seis léguas de FILADÉLFIA e a uma légua de
BRISTOL, e porque lhe dá prazer decorar à moda do país donde regressou, merecerá, por mais de uma razão, o
"”
nome que Ihe deu, de “Retiro Chinês”.
Portanto, em 1797 toda a colecção de Van Braam estava na América: é portanto para aí que convirá
dirigir as pesquisas *.
* Este tipo de barco, conhecido com o nome de Long Chuan é descrito adiante.
** Para saber onde foram parar estas colecções podem-se encontrar informações na obra de d. J. L. Duxvendak, "The last Dutch
Embassy to the Chinese Court “(1794-1795 ), T'oung Pao, vol. XXXIV. Leiden 1938.
t/
A IMENSIDADE DA FROTA CHINESA
Os navios chineses são conhecidos nos países estrangeiros com o nome de “jonque” em francês,“ junk”
em inglês, junco em português e espanhol. Esta palavra, desconhecida dos chineses, aparece há muito nas
narrativas dos viajantes e figura nas recordações de Ibn Battuta, do século XIV. Certos autores derivam-na da
palavra portuguesa junco que seria uma adaptação da palavra javanesa “djong” ou do malaio “adjong” que,
abreviadas, dariam “jong”, designando o navio oceânico ou o grande navio. Outros autores fazem-na
simplesmente derivar da palavra chinesa “Chuan” (nc 1) pronunciada em Xiamen e em Fuzhou, nos dialectos
locais, respectivamente “ch'un” e “ch"iong”.
Na sua obra sobre a China, G.Pauthier atribui-lhe uma origem que remontaria à mais recuada antiguidade.
“E um facto curioso, diz-nos ele, encontrar esta palavra “jong”, para os europeus “jounques”, no navio
que transportou estrangeiros para a China, 1.000 anos antes da nossa era. Diz-se, com efeito, nas memórias
intituladas Ji-Yi (Colecção daquilo a que se não dá importância!) (nc 2) do terceiro ano de Cheng Wang (1113
antes de Cristo): homens do reino de Ni-li ( sem dúvida o Egipto) foram à China em “jounques“ ou “habitações
nauticas vagabundas” (hoe ji tsiam joung) e estiveram na Corte.”
No século XVIII empregava-se a palavra “jounque”, em lugar de “jonque”, cuja pronúncia se aproxima
mais da palavra chinesa “Chuan”.
Qualquer que seja a origem da palavra, o assunto não tem para nós senão um interesse linguístico, dado
que esta denominação não é usada na China.
Os vários nomes pelos quais são designados os juncos de mar e de rio, atingem o número muito elevado
de cerca de um milhar, se nos referirmos aos dados estatísticos dos “Decennial Reports” das Alfândegas Imperiais
Chinesas, enquanto que entre nós, em França, assim como noutras nações, o número de designações dos barcos
de todas as categorias é relativamente reduzido. É certo que na China tudo o que diz respeito à navegação dá
uma impressão de grandeza que não se encontra em mais nenhum outro lugar.
A imensidade da frota chinesa tornou-se proverbial desde a Antiguidade até aos nossos dias. Para exprimir
a quantidade prodigiosa destes navios, os mais antigos anais comparam-nos em número à floresta e à sua
variedade, à diversidade da folhagem das plantas que crescem em terra chinesa.
Esta representação poética enuncia-se de forma mais concreta, dizendo com os numerosos viajantes
antigos e modernos, que existem mais navios na China do que no resto do mundo.
Qualquer viajante que se dirija a estas costas fica impressionado pelo grande número de navios de vela de
formas tão diversas e tão diferentes daquelas que encontrou em todos os outros lugares: grandes juncos com
cascos maciços aos quais se sobrepõem galerias elevadas sobre montanhas, pintadas de cores às vezes vivas, O
olho desenhado à proa dando-lhe o aspecto e a vida de algum animal pré-histórico, as grandes e pesadas velas
sustentadas por mastros volumosos, que mal foram desbastados, no tope dos quais flutuam bandeiras e estandartes
multicores; juncos de pesca de formas esbeltas, igualmente avivados por cores berrantes, avançando com todas
as velas largas, às centenas, em filas compactas, como se estivessem prontos a lançar-se sobre um inimigo
invisível.
1. Pauthier pg. 85. Deve ser o título abreviado duma obra chinesa desconhecida sob o tímido abreviado; é citada numa obra de cem
tomos, atribuída ao Imperador Kangai, intitulada Cronologia de Dinastias (nc 3 )
32
Entrando em seguida nos portos, o espanto do viajante aumenta ainda com a vista duma imensidade de
navios, grandes e pequenos, que fervilham ao longo das margens e nos mais pequenos recantos dos cursos de
água. As suas formas são ainda mais variadas que a dos juncos oceânicos.
Barcos de pesca e de transporte, barcos-flor ou de prazer, barcos de rodas accionados pela força humana,
e uma infinidade doutros barcos, de todas as dimensões, de todas as formas, destinados aos fins mais diversos.
Tudo isto se move com uma actividade e uma desordem indescritíveis, com muita gritaria e discussões desta
população aquática, composta por famílias inteiras, homens, mulheres e crianças que durante toda a sua existência
vivem nos cursos de água sem ter outra habitação que não seja o seu barco.
O Padre Bernardino (1745 )', das Missões Portuguesas, para dar uma ideia da frota chinesa, exprime-se
assim:
“Há tantos barcos que se diz comummente que o Imperador poderia estabelecer uma ponte de barcos
entre a China e Malaca que estão a 500 léguas de distância”.
O Padre Fernandez Navarrete (1650) dá números ainda mais impressionantes :
“O número de barcos de todas as tonelagens que navegam no Canal Imperial é incrível e o mesmo
acontece nos rios e ribeiras. O número que nós vimos nesta viagem era tal que os missionários, segundo os
cálculos que fizeram cuidadosamente, pretendiam que se podia construir uma ponte de Macau a Goa, que
distam de 900 léguas. Acrescentavam que há mais navios na China que em todos os países juntos”.
Nas Variedades Sinológicas, do padre Dr. Gandar, a imensidade da frota que navega no Grande Canal
Imperial ressalta bem das linhas seguintes:
“Os barcos, no Canal Imperial, contar-se-iam por centenas de milhar. Só em Yangzhou (nc 5) na época
das festas do ano novo que os chineses observam parando com todo o trabalho, quer em terra quer no mar, vê-
-se uma fila de 12 a 15 Li(7 a 9 km.) com as embarcações todas ancoradas na margem. Acontece o mesmo,
guardadas as proporções, ao longo das outras cidades e povoações nas margens do Liang He (nc 6). Se, às
embarcações de transporte juntarmos as dos pescadores e outros pequenos trabalhadores que vivem no canal,
chegaremos a um número de que não há ideia nos países da Europa”.
Só no porto de Cantão, os residentes ingleses calculavam, em 1840, em mais de 40.000 o número de
Juncos e sampanas circulando nesse porto e nas águas vizinhas, com uma população de pelo menos 200.000
habitantes de ambos os sexos. Poderíamos multiplicar citações de viajantes antigos e modernos, todos unânimes
em reconhecer a extraordinária profusão de navios em todas as regiões deste imenso império.
Recuando ao século XII, Marco Polo assinala que em frente da cidade de Singui (provavelmente Jiu
Jiang (ne 7)no Yangzi Jiang) viu não menos de 15,000 navios, e acrescenta que existiam ao longo do rio outras
cidades onde o número de navios era ainda mais considerável. Estes navios eram todos de grande tonelagem,
variando de 200 a 600 toneladas.
Não longe da foz do Rio Amarelo existia, ainda segundo Marco Polo, uma frota de 15.000 navios que o
Grande Kan aí mantinha a fim de estar sempre pronto a levar um exército às ilhas de mar que estavam sob o seu
domínio, se tal fosse necessário. Entre estes navios, havia-os tão grandes que eram susceptíveis de embarcar 15
"avalos e outros tantos cavaleiros com os seus víveres e forragens e 20 homens de guarnição. Enfim. para
terminar, citemos este extracto do livro de Marco Polo que descreve não só a importância do trem fluvial do
Yangzi Jiang, mas também a sua grande actividade:
“E, se vos disser que este rio vai tão longe, e passa por tantos países e por tantas terras e cidades, que na
verdade, entram e saem por este rio, mais navios e mais valiosas mercadorias e riquezas, do que as que passam
por todos os rios e por todo o mar cristão, e que me parece não rio mas mar”.
É. No original Padre Barnardine.
E conta o dito Senhor Marco Polo, que ouviu dizer aquele que guardava os direitos do Grande Kan neste
rio, que subiam este rio todos os anos 200.000 navios, sem os que saíam, que não contara. E podeis bem saber
que é muita coisa. E há neste rio 400 grandes cidades, sem contar as vilas e os castelos, que todos têm navios”*
* Livro de Marco Polo, Pauthier, página 477.
DOCUMENTOS CONSULTADOS
La Chine, por Pauthier - 1837
Livre de Marco Polo, por Pauthier - 1865
An account of the Empire of China, pelo Padre Fernandez Navarrete - 1650
An account of the Empire of China, pelo Padre Bernardino - 1745
Variétés Sinologiques ( Nº4 ). pelo Padre Dr. Gandar, Le Canal Impérial- Xangai 1894
RE!
DECLÍNIO DOS JUNCOS
Excepção feita aos barcos a vapor que sulcam as costas e as artérias interiores, a Marinha de Comércio
Chinesa é composta exclusivamente de navios de madeira construídos segundo os métodos próprios de cada
localidade. Estes navios são accionados por velas, remos ou remos de gingar, e mesmo por rodas accionadas
pela força humana.
A esta imensa frota de navios que navega nos recantos mais remotos do Império (segundo o Padre
Magalhães - 1609/1677 - haverá na China 1472 rios, lagos e ribeiras navegáveis) é preciso acrescentar um
número hoje considerável de lanchas a motor, usadas no serviço interior para o transporte de passageiros e de
mercadorias, cujo número não cessa de crescer todos os anos. Na verdade, o comerciante chinês, apesar de ter
cristalizado na sua rotina secular e também na negação do progresso, dá-se conta das vantagens que estes
auxiliares a motor lhe podem dar, e multiplica-os metodicamente, em detrimento das embarcações à vela e à
remos que vão diminuindo todos os anos.
Se esta diminuição não é ainda muito aparente, isto deve-se ao número considerável de juncos existentes.
Não deixa contudo de existir, e é preciso prever que se acentuará todos os anos em proporções imprevistas, à
medida que os chineses, tendo adquirido e generalizado a noção de que “tempo é dinheiro”, não desdenharão
daqui em diante as invenções dos “Diabos do Ocidente” que lhes permitirão fazer face às necessidades económicas
sempre crescentes e valorizar as imensas riquezas do seu império.
Será por certo exagerado dizer que o motor suprimirá o junco. O Chinês é muito consciente dos seus
interesses para desprezar um instrumento de trabalho que, em muitas circunstâncias, lhe traz a bom preço um
rendimento produtivo. Bastantes regiões conservarão ainda durante muito tempo os seus antigos meios de
transporte, tal como acontece entre nós, onde o vapor não fez desaparecer completamente a vela, nem o navio
de madeira. É contudo certo. que a era do pesado junco oceânico, de formas arcaicas. está hoje praticamente
encerrada.
A segurança do comércio no alto mar, a continuidade das trocas de porto a porto não podem estar
subordinadas às épocas das monções, pelas quais os juncos têm que esperar para empreender as suas viagens.
Por outro lado, a presença de numerosos antros de piratas e também a insuficiência profissional dos patrões dos
jJuncos, cujos conhecimentos naúticos são praticamente nulos, constituem sérios obstáculos ao transporte de
mercadorias por junco, que não encontra seguradores.
Quanto à navegação interior, que perspectiva de futuro podem ter esses milhares de juncos que lutam
penosamente contra ventos e correntes ao longo das margens de um rio, ou ficam parados nos lagos durante os
períodos de calma, cheios de mercadorias e passageiros, enquanto que os navios a motor podem sempre circu-
lar com guarnições reduzidas sem se preocuparem muito com os obstáculos da rota?
A bacia do Yangzi Jiang, que representa o centro mais activo e mais extenso do comércio interior. irá
fornecer-nos as informações mais seguras no que diz respeito à evolução dos meios de transporte, que eram. até
há poucos anos, apanágio exclusivo do junco chinês.
Os juncos de passageiros, chamados juncos mandarins, muito numerosos antigamente, desapareceram
hoje, salvo alguns a que se recorre em serviços locais de pouca extensão. Foram substituídos por lanchas à
ao)
posa ; a RR
motor levando a reboque espaçosas barcaças com vários pavimentos e galerias cobertas, preparadas para viajantes
de todas as categorias.
Com raras excepções, o trânsito comercial, em especial o da bacia do Yangzi Jiang, é assegurado por
vapores fluviais de grande tonelagem que circulam de um porto para outro, nos limites permitidos pelo seu
calado. Estes limites variam, naturalmente, mo período das cheias.
Para lá destes limites, o transporte é feito por lanchas a motor, depois por juncos, nos locais inacessíveis
a estas lanchas. Conclui-se que o papel de cada um destes meios de transporte, actualmente em uso, é logicamente
estabelecido da seguinte forma: a linha dos juncos é uma linha secundária das lanchas a motor, as quais, são por
sua vez linhas secundárias dos vapores fluviais, eles próprios tributários dos navios de alto mar. Não oferece
dúvidas que a extensão deste método de transporte essencialmente prático, ao abranger todas as artérias navegáveis
do império, contribua para o declínio do junco fluvial.
Da mesma forma, os pescadores costeiros que dispõem de milhares de juncos pensam no benefício que
terão com o emprego dos barcos a motor; são encorajados nesta via pelas sociedades que se criam nos portos,
para explorar as riquezas do mar.
Assim prossegue a um ritmo cada vez mais rápido o desaparecimento destes numerosos juncos, que se
impõem à nossa admiração senão à nossa curiosidade, pela originalidade das suas formas e dos seus processos
de navegação.
O presente capítulo consagrado ao declínio da frota chinesa foi escrito muito antes das hostilidades
abertas pelo Japão em 1937. Esta guerra causou estragos irreparáveis aos juncos. Foram destruídos aos milhares
e a maior parte sem esperança de serem reconstruídos. A este propósito, o Tenente D. W. Waters, R. N., exprime-
-Se assim, num artigo muito documentado que apareceu no Muriner's Mirror, de Janeiro de 1939: “A guerra
Sino-Japonesa apressou o seu fim; muitos foram destruídos, mais têm sido amarrados. Não se constroem mais”.
Trata-se do grande junco de cinco mastros de Bei Zhili ( nc 8 ) que se considera como um dos mais antigos tipos
conhecidos de juncos oceânicos e que vai definitivamente desaparecer da superfície dos mares como tantos
outros de menor importância. Assim, uma vez mais, depois da introdução dos navios a motor que foi o prelúdio
do seu declínio, os processos modernos de destruição trazidos pela “ civilização ocidental “ consumarão para
sempre a ruína desta incomparável marinha de vela.
6
MARINHA CHINESA ANTIGA — JUNCOS DE COMÉRCIO
Tudo leva a crer que nos finais do século XII a Marinha Chinesa tenha sido conhecida na Europa, graças
às narrativas de Marco Polo. Anteriormente a esta época, os antigos anais chineses, relatando as expedições
marítimas, são pouco menos do que mudos em relação aos navios empregados nestas circunstâncias e, no
entanto, está assente que desde a mais alta Antiguidade frotas consideráveis, compostas de importantes navios,
traficaram entre Cantão e os portos do Golfo Pérsico, as Índias e o Egipto. Seriam estes navios chineses? Trata-
-se de um ponto difícil de esclarecer, assim como o tipo da sua construção, pois nenhum documento chegou até
nós que nos permita uma elucidação a esse respeito, seja por meio da escultura*, como fizeram os Romanos
com os célebres baixos-relevos da coluna de Trajano e os mosaicos de Pompeia, ou os Egípcios com as pinturas
que ornamentam os seus hipogeus. Assim. é por indução do que aconteceu noutros campos, os das artes e das
ciências por exemplo, que podemos admitir com certa verosimilhança que a arte naval chinesa, submetida
também a uma regulamentação oficial, sofreu muito poucas mudanças desde os tempos mais recuados aos
nossos dias. A comparação dos tipos de navios descritos por Marco Polo com os navios que navegam actualmente
nos mares da China, vem apoiar esta tese. Demonstra que a observância da tradição oficial foi respeitada desde
há 600 anos, pois encontramos nas descrições de Marco Polo os mesmos pormenores de construção e de
compartimentação que observamos ainda hoje, com a diferença de que os juncos destinados a viagens longínquas,
a julgar pela grandeza das tripulações, eram maiores que os actuais.
Eis a descrição que nos dá Marco Polo dos navios de comércio que encontrou nas Índias. Tratar-se-á de
navios chineses? O viajante veneziano não o precisa. Mas ressalta de certos pormenores da sua narrativa que
esses navios eram, pelo menos a sua maior parte, de construção chinesa. Esta opinião é admitida pelos
comentadores desta narrativa.
“Os navios utilizados para o transporte das mercadorias, diz Marco Polo, são construídos com madeira
de pinho. Têm um só pavimento, por baixo do qual há 50 a 60 pequenas cabines reservadas aos comerciantes.
Têm um bom leme**, quatro mastros com várias velas, alguns possuem dois mastros suplementares que podem
içar ou arriar contorme as circunstâncias***. O interior do porão é dividido, independentemente das cabines,
por 13 anteparas formadas de pranchas espessas encastradas solidamente umas nas outras. A função destas
anteparas é de permitir localizar o veio de água que se produza ao embater contra os rochedos ou ainda, o que
é frequente, ao embater com uma baleia, quando o navio navega, pois produz uma espuma que atrai o animal à
procura de alimento, e este, julgando tratar-se duma presa, carrega sobre o navio e muitas vezes consegue
arrancar-lhe o fundo. A água entra num poço, donde é depois tirada. Desde que o veio de água é detectado, a
guarnição leva para o convés as mercadorias que estão no compartimento que ela invadiu, procede à reparação
do veio de água, e depois volta a estivar as mercadorias”
*) Existe, no entanto, no Museu Guimet a fotografia de um baixo-relevo do século IX do templo de Borobudur, em Java, dando a mais
antiga efígie de um navio oceânico do Extremo Oriente.
**) Notar a existência do leme. Na época desta narrativa, fim do século XHI a maior parte dos navios europeus não o possuíam.
Serviam-se para governar de remos colocados a um bordo.
***) Vero artigo “Mastros”, que explica a presença destes mastros móveis nos juncos oceânicos.
17
“O casco é constituído por um forro duplo, formado de duas pranchas sobrepostas em todo o comprimento
do navio, cuidadosamente calafetadas com estopa dos dois lados e juntas com bons pregos de ferro. Estes
navios não são revestidos com breu, pois este produto não existe no país. Servem-se, para o substituir, duma
mistura de cal e de cânhamo cortada em pedaços pequenos, à qual se junta uma espécie de óleo proveniente de
certa árvore. Esta amálgama forma um produto viscoso, mas forte, bem superior ao breu. Os maiores navios
exigem uma tripulação de 300 homens, outros 200, ou mesmo 150, conforme a sua importância.
Transportam 5 a 6.000 sacos de pimenta. Nos tempos antigos os navios eram de maior tonelagem, mas a
violência do mar, a presença de rochedos e a pequena profundidade dos portos levaram os comerciantes à
mandar construir, nos últimos tempos, navios de menor tonelagem. Independentemente do velame, os navios
podem ser movidos a remos, manobrados cada um por quatro homens. Os grandes navios fazem-se acompanhar
de duas ou três grandes barcas capazes de carregar 1.000 sacos de pimenta: a tripulação é de 60, 80 e mesmo
100 homens. Muitas vezes estas barcas são empregadas para rebocar os grandes navios quando andam a remos,
e mesmo à vela quando o vento vem da alheta, mas nunca com vento da popa, porque neste caso as velas do
grande navio deixam à sombra as das barcas e haveria risco de abalroamento, Estes navios levam a bordo uma
dezena de pequenas embarcações que são utilizadas para fundear os ferros, para a pesca e serviços vários . São
içadas nos bordos do navio e arriadas quando necessário. As grandes barcas possuem mesmo pequenas
embarcações para seu serviço próprio . Quando o navio, depois de ter feito uma viagem que dure um ou vários
anos, precisa de ser reparado, é usual aplicar sobre o casco um novo forro, o que eleva a três o número de forros
exteriores. As pranchas são cuidadosamente aplainadas, aparelhadas e calafetadas como as precedentes, sobre
as quais são pregadas. Esta operação de reparação do casco repete-se até à sexta camada, sendo depois o navio
considerado como incapaz para navegação longínqua”,
Yule, no The book of Marco Polo, junta uma nota interessante à descrição destes navios:
“Os navios de mar chineses desta época eram aparentemente maiores do que os usados nos mares da
Europa: Marco Polo fala aqui de 200 marinheiros o que é uma grande tripulação para um navio mercante,
menos importante contudo da que é relatada numa descrição de Odorico, o qual veio da Índia para a China num
navio que tinha 700 pessoas a bordo. O número de pessoas transportadas nos juncos era ainda considerável no
século passado. Em Fevereiro de 1822, o capitão inglês PEARL, do “Indiana”, embarcou no seu navio a carga
e a tripulação de um junco naufragado, salvando 198 pessoas das 1.600 que tinham embarcado em Xiamen *.
As narrativas da Idade Média confirmam unanimemente este facto.
“Os navios que navegam no Catai, conta o Irmão Jordanus, são muito grandes. Têm na coberta mais de
cem cabines e com bom tempo envergam dez velas**, são muito volumosos, sendo construídos com três camadas
de pranchas de tal maneira que a primeira camada é disposta como nos nossos grandes navios, a segunda
transversal e a terceira longitudinal como a primeira***
*) E bom notar que o amontoumento destes 1.600 chineses está longe de representar o que resultaria da presença do mesmo número de
europeus. Admitindo a proporção de um quarto, ou seja 400 europeus para os [.600 chineses, estaríamos ainda abaixo da verdade. tão
pouco espaço ocupa um chinês, por natureza compreensível.
**) Este número elevado de velas existentes nos navios chineses que só possuem mastros baixos, pode explicar-se por terem velas que
são içadas com bom tempo, como se vê ainda hoje, e que são volantes.
+) A descrição do Irmão Jordanus é particularmente interessante, pois precisa um pormenor de construção que não figura na
narrativa de Marco Polo, a propósito da colocação dos forros superiores do casco. Como era racional supor, os dois forros sobrepostos
do casco colocados nu altura da construção do navio, assim como aqueles que são pregados sucessivamente, até seis camadas, aquando
das reparações do navio, estão dispostos alternadamente no sentido longitudinal e no sentido vertical. Este sistema de construção foi
utilizado na Europa, nos antigos navios de madeira, com o nome de forros cruzados, com a diferença que nestes últimos o revestimento
do casco era constituído por três camadas de forros sobrepostos, as duas primeiras inclinadas em sentido contrário e cruzando em
ângulo recto, a terceira formando um forro exterior longitudinal.
x
Segundo Nicolo Conti, “os chineses constroem alguns navios muito mais fortes que os nossos, capazes
de comportar 2.000 moios, com cinco mastros e cinco velas. A parte inferior é construída com um forro triplo
a fim de resistir à acção das tempestades a que estão expostos. Os seus navios são divididos em compartimentos,
formados de tal maneira, que se um deles for invadido (pela água), os outros ficam intactos, o que permite ao
navio continuar a viagem”.
Marco Polo poucos pormenores dá sobre os navios costeiros e fluviais. Eis uma descrição muito sumária,
dos navios encontrados em Singuy Jiu Jiang)(nc 7), no Yangzi Jiang :
“Quando Marco Polo chegou a esta cidade, não viu menos que 15.000 barcos, e há outras cidades neste
rio, onde o seu número é ainda mais considerável. Todos estes navios estão cobertos por uma espécie de convés
e munidos de um mastro com uma só vela. A sua tonelagem é de cerca de 4.000 Cantari, ou quintal de Veneza*,
e eleva-se às vezes até 12.000 Cantari. Não empregam cabos de cânhamo a não ser para manobras correntes ou
de cabos fixos dos mastros e das velas. Servem-se de bambus, que fendem longitudinalmente em várias tiras,
que depois juntam umas às outras e enrolam de maneira a formar um cabo de 300 passos de comprimento. Estes
cabos assim confeccionados com habilidade, têm uma resistência comparável aos feitos em cânhamo**. Os
barcos são alados ao longo das margens tanto contra a corrente como na direcção oposta, com a ajuda de cabos
que são puxados por dez ou doze cavalos”.
O célebre viajante e geógrafo muçulmano Ibn Battuta, que visitou a Índia cerca de 1330, 50 anos depois
de Marco Polo, dá-nos uma descrição dos navios chineses que encontrou no porto de Calecute, em número de
lreze:
“Estes navios, diz ele***, são de três espécies: 1º Os grandes chamados “Gonouk“ e no singular “Gony"
(do chinês “Chuan“ (ne 1) junco); 2º Os médios chamados “Sou“ (nc 9), em chinês); 3º Os pequenos Ca-cam
(Hua Hang)ne 10). Há num destes grandes navios, doze velas e em baixo até três. Estas velas são feitas de ripas
de bambu tecidas em forma de esteira; não se arriam nunca e mudam-se de direcção, conforme o vento sopra de
um bordo ou outro. Quando estes navios fundetam, deixam-se as velas bater com o vento. Cada um deles é
manobrado por 1.000 homens, a saber 600 marinheiros e 400 soldados, entre os quais há archeiros, homens
armados com escudos, besteiros, isto é homens que lançam nafta. Cada grande navio é seguido por três outros,
o nisfy, médio; o thoulthy, o do terço; e o ruby, o do quarto. Não são construídos senão na cidade de Zeitom****,
na China, ou na cidade de Syn-Cafan (Cantão). quer dizer Syn Assyn.
*) O câniaro de Veneza representava uma carga de aproximadamente 50 quilos. A tonelagem destes navios elevava-se pois a 200 ou
mesmo 600 toneladas. É preciso entender por tonelagem o peso da carga embarcada. Nos nossos dias estas tonelagens estão longe de
ser atingidas nos juncos fluviais. Os maiores podem atingir cerca de 2.000 picos, ou seja 120 toneladas e excepcionalmente 3.000 picos
ou 180 toneladas. Quanto dos juncos oceânicos, bem poucos atingem hoje 600 toneladas; são os de Ningbo que traficam com os portos
de Bei Zhili.
**) Os cabos feitos de bambu continuam a ser usados nos juncos fluviais como eram utilizados na época de Marco Polo, para a alagem
e para a amarração. Veremos mais adiante que o processo do seu fabrico não mudou desde o tempo de Marco Polo.
+) Viagem de Ibn Batuta. Texto árabe acompanhado duma tradução de C.Defremers e pelo Dr. B.R Sanguinetti. Obra publicada pela
Sociedade Asiática de Paris, 1858, Tomo IV.
ee) Os comentadores da Geografia Imperial Chinesa parecem ter uma grande indecisão quanto à situação do porto de Zeitoum,
Alguns colocam-no em Fuzhou, outros com maior verosimilhança em Xiamen. que foi com Cantão, a sede de um comércio importante
como estrangeiro,
Ri
São fabricados da seguinte maneira. Erguem-se dois muros de madeira e enche-se o intervalo que os
separa por meio de pranchas muito grossas ligadas em comprimento e em largura por grandes pregos, cada uma
com três côvados de comprimento*.
Quando as duas paredes estão ligadas por estas pranchas, dispõe-se por cima delas o pavimento inferior
do navio, depois lança-se o conjunto ao mar, e acaba-se a construção. As peças de madeira e as duas paredes que
tocam na água servem à tripulação para por elas descer, lavar-se e fazer as suas necessidades. É nos flancos
dessas peças de madeira que se colocam os remos, que são tão grandes como os mastros. São precisos dez a
quinze homens para cada remo; remam de pé.
Constroem-se em cada navio quatro pavimentos. Contêm beliches, cabines e salas para os comerciantes.
Várias destas cabines (Miryah) contêm células e cómodos. Têm chave e os seus proprietários fecham-nas.
Acontece muitas vezes que se encontre numa cabine um indivíduo sem que nenhum daqueles que estão a bordo
tenham conhecimento da sua presença, até que o descubram quando chegam a um porto.
Os marinheiros instalam os filhos nessas cabines: semeiam hortaliças. legumes e gengibre em selhas de
madeira. O intendente do návio parece um grande Emir. Quando desembarca os archeiros e os abissínios marcham
à frente dele com dardos, espadas, tímbalos, trompas e trombetas. Logo que chega à estalagem onde se instala,
cravam as lanças dos dois lados da porta e ali permanecem durante a estadia. Entre os habitantes da China, há
alguns que têm numerosos navios, nos quais enviam ao estrangeiro os seus feitores. Não há em todo o universo
gente mais rica que os chineses.”
O processo de construção dos juncos descrito por Ibn Battuta não é o que se segue actualmente na China
e não o era, sem dúvida, na época da sua viagem.
“Erguem-se, diz ele, duas muralhas de madeira e enche-se o intervalo com pranchas muito grossas”.
Praticamente não se pode conceber de forma nenhuma este tipo de navio oceânico, com a colocação do
acabamento do casco sem antes se ter instalado um apoio rígido, perfilado segundo as linhas de água previstas
para o navio. Estes apoios rígidos podem ser constituídos por “balizas” formadas de várias peças de madeira
solidamente justapostas e cortadas segundo um gabari determinado. Estas peças formam a ossatura do navio €
a sua construção é particularmente delicada, pois é nelas que repousa à sua solidez. Uma vez estas peças
erguidas na sua posição determinada, a colocação do forro faz-se facilmente aplicando as pranchas sobre os
lados perfilados destas peças, o que lhes permite, com a sua flexibilidade, adaptarem-se às formas do casco. E
claro que a construção e a montagem destes conjuntos é sempre uma operação difícil. Os chineses resolveram
estas dificuldades duma maneira genial, pode dizer-se, obtendo não somente o máximo de solidez com o mínimo
de trabalho, mas ainda a segurança da construção em caso de água aberta. Para isso, substituíram as travessas
por sólidos painéis em madeira talhados segundo o gabari desejado. O revestimento é em seguida pregado aos
lados desses painéis que são cuidadosamente calafetados e constituem o que se chama “anteparas estanques”.
Estas anteparas, conhecidas desde a Antiguidade na China, só foram adoptadas na Europa com a construção em
ferro.
Na continuação do seu relato, Ibn Battuta conta a sua viagem de Samatra às Celebes e ao Tonquim:
“Não há vento neste mar, nem vagas**, nem movimento de nenhuma espécie apesar da sua grande
extensão.
É por causa disto que todos os juncos chineses são acompanhados por três navios como já tinhamos dito.
Servem para os fazer avançar, remando e rebocando-os. Além disso, há no junco 20 remos muito grossos, como
*) Medida antiga representando o comprimento do extremo da mão do cotovelo avaliada em 50 centimetros.
**) Estas alegações são inteiramente fantasiosas como de resto a maior parte das que figuram nos relatos de Ibn Batuta.
dt)
se fossem mastros; 30 homens, mais ou menos, reunem-se junto de cada um deles; ficam de pé em duas filas,
viradas uma para a outra. O remo possui dois fortes cabos que parecem maças. Uma das filas de homens ala um
dos cabos e depois larga-o e então a segunda fila ala o outro cabo. Estes remadores, enquanto trabalham,
"antam com belas vozes e dizem ordinariamente “la"la - Ja” la” - “*.
Mais adiante, Ibn Battuta descreve a maneira de preparar os cabos pelos indígenas da India, e a sua
utilização na construção dos navios.
“Os indígenas submetem a parte filamentosa de um coco, chamado “kambar”, a uma preparação em
fossas escavadas perto das margens, depois batem-na com picaretas, e a seguir as mulheres encarregam-se de
fiar os filamentos assim preparados. Fazem-se cabos para unir as pranchas dos navios, e exportam-se os cabos
para a China, Índia e para o Yemen. O “kambar” é melhor que o cânhamo. É com cordas deste género que são
cosidas as pranchas da Índia e do Yemen, porque o mar das Índias está cheio de pedras, e se um navio unido com
pregos de ferro viesse a colidir contra uma rocha faria um rombo; mas quando é cosido com cordas fica dotado
de elasticidade e não se parte**”.
*) A manobra destes grandes remos mostra bem que não se trata aqui do remo colocado lateralmente, mas sim do remo de popa que
existe na maior parte dos juncos que navegam nos portos e nos rios, em especial no Alto Yangzi Jiang. Estes fortes remos ao longo do
costado, de cada bordo do junco, são manobrados por oito a dez homens. Apesar de haver uma divergência de quase o dobro no número
dado neste relato, os homens compondo a equipa de um remo ( 10 a 15 num lado, cerca de 30 mais adiante ), não resta dúvida de que
os meios de propulsão empregados nestes navios deviam ser possantes. As suas tripulações eram de cerca de 1.000 homens, os mesmos
que 08 nossos navios antigos de três cobertas; participava, em grande parte, no manejo dos remos para ultrapassar as calmarias, ou
entrar e sair dos portos. Que espectáculo impressionante deveria ser o convés destes navios, quando 500 ou 600 homens, manobrando
em cadência, cantavam “Da la-Vala”.
**) Os barcos cosidos com cordas encontram-se principalmente nos mares do Sul. No dizer dos indígenas, os pregos não oferecem
solidez bastante, devido à salinidade dus águas, que os ferruja e torna quebradiços. Nas costas da Indochina, a maior parte dos juncos
de pesca são construídos com pranchas ligadas por filamentos cheios de gordura e duma espécie de óleo de alcatrão. (Ver na parte
Descritiva - Juncos da Indochina).
dl
ct nao
MARINHA CHINESA ANTIGA
JUNCOS MILITARES
Se os historiadores das primeiras dinastias deixaram poucos documentos sobre a marinha da sua época,
pelo contrário, os da célebre dinastia Ming, (1368-1644) publicaram sobre ela numerosas e copiosas obras, a
maior parte das vezes enciclopédicas, nas quais os navios de combate são objecto duma descrição apoiada por
desenhos.
Entre estas obras assinalaremos o Tratado de Geografia Marítima (Tcheou Hai Tou Pien ) (nc Il),ea
colecção dos Livros Antigos e Modernos aprovados pelo Imperador (Gu Jin Tou Shu Si Cheng)(ne 12), que os
viajantes e missionários dos séculos XV Ile XVI tiveram à sua disposição para descrever os navios em questão.
A impressão que ressalta do exame dos desenhos desses juncos, que são executados com o maior cuidado,
é de que os construtores dessa época, como de resto os dos anos seguintes, não se preocuparam em construir o
navio de guerra no sentido exacto da palavra. O navio usado para esse efeito não é, salvo raras excepções, outra
coisa senão um junco de comércio normal, tripulado por soldados armados com alguns instrumentos de combate.
Esta indiferença manifestada pelos chineses em relação à construção do navio de guerra propriamente dito,
testemunha não só o seu espírito pacífico, mas também a confiança colocada na sua imensa frota de comércio,
susceptível de ser mobilizada a qualquer momento e em qualquer lugar quando ameaçada pelo inimigo.
Esta frota, relata o Padre Gonzalez de Mendoza, era tão considerável que o Comandante em Chefe das
operações podia em alguns dias reunir 500 a 1.000 navios, num ponto qualquer do litoral.
Durante as suas várias estadias na China, de 1577 a 1581, este missionário espanhol recolheu sobre estes
navios informações que apresentam um interesse especial por terem sido descritas nos primeiros anos da
penetração europeia no Extremo Oriente. Eis alguns excertos:
“Os grandes navios usados nas viagens longínquas são chamados Juncos pelos chineses. Os que são
construídos para fazer a guerra são ainda maiores; têm à popa e à proa altas torres ou galerias como os navios do
Levante e os navios portugueses que vão à Índia. Estes navios são construídos com facilidade e com pouca
despesa devido à abundância de madeira, ferro e outros materiais que há no país.
Os navios de comércio comummente usados no reino da China são construídos da mesma forma que os
navios de guerra; não apresentam qualquer diferença com estes últimos, a não ser o terem a popa € a proa um
pouco mais baixas. Há-os ainda mais pequenos, chamados bancões, que são equipados com quatro remos em
cada bordo, manobrados cada por seis homens; estes navios são próprios para navegar nos portos e ao longo das
costas. Outros, maiores, chamados lanteias têm sete a oito remos com oito homens para cada. Estes dois barcos,
ainda que construídos para o comércio, são também usados, devido ao seu baixo custo, pelos piratas e corsários,
muito numerosos na costa. Também se usam outros navios do comprimento das galeras e construídos como
elas, com a diferença de não terem esporões. Têm pouco calado, transportam facilmente muita mercadoria para
jusante e para montante dos rios.
São usados exclusivamente para o comércio no reino, pois é proibido traficar com o estrangeiro.
Independentemente destes navios existe grande quantidade de outros de todas as dimensões, ornamentados
com galerias e janelas com clarabóias, para uso dos vice-reis e governadores. O rei possui um grande número
destes juncos, que lhe são fornecidos pelas províncias, com soldados para fazer a polícia e a caça aos piratas.
42
Para esgotar a água dos porões, os chineses empregam uma espécie de bomba feita de várias peças como
as noras de Espanha. Esta bomba é colocada dentro do barco e uma a cada bordo; um só homem sentado e
manobrando uma roda com os pés, pode, por um movimento contínuo, esgotar em instantes a água de um
grande navio*.
A obra do Padre Gonzalez de Mendoza, não contém desenhos de juncos; por outro lado, a concisão das
descrições não permite superar esta falta de documentação sobre a forma dos navios da época. Ao contrário, as
obras chinesas citadas mais acima e que tratam dos navios de combate, dão numerosas ilustrações que
acompanham a descrição dos navios. Estas gravuras são notáveis pela perfeição e elegância da execução; há
mesmo um certo exagero na fineza da pincelada que, em certos casos, faz duvidar do valor documental do
conjunto.
Vê-se que o artista deu toda a atenção à reprodução de vários pormenores secundários, como as
personagens, vestuário e penteados. deixando na sombra os dispositivos, muitas vezes essenciais, relatados no
texto.
Quanto à parte descritiva, há que admitir que, mesmo apresentada por vezes de forma ingénua, não deixa
de ter atractivos, pois revela-nos uma marinha totalmente diferente das outras pela variedade dos tipos, métodos
de combate e engenho dos meios utilizados para desorientar ou enganar o inimigo. É uma felicidade poder
apresentar estes curiosos documentos, traduzidos de obras antigas, que nos trazem, pela primeira vez, precisões
sobre a Marinha Chinesa dos tempos passados**.
E no primeiro capítulo da Secção Política Guerreira, intitulado “Guerra Naval”, que a Colecção dos
livros antigos e modernos aprovados pelo Imperador (nc 13) contém a descrição, apoiada por desenhos, de
numerosos navios de combate. À obra começa por considerações gerais sobre a preparação da guerra e os vários
procedimentos para combater 0 inimigo; enumera, em seguida, os principais instrumentos utilizados no combate:
dardos, ganchos, bombas incendiárias, ctc...., que se usavam ainda no século passado.
Em que época devemos situar a construção ou o emprego destes navios? À obra não o precisa, e como
constatamos na maior parte das Enciclopédias, os autores são anónimos ou então desconhecidos, da mesma
forma que a origem da sua documentação. Sobre este assunto não podemos, portanto, formular senão hipóteses,
pelo que nos limitaremos, nas notas que se seguem à descrição particular de cada um destes navios, a indicar os
pontos comuns existentes entre estes e os dos nossos dias.
*) Este sistema de nora é correntemente empregado na China nos nossos dias para levar a água das planícies aos rios escalonados nas
vertentes das colinas,
**) Os missionários dos séculos XVH e XVI deram nas suas sábias “Memórias sobre os Chineses". um apanhado dos principais
modelos desses navios de combate acompanhado de gravuras. Estas informações são extraídas de antigas obras chinesas, que têm sem
dúvida mma origem comum com aquelas que citâmos mais acima.
ER
DESCRIÇÃO DOS NAVIOS DE GUERRA
ADVERTÊNCIA
No manuscrito original de Audemard aparecia uma tradução do capítulo relativo a este assunto, o 97º, da
Enciclopédia chamada Gu Jin Tou Shu Si Cheng(Colecção de Livros Antigos e Modernos), pelo Dr. Che Ching
da Faculdade de Medicina de Paris (nota 12). Aparentemente, o Dr. Che teve acesso a uma outra edição que
encontrámos na Biblioteca do Instituto Sinológico de Leiden, pelo que tivemos necessidade de fazer traduzir de
novo o exemplar à nossa disposição. (Ver as passagens em tipo mais pequeno; as Estampas la, 2a, 3a, 4a, 5a e
6a foram acrescentadas de acordo com o manuscrito de Leiden).
Nota do tradutor
Os termos porque são designados estes navios, não têm muitas vezes equivalente exacto nas marinhas de
guerra ocidentais antigas ou modernas.
O comandante Audemard, muitas vezes teve que adoptar a tradução à letra do termo chinês. Outras
vezes adoptou um termo francês que era próximo.
Adoptámos o mesmo procedimento sempre que o termo francês tinha equivalência em português; nem
sempre foi possível.
Outra dificuldade é haver, por exemplo, termos específicos du guerra terrestre que aparecem para designar
algumas partes do navio. É o caso por exemplo de “créneau”, em português ameia, que não existe nos navios.
Quanto às armas, o problema é semelhante. O comandante Audemard emprega POGAN e ELÉAU para
designar vaias que são arremessadas e provocum explosões no navio inimigo. Não há, que saibamos, nenhuma
arma usada pelos portugueses que seja semelhante. O “fléau", não tem também equivalente naval. A solução
foi traduzir os dois termos por “lanças explosivas”.
Estes são apenas dois exemplos, muitos mais há. O que se diz atrás tem como objectivo explicar o
critério seguido.
2. GudJin Tou Shu Si Cheng (colecção de livros antigos e presentes) (nc 12)
Obra enciclopédica compilada pelo Imperador Kangxi no fim do século XVII, cuja preparação começou
a ser feita por Chen Menglei que caiu em desgraça em 1723, reinando o filho de Kangxi, o Imperador Yong
Cheng; a obra apareceu em 1726 atribuída a Tsiang Ting-Si, testa de ferro escolhido para salvar a face. A obra
consiste em 10.000 volumes, sendo 40 para o índice. Contém cerca de cem milhões de caracteres chineses, O
que transposto para uma língua europeia, compreenderia cento e cinguenta milhões de palavras, ou seja,
quatro vezes o conteúdo du Hºedição da Enciclopédia Britânica. O pequeno volume que traduzimos parcialmente
encontra-se na secção “Administração Militar” e tem o numero 97,
Ver: Lionel Giles, An Alphabetical Index to the Chinese Encyclopaedia - British Museum, ed. 1911.
dd
3. No que diz respeito às informações sobre os Navios de Guerra (nc 16), é de notar que o T'ou Chou cita
literalmente os textos relativos a uma obra anterior chamada San Cai Tu Hui (nc 86), secção “Móveis e
Instrumentos”, livro d, somente o desenho é um pouco diferente do nosso que mostra quatro remadores a
estibordo, enquanto o San Cai mostra seis a bombordo, deixando o leitor imaginar o mesmo número do bordo
oposto. O Associação Sancaitu data de 1607 ou 1609, e foi compilado por Wang Qi e pelo seu filho WangSiyi.
4. NoT'ou Chou depois do texto descrevendo o You Ting (nc 14) segue-se uma descrição dos Pai Gan que falta
no San Cai, e de qualquer modo na secção dos Navios de Guerra. Fala-se aí de um barco de cinco pavimentos
o que exclui o You Ting. Continuando a nota desta página (Wu Jing), encontrámos no undécimo volume, página
5, uma estampa marcada You Ting, que mostra um navio de cinco pavimentos munido de três “lanças explosivas”
em cada bordo (ver estampa 1).
As referidas “lanças explosivas” são compostas de pesados troncos de árvore, que rodam sobre gonzos
na parte inferior, montados na extremidade de um apêndice que serve para os levar um pouco mais longe; as
talhas que as mantêm verticais não estão marcadas na figura. O texto de Wu Jing começa por descrever o You
Ting com as mesmas palavras que se encontram também no San Cai e no T'ou Chou; em seguida vem a
descrição dos Pai Gan que falta no San Cai e volta a aparecer no T'ou Chou; depois cita-se uma Lei promulgada
por Kao Tsu (Souei)(ascensão ao trono 580 d.C. )acerca dos navios de guerra (couraçados) com cinco pavimentos
designados por Wu Ya Jian (nc 87) (Couraçado dos cinco oficiais superiores), sendo as medidas dadas as dos
“grandes Navios de Guerra” onde estavam montadas as lanças explosivas e é evidente que se omitiu a estampa
do You Ting e que se chamou à estampa do Wu Ya Jian, You Ting. No T'ou Chou omitiu-se a estampa do Wu Ya
Jian, mas conservou-se o texto até à Lei indicada acima.
5. Barco de passageiros dos lagos e dos rios. Não confundir com o de cinco pavimentos - Wu Ya Jian- estampa
la, pag. 37 e nota da pag. 34.
You Ting (ne 14) ( Estampal) Barco de guerrilha
O You Ting não tem portas de bateria; à borda há assentos para os remadores, a bombordo e a estibordo;
o seu número depende do comprimento do navio; pode haver um de quatro em quatro pés. Estes navios são
concebidos para atacar, moderar a marcha e retirar, sendo a sua velocidade de viragem e a tomar posição como
a do vento; empregam-se como navios exploradores.
(observação). Nota 3- Quanto aos Pai Gan (nc 15), “fléau” da nota 4, que traduzimos por lanças explosivas, são
montados nos Grandes Navios de Guerra (nc 16), cuja construção comporta cinco pavimentos com uma altura
total de cinquenta pés e chegam a levar oitocentos guerreiros. Na parte superior há bandeiras e flâmulas. Cada
vez que encontram os barcos inimigos, disparam-se as lanças explosivas, que, se os atingem, os fazem rebentar
em pedaços.
A julgar pelo desenho (Estampa 1), o You Ting pertenceria ao tipo bem conhecido dos navios de carga
ainda em voga actualmente nos portos e rios da China. É, no entanto, necessário chamar a atenção para o
desacordo existente entre esta figura e a descrição que lhe atribui cinco pavimentos e capacidade para embarcar
800 guerreiros, quando os 15 homens que aparecem no desenho parecem ser tripulação mais que suficiente para
este navio.
Os instrumentos de guerra chamados “Pai Gan” não figuram no desenho, a sua estrutura devia ser sem
dúvida semelhante à dos arietes usados na Europa na Idade Média para fazer brechas nas muralhas das cidades
(ver Estampa la).
45
Meng Chong (nc 17) (Estampas 2 e 2a) Barco couraçado de assalto
O Meng Chong é coberto de peles de boi verdes como os Navios de Guerra: atacado pela esquerda e pela
direita, as flechas e as pedras que lhe lançam não lhe causam estragos. À proa e à popa, à direita e à esquerda há
seteiras para fazer fogo e orifícios para as lanças.
Se o inimigo se aproxima atiram-se as lanças. Não se usa este tipo de navio para executar a tarefa de um
grande navio; aproveitando a sua velocidade exploram a desprevenção do adversário.
O Meng Chong tem o aspecto de um navio de alto mar do tipo Sha Chuan (ne 18) (Estampa 23), um dos
protótipos da antiga marinha de comércio, usado actualmente nos mares pouco profundos do norte da China. As
ornamentações à proa e à popa do casco, assim como o olho desenhado em cada amura, ainda se encontram
hoje nos juncos oceânicos do Zhe Jiang.
Long Chuan (nc 19) (Estampas 3 e 3a) Barco de vários pavimentos (nota 5).
Sobre o convés deste barco construiram-se três pavimentos e portas de bateria: para serviço de tempo em
de guerra instala-se um mastro com bandeiras e flâmulas e abrem-se seteiras para lançar flechas e aberturas
para as lanças. À toda a volta coloca-se feltro e couro para servir de protecção contra o fogo. Montam-se
canhões, e por meio de pedras escavadas e ferro torjado, faz-se uma espécie de pequenas anteparas. Os navios
são tão grandes que se pode conduzir neles um carro ou montar a cavalo. Se encontrarem um tufão, não são
manobráveis, o que os torna pouco práticos. É por isso que a Marinha de Guerra não se pode servir deles. Além
disso é impossível modificar-lhes as dimensões, para os tornar mais úteis.
Tsou Ko (ne 20) (Estampas 4 e 4a) Navio corredor.
O navio corredor tem no convés portas de bateria. Os remadores são numerosos e os fuzileiros são todos
escolhidos pelo seu espírito temerário e fortaleza de ânimo. Devido à sua grande mobilidade atacam e retiram
como se fossem gaivotas (nc 21) e os inimigos não os podem atingir.
Têm gongos, tambores e bandeiras. É de notar que as portas de bateria que circundam o convés superior
só existem nos barcos de rio. Os numerosos círculos desenhados no costado representam provavelmente uma
armadura de pregos destinada a proteger os flancos do navio. No castelo de proa figuram três instrumentistas,
um que toca um tambor, os outros soprando uma trompa com um tubo comprido. Estes instrumentos têm um
papel importante no combate, assim como as bandeiras e as flâmulas empunhadas por guerreiros, sem dúvida
os chefes.
O tambor dava o sinal de avançar. Neste momento à bandeira já está desfraldada por cima do navio.
Quando se ouve o gongo, é o sinal de parar. Se a bandeira se inclina é o sinal de retirada. Eram estas as
principais regras observadas no combate no mar.
Nota 3- Quanto aos Pai Gan (nc 15), “fléau” da nota 4, que traduzimos por lanças explosivas, são montados nos
Grandes Navios de Guerra (ne 16), cuja construção comporta cinco pavimentos com uma altura total de cinquenta
pés e chegam a levar oitocentos guerreiros. Na parte superior há bandeiras e fAlâmulas. Cada vez que encontram
os barcos inimigos, disparam-se as lanças explosivas, que se os atingem, os fazem rebentar em pedaços.
Dou Jian (nc 22) (Estampas 5 e 5a) Junco de combate
Na borda deste navio colocaram-se portas de bateria que protegem somente metade dos corpos. Por
cima, há aberturas onde passam os remos; a cinco pés para o interior do convés estabeleceu-se uma espécie de
tenda com ameias e telhado horizontal onde se construiram o que se podem chamar ameias duplas; os fuzileiros
ficam aqui em cima sem qualquer protecção dorsal. À proa, à popa, a bombordo e a estibordo há bandeiras,
gongos e tambores.
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n e
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: a de
Estampa Lo Junco de guerrilha Estampa Ja Junco com "Pogan”
Estampa 2. Junco couraçado de assalto Estampa 2a Junco couraçado de assalto
47
Estampa 3 Junco de vários pavimentos Eseumpa Sa Junco de vários pavimentos
Estampa 4 Junco corredor
Estampa ta Junco corredor
Elo!
Este navio sem mastreação, com portas de bateria nos três pavimentos, devia representar o tipo do grande
navio de combate fluvial. As “ameias” desenhadas duma forma bastante simbólica, protegem integralmente os
remadores e só em parte, os guerreiros dos pavimentos superiores. No convés há uma âncora de ferro, uma
espécie de fateixa de quatro patas. uma das quais tem um arganéu, onde passa um arinque destinado a suspender
a âncora. Esta âncora usa-se sempre em barcos de rio.
Hai Gu (nc 23) (Estampas 6 e 6a) Escuna
A forma deste barco é parecida com o albatroz; proa baixa e popa alta, largo a vante e estreito a ré.
Amarraram-se aos dois bordos pranchas flutuantes com a forma das asas do albatroz; impedem-no de abater no
caso de vento soprando furiosamente, acompanhado de vagas alterosas. A proa é coberta nos dois bordos por
peles de boi verdes, para protecção contra as lanças; têm bandeiras, gongos e tambores como é habitual. E
preciso ver que as pranchas flutuantes, dispostas como asas de um pássaro, são mesmo um dispositivo
desempenhando o papel de um leme lateral, que os juncos de fundo chato, oceânicos e fluviais, instalam ao
longo dos bordos quando andam à vela.
Guangdong Chuan (nc 24) (Estampa 7) Junco cantonês
Os barcos cantonenses têm ao longo de cada bordo plataformas para os remadores, as velas são formadas
de esteiras em camadas, em suma, não são nada semelhantes aos de Fujian.
Barco de popa pequena (nc 25). proveniente do distrito de Xinhui Xian (nc 26). (nota 6). (Estampa 8).
Barco de grande proa (nc 27), proveniente do distrito de Dongguan Xian (nc 28), (nota 7). (Estampa 9).
Hoje chama-se aos barcos cantonenses Wi Chuan (nc 29): há também os Heng Jiang Chuan (ne 30)
para os quais há vários nomes. Os que se chamam Bai Cao (nc 31) são do modelo de Fujian.
Os barcos cantonenses são em geral maiores e mais robustos do que os de Fujian. porque os primeiros
são construídos em pau ferro, enquanto os fuquinenses são construídos em madeiras da categoria do pinho,
quando muito.
Se os dois tivessem uma abordagem no mar alto, seria o fuquinense a partir-se, pois não pode resistir à
dureza do pau ferro. Como os Japoneses também constroem os seus barcos de madeira em pinho ou madeira
dessa categoria, não se atrevem a abordar um cantonês no alto mar. Quando um navio cantonês fica avariado é
torçoso repará-lo também com este pau ferro, o que é difícil e leva tempo.
A construção, estreita em baixo e alargando para o alto como duas asas torna-o estável nas águas costeiras
e provoca-lhe forte balanço no alto mar. Eis as vantagens e desvantagens do barco cantonês.
Os grandes couraçados cantonenses empregam instrumentos de fogo, mas no mar alto dão tanto balanço
que é incerto que os seus tiros atinjam o alvo. Mesmo se atingirem o inimigo a maior parte das vezes provocarão
estragos pouco importantes; mesmo assim isto afecta o moral e a coragem do inimigo. Há ainda duas
particularidades.
Com os canhões portugueses raramente se falha o alvo, o barco atingido desfaz-se em pedaços. E a
primeira particularidade.
Quanto às bombas incendiárias e à proa do barco: quando se chega à abordagem. deita-se de cima fogo
sobre o barco inimigo, que se incendeia. E a segunda particularidade.
Os grandes barcos fuquinenses são feitos assim. Como os cantonenses empregam pau ferro, a construção
é duas vezes mais cara que a de um fujianês; em compensação, dura mais tempo. porque o pinho do fujianês é
facilmente roído pelos vermes e é preciso queimá-lo e limpá-lo constantemente; depois de oito ou nove anos
ficam incapazes de resistir aos temporais. A madeira do cantonês é dura e resiste ao ataque dos vermes.
6. Xinhui fica na foz do Xi Jiang, perto da confluência do Tamkong, Lat. 22º 27º N; Long. 13º 06 E.
7. Dong Guan, Lat. 22º 58' N; Long. 4º 00 E, nas margens da baía interior do Zhen Jiang, agora na via férrea de Kow'loon a Cantão.
+49
Grande navio de alto mar do tipo Sha Chuan, com dois mastros e cestos de gávea para os combatentes.
Estes mastros são aparelhados como os dos nossos dias, entre duas grossas peças de madeira visíveis por cima
do convés. Concebe-se facilmente a estrutura destes barcos estreitos em baixo e largos para cima por causa dos
paveses intermitentes que abrigam os remadores e que permitem conservar os remos ao longo da borda quando
não estão em uso. Segundo os historiadores chineses a máquina de guerra chamada Fo Lang Ji (nc 32) foi
fabricada em Cantão em 1521, copiada de um modelo tirado de um navio do reino que tinha o seu nome. Ora Fo
Lang Ji escreve-se com os mesmos caracteres que a palavra “França”, e não há nada de surpreendente, escreve
G. Pauthier no Livro de Marco Polo, que um navio de guerra francês tenha ido ao porto de Cantão por volta de
1521, apesar de poder também ter sido um dos navios do célebre navegador português Magalhães, que atravessou,
em 1520, o estreito que tem o seu nome ( nota 8 ).
O nome de Fa Lang Ji aplicava-se na China aos navios de proveniência ocidental sem distinção de
nacionalidade.
Da Fu Chuan (nc 33) (Estampa 10) O Grande Junco Fuguinense
O Fujianês é grande como uma fortaleza, e pode alojar cem homens; a sua ossada é fina e na parte de
cima é larga, a proa é alta e de largo acesso; a popa é alta e foi aí construído um castelo de três pavimentos. Os
bordos são protegidos de pranchas cobertas de palha e de bambu, o que lhes dá a fortaleza duma muralha. Têm
dois mastros que envergam velas. O interior é dividido em quatro cobertas, sendo a mais baixa inabitável, pelo
que se encheu com terra e pedras a fim de evitar dificuldades de manobra com vento fraco. A de cima (a número
2) é onde dormem os soldados. É um lugar sombrio como uma gaveta, e o acesso é feito por uma escada. Na
coberta número 3 e aos dois bordos instalaram-se duas âncoras ligadas a dois cabos de fibra de palmeira; toda
a manobra de fundear e de levantar as âncoras é feita desta coberta. Por fim, a coberta superior é como se fosse
um tecto plano, ao qual se tem acesso da coberta abaixo por uma escada e um patamar. Este tecto tem um
parapeito de pranchas, em que os guerreiros se apoiam quando atacam o inimigo e donde lançam as suas
flechas, pedras e bombas. Como os barcos inimigos são pequenos tentam, no caso de encontro, causar-lhes
rombos. O inimigo também tem dificuldade em atacar um navio tão alteroso. Na verdade, é uma grande vantagem
numa guerra naval! Só podem navegar com vento de popa, não têm facilidade em virar, e além disso não podem
amarrar perto da costa. Nesse caso têm que fundear, o que necessita o auxílio dos Shao Chuan (ne 34), como
comunicação auxiliar para atingir a costa.
Qi Jiguang (ne 35) (nota 9) diz: Os barcos de Fujian são altos e grandes como uma fortaleza; não podem
ser movidos pela força humana, tudo dependendo da energia do vento.
Os barcos japoneses têm sido pequenos até agora, como o nosso Cang Chuan (nc 36) e é por isso que os
nossos fuguinenses, aproveitando o vento, esmagaram os inimigos como um carro esmaga um insecto. E por
causa da força dos nossos navios e não pela força dos nossos guerreiros que vencemos sempre!
Se o inimigo decidisse construir barcos tão grandes como os nossos fuquinenses, teríamos que mudar de
táctica. Os nossos têm um calado de onze, doze pés, vantajoso no alto mar, mas pouco cómodo em águas pouco
profundas, onde são inúteis.
E por isso que o fujianês se não pode utilizar se o inimigo conseguiu penetrar nas águas costeiras; também
por isso é que se construiu o Hai Gu (nc 23).
Conhecem-se seis categorias de barcos de Fujian, o primeiro e o segundo chamam-se barcos fuquinenses,
o terceiro chama-se Shao Chuan (nc 34), o quarto Dong Chuan (nc 37), o quinto Niao Chuan (nc 38), e o sexto
8. Pauthier comete aqui um erro. Os caracteres que transcrevem “France” foram escolhidos cerca de dois séculos depois do seu
primeiro uso, em que indicavam un ocidental, sem distinção de nacionalidade, como o nosso autor o nota mais abaixo, Pouco depois
os chineses começaram a escrever “France” com um outro caracter EA (= Lei - método),
50
4a > > Ed. >
q VIA db
LH
a, | |
A
WU
E ; 5 ; pia
Estampa 5 Junco de combate Estampa du Junco des ennbto
Estampa 6 Escuna Estampa 6d Escuna
5!
Kuai Chuan (nc 39).
Os dois fujianenses têm uma força formidável e são usados no alto mar para esmagar os navios pequenos,
os Cao Chuan e os Leng Chuan. para o ataque. para a perseguição e para o afundamento. os Niao Chuan e os
Kuai Chuan podem navegar com vento e temporal, enfim os Chao Chuan podem patrulhar ou fazer prisioneiros
os chefes inimigos.
Em suma, se se empregarem os grandes e os pequenos em conjunto, os nossos barcos não podem ser
destruídos é nisso que consiste a manobra fuquinense. Somente nos nossos dias, por razões de economia, a
construção dos navios de guerra é muito barata, o que então não era possível sem diminuir a espessura das
pranchas e dos pregos. Quando se quer um barco robusto é preciso gastar energia e materiais.
O Fujianês número | tem um calado muito grande, é lento e leva tempo à arrancar, por isso hoje usa-se
exclusivamente o número 2.
Cao Pie Chuan (ne 40) (Estampa 11) Junco herbáceo
O Cao Pie Chuan chama-se hoje Shao Chuan (nc 34) e pertence ao grupo dos pequenos fuguinenses.
Cao Pie Chuan, quer dizer literalmente barco herbáceo. Este nome provém do revestimento feito de cascas de
bambu pregadas ao costado, para lhe permitir melhor resistir às vagas. Há a notar duas particularidades:
1º O leme com porta compensada, que só existe hoje nos barcos de rio
2º Asextremidades das vigas (travessas de bordo) que suportam o convés estão à vista, como se pode observar
hoje nos Sha Chuan, e em certos juncos do Zhe Jiang.
Nota-se à proa uma âncora de madeira do mesmo modelo das que se usam nos juncos de alto mar, ao sul
da foz do Yangzi Jiang.
Hai Gu Chuan (nc 23) (Estampa 12) Junco de mar
O Barco de Mar chama-se hoje Dong Chuan (nc 37), ou Shao Chuan (ne 34), 0 que é a mesma coisa,
somente sem cascas de bambu nos bordos.
Qi Jiguang diz : o Hai Gu pertence à classe dos pequenos barcos fuquinenses; o seu calado tem sete ou
oito pés e pode navegar mesmo com brisa fraca. À sua utilidade e a sua força não se podem comparar com os
grandes fuguineses; quando o inimigo é potente e há um encontro, só se pode ganhar se os homens tiverem
força e coragem de lutar até à morte. Os barcos da segunda categoria só podem afundar os inimigos e não são
capazes de repescar ou de aprisionar os chefes inimigos € é justamente por isto que se emprega o Hai Gu.
Este barco apresenta os mesmos dispositivos que os anteriores; só deles difere pela sua proa levantada e
esguia como a dos juncos actuais de Fujian e pelo acrescentamento duma plataforma que sobressai do painel da
popa, como a dos Sha Chuan dos nossos dias. E de notar que nesta publicação os juncos de mar têm todos
mastros colocados na vertical, ao passo que a maior parte daqueles que figuram nas Memórias da China,
publicadas pelos missionários, têm o mastro inclinado para a proa, como acontece ainda hoje em grande
número dos juncos oceânicos.
Kai Lang Chuan (nc 41) (Estampa 13) Junco quebra - vagas
Porque agora se não emprega mais o Niao Chuan (ne 38), constrói-se um navio rápido semelhante ao
Niao Chuan, apenas com diferenças mínimas.
Qi Jiguang diz: O Kai Lang recebeu o seu nome por causa da proa fina; tem um calado de três ou quatro
pés, é equipado com quatro remos e com um remo de gingar. Tem a forma de um pássaro e aloja facilmente
trinta a cinquenta homens. O andamento do navio não depende nem de vento de popa, nem precisa de mar
calmo.
Estampa 8 Junco cantonês de popa estreita
ff Sc
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Etta tese do O)
b ) RISSA
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Estampa 9 Junco cantonês de grande proa Estampa 10 Grande junco fuquinensc
Zhuang Weiyang (nc 42), diz : Um Cantonês não é um Fuguinense, o Cantonês é estreito no fundo e
largo para cima, e não aguenta as grandes vagas; a sua cobertura de bambu inflama-se facilmente com as
bombas incendiárias, o que o diferencia dos Fuquinenses que têm uma cobertura defensiva tão prática como
eficaz para repelir o inimigo (nota 10).
Nos últimos anos o general Hou Guobi (nc 43) construiu um Fuquinense melhorado; os construtores
navais foram consultados e deram a sua colaboração. Aplicou-se um método preconizando a forma cantonesa
abaixo da linha de água e o tecto fuquinenses, de forma que são capazes de cortar vagas enormes e estão
garantidos contra os naufrágios (nota 1).
Distingue-se nitidamente nesta figura um leme de gingar instalado à popa semelhante ao que se usa nos
juncos oceânicos e fluviais ainda hoje, assim como o apoio exterior do remo de bordo, que permitirá colocar
este ao longo da borda, quando não for utilizado.
Nas Memórias sobre os Chineses, que representam o mesmo barco, o mastro de vante é inclinado para a
proa.
Gao Ba Chuan (nc 44) (Estampa 14) Junco de popa realçada
É um excelente navio para o mar, solidamente construído e muito bom para o combate. Assim como o
Chong Guo Chuan (nc 45), (Estampa 16), com o qual se parece muito, tem dois mastros com velas.
A proa é bem lançada como a dos dois modelos precedentes. O homem do leme, assim como o chefe que
dirige o combate com a ajuda duma bandeira, abrigam-se numa superstrutura duma forma que lembra as de
certos juncos do Yangzi Jiang. Ao lado do homem que toca tambor está um outro guerreiro segurando na mão
direita um gongo com a inscrição “Jin” (metal) (ns 46).
Ba La Hu Chuan (nc 47) (Estampa 15) Barco Ba La Hu (nota 12)
O Ba La Hu é muito comum no centro da província de Zhe Jiang e no distrito de Feng Huomen (nc 48)
(nota 13), da província de Fujian. É de construção fina abaixo da linha de água e alarga para cima. A proa e a
popa são idênticas. O casco é construído com balizas direitas. A proa e a popa têm mais ou menos dez pés de
largura, e 0 barco tem ao todo quarenta pés de comprimento, na popa há uma pequena cabine para um funcionário.
No convés, ao longo dos bordos, colocou-se uma longa prancha; os soldados estão sentados de frente
para a popa e remam; cada bordo tem dez ou oito remos. Com a velocidade dá a impressão que se voa sobre a
água. Quando há vento arma-se o mastro e içam-se as velas, colocam-se os remos obliquamente na direcção da
popa que formam assim lemes laterais c quebra-vagas.
São muito práticos para atacar e perseguir os Japoneses; chamam-se também “vela mole” (nc 49) e os
piratas temem-nos grandemente. Mais tarde também se construíram nas províncias de Zhe Jiang e de Tehihli
(nota 14).
Este tipo de barco faz lembrar pela sua forma o que os pescadores empregam correntemente, ainda hoje,
nas costas do Zhejiang e de Fujian. É de notar que a figura não condiz com a descrição acima, no que diz
10. Não conseguimos identificar este autor nem a sua obra (ne 42).
H. Hou Guobi (nc 43) não pudemos descobrir; o título You Yi (nc 88) significa: “um general que não está nomeado para wma região
especial, mas que está pronto a atacar onde for necessário”. O uso moderno desta expressão é “guerrilha”
12. É evidente pelos caracteres utilizados que a palavra “Ba La Hu” é de origem estrangeira. Poderia bem ser a palavra malaia
“perahu” NT: Em português será parau (Gloss. Dalgado).
13. Feng Huomen, comuna de Fujian perto da embocadura do rio Min.
14. Sob a dinastia Ming distinguia-se o Tehihli do Norte (agora chamado Hogei) do Tehihli do Sul que compreendia à parte sul da
província de Shandong, a parte leste do Jiangsu e a parte da província de Anhui, então vizinha do Norte do ZheJiang.
NT O que quer dizer o autor ao chamar “voile mon” ao Ba La Hu, não conseguimos averiguar, o que talvez só seja possível consultando
um texto chinês. À falta de melhor adoptámos a tradução de “vela mole”, que não nos satisfaz. Este pavês não está indicado na figura.
54
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o
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Estampa 1 Junco herbuceo
Estampa 13 Junco quebra - vagas
So:
Esteunpa 12 Junco de mar
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Estampa 14 Junco de popa realçada
respeito à largura do barco “estreito em baixo, largo em cima”, o que implicará, como para o Guangdong Chuan
(Estampa 7), a existência de um pavês articulado permitindo abrigar os remadores e colocar os remos, quando
em repouso, ao longo da borda.
Chong Guo Chuan (nc 45) (Estampa 16) Junco de convés calvo
Qi Jiguang diz : Nos últimos anos melhorou-se o Cang Shan Chuan (Estampa 17) e transformou-se no
Chong Guo Chuan que comparado ao Hai Cang é mais pequeno. Não têm nenhuma superestrutura o que torna
difícil a atracação. Quando se encontram com navios japoneses pequenos ou pouco numerosos podem atacar.
O casco deste navio, como o do Gao Ba Chuan (Estampa 14) é ornamentado com grandes desenhos
compostos por curvas entrelaçadas e irregulares, que. no espírito dos chineses, representam nuvens ou as ondas
do mar. Este género de ornamentação já não existe hoje nos juncos. Talvez se possa ver nesta decoração bizarra
um processo de camuflagem análogo àquele que os navios empregaram durante a grande guerra de 1914 para
tentar enganar o inimigo.
Cang Shan Chuan (nc 50-36) (Estampa 17) Junco de Cang Shan
A proa e a popa deste barco são largas, emprega velas e remos ao mesmo tempo. Com vento da popa
içam-se as velas, com vento de proa rema-se. Os remos estão dispostos ao longo dos bordos para ré da baliza
mestra; cada bordo tem cinco remos, cada remo dois punhos guarecidos por dois homens cada um. Quando os
remos não estão em uso, os punhos são travados por uma prancha e dispostos de forma a arrastar fora do navio.
O barco é dividido em duas cobertas, construídas com pranchas; a inferior é lastrada com pedras e à
superior serve de campo de batalha. O espaço entre cobertas é acessível por uma escada e por um patamar e são
aí os alojamentos. As manobras das velas e dos ferros são executadas na coberta superior, A cada bordo há
decorações em pequenos painéis envernizados. São mais estreitos que o cantonês e o fuquinense, mais largos
que o Sha Chuan. Para enfrentar o inimigo são práticos e manobreiros, além disso os homens de Wenzhou (ne
51) (nota 15) são os mais duros de Cang Shan (nota 16).
O Cang é pequeno, mesmo assim, nos tempos antigos os pescadores de Taiping Xian (nc 52) (nota 17)
empregavam-nos muito, e a sua reputação data dos recontros com piratas e das vitórias que obtiveram. Não
sabiam o que era a derrota e nesse tempo a vida era dura e pobre para todos os pescadores. Desde que os piratas
entraram no nosso país, é preciso que os funcionários se dêem conta que devem dar a vida como os pescadores
de antanho.
Este barco não tem mais de cinco pés acima de água e para as superstruturas outros cinco pés; os barcos
inimigos têm as mesmas dimensões, portanto, as forças são iguais, e não os podemos atacar com o esporão, nem
afundá-los, como se fossem mais fracos. Num encontro com o inimigo vai-se à abordagem e são as armas
brancas a força dos nossos, a sua rapidez e iniciativa que tornam o encontro uma coisa desastrosa para O
inimigo.
Quando os navios piratas são pequenos e chegam às nossas costas, os nossos grandes Fuquinenses e Hai
Cang são inúteis e devemos empregar os Cang Shan para lhes dar caça. Este último tem um calado de seis ou
sete pés como os navios dos piratas € assim os nossos podem capturar os chefes (inimigos) dos mares. Quando
o mar está agitado podem aguentar os movimentos e manter à velocidade, nova vantagem que têm sobre os três
tipos.
O Cang Shan representa, se é possível dizê-lo, o tipo clássico do navio de combate, tal como é mostrado
na maior parte das estampas desta obra. A sua forma é sensivelmente a do Sha Chuan, protótipo do grande
15. Wenzhou, na província de Zhe Jiang; Lat. 27º N Long. 120 1
16. Cang Shan, na província de Zhe Jiang; Lat. 29º 12º N Long. 121º 08 E.
17. Taiping Xian, (Xian = comuna) na província de Anhui.
56
RSeada]
= A
MIL)
MD)
Estampa 16 Junco de convés calvo
Estampa 15 Junco Ba La Hu
Estampa 18 Junco de oito remos
Estampa 17 Junco de Cang Shan
57
navio de comércio usado desde os tempos mais recuados nas viagens longas. Os seus dois mastros são verticais,
ao passo que na obra dos missionários o mastro de vante é inclinado para à proa, como na maior parte dos
juncos modernos. Note-se que na prumada do mastro grande há um canhão de forma primitiva junto do qual
fica de pé um guerreiro batendo num gongo e um segundo tendo na mão à bandeira de comando.
Ba Jiang Chuan (nc 53) (Estampa 18) Junco de oito remos
Só é utilizavel para patrulha e para reconhecimento e não pode atacar O inimigo. Hoje encontra-se nas
províncias de Fujian Shandong, Zhe Jiang e Tchihli (ver nota 14).
Os remos deste junco apoiam-se na extremidade duma travessa fixada ao alcatrate. Este dispositivo permite
colocar os remos na borda, quando não estão em uso. A parte de vante do casco tem por cima da linha de água
uma saliência semelhante à do esporão que terminava a proa dos navios da Antiquidade Grega e Romana. Esta
protuberância que se pode ver na maior parte dos desenhos de juncos da presente obra, representa verosimilmente
o extremo de fortes cintas, formadas de meios troncos de árvores, destinadas a reforçar as ligações longitudinais
do casco.
Ying Chuan (nc 54) (Estampa 19) Junco Águia
Os barcos Sha Chuan oriundos da ilha Chongming (nc 55) (nota 18) podem dar combate ao inimigo;
somente na parte superior não estão protegidos contra as bombas incendiárias do inimigo; como se protegerão
contra as flechas e as pedras? O Sha Chuan não é como o Ying Chuan que tem uma proa e uma popa finas e
iguais e que avança ou recua como um pássaro. Nos dois bordos erguem-se pranchas cobertas com bambus e
pregos juntos uns aos outros como as pranchas protectoras do Fujianês. Entre os bambus há seteiras para lançar
flechas. Os homens podem remar abrigados.
Este barco é primeiramente usado para atacar o inimigo e para forçar o centro da formação inimiga.
Simula ter caído na armadilha, mas os Sha Chuan seguem-no de perto e atacam à arma branca, indo à abordagem
e não podemos deixar de vencer. É assim que a “Águia” e o “Areia” se completam mutuamente.
Este tipo de barco, podendo deslocar-se num sentido e no inverso, já não existe na China. Há alguns anos,
ainda se podia ver em França, nas costas da Bretanha, um navio de pesca chamado “chatte” construído segundo
este princípio e que tinha um leme em cada um dos extremos. Nas Memórias sobre os Chineses este barco é
chamado “barco com tarrafa”.
Yu Chuan (nc 56) (Estampa 20) Junco de pesca
Entre todos os barcos, o barco de pesca é o que pode ser construído com menos materiais e menos
trabalho, contudo, é usado para os trabalhos mais duros. Para o manobrar no alto mar são precisos cinco homens,
um para a vela, outro para o leme de gingar e um para o canhão em “bico de pássaro”.
As velas são leves e não há que recear um naufrágio. Avança com facilidade, vira bem, segue as vagas
subindo e descendo. O inimigo vê-o mas não o apanha. Utilizam-se no alto mar para se consolidar uma vitória
e para tomar os piratas. Os seus esforços são muitas vezes frutuosos.
A forma deste barco lembra a do Ba La Hu (Estampa 15) e a do barco vai-vem (Estampa 2 1) que ainda se
vêem hoje nas costas do Zhe Jiang. O leme de gingar à popa é manobrado por dois homens, um dos quais, para
facilidade de manobra, fica numa prancha colocada no talabardão.
18. Chongming, ilha na foz do Yangzi Jiang ( província de Jiangsu).
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Wang Suo Chuan (nc 57) (Estampa 21) Junco vai-vem com rede
Encontra-se este tipo no litoral de Xiangshan (nc 58) (nota 19) e na comuna de Dinghai Xian (nc 59) (nota
20), junto ao mar. Tem a forma de um vai-vem, o mastro é de bambu, as velas de algodão, podendo ser manobrado
apenas por duas pessoas. Desafiando o mar e as vagas pode sair para o mar alto ou percorrer as imediações das
ilhas para procurar algas (nc 60) (nota 21) e para pescar.
Quando navega entre ilhas, os dois ou três tripulantes saltam do barco e encalham-no na margem, ao
abrigo da maré e quando querem voltar, voltam a pô-lo a flutuar. Contra o inimigo só pode servir para patrulha
e reconhecimento, visto que é o mais pequeno dos barcos de pesca.
QiJiguang diz : O Vai-vem é como o laçadeira de ferro, levando dois homens, mais outros dois à proa é
à popa para remar; se o vento e o mar se tornam muito fortes tiram-se da água para não naufragar. O seu calado
é de sete a oito polegadas; serve para levar mensagens, ou é utilizado nas baías e radas. Começa por reunir-se
uma centena, tripulados cada um por dois ou três homens munidos duma espingarda para pássaros, ou melhor,
de um canhão “bico de pássaro”, são como um enxame de abelhas ou como um formigueiro ao longo das praias
e dos canais. Assim, bater o inimigo é muito fácil e, se o inimigo os surpreende, abandonam um dos barcos, o
que não é uma grande perda.
A descrição deste barco e o desenho assemelham-se em todos os pontos ao do barco de pedais que
descreveremos mais adiante (ver parte descritiva - Baixo Yangzi Jiang). Todavia, neste último barco, o homem
à popa impele um remo com os pés e governa com uma pá de remo que segura debaixo do braço. As pequenas
dimensões deste barco não lhe permitem aventurar-se fora dos cursos de água e lagos abrigados.
Liang Tou Chuan (nc 61) (Estampa 22) Barco com duas cabeças
Já no Da Xue Yan Yi Bu (nc 62) (nota 22) havia um parágrafo sobre o Liang Tou Chuan ; o Liang Tou
Chuan é usado para transportes marítimos. É de grandes dimensões e quando encontra vento forte torna-se de
difícil manobra. Para este efeito colocou-se-lhe um leme em cada extremo; em caso de vento Leste ruma-se
para Oeste e em caso de vento Sul, ruma-se para Norte.
De entre os navios de longo curso, nenhum é tão apto a desempenhar funções de guerra. Não têm receio
de um desastre e nada os impede de se desviarem: isto não acontece sem que tenham procurado reforços, ou
quando suponham que as flotilhas inimigas começavam a dar sinais de desordem. Atacando com eles o inimigo,
mesmo os piratas mais disciplinados serão desorganizados pelos nossos.
O Liang Tou Chuan representa, sob uma forma pitoresca, ou melhor, simbólica, um tipo de navios análogo
ao Ying Chuan (Estampa 19), também ele equipado de um leme em cada um dos extremos.
Uma guerra naval não mete medo aos soldados de infantaria, o que parece ser o caso dos povos Sha. Os
Sha vivem à borda de água e conhecem muito bem os caprichos do mar. Saem e entram com vento favorável e
voltam às suas terras planas da província de Tehihli do Sul . Também os encontramos nas comunas de Taicang
(nc 65) (nota 23), Chongming (nc 55) (ver nota 18) e Jiading (nc 66) nota 24). Os Sha só se podem utilizar para
reconhecimento nas radas e nos mares muito próximos. Quando se quer ir além das ilhas Maji Shan (nc 67)
(nota 25), Chengian Shan (nc 68) (nota 26), etc, é-se obrigado a usar os Fujianenses, Cang. ou ainda os Guangdong,
19. Xiangshan, na província de Zhe Jiang; Lat. 29º 29º N Long. 121º SN E,
20. Dinghai, na província de Zhe Jiang; Lat. 30º 03" N Long. 122º 06 E.
21. Algas: Porphyra laciniata ou Porphyra vulgaris, ambas muito procuradas na China.
22. O Da Xue Yan Yi Bu (nc 62), em cento e sessenta e tal volumes, obra enciclopédica completada por Qiu Jun (nc 63) nos fins do
século XV.
23. Tai Cang, na província de Jiangsu: Lat. 31º 28'N Long. DI O7E,
24. Jiading, na província de Jiangsu.
25. Maji Shan, na província de diangsu: Lat. 30º 42º N Long. 122º 26' E.
26. Chengian Shan, na província de Jiangsu; Lat. 30º 4 N Long. 122º 48º E,
59
PEER, É Nam
Estampa 19 Junco Aguia Estampa 20 Junco de pesca
Estampa 21 Junco vai-vem com rede '
li de Estampa 22 Junco com duas cabeças
60
Hubei, etc. Pode melhorar-se o Barco da Areia de modo a dar-lhe um bom comportamento no mar com mau
tempo. Podem usar-se nos mares do Norte e não nos mares do Sul. porque uns são pouco profundos e os outros
não. Têm fundo chato. não podendo portanto cortar as grandes vagas de um mar profundo. Por outro lado, os
mares do Norte têm ondas de fundo e o Fujianês e o Cang Shan Chuan com as suas formas finas receram-nas
muito, enquanto que o Barco da Arcia não as receia. Nos mares do Norte pode-se usar uma âncora de ferro,
enquanto que nos mares do sul se podem usar só âncoras de madeira (nota 27).
Mao Xibing (nc 69) (nota 28) diz: Uma antiga lei promulgada pelo Imperador Tai Zu (nc 70) (nota 29)
regulamentava rigorosamente os barcos de dois mastros e proibia-os de sair para o mar secretamente. Há muito
tempo que estamos em paz e esta lei caiu em desuso, e os barcos de dois mastros passaram a estar em voga, e até
os há de cinco mastros. Um grande veleiro do Yangzi Jiang percorre assim mil “17” por dia (594 quilómetros =
320 léguas marítimas).
É a razão pela qual os navios “areia” entram nas baías depois de terem deixado os mastros de vante no
estuário onde se aluga um porta-voz que corre as repartições ao longo do mar para provar que sem dois mastros
não convém, e manifestar a esperança de que o seu uso secreto venha a ser permitido. Afinal pode-se manobrar
com um ou dois mastros; é tudo uma questão de velocidade.
Está estipulado que os povos Sha só têm direito a um barco por família; que os barcos da Polícia que
necessitam de velocidade possam ter vários mastros e lemes de gingar, como os barcos Liang Chuan (nc 7X nota
30).
Os barcos da Polícia devem ser de um modelo determinado, que permita reconhecê-los nos rios ou no
mar alto. Os outros Sha Chuan só têm direito a um mastro, sendo proibida mais do que uma enora. As autoridades
da Província e das comunas são incumbidas de o conseguir no prazo de um mês sem contemplações. Os
reincidentes serão considerados como inimigos susceptíveis de serem capturados por toda a gente: os que
derem informações serão largamente recompensados. Só se podem levar as velas e os mastros de reserva para
reparar as avarias que sobrevenham no mar, e é-se limitado a uma enora. Tudo isto me parece pouco mais ou
menos assim: Eu faço sempre um barco robusto e ele um barco fraco; ou: eu, um que é rápido e ele um que é
lento. É uma Lei da Construção Naval bem justa!
Este nome de Sha Chuan ainda é hoje dado aos navios oceânicos que cruzam as costas arenosas de
Shandong e de Jiangsu (ver parte descritiva - Costas do Norte). Os habitantes destas regiões são chamados
“habitantes da areia “e os seus navios “navios da areia”. Os navios actuais têm quatro a cinco mastros, dos quais
três móveis. As vezes são armados com um canhão visível no interior através duma portinhola aberta no painel
da popa. No capítulo dedicado aos mastros encontram-se algumas observações relativas aos mastros
suplementares.
Wu Gong Chuan (ne 72) (Estampa 24) Junco centopeia
Este navio tem a forma duma centopeia; é oriundo do SE (nota 31), e equipado com canhões portugueses,
tendo os mais pesados mil “Kin” (505 quilos) e os mais leves cento e cinquenta “Kin” (75 quilos). O seu efeito
é violento. Podemos proteger-nos deles com madeira, pedras, bronze ou estanho, de maneira que nada seja
destruído, que nada seja queimado. A velocidade dos seus projécteis é parecida com a do trovão e do relâmpago,
27. Esta observação não tem qualquer valor náutico, o emprego das âncoras indicadas foi determinado por outras circunstâncias, que
nada têm a ver com a profundidade do mar.
28. Mao Xibing não foi identificado.
29. Provavelmente o Imperador Ming Taizu. que ascendeu do trono em [368 e morreu em 1399,
40. Os Liang Chuan carregados de arroz proveniente de taxas cobradas nas províncias, tinham prioridade a fim de chegarem à capital
sem demora.
31. Sudeste quer dizer : Malásia.
6!
nada sendo mais desastroso que a sua força, nem mais acutilante que a sua energia. Em suma, o mais maravilhoso
produto do talento dos Bárbaros das Ilhas (nota 32).
Este método propagou-se e penetrou na China e serviu-nos para resistir aos invasores; todas as nossas
peças de artilharia, os nossos canhões, as nossas flechas, as nossas lanças e as nossas bombas eram inferiores às
suas armas e por isso a sua construção, que data de 1525, foi abandonada em 1534. Neste intervalo de vários
anos não houve nenhum exemplar que não provasse a sua grande eficácia. Ge Zhichuan (nc 73) (nota 33) diz:
“O espírito da Centopeia pode submeter a Serpente” e o princípio de construção naval não é diferente. E
precisamente por isso, que mesmo com mares calmos e rios tranquilos, se quis durante gerações aumentar a
força da Serpente Comprida, mas isso não aconteceu, de tal forma que nunca pôde ultrapassar a potência que
pertence à construção do Centopeia. Daqui proveio que o nome deste último se estabelecesse e fosse perpetuado.
No alto mar este barco é muito rápido; só ventos contrários é que o podem atrasar. Em Dacang Guo (nc
75), Sudeste de Zhangzhou (nc 74) (nota 34), os Bárbaros das Ilhas de Sonda foram obrigados todos os anos à
esperar pelo vento noroeste, no começo do inverno, para poder partir, e o vento sudeste, no começo do verão,
para voltar, o que quer dizer que um navio não pode navegar sem vento favorável.
Só o Wu Gong Chuan dos Fo Lang Ji com a sua querena fina e o seu largo convés, com os bordos
apetrechados com várias dezenas de remos, pode navegar a grande velocidade sem receio de naufragar, outra
razão para imitar o método de construção deles. A não ser que um tufão cause uma tempestade terrível, nada
parará o seu avanço. Além disso, nestes mares há duas marés por dia e, se as seguirmos, hão-de percorrer-se
várias centenas de Li por dia, se nos amarrarmos aos remos e aos remos de gingar.
Da mesma forma que o Navio de Duas Cabeças (estampa 22), a que foi buscar o carácter simbólico, o
Centopeia não pode ser identificado com nenhum dos outros navios actualmente em uso.
Niao Zui Chuan (nc 76) (Estampa 25) Junco bico de pássaro
Vem de Wenzhou (ver nota 14), Taizhou (nota 35), Chongming, Haimen (nota 36) e de outros locais, e
tem a proa em forma de bico de pássaro. Quando há vento, içam-se as velas; sem vento, rema-se. O comprimento
é de quarenta a cinquenta pés. As gentes do Sul empregam-no também para a pesca. À proa recurvada para
cima. em forma de voluta, lembra a de alguns juncos actuais que navegam na bacia do Yangzi Jiang.
Yuan Yang Jiang Chuan (nc 77) (Estampa 26) Junco patos mandarins
Colocam-se dois barcos amarrados um ao outro. A forma parece a de um barco antigo com paveses de
madeira. Não se empregam mastros. Cada um tem o comprimento de trinta e cinco pés e a largura de nove pés;
no paiol de mantimentos colocam-se peles de boi verdes e escondem-se os instrumentos de guerra. Oficiais
valentes remam; há 4 remos por bordo. No paiol há orifícios para lançar flechas pelos dois bordos. Quando o
inimigo se aproxima os dois barcos remam com fúria. Quando se estiver próximo, partem-se as amarrações, €
o barco divide-se em dois que atacam o inimigo, um por bombordo e outro por estibordo o que aumenta as
dificuldades de escapar. É vencido sem apelo nem agravo.
Segundo a História Natural Chinesa, os patos mandarins vivem sempre como um casal, o macho e à
fêmea sendo inseparáveis, donde o nome dado a estes dois barcos acoplados.
32. As ilhas de Sonda, em geral a Malásia, donde vinham os primeiros visitantes ocidentais, Os Portugueses e os Holandeses.
33. Ge Zhichuan, famoso alquimista do século IV, ver Giles: À Chinese Biographical Dictionary nº 978.
34. Zhangzhou, distrito na província de Fujian; Lat. 24º 15º N Long. HA ADE.
O país chamado Da Chang é na baia de Xiamen.
35. Taizhou, na província de Zhe Jiang; Lar. 28º N; Long. [21º E,
36. Haimen, na província de Zhe Jiang; Lat. 28º 43 N; Long. 121º 25" E.
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Estampa 24. Junco centopeia
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Junco patos mundarins
Estampa 26
Junco bico de pássaro
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Estampa 27. Junco mãe e criança Estampa 28 Junco de rodas
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Estampa 29. Junco dragão vermelho
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Estampa 30 Junco dragão de fogo Estampa 31 Juncos ligados por correntes
Zi Mu Zhou (nc 78) (Estampa 27) Junco mãe e crianç:
Comprimento total: trinta e cinco pés, a parte de vante tendo vinte pés e sendo do modelo de um navio de
guerra antigo; e a parte de ré, com quinze pés, de dois costados laterais de um casco vazio, no qual se esconde
um pequeno barco. Uma vez em posição é coberto de pranchas para abrigar os homens, e há quatro remos por
bordo. Também há remos na parte de vante, chamada “Mãe”, para o caso do vento virar. No porão de vante
esconde-se palha, cânhamo embebido em óleo, ligado a uma mecha que por sua vez está em comunicação com
um barril de pólvora negra. A parte de vante é consolidada com pregos de aço, serrados em forma de dentes de
lobo, e pontiagudos. Se se aborda o inimigo com o auxílio de cabos de grande bitola, passam-se ganchos do
porão do nosso navio ao casco do inimigo, e amarram-se os navios solidamente. De alto atiram-se flechas,
atiram-se pedras e por fim pega-se fogo à “Mãe”, que arde com o inimigo. Em seguida os nossos soldados
desligam a “Criança” e voltam à sua base.
A descrição minuciosa deste género de barco revela-nos uma armadilha de guerra inédita nos países
ocidentais, a que certamente não falta engenho. A armadura de pregos em dente de lobo, colocados avante faz
o papel do “corvo” lançado pelos Romanos sobre o navio inimigo, a fim de o imobilizar e transformar o
combate naval numa batalha terrestre.
Che Lun Ge(ne 79) (Estampa 28) Junco de rodas
Tem um comprimento de quarenta e dois pés e uma largura de treze pés. Por fora do casco e nos dois
bordos fixa-se uma prancha de um pé de largura, e entre essa prancha e o casco montam-se quatro rodas. Estas
rodas imergem cerca de um pé e são movidas pela força humana à uma grande velocidade. A parte de vante é
chata e tem um comprimento de oito pés; o porão do centro tem vinte e sete pés de comprimento e o da popa
sete. Por cima dela há uma casa de leme. O porão do centro é coberto a todo o comprimento por um abrigo de
pranchas; as dos bordos são móveis, e têm duas vezes cinco pés de largura cada uma. Estão penduradas e podem
65
rodar sobre os seus gonzos como taipais.
Ao aproximarmo-nos do inimigo faz-se primeiro fogo com os canhões, as flechas e as bombas incendiárias,
que estão no abrigo invisível para o inimigo. Quando a força esmorece, abatem-se de repente estas pranchas
móveis que ficam verticais como se fossem muralhas do bloco central, Empregam-se por toda à parte peles de
boi verdes, para proteger os homens do centro que lançam as suas bolas de fogo, as suas lanças, e fazem fogo
com os canhões até que o inimigo seja queimado ou destruído.
O barco de rodas accionado pela força humana ainda se usa na China, nos rios de Guangdong, com a
diferença de as rodas laterais terem sido substituídas por uma roda só, à popa, para facilitar as evoluções por
entre os numerosos navios que sulcam esses rios. As peles de boi, sobre as quais estão representadas cabeças de
tigre, estavam fixadas em painéis móveis que serviam de abrigo aos combatentes e que se abatiam antes da
abordagem.
Chi Long Zhou (nc 80) (Estampa 29) Junco dragão vermelho
A forma deste barco é a de um dragão; tem três cobertas onde se guardam os instrumentos de guerra e as
bombas. A proa representa a cabeça de um dragão com a goela aberta, onde se coloca um soldado para observar
os movimentos do inimigo. As costas do dragão estão cobertas de bambu, de castanhas (trapa bicornis), de
pregos e de grampos por toda a parte; aqui, poucos; ali. muitos, de maneira que tudo está fortificado até à
coberta superior.
No ventre, há uma pequena porta de ferro que conduz à coberta central, com um patamar para passar
duma para outra e para o abastecimento em bombas. A cada bordo há um remador e uma armação de madeira
para alar o navio por meio de varas. Este navio é construído para brulote. O casco tem balizas e o porão está
chapeado de ferro. Mesmo sacudido pelo vento e pelas vagas, não se pode afundar. A vante há um só mastro que
enverga velas; há uma janela donde um soldado manobra o leme. Há dois homens que fazem de vigias e mais
dois que se revezam aos remos. A construção é programada para que várias centenas destes barcos sejam
construídos ao mesmo tempo. Toda esta frota vagueia pelos rios como dragões vermelhos, à espera dos piratas
que empurram para as margens para os abater com uma avalanche de fogo, de nuvens venenosas, de flechas,
etc.
Huo Long Chuan (nc 82) (Estampa 30) Junco dragão de fogo
Na guerra terrestre empregam-se carros, na guerra naval empregam-se barcos de um modelo especial.
Já no Wu Jing(capítulo No.1 1 da are marcial geral) (nc 83)(nota 37) havia uma estampa do barco de
guerra Meng Chong (Estampa 2a, a comparar com a Estampa 2). Este foi construído segundo este modelo e
pertence portanto à classe dos Juncos de Mar. E revestido a toda a volta com peles de boi verdes ou de bambu.
Com estas duas coberturas pode resistir às flechas e às pedras. Na parte superior fizeram-se portinholas para os
"anhões e seteiras para atirar flechas contra o inimigo. Tem três cobertas: a superior, a central e a inferior. À
proa e à popa têm um patamar, que não se vê do exterior, para comunicação entre a coberta superior e a inferior.
As cobertas são revestidas de pranchas reforçadas com facas e pregos. A cada bordo instalaram-se remos ou
mesmo rodas, o que faz com que, para cavalgar as vagas ou romper contra o vento, os movimentos sejam
rápidos.
Contratam-se quatro homens como marinheiros cuja tarefa é, logo que se encontra o inimigo, simular à
derrota, enquanto os heróis estão escondidos nos porões. Estes quatro homens deitam-se ao mar e fogem, e
espera-se que o inimigo aborde o nosso barco. Serão tentados a entrar todos de roldão na coberta protegida com
37. Wuding: título abreviado de Wu ding Zong Yao, em quarenta capítulos, de que o quinto contém a passagem citada no nosso Tou
Chou Tsi Tcheng. O Wu Jing foi compilado por Ceng Gongliang e outros, nas primeiras décadas do século XI.
66
pranchas reforçadas com facas e pregos. Os que sobem são feitos prisioneiros e são algemados; o resto pode ser
acabado mesmo por desajeitados ou por mulheres doentes.
E os nossos soldados! Quando atacam e penetram nas linhas inimigas, os nossos barcos levam matérias
inflamáveis escondidas nos seus dois flancos - mais de 100.000 libras. Ataca-se à esquerda e à direita; a nossa
força é irresístivel. Um destes barcos vale bem uma dezena dos que se empregam de ordinário.
Infelizmente, bem cedo, os outros também os virão a empregar.
Lian Huan Zhou (nc 84) (Estampa 31) Juncos ligados por correntes
De um comprimento de cerca de quarenta pés, de longe podem ser tomados por um só navio. Na realidade
está dividido em dois: a parte de vante é um terço do total, c a de ré, dois terços. Estas duas partes estão ligadas
por arganéus. A vante há grandes canhões que lançam nuvens, areia tóxica, fogo e outras coisas semelhantes. A
proa é farpeada com pregos aguçados em forma de croques com as pontas para vante. A parte de ré tem dois
bordos com vários remos e leva soldados. Para atacar o inimigo toma-se um vento ou uma corrente favoráveis
e procura-se cortá-lo da base. Com os pregos da proa lançamo-nos contra o barco inimigo; os arganéus
desengatam-se e a parte de ré pode voltar à base. Os inimigos atacados ficam aterrorizados pelo uso destes
mecanismos, um projecto extraordinário de guerra naval!
Os dois arganéus são grandes, redondos e em ferro, e os dois gatos de vante e de ré são também em ferro.
Com o choque da abordagem estes gatos desengatam-se e a parte de ré pode voltar à base.
Este barco, dizem-nos, tinha “bombas tóxicas, pedras miraculosas e fogos envenenados”. Os chineses
foram, portanto, precursores dos Ocidentais na invenção dos piores meios de destruição, mas é forçoso reconhecer,
para seu crédito, que não perpetuaram o seu emprego até aos nossos dias.
67
RELAÇÕES COM O ESTRANGEIRO
A China foi em todos os tempos um país pacífico. Soube, graças às suas tradições milenárias, conservar
as suas instituições, as suas leis, Os seus costumes, apesar dos ataques de invasores que tiveram que recuar ou
deixar-se absorver por uma população desprovida de todos os meios de defesa, tanto em terra como no mar, O
instinto de segurança incita-a a ficar no seu país, onde encontra na riqueza do solo, todos os elementos necessários
à subsistência dos seus habitantes. É aqui que se tem que ir buscar a explicação para a sua ausência tradicional
de expansão, e acima de tudo, pelo seu desejo de manter completo isolamento face ao estrangeiro. Enquanto as
outras nações procuram garantias de poder e de prosperidade nas relações comerciais, a China nunca deixou de
opor, em todas as épocas, um dique às influências externas, pondo os seus cidadãos ao abrigo de qualquer
contacto com o estrangeiro. O seu governo nunca ignorou que logo que a bandeira chinesa fosse desfraldada em
navios capazes de empreender navegações de longo curso, a sede das riquezas, tão intensa nos chineses, levaria
os capitães aos extremos do Mundo. A influência do estrangeiro estender-se-ia desde então a ela, não só pelo
contributo do comércio, mas também pela introdução de procedimentos industriais, susceptíveis de romper a
harmonia da economia interior que assenta essencialmente sobre a igualdade da produção e do consumo. Partindo
desta base, os Imperadores quiseram tornar as viagens de longo curso impossíveis, impondo aos construtores e
armadores de navios, sob pena de sanções muito severas, dimensões e formas de navios quase impróprias para
navegações de longo curso, proibindo-os de lhes introduzirem alterações por mínimas que fossem. Desde então,
seria extraordinário que a arte náutica, assim jugulada pelos Éditos Imperiais, tivesse feito quaisquer progressos
num povo que pouca disposição tem para caminhos aventurosos.
Hoje, que esses Éditos já não têm força de lei, numerosos juncos de modelos ultrapassados continuam a
comerciar exclusivamente nos mares da China. O seu número diminui de ano para ano, para dar lugar aos
navios a vapor, mas se bem que estes tenham toda a latitude para estabelecer relações com países estrangeiros,
a tradição inveterada do isolamento domina ainda o interesse; deixou tal marca no chinês, que este continua,
como os seus antepassados, a ficar em casa. Como no passado, os juncos são construídos segundo os mesmos
modelos primitivos, sem que lhe seja introduzido qualquer melhoramento, que lhes permita o comércio com
países longínquos.
Em rigor, esta obstinação pode explicar-se pelo espírito de rotina, que é tão próprio dos construtores
chineses. Mas, não deveria acontecer o mesmo para à marinha de vapor, construída a maior parte das vezes no
estrangeiro, ou por estrangeiros, que também ela fica confinada aos mares da China, se bem que as suas
características lhe permitam enfrentar as nações mais arredadas. Assim, chegamos à surpreendente constatação
de que o maior império do mundo, pela sua extensão e pela sua população, interdita qualquer contacto marítimo
com o estrangeiro; nem os navios de comércio, nem navios de guerra mostram a bandeira nacional no exterior.
58
DESCOBERTA DA AMÉRICA PELOS CHINESES
No entanto, os chineses nem sempre tiveram falta de iniciativa para as viagens longínquas. Não se admite
que a América foi descoberta pelos chineses, pelo menos 1.000 anos antes que Cristovão Colombo aportasse à
ilha de São Salvador? Esta opinião está confirmada por uma descoberta arqueológica feita numa localidade das
Honduras chamada Copan*. Esta localidade possui um monumento em ruínas no qual se reconhece uma figura
esculpida que não é outra senão o Tai Ji (nc 85), um dos símbolos mais venerados pelos chineses (ver a descrição
no capítulo: Ornamentos dos juncos). Segundo o fundo religioso deste povo, o Tai Ji é a fonte de tudo. Ea
essência de todos os seres, é. de certo modo, o deus soberano. Ora, encontrar este símbolo num monumento
americano não é uma prova séria do bom fundamento da opinião que faz provir da Ásia a corrente civilizadora,
de que o Perú e o México sentiram outrora a influência ?
Supõe-se que o monumento de Copan remonte ao século XIII da nossa era, mas foi no século IV que os
chineses, ou talvez os japoneses, pela primeira vez abordaram a América.
O Senhor de Quatrefages, num trabalho publicado em São Francisco, emitiu a opinião de que as relações
entre os dois continentes devem ter tido por origem o desvio de um junco à deriva em direcção à Califórnia.
Estes juncos não teriam atravessado o Oceano Pacífico em linha recta, mas teriam abatido para Norte, por efeito
das correntes, e teriam então alcançado a península do Alasca ou uma das Ilhas Aleútes e, depois, seguindo a
costa, teriam chegado à Califórnia. Teria sido aqui que se teriam estabelecido relações entre os chineses, ou os
japoneses, e os aborígenes mexicanos.
Certos relatos antigos provam que os chineses tinham tanto espírito de iniciativa como os habitantes de
qualquer nação ocidental da Europa da época.
Na dinastia Tang (século X d. c.), dizem os anais que os habitantes de Cantão fretaram barcos estrangeiros
- sem dúvida Árabes - para comerciar com a ilha de Ceilão. Levaram pombos correios e serviram-se deles para
enviar cartas. Os Mongóis, indo da China para a Pérsia, estabeleceram relações por mar entre estes dois países
com grandes frotas, levando embaixadores e mercadorias. Esta longa e arriscada viagem era realizada na época
da monção de Nordeste, e acabava com a de Sudoeste, que os trazia de regresso aos mares da China.
Bem antes de Vasco da Gama, os chineses já tinham visitado a Índia, o Golfo Pérsico e a Arábia e mesmo
a costa de África até ao Cabo da Boa Esperança. Os anais de Ormuz mencionam que se tinham visto no Golfo
Pérsico 400 navios chineses carregando uma infinidade de mercadorias preciosas.
A confirmação destas viagens longínquas é-nos dada por Marco Polo no relato da sua viagem de volta à
Europa, pelos começos do ano de 1291. Marco Polo, acompanhado do pai, do tio e de três embaixadores
indianos, deixou as margens do Bei He para se dirigir à Índia por via marítima, e de lá, voltar à pátria por via
terrestre. A expedição era composta por catorze navios, postos à disposição dos viajantes por Koubilai Kan.
Estes navios, de dimensões diferentes, tinham quatro mastros que podiam envergar até nove velas e
mesmo doze. Quatro ou cinco tinham tripulações que iam de 250 a 260 homens. O conjunto da flotilha
compreendia cerca de 1.500 homens, e tinham abastecimento de víveres para dois anos. Depois de uma navegação
de três meses chegaram à ilha de Samatra, e daí levaram dezoito meses para chegar a Ormuz, objectivo final da
sua viagem ao reino de Arpão.
*) Ver artigo publicado na “L'Hlustration” de 30 de Outubro de 1886 (e nota 38 na página seguinte),
69
Citámos este episódio da viagem de regresso de Marco Polo à Europa, porque ele nos esclarece sobre a
duração da travessia que os chineses deviam prever para se dirigirem à entrada do Golfo Pérsico. Ressalta de
certos factos mencionados por Marco Polo que a partida das margens do Bei He, teve lugar provavelmente no
começo do ano de 1291, época mais favorável para rumarem ao Estreito de Malaca, sob o impulso da monção
de Nordeste. O relato não indica quanto tempo estiveram em Samatra. A partida desta ilha foi, sem dúvida,
subordinada à chegada da monção de Nordeste, que lhes devia permitir transpor a longa singradura do Oceano
Índico, depois de os ter levado a Samatra. Mas esta monção cai progressivamente em Março e Abril, para dar
lugar à de Sudoeste, que sopra no Golfo de Bengala e no Golfo da Arábia do mês de Maio até ao fim de
Setembro. Os viajantes chegaram a Samatra na mudança da monção e, estiveram assim imobilizados no
ancoradouro durante longos meses à espera que a monção de Nordeste voltasse, o que não acontece senão em
Outubro.
Isto parece ser a explicação mais plausível da lentidão desta travessia que, em circunstâncias normais,
com a escolha judiciosa do momento da partida, poderia ter sido consideravelmente abreviada. Isto, é claro,
salvo qualquer incidente que tivesse havido a bordo.
(Nota 38, 39)
38. Explorámos esta informação, mas não encontrámos nenhum relatório científico sobre este assunto. Nem na Holanda, nem na
América se confirmou esta descoberta. (Informação do Reference Dept. Orientalis Division, Library of Congress, Washinton, DC.)
39. Sobre as viagens marítimas, ver também, entre outros, no T'oung Pao, vol. XVI. pg. 71, W. Rockhill: “Notes on the Relations and
Trade of China with the Eastern Archipelago and the Coast of the Indian Ocean during the XIV century”. vol. XXX, pg. 237 452. P.
Pelliot: “Les grands voyages maritimes chinois au début du XViême siêcle”. vol XXXI, pg. 274-31 di, Notes additionelles sur Tcheng
Houo et sur ses voyages.vol, XXXH, pg. 210-222i, “Encore à propos des voxages de Tcheng Houo. “vol, XXXIV. pg SALA SAL.
Duvvendak: “The true dates of the Chinese Maritime Expeditions in the early fifteenth century". no BE EE O.vol. IV 904, py. 131
440i, PPelliot: “Deux Itineraires de Chine en Inde."nos Verhandelingen der Kon. Akademie v. Wetenschappen.afd. Letterkunde N.R.
XXXH.nº 3, J.J.L. Duyvendak: “MA Huan Reexamined. "no Journal of the China Branch Royal Asiatic Society N.S, XX pg. 209-226, XXI
pg.30-42; G.Phillips:“The Seaports of India and Ceylon, described by Chinese Voyagers of the |Sth century, together with an account
of Chinese navigation from Sumatra to China.”nos Monumenta Cartographica Africae er Aegypti Tomo IV fascículo 41939; TAL
Duyvendak:“Voyages de Tcheng Houo.”
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CONSTRUÇÃO DO JUNCO
ORIGENS DA CONSTRUÇÃO
Os primórdios da arte da construção naval ficaram envolvidos na China, como de resto nas outras nações,
na mais profunda obscuridade. Bem numerosos, contudo, são os anais que mencionam factos interessantes
sobre a navegação costeira ou interior, sobre os combates travados pelos navios chineses, mas, por uma anomalia
singular, esses anais, tão ricos em pormenores históricos, deixaram-nos bem poucos documentos sobre os navios.
Os antigos cronistas dizem que as folhas, quando no Outono caíam na água e flutuavam, sugeriram pela
primeira vez aos chineses a ideia de um barco. Outros, atribuem esta origem ao ter-se visto madeiros flutuantes
que, pela sua reunião fortuita devida aos caprichos das correntes, constituiram à primeira jangada na qual o
homem se aventurou.
Desses extractos de textos antigos, imagina-se que a Marinha Chinesa devia compreender, como hoje
ainda, um número prodigioso de navios, numa época em que os países ocidentais estavam ainda mergulhados
na barbárie. Encontramos no Yi Jing (ne 1), 0 mais antigo e o mais venerado dos Livros Sagrados da China,
composto segundo se diz por Fu Xi (nc 2) (nota À), 2.900 anos a.C, uma breve menção no tema da origem dos
barcos, reproduzida por Confúcio (551-479) no seu Livro das Mudanças que se inspira no Yi Jing (nota B). O
célebre filósofo explica que Form Hi construiu os primeiros barcos afeiçoando pranchas e desbastando ramos
para fazer remos.
Outros anais atribuem a invenção dos barcos ao Imperador Huangdi (nc 3) (2698 a.c.) ou ainda ao célebre
Imperador Yu (nc 4) (2286 a.c.) ao qual a tradição atribui a execução dos maiores trabalhos do Império. Segundo
outros autores, os primeiros navios foram construídos somente no HT século antes da nossa era. Um relato
atribui esta invenção a uma pia mulher chamada He Xiugu (nc 5) (nota €), que foi divinizada e tomou lugar
entre “Oito Espíritos” chamados Ba Xian (nc 6). Esta mulher tinha a faculdade de se deslocar muito rapidamente,
sobre a terra e sobre a água. O seu primeiro barco foi uma simples jangada sem qualquer meio de propulsão.
Mas um dia em que lavava roupa no rio, observou um peixe que andava com as suas barbatanas e governava
com a cauda. Teve assim a ideia do remo e do leme que adaptou imediatamente ao seu barco.
Os anais são unânimes em dar à invenção do barco, uma origem exclusivamente chinesa, nenhum deles
emitindo à opinião que esta invenção pudesse ter sido trazida ou sugerida por viajantes ou emigrantes vindos de
regiões distantes, como a Caldeia, por exemplo, que foi sem dúvida (nota D) o berço primitivo dos chineses,
como o dos principais conhecimentos humanos.
Os anais dizem-nos que 27 séculos antes da nossa era, a China sabia fundir e cinzelar o bronze, que cerca
de 2220 a. c., a técnica do bronze já estava aperfeiçoada.
A. E escusado dizer que o lendário Imperador Eu Xi não compôs o Yi Jing: esta obra foi composta numa época posterior, segundo os
Hexagramas que se atribuem a Fu Xi.
B. Confúcio não escreveno Livro das Mudanças. Trata-se, sim. dos apêndices do Yi Jing atribuídos «a Confício.
Ver: C de Hartez, O Hi Jing, apêndice H Hi-Sze. Secção 2, página 123. "Escavando a madeira fizeram navios, aparelhando-a e
polindo-a fizeram remos”.
C He Xingu; o nome foi mal copiado. Não pudemos descobrir este relato.
D. O nosso autor parece ter sido influenciado por Terrien de Lacouperie Western Origin of the Early Chinese Civilisation. Londres
1894.
79
Não seria portanto surpreendente que os chineses, tão hábeis no trabalho dos metais, tivessem podido
construir. numa época muito antiga, navios em ferro ou em cobre seguindo uma técnica que lhes era própria. À
história (nota E) do bairro de Jiaozhou (ne 7) relata-nos, sobre este assunto que no distrito de Anding (nc 8) se
encontrava o navio de cobre de Gou Jian (ne 9), rei de Yoré (ne 11) que reinava no ano de 465 antes da nossa
era. Estava enterrado na areia e só se via na maré baixa. Segundo à enciclopédia chinesa Cheng Zhai Za Ji (nc
10). 0 célebre Huai Nanzi (nc 12) que vivia pelo ano 160 a.c.. fala de navios inteiramente construídos em ferro.
Lê-se, além disso, na colectânea Shi Yi Ji (nc 13) que, entre 265 e 419 da era cristã, quando o rei de Ran Quu (ne
14) mandava levar o tributo, o seu embaixador embarcava num navio inteiramente construído com folhas de
cobre, que o conduzia à capital. (Extractos dos livros Chineses por Stanislas Julien. que foram objecto duma
comunicação à Academia das Ciências (T. XXIVI 847), sob o título “Nota sobre o uso militar dos papagaios e
sobre os barcos e navios de ferro e de cobre”).
É preciso aceitar com uma grande reserva estes testemunhos antigos sobre a existência de navios inteiramente
construídos em metal. A técnica de construção em ferro é de criação recente; foi inspirada, nos países ocidentais,
por necessidades imperiosas que não conheceram os povos antigos: necessidade de produzir navios mais rápidos
e com mais espaço, sendo. para a mesma tonelagem, o peso do casco menor que o dos navios de madeira. A
adopção das máquinas a vapor, dos canhões de grande calibre e das couraças não poderia fazer-se senão por um
aumento da resistência e da solidez, que só a utilização do metal podia permitir. Os chineses nunca tiveram que
enfrentar tais necessidades. Os anais chineses não dão nenhuma informação sobre estes navios pretensamente
“construídos inteiramente em ferro”. Assim. por falta de dados precisos. ficamos reduzidos a tecer várias hipóteses,
sendo a mais verosímil aquela que toma o uso do metal sob a forma de um simples revestimento aplicado no
casco a fim de abrigar os combatentes dos golpes do inimigo, ou então proteger a querena da acção do taredo.
Na China, o revestimento da querena é raramente usado nos juncos oceânicos. o que se explica. além da despesa,
pelo facto das formas chatas permitirem o encalhe sem riscos nas margens, e, ao mesmo tempo, entre duas
marés lazer-se a limpeza do casco tão frequentemente quanto seja necessário.
E. Ao seguir várias informações incorrectas ou incompletas, Audemarcita Julien, sem se aperceber de que livro se trata; em Julien há
alguns erros e embelezamentos inúteis. Consultámos a enciclopédia chinesa Ge Zhi Jing Yuan (ne 18) na Biblioteca do Instituto Sinológico
de Leiden e traduzimos as passagens que dizem respeito a este assunto: Ge Zhi Jing Yuan, livro XXVI: folium 12.
BARCOS DE BRONZE.
Segundo o Jiaozchou di (ne 19); No distrito Anding (ne 8): encontra-se um navio de bronze do rei de Youe (ne 1); é visivel na
maré baixa. Por outro lado, num dia sombrio e chuvoso pessoas que apanhavam gravetos viram um navio de bronze aparecer por cima
da água ( JidozhouJi não existe; Jidaozhow estava sittado na fronteira anamita da província de Guangdong. O distrito de Anding situa-
se na província de Guangal).
Segundo Shi Yidi(ne [3Npor Wangjia) (ne 20), que morreu cerca de 390 a. Co embaixador do país Qiu (ne 21) teve que ir por
mar até à capital para levar o tributo; a carena do barco estava coberta de folhas de bronze, para que o taredo não a pudesse atacar.
(o país Qiu - mund outra leitura possível é - o país de Jan Khicau não foi identificado)
BARCOS DE FERRO.
Segundo Huai Nanzi podem construir-se navios de ferro.
É curioso encontrar na edição Si Bu Cong Kan (ne 22) de Huai Nanci. livro HH, página 2b: Com ferro não se podem construir
navios,
Segundo o Huashan Ji (ne 23): Wang Xuanchong (ne 24) subiu do cume do Pico do Lótus e vim lago cheio de lírios floridos.
Havia também os restos de tum navio de ferro.
(o Houashan Ji desapareceu depois da época Song: Wang Xuanchong não foi identificado.)
Segundo o Shu Yidi (ne 25): as pessoas de Cangchow tinham notado há muito tempo água de cor verde claro ao pé das
montanhas onde a nascente tinha uma largura de cem pés. Os metais ou as pedras não se enterravam. As gentes desta prefeitura
construíam navios com telhas e com ferro.
(Nos três textos diferentes do Shu YiJi da Biblioteca do Instituto Sinológico de Leiden não encontrámos esta passagem. Cangzhou
é na província de Fujian), (ne 26) Ver também: RA. Stein, “Le Lin Yi apêndice IV: os trabalhos de Maxuan no 7-12: Boletim do Centro
de Estudos Sinológico de Beijing“, vol H fascículo 1-3, 1947.
SO
CONSTRUÇÃO DE UM JUNCO
Uma das características mais impressionantes da construção chinesa é a sua independência absoluta em
relação a todas as concepções imaginadas por outras nações.
A influência estrangeira, apesar dos contactos permanentes no decurso dos séculos passados. não teve
nenhuma acção sobre as suas construções, de tal forma que se pode admitir, com uma certa verosimilhança, que
a China possui ainda no momento presente vários tipos de juncos que foram criados em épocas muito longínquas
e transmitidos até aos nossos dias, nas suas formas primitivas. A arte naval chinesa inspirou-se, como nos
outros países. nas necessidades comerciais, nas exigências da navegação e sobretudo nos recursos locais, Estas
várias razões conduziram os construtores a concepções essencialmente diferentes de uma região para outra e
estas. uma vez realizadas e consagradas pela experiência. ficaram de certo modo imutáveis através dos séculos.
É raro o que se foi buscar ao estrangeiro e mesmo assim de data recente e, ainda assim, limitada aos
acessórios que não modificam em nada os princípios da construção, por pouco importantes. Esta imutabilidade
é devida não somente à indiferença inata do chinês, como à pobreza da sua imaginação ou ao respeito pela
tradição, mas foi-lhe imposta desde épocas longínquas por Éditos Imperiais, para facilitar o controlo dos
transportes, mas também, e sobretudo, para desencorajar as inovações ou os aperfeiçoamentos que tivessem
permitido aos juncos afastar-se das costas e entrar em contacto com os países estrangeiros. Muito sabiamente,
os Imperadores das dinastias antigas souberam evitar a concorrência e a intromissão estrangeira, pensando
afastar, assim, os riscos de guerra que delas pudessem resultar para o seu país. Não é, portanto, de espantar que
se encontrem ao largo das costas chinesas, navios tendo todas as características de junco de rio. Na realidade, o
junco, chamado oceânico. não existe no verdadeiro sentido da palavra, e sem dúvida nunca existiu. O chinês
preocupado antes de tudo com os seus interesses e o lucro que pode tirar do seu instrumento de trabalho com o
mínimo esforço, fica fiel ao seu modesto junco de rio que, graças ao seu fundo chato, pode entrar nas mil
sinuosidades da costa, e ir muito longe para o interior das terras, alargando assim o campo da sua actividade,
sem se lançar no desconhecido duma navegação longínqua.
Diz-se que o chinês não é um imitador nem um copista. Soube, no entanto, copiar a natureza e com
conhecimento de causa, tomando para modelo das suas carenas o palmípede porque tem maior largura na sua
parte de trás. enquanto os nossos navios à vela iam buscar, com menos razão, ao peixe que é sempre mais largo
perto da cabeça. O perfil de carena adoptado pelo chinês justifica-se pelo facto de o vau da casa mestra (1),
estando colocado numa posição muito perto da popa. o ponto de aplicação da força propulsora gerada pelo
remo ou pela vela, estar francamente situado para vante do ponto de aplicação da resistência da carena. A
resultante destas duas forças dá uma grande estabilidade, comparada à que é produzida por um rebocador
agindo sobre a parte de vante do navio, enquanto que colocado na parte de ré, o rumo se torna instável e tem que
ser constantemente corrigido pela acção do leme.
DO vet é uma viga transversal que estrutura o costado do navio; o vau mestre ou vau da casa mestra é 0 que está no ponto mais largo
do casco.
8!
Não é menos interessante estudar as linhas de fundo da carena.
Veremos mais adiante o quanto se esforça o construtor para dar ao tabuado do fundo, não a forma plana
do lanchão de rio, o que simplificaria o seu trabalho, mas uma curvatura tal que a parte de vante, ao mesmo
tempo que diminui de largura, se vai elevando progressivamente até cortar a linha de água. Nestas condições o
ataque da água a vante dá-se sob um ângulo muito pequeno e o deslocamento do junco opera-se por
escorregamento e não pelo corte da água como acontece com o navio com roda de proa. Este escorregamento
sobre a água dá ao junco à faculdade de manobrar com facilidade nos rios com corrente. entre os remoinhos e
as revessas que constituem grande perigo na passagem dos rápidos. Esta forma de querena, tão apropriada a
esta navegação especial, é geralmente adoptada para os navios a vapor destinados à navegação fluvial.
Dificilmente se faz ideia do número e da variedade dos tipos de juncos que há na China. Não há rio nem
lago que não tenha o seu navio próprio, e, no entanto, esta diversidade não parece sempre justificada, fora das
obrigações do controlo local, pelas necessidades comerciais ou de navegação.
Será preciso ver no que nos parece ser uma anomalia, uma simples questão de interesse tendo por fim
assegurar a cada região, a cada construtor, o monopólio da sua própria indústria? É certo que se os construtores
adoptassem um tipo uniforme de junco para a navegação corrente, certas regiões mais favorecidas que outras
em relação a materiais e mão de obra, chamariam em seu proveito esta importante indústria.
A construção do junco chinês merece ser examinada com atenção. Numerosas particularidades, que à
primeira vista parecem inexplicáveis, talvez mesmo ilógicas, mostram, uma vez estudadas sem preconceitos,
que o construtor chinês deu prova de grande engenho nas suas concepções e de espírito prático nas suas
realizações.
Tomemos como tipo da construção corrente o junco de rio com fundo chato, com as extremidades de
vante e de ré elevadas e munido, de painéis de escaler. que representa em linhas gerais o protótipo da construção
chinesa (Estampa 32). O chinês não tem nenhuma dificuldade para instalar o seu estaleiro em qualquer local
onde se encontre. Basta-lhe dispor de um terreno plano, próximo de um curso de água e ligeiramente inclinado
para o rio.
Instala primeiro no solo um certo número de sacos cheios de areia que servirão de assentamento do
junco. Uma vez o junco pronto, bastará rasgar os sacos para o fazer repousar sobre rolos que permitirão levá-lo
até à água. Se não houver rolos, atapeta-se o chão de folhas de couve em cima das quais o junco escorregará
facilmente.
O construtor chinês, como outrora os artesãos da Idade Média, trabalha sem planos, sem cálculos e sem
gabart. Para ele, tudo é deduzido da experiência e dos métodos empíricos. Será inútil perguntar-lhe a razão do
que faz ou porque prefere adoptar uma colocação ou uma outra, porque não faz ideia e não está interessado em
sabê-lo, pois não vê necessidade de mudar a forma de fazer que lhe veio dos seus antepassados.
A construção começa pela colocação do tabuado do fundo que será feito com a melhor madeira da
região: pinheiro normal ou então uma qualidade de carvalho, chamada Nan Mu (ne 15). O junco não leva quilha
disposta como a dos nossos navios onde forma o suporte principal do cavername. A quilha chinesa, que só
existe em alguns juncos. contribui muito pouco para a solidez do conjunto; consiste numa forte peça de madeira,
ordinariamente perfurada, que se prega debaixo do tabuado do fundo, a meio, de maneira que, em caso de
encalhe possa ser arrancada sem dano para o casco.
Depois do tabuado do fundo ter sido colocado por cima dos sacos de areia, as duas extremidades desse
tabuado são submetidas a uma forte pressão que serve para produzir à curvatura necessária às formas de fuga de
vante e de ré. Esta curvatura é conseguida pela torção de gachetas de merlim, convenientemente dispostas e
apoiando-se em arcobotantes enfiados no solo. Esta operação, muito importante e difícil de fazer, decide do
sucesso final da construção; uma curva irregular pode, com efeito, ser nociva para o andamento do junco e
produzir uma assimetria que depois será irreparável. Por isso mesmo, o construtor tem todo o cuidado na
preparação do tabuado do fundo sobre o qual se desenvolverá o conjunto da construção.
Não se encontram na construção chinesa as balizas que nas construções ocidentais constituem a ossada
fundamental do navio. Estas balizas são substituídas por anteparas inteiras, cuidadosamente montadas e cortadas
segundo o perfil que convém ao lugar que devem ocupar. Estas anteparas são preparadas no chão do estaleiro,
depois levantadas e mantidas na posição respectiva com a ajuda de tira-viras e de cunhas de madeira. e por fim
pregadas ao tabuado do fundo ou sobre uma forte peça de madeira, fixada previamente a esse tabuado e em que
se abriram boieiros (|) para secagem do porão.
Pode imaginar-se a dificuldade que representa a colocação destas pesadas anteparas, sem haver nenhuma
ligação entre elas e mantidas em equilibrio instável até ao momento de serem cingidas por espessas cintas que
as ligarão sucessivamente em todo o comprimento do casco.
Estas cintas são formadas por grossos madeiros ou, a maior parte das vezes. por meios troncos de árvore
não esquadriados, que se adelgaçam na junção com as extremidades alteadas de vante e de ré. Estas peças de
madeira são colocadas topo a topo e ligadas por escarvas em bisel solidamente cavilhadas e pregadas. Não estão
sujeitas senão a uma direcção geral, a que lhes é dada pela curvatura natural da árvore. A colocação destas peças
é penosa e delicada: consiste em trabalhar por meio de fortes pressões e por processos muito rudimentares, a
fim de garantir o contacto íntimo da cinta com os bordos das anteparas que foram previamente unidas por uma
preparação minuciosa.
Vê-se pelo exposto como a construção chinesa difere da nossa.
O uso destas anteparas permite construir com facilidade e com pouco custo uma ossada rígida e mais
resistente do que a que se obtém com balizas com curvaturas sabiamente perfiladas que requerem madeiras
com forma especial, difíceis de montar. Os chineses, com este sistema, obtiveram duma só vez, a simplificação
da construção e, talvez sem o saber, a segurança que dá a estanquecidade destas anteparas, no caso duma veia de
água. A isto é preciso acrescentar, como consequência não menos importante, a supressão dos pés de carneiro,
que tanto estorvam mas são, no entanto, indispensáveis na construção corrente, para combater a flexão dos
pavimentos. O compartimento estanque desempenha uma outra função muito apreciada pelo comerciante chinês:
o dispor de um local fechado onde pode guardar a sua mercadoria conforme entende e sob sua responsabilidade.
Por este facto, considera seu dever cooperar com os outros comerciantes na gestão do barco. O resultado deste
entendimento equitativo é o colocar-se o junco sob a direcção de tantos capitães quantos os compartimentos
ocupados.
Os navios construídos totalmente com anteparas possuem maior robustez, mas em contrapartida são
mais pesados do que aqueles construídos com balizas. Não se pode, portanto, aumentar o número das anteparas
exageradamente. Por isso é usual, sempre que as anteparas parecem muitos espaçadas, intercalar algumas balizas
pregadas ao interior dos tabuados de fundo e de costado.
Vimos que o construtor chinês usa no tabuado exterior madeiros grossos ou madeira com casca serrada
pelo meio, sem ser esquadriada, e contenta-se em tirar-lhe a casca. Mas, como a madeira não tem em todo o seu
comprimento a mesma espessura, faz com que o navio nem sempre seja simétrico. Acontece também que duas
pranchas de tabuado justapostas não estejam em contacto em todo o seu comprimento. É então indispensável
encher os intervalos com bocados de madeira cuidadosamente ajustados. É um verdadeiro embutido que não
repugna à paciência do operário chinês. Estas montagens exigem uma mão de obra importante, mas, como esta
ainda não reivindica senão uma remuneração das mais módicas e, por outro lado, o uso de madeiros não
esquadriados permite economizar madeira que é rara e cara na China, o construtor tem todo o interesse em
conservar € manter este procedimento económico que não prejudica a solidez do navio.
A ligação dos tabuados merece uma menção especial.
1) Pequenas aberturas furando as balizas inferiores para escoamento das águas.
83
a)
Estampa 3
Construção de um junco, Álto Yangri Jiang.
Eis como se processa (Estampa 33). O último tabuado é colocado previamente furado a toda a sua largura,
e estes furos são ligeiramente inclinados em relação à vertical e distantes uns dos outros de 20 a 25cm. (Estampas
Je6).
Quando dois tabuados foram solidamente aproximados um do outro e encostados simultaneamente contra
as anteparas, procede-se à união destas peças com pregos sem cabeça (a, a), de forma piramidal, que se introduzem
nesses furos. Estes pregos, depois de terem atravessado o primeiro tabuado, penetram no segundo onde são
enfiados tão dentro quanto possível. Quando se acabou de pregar, a ligação é completada com grampos de ferro
que se batem de um lado e doutro da junta do tabuado (figuras 4 e 5).
Quando o tabuado do costado atinge uma grande espessura, não é possível cravar os pregos directamente:
nesse caso, os furos para receber os pregos são feitos nos lados e penetram no tabuado inferior sob um determinado
ângulo (figura 6).
Os grampos são colocados em seguida. Graças a esta dupla ligação o costado pode resistir a um esforço
de rotura por efeito dos pregos e a um esforço de arrancamento por efeito dos grampos. A reunião do fundo
chato aos tabuados do casco não se faz normalmente; faz-se por intermédio de um tabuado ligeiramente
arredondado que se vai adelgaçando à medida que aproxima da proa e da popa.
Nos grandes juncos a ligação longitudinal é reforçada por longarinas muito espessas que envolvem os
compartimentos estanques e também pelo tabuado do convés, colocado longitudinalmente entre estas longarinas
e o costado. O tabuado do convés forma uma passagem de cinquenta centímetros de largura para a circulação do
pessoal, enquanto os porões são cobertos de painéis móveis, sobre os quais se erguem construções leves, que
servem de alojamento ou de abrigo para as mercadorias.
St
A maior parte dos grandes juncos de rio e alguns poucos juncos oceânicos efectuam a ligação longitudi-
nal duma forma bastante engenhosa, o que demonstra, mais uma vez, como a técnica chinesa merece ser
examinada com atenção.
Contrariamente ao que se poderia supor pelo seu aspecto exterior, a forma de um junco não é afectada
pela de um vulgar batelão de fundo chato e de borda vertical. O perfil de um compartimento estanque mostra
que as bordas se destacam do tabuado de fundo seguindo um contorno curvilínco que se acentua na parte mais
alta em forma de semi-cilindro ( Estampa 33, figura 1).
Este perfil lembra o dos navios de ferro conhecidos em Inglaterra pelo nome de “Turret Ships”, construídos
para diminuir as taxas sobre a tonelagem.
Os juncos de Chongming (ne 16) e os Sha Chuan ( ne 17) são os mais belos espécimes desta forma
reentrante, que lhes assegura uma grande solidez para resistir às violentas ressacas da costa norte da China, ao
mesmo tempo que permite um aumento de tonelagem sem aumento sensível do calado.
COSTADO TRINCADO
Encontra-se raramente na construção chinesa o processo de montagem do costado, chamado de costado
trincado, e que os ocidentais usam na construção de embarcações ligeiras, tais como canoas e baleeiras, para
lhes dar um certo cunho de elegância.
Este processo consiste em unir duas pranchas sucessivas, de modo a que se sobreponham de alguns
centímetros, pregando-as transversalmente na parte sobreposta (figura 2, Estampa 33).
Esta união não apresenta grande solidez (nota F). Recorre-se a este processo quando a espessura das
pranchas não permite a montagem no estaleiro descrita mais acima. Na China, ao contrário da prática ocidental,
é a prancha inferior que se sobrepõe à prancha superior. Isto resulta do facto de, na construção chinesa, se
efectuar a ligação das anteparas a começar pelo alcatrate, enquanto que nos barcos construídos sobre a quilha,
a colocação do costado começa pelo plano inferior.
Nos juncos duma certa tonelagem utiliza-se o costado trincado duplo que assegura maior solidez que o
trincado simples. Neste sistema, as pranchas são colocadas alternadamente salientes e reentrantes. Os pregos
são colocados transversalmente dos dois lados das pranchas salientes (figura 3).
ANTEPARAS ESTANQUES
Não se pode afirmar que a antepara estanque é de origem chinesa. E certo que o seu uso remonta à Alta
Antiguidade, visto que os Egípcios tinham nos seus navios compartimentos impermeáveis à água com vista à
estiva das mercadorias. No entanto, se se considerar o modo de construção dos navios chineses, no qual a
antepara plana constitui a ligação essencial do casco, somos levados a crer que esta invenção é contemporânea
das suas primeiras concepções marítimas.
Marco Polo assinala que os grandes navios chineses têm os porões divididos por anteparas cuidadosamente
unidas e calafetadas de forma a não deixar passar a água em caso de acidente.
Lord Macartney (|) tece algumas reflexões interessantes acerca destes compartimentos estanques de que
constatou a existência nos juncos que o levaram da foz do Bei He (nc 27) a Pequim: “O porão dos juncos está
dividido numa dúzia de compartimentos, construídos com pranchas de duas polegadas de espessura e cujas
juntas são revestidas com um cimento de cal, preparado de forma a torná-las impermeáveis, ou segundo a
expressão naval próprias para a água.
E O costado trincado chinês é talvez pouco sólido. A forma europeia, oriunda da Escandinávia, permite combinar a leveza com uma
excelente robustez.
Fig! Corte transversal
A Compartimento estanque
B Reforço de baliza
(6) Cintas
D Tabuado do casco
E Longarinas de porão
e Vau saliente
G Cavilha de retenção do vau Fig.4 Coloc. grampos
H Convés de manobra
P Amurada
Ligação do costado
Estampa 33. Junco de Bei Zhili (Sha Chuan)
As vantagens que há em dividir os porões dos navios, parece terem sido bem reconhecidas na China,
visto que o praticam generalizadamente.
Daí resulta que um negociante tem algumas vezes as suas mercadorias sem qualquer dano num dos
compartimentos, enquanto que um outro tem as suas avariadas nos compartimentos vizinhos, onde há uma veia
de água.
Se se aconselhar adoptar este plano de construção nos navios mercantes da Europa, opor-se-lhe-á o
preconceito popular das despesas e da incerteza do sucesso em experiências novas. Dir-se-á também que este
método ocasionaria uma redução na quantidade da mercadoria, e que a estiva dos grandes tonéis e dos grandes
caixotes seria muito mais difícil, mas fica por considerar até que ponto estas objecções devem prevalecer sobre
a maior segurança do navio, da tripulação e da carga. Seja como for, a objecção não pode ser válida para os
navios de guerra que não têm que transportar pesados fardos”.
As sugestões de Lord Macartney e as de numerosos viajantes que preconizaram igualmente o uso de
anteparas estanques, não foram tomadas em conta pelos construtores europeus: para isso encontraram por certo
razões convincentes. A utilidade da antepara estanque não é discutível, mas poderíamos dizer o mesmo da sua
eficácia em relação aos navios de madeira de algum porte, em que as deformações do casco se produzem ao
mínimo movimento provocado pelo balanço, que provocaria fissuras nas anteparas”
Num artigo intitulado “Cartas inéditas de Benjamim Franklin “, publicado no The Century Magazine for
June, numa das cartas deste homem de Estado, datada de 1787, encontra-se a passagem seguinte (1), relativa
aos compartimentos estanques:
1) Traduzido do Journal of the China Branch of the Royal Asiatic Society, N.S.1886 (Water-tight compartments in the Chinese Vessels
by G.M.H.P). O artigo de Benjamin Franklin tem o título original: “Unpublished letters of Benjamin Franklin”
86
“Como estes navios (fazendo o serviço entre a França e os Estados Unidos) não podem ser carregados
com mercadorias, os seus porões podem, sem inconveniente, ser divididos em compartimentos separados,
segundo o método chinês, e cada um deles calafetado de forma a ficarem estanques, de forma a não deixar
penetrar a água. No caso de se produzir uma infiltração num desses compartimentos, este seria O único à ser
invadido e os outros ficariam indemnes; de forma que o navio não ficaria exposto, como os outros, a encher-se
de água e a afundar-se no mar. Sendo isto conhecido, seria um grande encorajamento para os passageiros”.
Foi sem dúvida pelas razões expostas mais acima que as propostas de Franklin não tiveram eco
junto dos construtores da sua época.
OPERÁRIOS CHINESES. FERRAMENTAS
O operário chinês entregue a si próprio faz em geral um trabalho pouco cuidado; não lhe falta contudo
nem habilidade nem paciência, mas se a vigilância afrouxa um pouco, é capaz de ser preguiçoso.
O carpinteiro de navios é dos mais hábeis da sua profissão, ninguém o igualando no desbaste e no esquadriar
dos materiais, na preparação das peças e na montagem do casco. E de resto o único operário especializado neste
género de construção, visto que O junco não usa outro material que não seja a madeira, à parte alguns pregos e
grampos de ferro utilizados nas montagens e de fabrico bastante grosseiro.
As ferramentas de que se serve são rudimentares; é preciso toda a habilidade e paciência dos chineses
para as utilizar como convém.
Estas ferramentas têm alguma semelhança com as nossas (ver Estampa 34); o machado é mais pequeno
e em ferro maciço e com um cabo muito curto; a enxó é igualmente mais curta e mais espessa que a nossa; é
muito parecida com a dos tanoeiros. As serras, martelos, formões e ferros de calafeto são parecidos com os
nossos; as serras compridas, que desempenham um papel muito importante na construção dos juncos (ver
Estampa 32), têm uma lâmina com dentes isósceles de forma a que os dois homens que a manobram tenham que
dar o mesmo esforço. À plaina difere da nossa porque a madeira que envolve a lâmina é muito curta e tem dois
punhos nos lados para a manobra, A garlopa é igualmente usada na China e tem a mesma conformação que a
nossa.
Para o traçado de linhas o operário utiliza uma ferramenta que lembra o molinete de um pescador à linha
(estampa 35, figura 3). O fio para traçar as linhas enrola-se num carreto, passa por uma peguena selha contendo
estopa embebida em tinta da China. Depois fixa-se por um punção de metal que se pica na extremidade da linha
a traçar,
O engenho de furar consta duma pua com a extremidade da rosca triangular, com os dois bordos
ligeiramente redobrados para facilitar o escoamento da madeira pelo meio. A pressão exerce-se no cone com
que termina o instrumento.
Para este efeito, um homem apoia-se sobre a borla do instrumento com as duas mãos, enquanto que o
movimento de rotação é dado por dois outros operários que actuam alternadamente numa corda enrolada no
fuso a que está ligada a pua. São necessários três homens para fazer um furo com este instrumento no mesmo
tempo em que um só o faz, entre nós, com uma verruma,
Para furos de pequeno diâmetro, a rosca reduz-se a um punção e o movimento é produzido por um
operário utilizando um arco de pua. Os pregos e os grampos de ferro são feitos adelgaçando as duas extremidades
de uma barra de ferro de secção quadrada.
Os pregos obtêm-se dividindo em duas partes, com uma pancada seca de martelo, a barra de ferro que se
dobra no meio e forma assim uma espécie de cabeça.
Os grampos têm quinze a vinte centímetros de comprimento, tendo as duas extremidades sido adelgaçadas.
Uma delas é dobrada em ângulo recto num comprimento de quatro a cinco centímetros, enquanto a outra fica
direita (ver Estampa 33, figura 4). A colocação de um grampo consiste em introduzir esta última extremidade
87
num buraco feito a alguns centímetros das duas peças a unir, depois em rebater o grampo sobre a outra peça, de
forma a fazer penetrar a extremidade que se curvou nesta segunda peça de madeira.
CALAFETO
O operário do calafeto procede no seu trabalho como os operários europeus e com ferramentas análogas.
Serve-se de ferros com cabos de madeira, que são mais delgados que os nossos. Em lugar de maço usa um
pequeno martelo de cabeça triangular. O lado oposto à pena é arredondado para facilitar a preparação do betume.
Calafeta-se com redes velhas ou com desperdícios de cabos velhos feitos com casca de palmeira ou de
filaça de bambu. Este material apodrece mais devagar na água do que o cânhamo sem alcatrão.
O operário enfia na junta um pedaço de estopa até encontrar os pregos que unem as duas pranchas. Passa-
-lhe por cima uma camada delgada de betume que é feito de cal apagada, obtida a maior parte das vezes pela
calcinação de conchas e esmagada com óleo. Sobre as juntas calafetadas e sobre as cabeças dos pregos, aplica-
-se um betume mais fino, obtido pilando em conjunto cem partes de cal, cinquenta partes de óleo” Tong You”
(nc 28) e dez partes de redes reduzidas a pó.
Este calafeto é excelente para as juntas de pouca profundidade. Tem a vantagem de não conter breu. que
funde com os fortes calores de Verão. Mas, para ser eficaz, precisa de ser preparado com muito cuidado e,
infelizmente, o calafate chinês não prima muito pela consciência profissional.
O “Tong You” é um óleo que tem várias aplicações e é muito usado na China (1). Serve para múltiplos
Usos, como seja impermeabilização de tecidos, de cestos de bambu entrançado, dá um incomparável verniz
para marcenaria, serve para ornamentação, etc. Forma um galipote muito apreciado para a conservação das
madeiras.
O operário chinês utiliza no fabrico dos pregos e dos grampos, que desempenham um papel tão importante
na construção dos juncos, um aparelho muito engenhoso chamado Feng Xiang (nc 29), caixa de vento ou fole
de ferreiro (Estampa 35, figura 4).
A primeira vista. este aparelho parece ser uma adaptação da mecânica ocidental baseada no princípio da
bomba de duplo efeito. Contudo, é de origem bem chinesa, se nos reportarmos à descrição seguinte, tirada do
relatório da viagem de Lord Macartney, efectuada de 1792 à 1794:
“O fole é feito como uma caixa, à qual está tão bem adaptada uma porta móvel, que quando a afastamos
para trás O vácuo que se provoca na caixa, faz com que o ar entre com impetuosidade pela abertura duma
espécie de válvula, emquanto, ao mesmo tempo, o vento sai por uma outra abertura oposta. O mesmo efeito
continua quando a porta é empurrada para a frente; o espaço diminui, o ar é comprimido, e uma parte sai pela
mesma abertura. Se em lugar duma porta móvel, se adaptar um pistão à caixa de forma cilíndrica (ver figura 4),
o ar é comprimido alternadamente entre o pistão e as duas extremidades da caixa e, por conseguinte, forçado a
sair continuamente. Este fole duplo ou perpétuo move-se muito facilmente, e produz um efeito duplo do dos
foles ordinários.
Talvez a descrição desta invenção chinesa não seja muito perceptível, mas trouxe-se um modelo para
Inglaterra para que os curiosos o examinem”.
O narrador faz observar que o fole dos ferreiros europeus é de manuscamento mais difícil e tem um
rendimento mais fraco, pois diz ele, a força do vento é produzida pelo peso de um pesado aparelho que se
levanta à força de braço e durante este tempo o fole está parado, enquanto que no fole chinês o sopro é contínuo.
HO Cre. Audemard diz que “Tong You” é extraído do “abrasin”, palavra que não encontrámos. N.T.
88
Fig. 1 Plaina
Fig. 2 Machado Fig. 3 Formão
Fig. 5 Plaina Fig. 6 Enxó Fig. 7 Ferro de calafate
Estampa 34. Ferramentas de carpinteiros de juncos
LEME
O leme com ferragens (macho e fêmea) generalizou-se nos navios europeus no meio do século XII. Até
esta época mantinha-se o rumo por meio de um ou dois lemes laterais em forma de remos com uma grande pá,
instalados à popa.
Na China, a origem do leme não é confirmada nem pelos relatos dos viajantes antigos, nem por documentos
esculpidos ou gravados, que na verdade são muito raros nesse país. O leme dos juncos como o vemos hoje
(Estampas 36 a 40) é incontestavelmente de origem chinesa; o carácter desta construção é tão especial que nos
surpreende pela sua simplicidade e pela singularidade das suas realizações.
Dissemos mais atrás que nos últimos anos do século XII, Marco Polo empreendeu a sua viagem de volta
à Europa, navegando das margens do Bei He a Ormuz, no Golfo Pérsico, numa flotilha de catorze navios de
quatro mastros e de nove a doze velas, cada um deles com uma tripulação de cerca de 250 homens.
O viajante veneziano não nos dá mais informações sobre estes navios, mas a julgar pela importância da
sua tripulação devemos admitir que teriam uma tonelagem elevada e deviam portanto ter um potente meio para
governar, tal como um leme com porta. É difícil de conceber que os chineses tivessem podido empreender uma
viagem tão longa com aparelho tão primitivo como era o remo com pá, para levar os seus navios através de
mares às vezes muito tormentosos.
Os juncos de mar e de rio utilizam três espécies de aparelhos de governo:
|. Oleme de porta ordinária.
89
Fig. 1 Arco de pua Fig. 2 Engenho de furar Fig. 3 Traçador de linhas
(manobrado por 2 homens)
Fig.4 Fole de ferreiro
Estampa 35. Ferramentas de carpinteiros de juncos
13
O leme de porta perfurada.
O leme compensado.
ES)
LEME DE PORTA ORDINÁRIA
Este leme (Estampa 36) parece-se com os dos navios ocidentais pela forma: distingue-se dele por ser
relativamente mais pesado e não ter ferragens. É formado por uma madre e uma porta, ambas de grandes
dimensões e geralmente de madeira de cânfora.
A madre passa numa abertura quadrada aberta no convés superior e depois num esvaziamento circular
feito num bloco de madeira fixado no painel da popa ao nível da linha de água. O leme não assenta em nenhum
perno. Fica suspenso num ou dois valentes cabos que trabalham num guincho colocado na prumada da madre.
Dois outros cabos estão fixos na parte inferior da porta, passam sobre o tabuado do fundo, remontam na
proa do junco e vêm enrolar-se num segundo guincho instalado entre as duas amuras.
Este bizarro dispositivo, de que começa por não se ver à razão de ser, e que é próprio dos grandes juncos
occânicos, não só substitui as ferragens, como permite deslocar o leme. içá-lo ou arriá-lo, duas operações a que
os chineses recorrem frequentemente na navegação ao longo das costas e que não seriam possíveis com um
leme ordinário com ferragens. No mar, em grandes fundos, o leme é arriado bem abaixo do plano da carena, de
maneira a aumentar a sua eficácia ao mesmo tempo que constitui uma espécie de patilhão bem necessário
nestes juncos de fundo quase chato e sem quilha. Quando se aproximam fundos baixos, o leme vai sendo içado
até ficar na sua posição normal. No ancoradouro, a falta de ligação com a ossada produz, à mais pequena
9)
marulhada, movimentos desordenados do leme, para os quais não há remédio senão içá-lo e travá-lo na posição
em que ficar depois de içado. Em alguns juncos, o leme, uma vez içado, pode-se ainda alar e alojar numa grande
ranhura praticada na ossada da popa, de forma que é possível, se for necessário, proceder à sua reparação, no
mar ou no porto, sem se estar limitado pela docagem,
Apesar dos inconvenientes inerentes à falta de ferragens, compreende-se que os chineses fiquem fiéis ao
seu sistema de leme que apresenta, em resumo, as vantagens seguintes:
|º Possibilidade de aumentar a sua acção fazendo-o descer abaixo do plano da querena.
2º Diminuição do abatimento sem instalação de um patilhão ou de um leme lateral.
3º Facilidade de proceder à sua reparação em todas as circunstâncias sem ser necessário docar.
Nas regiões meridionais da China, nomeadamente em Hong Kong e imediações, onde as relações com
marinhas estrangeiras existem desde longa data, os juncos de comércio adoptaram na sua maior parte o leme
com ferragens com uma porta perfurada, que pode ser içado e introduzido numa larga fenda existente na parte
de ré do casco. Mas em todos os outros locais, o leme suspenso por cabos é de uso geral, quer nos juncos de mar,
quer nos de rio.
LEME COM PORTA PERFURADA
Este leme ( Estampas 36-38 ) usa-se nas costas do Sul da China. mas vê-se raramente acima da latitude
de Shantou (nc 30) e de Xiamen (ne 31) e, excepcionalmente, na foz do Yangzi Jiang, nos juncos de guerra
encarregados da polícia costeira.
A porta perfurada é sensivelmente rectangular; a superfície apresenta numerosos furos em forma de
losango que lhe dão a aparência de um xadrez. Este leme tem por vezes ferragens e pode ser içado acima da
linha de água, como o leme com porta ordinária.
À primeira vista o leme perfurado parece tão paradoxal como as velas perfuradas imaginadas pelo
Comandante Vassalo, de Génova, e que estiveram em voga na Europa no final do século passado. Num e noutro
caso a superfície apresentada é reduzida a fim de lhe aumentar a potência, enquanto que a lógica faria prever o
contrário,
Como é que os chineses foram levados a construir a porta perfurada? É pouco provável que tenha sido
para lhe diminuir o peso. Só a experiência pode ter levado a construir este aparelho, depois de verificadas as
vantagens,
Observemos um navio em andamento, por exemplo um batelão de rio, com um desses enormes lemes
que se vê manobrar com tanto esforço por meio de uma comprida e possante cana. Se se meter a cana a um
bordo para obter um movimento giratório, veremos os filetes de água a fazer pressão sobre um dos lados da
porta, e causando assim a rotação, enquanto do lado oposto, os filetes de água se concentram em violentos
remoinhos e arrastam na sua esteira, por efeito de cavitação, uma massa de água inerte que trava o avanço do
batelão ao mesmo tempo que torna mais difícil a manobra da cana do leme.
Concebe-se, e a experiência prova-o, que a desagregação desta massa de água inerte possa ser obtida,
pelo menos parcialmente, fazendo penetrar nestes remoinhos os filetes de água, passando pelas aberturas da
porta, que terão por efeito encher o vácuo produzido do lado oposto da porta e facilitar assim a manobra da
"ana, sem prejudicar a eficácia do leme.
O uso do leme com porta perfurada não parece ter chegado aos países ocidentais. Experiências metódicas
permitiriam avaliar as suas vantagens, de que poderiam beneficiar certas categorias de barcos e em especial os
batelões.
LEME DE PORTA COMPENSADO
O princípio de compensação do leme, na Europa, generalizou-se aquando da construção dos primeiros
91
Estampa 36 Algumas formas de lemes dos juncos oceânicos
navios couraçados. Tinha sido aplicado muito tempo antes aos barcos de rio, especialmente nas balandras
holandesas, como o testemunham gravuras do século dezassete. O leme lateral da Antiguidade e o dos navios
ocidentais até ao século XII era judiciosamente compensado.
A utilidade de recorrer à compensação do leme fez-se sentir com o aumento da tonelagem e da velocidade,
para conseguir uma grande capacidade de evolução com um esforço mínimo sobre a madre. Na China, onde
não há juncos de grande tonelagem, nem de grande velocidade, a ideia do leme compensado não pode ter
surgido de considerações teóricas, em geral pouco acessíveis aos construtores chineses, mas de necessidades
práticas, assim como do exame das querenas em que esse leme é utilizado.
Os juncos oceânicos nunca têm leme compensado, pois as suas formas de querena não são adequadas
para tal. Pelo contrário, os juncos fluviais, tendo o tabuado do fundo em forma de arco muito acentuado nos
extremos, são particularmente adequados para tal.
As Estampas 36-37 mostram em diversas escalas, as principais formas de leme utilizadas nos juncos de
rio e de mar.
Os juncos de alto mar, como é dito atrás, utilizam o leme de porta ordinária, suspenso de um cabo que
permite içá-lo e arriá-lo conforme as circunstâncias. A figura da Estampa 36 representa o leme de um junco de
Hangzhou ( nc 32 ), com a talha de suspensão ( P ), accionada por um guincho colocado no painel de popa. A
madre está encostada a esse painel em duas cavidades circulares que asseguram à sua posição. A estampa que
acompanha a descrição deste junco ( ver parte descritiva, Costa Leste ) mostra os pormenores desta instalação.
A figura 2 representa o leme do Sha Chuan ( nc 33 ), grande junco de cinco mastros que frequenta o golfo
de Bei Zhili e que é considerado como um dos tipos mais antigos conhecidos. À porta é de grandes dimensões,
AA |
A AZ
7;
Estampa 37. Algumas formas de lemes de juncos de rio
sendo enquadrada por uma forte armadura de madeira e consolidada por numerosas ferragens (aaa ). Os lemes
das figuras 3 e 4 pertencem aos navios de cabotagem e aos grandes juncos do Zhejiang ( nc 34 ) e de Fujian ( ne
35 2. A fixação da madre na ossada é assegurada na parte inferior, à falta de ferragens, por dois cabos (c.c.)
fixados na patilha do leme e retesados por meio de um guincho colocado à proa, depois de terem passado por
baixo do tabuado do fundo. A porta da figura 4 tem no centro um terceiro cabo ( b ) destinado à manobra do
leme no interior do seu encastramento, onde repousa numa posição horizontal.
As portas representadas pelas figuras 6, 7,8 e 9, pertencem às sampanas e aos juncos de pesca das costas
do Zhejiang e de Fujian. Entre as últimas há algumas que têm um leme muito especial ( Estampa 39 ). A porta
é estreita, muito comprida, e o seu pé desce a dois ou três metros abaixo do tabuado do fundo. O conjunto pode
ser içado ou arriado com à ajuda do guincho situado na prumada da madre.
Este dispositivo dá uma grande facilidade de operação, ao mesmo tempo que atenua o abatimento destes
navios que não têm quilha.
A figura 5 representa o leme perfurado dos juncos de Guangdong. Há-os de duas formas, uns instalados
com ferragens à maneira ocidental, outros, encastrados em cavidades servindo de guia à madre nos movimentos
de subida e descida do leme. À figura | da Estampa 38, precisa a instalação destes últimos: (G) é a porta
perfurada com a madre ( M ) alojada entre as duas anteparas (B e B), sendo a de vante estanque, e nas cavidades
(Ce C) que servem de guia à madre. (A.A ) é um encastramento praticado na ossada. destinado a receber e a
imobilizar a porta quando o leme está fora de água. ( P) é a talha de manobra cujo cabo é accionado pelo
guincho (V);G, é a porta imobilizada no seu encastramento (A.A ). Na figura 2 mostra-se a instalação do leme
num junco de Hainan descrito na parte descritiva - Costas do Sul. Este leme apresenta a mesma particularidade
que o do junco de pesca da figura |, Estampa 39, que consiste em fazer descer o pé da porta do leme bem abaixo
Cana
1Vés
4004/48 191240040 *7
LIDO Cro A ILAILIOSOSO
Era
Fig. Junco de Hong Kong
e)
Fig.2 Junco de Hainan
Estampa 38 Instalação do leme nos juncos de Guangdong
do tabuado do fundo.
Da mesma forma que no junco de Hong Kong, as formas da popa são chamadas “ em cu de galinha “ com
encastramento (A.A) para alojar a porta. O pé do leme desce normalmente a um metro e cinquenta abaixo do
tabuado de fundo. É suportado, segundo a prática chinesa, por dois cabos (C.C) que passam debaixo da carena
e são espertados por um molinete colocado à vante, A madre apoia-se contra uma peça de madeira móvel ( B.B)
formando cadaste colocada paralelamente a ela numa cavidade ( D), onde também se pode deslocar como o
leme nos movimentos de subida e de descida, com a ajuda do guincho ( V ).
O leme que desce abaixo do tabuado de fundo não é exclusivo da China. Existe na Europa em vários
navios de pesca do Mar Adriático, que são descritos na segunda parte dos “ Souvenirs de Marine “ do Almirante
Pâris ( Estampas 84 a 87 ). Nestes navios o leme pode deslocar-se ao longo dos machos e descer de um metro é
cinguenta a dois metros abaixo da quilha.
Da mesma forma que os chineses, os pescadores europeus souberam reconhecer as vantagens deste
dispositivo que facilita a evolução do navio e permite diminuir o abatimento, sem recorrer ao volumoso e pouco
prático leme lateral, usado nos barcos de rio.
A estampa 37 mostra as principais formas de lemes de rio, que se vêem mais especialmente no Yangzi
Jiang. Compreendem dois tipos; 0 leme com porta ordinário e o leme compensado. Este último é utilizado
duma maneira geral nos grandes juncos que enfrentam os rápidos ou navegam nas correntes fortes.
Da mesma forma que o leme com porta ordinário, este não tem nem piões, nem ferragens, nem cabos de
sustentação, permitindo que se desloque na vertical. As duas figuras da Estampa 40 mostram a sua instalação no
junco chamado Kua Zi (nc 36 ) ( ver parte descritiva - Alto Yangzi Jiang), afecto ao transporte de viajantes no
Alto Yangzi Jiang. À madre é formada por um tronco de árvore, terminado por dois ramos que concorrem para
94
a solidez da porta por meio de dois reforços horizontais fixados sobre cada uma das faces desta.. Entra na
ossada através duma conduta intercalada entre a antepara ( C ) e o maciço de madeira ( D ), que aguenta o
principal esforço do leme. Como medida de segurança, cabos grossos (M) apoiados no exterior do casco do
junco apertam fortemente a madre contra o casco a fim de combater a tendência da porta em ser levada para a
popa sob a pressão da água. O leme é suspenso pela madre ao convés de ré por intermédio de um anel ou duma
simples chaveta de madeira ( A ). A simplicidade deste dispositivo permite substituí-lo rapidamente em caso de
perda ou de avaria durante a navegação no alto rio, onde é muito castigado. Um leme sobressalente amarrado a
um dos lados do costado a ré, está de reserva para todas as eventualidades.
Os lemes de porta ordinária representados nas figuras 5, 6, 8 e 9, da estampa 37 são usados nos juncos de
pequenas dimensões e principalmente nas sampanas de pesca que circulam aos milhares na bacia do Yangzi
Jiang.
A figura 7 é um leme bem especial que observámos num único junco de formas esguias e de fracas
dimensões no lago Dongting (nc 37). A sua porta é compensada e também perfurada, dois sistemas usados
sempre separadamente nos juncos de rio e nos das costas do Guangdong. A adopção destes dois sistemas
conjugados poderia encontrar explicação nas relações fluviais existentes entre a bacia do Yangzi Jiang e a do Xi
Jiang ( nc 38 ) e que os construtores de juncos poderiam ter aproveitado para troca de informações.
MASTROS
A mastreação chinesa é das mais simples, assim como o seu aparelho. Compõe-se de um ou vários
mastros baixos, sem adição de mastros sobrepostos como acontece com a mastreação dos nossos veleiros com
os seus mastaréus de gávea e de joanete. Em suma, é um mastro inteiriço de uma só peça, do pé até à borla.
Nos grandes juncos oceânicos, consiste num grande mastro ao centro, um mastro de traquete, as mais das
vezes inclinado para vante e um mastro de mezena, muito leve, colocado no eixo ou a um bordo, no extremo da
G. Leme móvel suspenso do cabo C
V. Guincho de manobra do leme
AA! Cavidades abertas na ossada e servindo de guia âmadre do leme
B. Abertura para a manobra do leme de gingar
D. Latrina
Estampa 39 Instalação do leme num junco de Fujian
95
popa. O mastro grande é formado por um tronco de árvore em bruto, duma madeira como a teca, a que se apenas
cortaram os ramos e tirou a casca. Uma vez cortado, o tronco sofre uma preparação que consiste em ser enterrado
durante anos, num terreno de lodo, após o que se torna duro como o ferro e resiste às intempéries e ao caruncho.
Este processo de preservação da madeira era aplicado antigamente nos nossos arsenais marítimos na época dos
navios de madeira.
Os mastros atravessam os pavimentos através de aberturas (enoras) quadradas, tendo uma vez e meia a
duas vezes a espessura do mastro. São fixados nos lados por duas fortes peças de madeira. ou falcas, que
descem até à carlinga fixada sobre o forro interior do porão ( estampa 42, figuras 1 € 2). Cunhas de madeira ou
porquetes asseguram o travamento longitudinal, Os juncos de rio têm em geral mastros móveis para lhes permitir
navegar em canais e rios atravessados por pontes. Neste caso, os mastros são simplesmente aguentados entre as
duas falcas por um sistema de chaves e de cavilhas em torno das quais o mastro pode girar e pode abater sobre
o convés depois de retiradas as cunhas ou porquetes transversais. Um arcobotante móvel, apoiando-se no convés
vem completar o aparelho do mastro ( Estampa 42, figuras 3, 4 e 10 ). Na maioria destes juncos, os mastros
móveis podem ser abatidos ou içados por meio de paus de carga que por vezes estão colocados permanentemente
no convés (Estampa 41, figuras 2,3,e 4).
Os mastros móveis eram já usados em épocas muito antigas nos juncos oceânicos. Isto pode parecer
estranho em navios que não eram destinados a passar debaixo de pontes, tanto mais que o mastro móvel está
longe de oferecer as mesmas garantias de solidez que o mastro fixo. Nesta época, certos éditos imperiais, sob o
pretexto de assegurar o controlo do comércio externo e, ao mesmo tempo de criar dificuldades à navegação
longínqua que pudesse abrir a China aos estrangeiros, tinham interdito aos juncos oceânicos, entrando ou saindo
de um porto do Império, de trazer mais que dois mastros.
O comerciante chinês, espírito sempre desperto quando o seu interesse está em jogo. tinha achado a
engenhosa solução dos mastros móveis que lhe permitia conciliar com a ajuda de alguma complacência discreta,
os seus interesses privados com o rigor dos éditos imperiais. Estes mastros, embarcados no convés como peças
sobressalentes, eram içados com as suas velas à saída do porto, e arriados antes da volta.
A fixação dos mastros principais nos grandes juncos oceânicos é assegurada habitualmente por dois
ovéns móveis feitos de cabo de rota ou de bambu.
Quando as velas estão içadas, o ovém de sotavento é levado para o bordo oposto para reforçar a acção do
segundo ovém; além disso a adriça da vela é mudada para o bordo de sotavento, e faz assim função de terceiro
ovém.
O aparelho do junco não tem estais. Isto pode justificar-se por o centro vélico e as reacções produzidas
sobre a mastreação pelo conjunto do aparelho conseguirem um equilíbrio suficiente para assegurar o bom
funcionamento do mastro.
Entre as variedades de mastros que apresentam mais interesse, citaremos os mastros duplos ou bípodes
instalados em certos juncos do Alto Yangzi Jiang chamados Wu Ban ( nc 39 ) (ver parte descritiva - Alto Yangzi
Jiang). usados para o transporte dos sirgadores e dos cabos que utilizam para a sirga.
Estes Wu Ban acompanham os grandes juncos de comércio na subida do rio e estão prontos a ser usados
a todo o momento, no vai e vem dos sirgadores entre o junco e as margens, na manobra das espias de alagem,
que têm um papel decisivo durante esta perigosa navegação. Estes mastros bípodes (Estampa 41. figura |) são
formados por duas compridas peças de madeira cruzadas em ângulo agudo no topo superior por meio duma
sólida amarração, enquanto que os pés são mantidos em duas cunhas móveis de ferro ou de bambu, ou
simplesmente cavilhas em madeira, uma em cada bordo do convés. Este dispositivo tem por objectivo manter o
convés sempre desempachado de vante a ré, a fim de facilitar a manobra das espias e a circulação dos homens
da sirga, sempre muito numerosos para estes estreitos juncos. E com este mesmo fim que a vela nunca é arriada
sobre o convés. A vela é em pano de algodão, não tem qualquer verga e pode ser ferrada de baixo por simples
96
Estampa 40 Instalação do leme num Kua Zi (nc 36) junco do Alto Yangai Jiang.
G. Leme compensado
A. Chaveta atravessando q madre do nível do convés e servindo de ponto de suspensão do leme
B. Cana reforçada
€. Antepara estanque
P Ponte do homem do leme
EE. Reforços do casco
T Cabeço horizontal
MM. Cabos que contornam a madre
D. Maciço de madeira
torsão, actuando sobre o punho da escota. A Estampa 42 ( figuras | e 2) mostra a instalação de um grande
mastro nos juncos de mar e de rio.
O mastro (M ) é formado por um grande tronco de árvore ou pela junção de duas ou três peças de
madeira de secção quadrada ou circular consolidadas por círculos de ferro ( F.F ) colocados a quente. O mastro
fica encostado à parte anterior da antepara estanque (€.€. ); é sujeito lateralmente por duas falcas ( A.A. ) que
atravessam o pavimento do convés ( PP. ) até à enora (€.S. ) onde assenta o mastro. Na parte de vante a enora
termina por um chaço transversal ( B.B. ) ocupando toda a largura do pavimento. O espaço vazio entre esta
estrutura € o mastro é guarnecido com cunhas móveis (A.A) para travar o mastro no seu alojamento. Um metro
acima do convés em H há um encastramento no qual entra um pedaço de madeira em forma de arco botante
redondo, que se apoia no convés de forma a reforçar a posição do mastro no caso do junco andar com vento da
popa ou se uma espia para a alagem for apoiada no mastro.
Este arcobotante D.D.( ver figura 10 ) é de forma rectilínca ou curva e o seu comprimento é de dois a
quatro e seis metros, sendo os grandes juncos providos às vezes com dois sobrepostos. 6.G., (figura | ) é um
reforço circular destinado à servir de suporte à verga inferior da vela. Acessórios da manobra, cunhos e gornes,
são fixados à volta do mastro T'T. ( figura 11) ou ao lado das falcas ( figura |).
Os mastros móveis instalados nos juncos oceânicos são em geral de fracas dimensões. Erguem-se aos
bordos. junto da amurada ou no exterior dela. As figuras 3 e 4 da Estampa 42, mostram estas duas instalações,
No primeiro caso ( figura 3 ), 0 mastro é introduzido num maciço de madeira ( À ) fixado na borda ( P),
enquanto o pé é encastrado num segundo maciço de madeira colocado sobre a cinta superior. O mastro montado
no interior ( figura 4) assenta sobre a mecha num maciço (S ) fixado no convés. E mantido contra a amurada
por dois suportes com cunhas móveis (A,B ). Quando se quer retirar um mastro, a operação faz-se a braço ou
usando uma talha gurnida no mastro mais próximo.
97
As figuras 9 e 12 representam um cunho de convés e um gorne encostado à amurada. Este género de
gorne está, na maior parte das vezes, no pé do mastro junto às falcas. As figuras 5, 6, 7 e 8 mostram alguns dos
auxiliares de manobra que se podem ver nos topes dos mastros principais. À sua silhueta original chama de
muito longe a atenção dos viajantes estrangeiros, tanto mais que os topes são encimados por cata-ventos de
formas graciosas.
As extremidades dos mastros representados pelas figuras 5 e 6 são, para falar com propriedade, mastros
suplementares permitindo utilizar uma vela redonda do tipo ocidental. que se usa com vento bonançoso da
popa. Este mastro consta duma antena rectilínea ou em forma de saca-rolhas, de três a quatro metros de altura.
Tem cunhas de madeira que servem de degraus para subir à borla do mastro. A maior parte das vezes a parte
mais alta dos mastros é munida de polés para a manobra das velas ( Estampa 42, figuras 7 e 8).
Poderá ter-se uma ideia da diversidade dos motivos que decoram os topes dos mastros, consultando as
estampas que se referem aos cata-ventos.
Há duas espécies de mastros móveis: 1º o mastro ordinário formado por uma só peça de madeira que se
ergue no eixo do convés ( Estampa 41, figuras 2e 4); 2º o mastro bípode descrito mais atrás, composto de duas
peças de madeira que se juntam no topo e dispostas como um pau de carga ( figura 1 ). O mastro ordinário
apoia-se no porão, mas mais frequentemente no convés, onde é mantido por duas falcas ( A ) e por uma cavilha
(C) que serve de eixo de rotação ao mastro, quando deve ser inclinado com ajuda do pau de carga ( B.B.), para
passar por baixo duma ponte, por exemplo.
As figuras 2 e 4 mostram dois dispositivos de pau de carga que diferem pela posição dos seus eixos de
rotação (R.R). Os paus de carga estão dispostos para serem abatidos tanto para vante como para ré do convés.
O seu aparelho compõe-se de um estai ( G ) que une o tope do mastro ao tope do pau de carga, de dois cabos
(H.H) que se folgam a pedido, enquanto a tracção se exerce sobre os cabos ( L.L.) fixados no tope do mastro. O
estai ( G ) passa numa roldana ( D ) no tope do mastro e amarra-se no pé do mastro no convés.
Fig. 4 Outro tipo de pau de carga
Fig. 1 Mastro bípode hig. 2. Pau de carga para abater Fig 3 Eixo de rotação de um pau de carga
eiçaro mastro
Estampa 4! Aparelhos de mastreação
98
Para a passagem de pontes com pouca altura, o estai (G) é folgado até que o pau de carga e o mastro
assentem sobre o convés e sobre o tecto das superstruturas.
A figura 3 mostra um dispositivo de pé de pau de carga usado normalmente pelos pequenos juncos e os
barcos que pescam com uma rede de camaroeiro. Os pés do pau de carga assentam numa abita transversal que
lhe serve de eixo; quatro cavilhas de madeira (a, a, a), fixadas a cada um dos pés de um lado e doutro do eixo de
rotação, aguentam estes na rotação; quatro outras cavilhas fixadas no eixo enquadram e fixam os pés e mantêm-
-nos na abita. Este dispositivo só pode ser aplicado se o mastro e o pau de carga abaterem para o mesmo lado.
VELAS
As costas dos mares da China, como as do Oceano Índico, estão submetidas aos ventos periódicos da
monção de nordeste e de sudoeste, que são particularmente favoráveis à navegação dos veleiros; é assim provável
que desde a mais Alta Antiguidade as nações ribeirinhas, favorecidas por estes ventos regulares, tenham usado
navios à vela para as suas trocas comerciais. Sabemos pelos antigos anais chineses que as relações por mar
estavam estabelecidas entre a China e a Índia, e, para além, até ao Golfo Pérsico e ao Egipto, mas estes textos
não nos esclarecem quais os navios utilizados nestas longas viagens, e ignoramos, por consequência, os vários
tipos de velas usados nessa época. É de presumir que esses navios tivessem uma tonelagem importante e que o
seu velame respondesse às necessidades desta dura e longínqua navegação.
AE
/
+ a
/
2
EN
33
Fig. 2 Enora Fig. 10 Arcobotantes de pé de mastro Fig. 1 Cunho de mastro Fig. 12 Gorne
Estampa 42 Mastros e acessórios parsa a sua manobra
99
Marco Polo cita navios com quatro a cinco mastros, envergando até dez velas, enquanto nos nossos dias
os juncos raramente têm mais que cinco em linha, sem contar com as velas suplementares içadas com bom
tempo. Hoje, as velas usadas na China, podem reduzir-se às três categorias seguintes:
1º- Velas trapezoidais, do tipo vela de pendão.
2º- Velas quadrangulares.
3º- Velas de espicha.
Estas espécies de velas apresentam inúmeras variantes, mas todas têm esta característica comum: a de
poderem actuar no plano axtal do navio e receber o vento numa ou noutra face, como as velas de palhabote.
As velas deste último tipo, que se usam numa verga móvel perpendicular ao eixo do navio, são
desconhecidas na China, assim como as velas triangulares chamadas velas de baioneta, que são de uso corrente
nos juncos indochineses. Independentemente destes três tipos de velas. podem ver-se os juncos oceânicos,
usando com bom tempo, velas suplementares ( Estampa 47, figura 1) içadas entre os dois mastros principais, à
maneira das nossas velas de cutelo ou das nossas velas de estai, ou ainda sobrepostas às velas baixas, em forma
de vela de gávea envergada numa pequena verga transversal içada mesmo no tope do mastro grande. Por vezes
nota-se por vante do mastro do traquete uma espécie de bujarrona envergada numa comprida antena móvel
impelida para o exterior de um bordo ou doutro, para apanhar o vento. Mas estas velas leves e volantes, sem
varas intermédias que reforçem as velas maiores, são verosimilmente de inspiração europeia (1). De resto
raramente são usadas.
O que dá um carácter bem especial à vela chinesa são as varas ou vergas intermédias, em maior ou menor
número, fixadas a igual distância umas das outras à sua superfície, entre as tralhas, isto é, no intervalo das duas
vergas principais que as sustêm. Estão dispostas como as varetas de um leque dando à vela chinesa um aspecto
singular que não deixa de chamar a atenção do viajante estrangeiro.
Estas velas são feitas de esteira ou de pano de algodão; hoje estas últimas estão mais generalizadas e são
às vezes tintas com um preparado de casca de castanheiro e de ocre vermelho ou de azul indigo.
A esteira é confeccionada com uma espécie de junco, chamado Huangpu ( ne 40 ), de que os chineses se
servem normalmente para fabricar objectos de uso doméstico, tais como esteiras para cama, sacos para transportar
mercadorias, etc. Este junco cresce em abundância nas terras baixas e pantanosas do Sul.
Para a confecção destas velas, os juncos são cruzados e entrelaçados e muito apertados, mas não tecidos
à maneira das esteiras usuais ditas da China.
O trabalho não necessita, como para estas últimas, de um tear, visto que é feito totalmente à mão. As
velas de mar são cobertas de redes no ponto de contacto com os mastros e os cabos. Apesar de todos os cuidados
com o fabrico das velas, a sua duração é bastante limitada, um ano mais ou menos. Como são baratas, isso
permite substituí-las frequentemente. O seu uso tende à desaparecer gradualmente, sobretudo para as velas de
grandes dimensões.
Antes de empreendermos o exame das várias categorias de velas mencionadas acima, daremos uma ideia
geral das suas características comuns.
A feitura destas velas é certamente uma das mais engenhosas concepções do espírito chinês, que não tem
similar em mais nenhum país do mundo.
A superfície da vela é dividida, no sentido transversal, em vários elementos separados uns dos outros por
esteiras rígidas, compostas geralmente por feixes de bambus, mais ou menos numerosos, conforme o tamanho
da vela ( Estampa 43). São , em suma, pequenas vergas intermédias a toda a largura da vela, e fixadas num dos
lados, ou alternadamente de um lado e doutro. Cada uma destas vergas vai até um terço do co!
1)º* Com bom tempo, diz Du Halde, os juncos traziam uma vela de espicha. vela de gávea, um grande cutelo, qu
que não tinha escota, cutelinhos e uma vela redonda no mastro mais a ré”. Descrição do Império da China, por
100
vela, mais ou menos, a contar da tralha de barlavento, sendo o mastro envolvido por um estropo. O conjunto
destes estropos mantém a vela contra o mastro e faz o efeito de uma adriça, de forma que a acção do vento se
exerce ao longo do mastro. Em cada uma das extremidades destas vergas intermédias, no ponto de junção da
tralha da valuma, fixa-se uma das pernadas de um pé de galinha que corre num lançante de proa; à outra
pernada (b ) é fixa na extremidade da verga seguinte ( figura 2 ). Estes lançantes assim formados reunem-se
dois a dois numa espécie de sapata com vários furos (€ ) onde podem correr livremente. Nessa sapata está fixo
um cabo ( E ) servindo de escota da vela.
A vela é içada até ao tope do mastro por uma forte talha (P) ou por uma estralheira fixa na verga superior,
a meio ou à um terço a contar do extremo de barlavento. A adriça gurne num guincho colocado no pé do mastro.
A verga inferior é aguentada por dois teques, um de cada lado da vela e formando parelha (h ). Dada a sua
posição por ante a ré do mastro e do centro de esforço do vento sobre a vela, esta tem tendência em se orientar,
por si própria, perpendicularmente à direcção do vento e a deslocar-se nesta mesma direcção. Esta última
tendência é insuficientemente combatida pela rede de estropos ( d) que envolve o mastro. Este foi, portanto,
reforçado por uma espécie de tomadouro rigído ( f) - figura |, fazendo efeito duma troça, destinada a reagir
contra esta tendência de deslocamento para ré, sem estorvar todavia o movimento da vela em torno do mastro.
Este tomadouro está fixo à junção duma das vergas intermédias com a tralha da valuma, sensivelmente a meia
altura da vela, contorna o mastro, seguida por um moitão fixo à extremidade duma verga mais abaixo e desce
para o pé do mastro, onde é espertado por meio duma talha (g ).
Quando a vela é arriada. assenta em vaus (T), montados em cavaletes fixos ao convés e ainda sobre dois
teques (h ), servindo de amantilhos.
Por tudo isto se vê quanto a vela chinesa é diferente da nossa, sendo tão flexível, tão leve, e tão simples
no seu arranjo, mas por outro lado tão difícil de manobrar.
Não é por certo sem razão, que o chinês, ao inverso do ocidental, deu à sua vela esta tão grande rigidez
comparável à duma tela indeformável sob a acção do vento, conservando-lhe, contudo. bastante flexibilidade
tão necessária para a manobra.
À vela rígida é de manobra mais fácil que a nossa vela leve, com curvas bem elaboradas, a qual sob a
pressão do vento se cola contra o mastro, emperra as manobras correntes e torna, com mau tempo, todas as
manobras difíceis e mesmo perigosas tanto para o pessoal como para o material, sobretudo a manobra de rizar.
Por outro lado, a vela chinesa, graças às suas vergas intermédias, iça-se e arria-se facilmente com qualquer
tempo: chega-se bem ao vento sem bater; orienta-se por si própria, quando se vira de bordo; a sua rigidez
também a impede de bater, de dar sapatadas, mesmo quando não estiver içada a tope, de tal forma que os juncos,
mesmo quando fundeados, podem deixar sem receio as velas içadas. Por fim, citemos uma vantagem primor-
dial da vela chinesa que a classifica indubitavelmente acima de todas as outras: a facilidade com que se pode,
em caso de mau tempo, reduzir a sua superfície. Se fôr surpreendido por uma rajada, basta ao marinheiro chinês
largar a adriça para que veja imediatamente à vela arriar, em dobras sucessivas e regularmente como as ripas
duma gelosia que se fecha. A manobra de rizar opera-se assim rapidamente, com pessoal reduzido que trabalha
no convés, em toda a segurança. Mas há uma outra vantagem bastante inesperada e bem preciosa para os pobres
chineses, os quais não têm meios para substituir uma velha vela esburacada, e usada até ao fio. Graças às
lasquias intermédias, uma vela mesmo em farrapos conserva ainda uma superficie suficientemente rígida para
servir para alguma coisa, enquanto um buraco na vela europeia, ou um pequeno rasgão, chegam para a pôr fora
de uso e provocar desastres.
Enquanto os nossos artesãos procuram um corte complicado para as velas e por vezes muito elaborado,
de forma a que tenha uma curvatura tal que sob o efeito do vento a utilização da superfície adquira o máximo e
dê por conseguinte uma maior velocidade, o chinês, desprezando esta vantagem ou ignorando-a talvez, porque
nunca se preocupou em aumentar a velocidade do seu navio, contenta-se em acertar num plano as peças de
to!
algodão ou as esteiras, segundo um contorno definido e transmitido de longa data pelos seus antepassados. Este
método simplista não exige nenhum conhecimento especial de cortar velas, enquanto nos nossos países tal é
praticado por especialistas comprovados. Tal profissão não existe na China, e a maior parte das vezes é o patrão
que é o artesão das suas próprias velas. O corte das velas trapezoidais varia conforme as regiões, mas só há
diferença apreciável entre os de Guangdong ( Estampa 44, figura 1), isto é das costas meridionais da China, e
as do Norte, desde a boca do Yangzi Jiang até ao golfo de Bei Zhili. Nas primeiras, o corte é o das nossas velas
chamadas de pendão, nas quais a tralha da valuma é levada bem para vante do mastro, enquanto a de ré é
arredondada e tem uma curva muito pronunciada a que não falta nem elegância nem pitoresco.
As vergas intermédias são pouco numerosas, seis a oito, a maioria das vezes. As velas do Norte também
são de pendão, mas a curva, na parte alta, é menos acentuada que nas regiões meridionais, muitas vezes é
mesmo inexistente ( ver Estampa 43 ). O número das vergas intermédias nestas últimas, é, pelo contrário, mais
elevado e pode atingir vinte e cinco € mesmo trinta vergas. As valumas são sensivelmente rectas e paralelas ao
mastro.
As velas quadrangulares, que são a segunda categoria de velas chinesas ( Estampa 45 ), usam-se
principalmente nos juncos de rio; podem apresentar tantas variedades, quantos os juncos que as envergam.
Encontram-se dispositivos de velame e de aparelho dos mais diversos e toda a espécie de dispositivos secundários
que nos sentiríamos embaraçados para os descrever, mesmo sumariamente, tão considerável é o seu número. As
velas chamadas de espicha ( Estampa 46 - figuras 3 e 4 ) oferecem menor variedade que as precedentes. São
usadas pelas sampanas e os juncos de carga, nos rios, e por certos barcos de pesca nas costas.
Estas velas de forma rectangular, análogas às que estão em uso na Europa, içam-se em mastros leves, a
maior parte das vezes de bambu, que não são aguentados nem por ovéns nem estais. A vara colocada na diago-
nal para impelir para sotavento do mastro. e para ré o punho superior da vela, é sempre de bambu leve, e
amarrada à parte inferior desse mesmo mastro. A vela é envergada no mastro por meio de anéis de bambu.
Apresenta muitas vezes a particularidade de ser formada de panos horizontais com rizes. As fiadas de
rizes são muito numerosas e vão até à parte de baixo da quarta fiada de pano superior.
A bujarrona ( Estampa 44 - figura 3 ) é usada muito raramente nos juncos chineses. A sua utilidade
parecerá contestável, se se reparar que, graças à grande inclinação do mastro de vante para à proa, a acção da
vela instalada nesse mastro se exerce com não menor eficácia que a duma bujarrona. O chinês achou esta
solução preferível à do gurupés, cujo comportamento no mar é muito aleatório, sobretudo para os barcos
pequenos.
Os mastros muito altos, compostos por várias peças, estão sujeitos a deformação por flexão em virtude
da pressão das velas, transmitida pelas vergas ao tope dos mastros, e daí a necessidade de os aguentar com estais
e ovéns. No junco chinês, a pressão da vela reparte-se por todo o comprimento do mastro por intermédio das
suas vergas intercalares, de maneira que as reacções que daí resultam produzem um equilíbrio suficiente para
assegurar a posição do mastro, sem recorrer a aparelho fixo. A esta simplificação importante que soube trazer
ao seu aparelho, juntou o marinheiro chinês a segurança quase completa que lhe dá o seu robusto velame capaz
de resistir às mais rudes provas graças à engenhosidade da sua instalação. As velas dos grandes juncos atingem
uma superfície e um peso consideráveis. Este peso foi grandemente reduzido depois de se ter substituído a
esteira pelo pano de algodão.
Dissemos mais acima, que a vela chinesa é formada por peças de pano verticais, montadas numa superfície
plana segundo um contorno determinado. A largura dessas peças varia de 0,30m a 0.45m, pouco mais ou
menos.
A montagem da vela sobre o conjunto das duas vergas principais e das varas intermédias merece alguma
atenção. As peças, tendo sido juntas por meio de costuras planas rebaixadas, são depois cortadas segundo o
gabari escolhido. No contorno da vela fixam-se as tralhas ( Estampa 47a - figura 4). Cada costura que liga duas
102
BUM =
Y
AS
lt;
ú
rpm
Il
adm
Fig. 3 Costas de Fujian Fig. 4 Vela de esteira
Estampa 43 Velas de juncos oceânicos
peças de pano consecutivas é em seguida reforçada por um vergueiro,cujas duas extremidades são fixadas por
um anel, em cada uma das réguas que correm ao longo de duas vergas extremas. Estas réguas são por sua vez
amarradas solidamente, uma por baixo, e outra por cima. Nos lados das velas, tralhas abotoadas a intervalos
iguais, a um cabo que reúne as duas extremidades das vergas, estão de forma a que vela fique solidamente
enquadrada e sujeita por todos os lados. Quanto às réguas intermédias que ainda não estão colocadas, a sua
razão de ser é de dar à vela a rigidez duma tela e de transmitir ao mastro a pressão do vento, evitando qualquer
ligação que tivesse o risco de fazer suportar ao pano o peso das réguas e da verga inferior. Estas réguas, depois
de passarem livremente por uma mãozinha costurada em cada uma das fieiras verticais, são fixadas sobre o
cabo abotoado ao longo dos vergueiros.
As velas principais dos juncos de rio e das costas do Bei Zhili, ( Estampas 43, 45 ) são formadas, a maior
partes das vezes, por duas ou três fiadas de pano juntas. Estas peças são reunidas por uma cosedura, permitindo
que se faça passar pelos seus interstícios as réguas intermédias alternadamente de um lado e doutro de cada uma
103
delas, seguindo uma regra não determinada que parece depender da fantasia ou das necessidades práticas do
veleiro, sob a reserva que a peça de pano em contacto com o mastro esteja sempre coberta por todas as réguas.
Os juncos de mar que navegam ao sul da foz do Yangzi Jiang têm sempre as velas feitas duma só peça:
há-os também com duas ou três peças, mas que estão geralmente sobrepostas no sentido horizontal, € Estampas
43-45-46 ) de forma que a totalidade das vergas intermédias estejam do mesmo lado da vela, como acontece nos
juncos destas regiões.
Não se faz questão de, neste estudo, já bastante longo, examinar mais à fundo as particularidades
apresentadas pelas velas chinesas; são ainda numerosas, mas de menor interesse. Encontrar-se-ão na segunda
parte. destinada à descrição dos juncos, alguns novos pormenores representados, na maior parte dos casos,
pelas ilustrações que acompanham o texto.
A Estampa 47 mostra as principais velas volantes de tipo ocidental que envergam com bom tempo alguns
poucos juncos oceânicos, os de Bei Zhili entre outros.
A figura 4 representa a instalação, descrita mais atrás, duma vela com as suas ligações às vergas e às
réguas. À este respeito consultámos os artigos do Tenente D.W.Waters R.N., que apareceram no Mariner's
Mirror , sobre os juncos do golfo de Bei Zhili, artigos cheios de interesse por conterem documentação precisa
sobre assuntos pouco conhecidos de marinheiros estrangeiros (1).
Entre os arranjos de velas, há um muito original, usado pelos juncos de rio para captar o vento por cima
das margens altas, quando as suas velas, muito altas, no entanto, são insuficientes para dar andamento ao navio.
Içam no tope do mastro uma vela rectangular ( Estampa 47a, figura 3 ) ou ainda uma vela de baioneta manobrada
por meio duma grande vara apoiada no convés.
A figura 2 ( Estampa 47 ) representa um junco de pesca com cinco mastros com velas, utilizado na pesca
de arrasto no lago Taihu ( nc 41 ), a oeste de Shanghai. Graças às suas velas de fracas dimensões, o pescador
evita o perigo que envolve a manobra duma grande vela única neste lago onde as rajadas são súbitas e violentas.
Juntemos a isto a engenhosidade de um dispositivo permitindo pela simples manobra duma adriça arriar as
cinco velas ao mesmo tempo. Esta manobra é feita pela mulher e pelas crianças, enquanto o marido trata da
pesca.
Não poderíamos terminar este capítulo sem voltar, uma vez mais, às qualidades ignoradas, ou
menosprezadas, do junco chinês, que bastantes pessoas têm ridicularizado, por ser contrário às nossas concepções
ocidentais e desacreditado por causa das suas velas espalmadas como as asas de um morcego.
O junco chinês à vela evolui com um facilidade notável; toda a força viva do navio parece concentrar-se
nessa evolução. A manobra opera-se com o mastro como eixo, sem que 0 junco se desloque sensivelmente
durante o movimento. Virar de bordo é fácil, emprega um pessoal muito reduzido, sem nenhuma manobra por
assim dizer, um simples movimento progressivo do leme, caçando o punho da escota, se for caso disso, para O
meio do convés, espertando à comprida escota, e o navio arriba, enquanto as velas tomam por si próprias a sua
nova posição sem que seja necessário mexer nas amuras, nem nas escotas a que umas e outras estão amarradas
no eixo do convés.
Se o chinês continua fiel ao seu tipo de velame, é também porque na navegação que pratica é frequente
o bordejar, nomeadamente nos rios, no qual velas longitudinais são vantajosas. Permitem chegar-se ao vento
mais uma quarta que as velas redondas.
E preciso, no entanto, reconhecer um grande defeito à maior parte dos juncos chineses: é o forte abatimento
que lhes dá o seu fraco calado, piorado com o fundo chato sem quilha, que combatem. mas insuficientemente,
com o pesado leme descendo abaixo do tabuado do fundo, inconveniente grave, resultante, como já dissemos
mais atrás, dos éditos várias vezes seculares. interditando aos chineses a construção de navios aptos para
empreender navegações longínquas, quer dizer verdadeiros navios oceânicos.
1) “Chinese Junks : The Antong Trader”, Janeiro 1938. “The Bei Zhili Trader”, Janeiro 1939.
104
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Velas dos juncos de Cantão - costas de Guangdong
CABOS DE BAMBU
De tudo o que que se desenvolve no vasto Império Chinês não há a menor dúvida que nada ultrapassa em
utilidade 0 bambu, que se utiliza num grande número de aplicações e em particular na confecção de massame
de todas as bitolas, desde a simples retenida à espia de grande bitola que mantém o junco ligado à âncora.
Marco Polo, que nos revelou a China com tão preciosos pormenores no relato das suas viagens, diz a este
Estampa 44
propósito:
“ Têm canas do comprimento de quinze passos que dividem a todo o comprimento em filamentos muito
finos que torcem uns com os outros para fazer cabos de trezentos passos de comprimento, tão habilmente
trabalhados que se julgaria serem feitos de cânhamo”
Sobre este mesmo assunto, o Padre Du Halde, falando destas cordas fabricadas de talas de cana, acrescenta:
“ a água nunca as apodrece, têm uma resistência surpreendente *
Nada mudou desde esta época no fabrico e no uso dos cabos de bambu que os chineses continuam a
105
o
Estampa 45. Velas de juncos de rio
utilizar com sucesso nos seus juncos. O Dr. Legendre, que teve ocasião de assistir à confecção destes cabos,
exprime-se assim quando fala dos cordoeiros:
“ Cortam em lamelas compridos bambus ocos, depois batem estas lamelas durante um certo tempo para
separar as fibras da matéria mole e polposa que as cobre, as aglutina e parece que apressaria a sua decomposição.
Quando conseguiram uma tira muito flexível, reduzida a um feixe de fibras, pode fazer-se a operação de entrançar.
Para tornar esta fita tão pouco quebradiça quanto possível e muito duradoura, submete-se então a uma espécie
de cozedura em água a ferver.
Por este processo, conseguem-se fabricar cabos duma resistência e duma flexibilidade espantosas, bem
superiores às dos cabos em cânhamo. A sua principal vantagem reside na dureza e na tenacidade dos cordões
que as rochas só cortam muito lentamente”. O Dr. Legendre enumera a seguir as três bitolas principais dos
cabos usados pelos juncos que sobem os rápidos do Alto Yangzi Jiang:
“ 1º O Fei Teng ( nc 42 )( Fei= voar ; Teng = cabo de alagem); em inglês - flying hawser; em português -
106
Fig. 3-4 Velas de espicha
Estampa 46 — Velas de juncos de mar - Costas deFujian
espia. É o cabo leve, o que se emprega em águas calmas, sem corrente.
2º. O Er Heng Teng ( nc 43 ) ( Heng = agir : Er = segundo ). É o cabo que actua em segundo lugar, mais
grosso que o primeiro e usado logo que a corrente é difícil de vencer ou quando sopra o Xia Feng ( nc 44 X Xia
= em baixo ; Feng = vento ), o vento pela proa, aquele que tende a fazer descer o junco, e que estorva a sua
subida.
3º. O Zuo Teng ( nc 45) ( Zuo = senta-se ). É o virador pesado, difícil de arrastar, o qual precisa de várias
equipas de sirgadores. Só é utilizado na passagem dos rápidos “.
Para conservar a flexiblidade destes cabos, sobretudo durante o verão, em que o calor os toma quebradiços,
os chineses regam-nos frequentemente com água e batem-nos com um macete. Este costume é observado em
especial nas jangadas do Yangzi Jiang, que precisam para a alagem de enormes espias de bambu.
É sobretudo na província de Hubei Sheng( nc 46 ), que se pratica a indústria do bambu. Em Hanyang ( nc
47), perto de Hankou (nc 48), os fabricantes de cabos são quase uma legião na margem esquerda do grande rio,
107
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Fig. 2 Barco de pesca de arrasto do lago Taiwi Jiangsu
Estampa 47
onde se erguem pequenas cabanas de madeira empoleiradas como pombais em altas e frágeis varas de madeira.
Dois homens trabalham em conjunto, um na cabana, o outro em baixo, ocupados em entrançar, torcendo três ou
quatro compridas lamelas de bambu, enquanto outros operários cortam e preparam as lamelas, como já foi dito.
Esta equipa pode, em três dias, confeccionar um cabo de quinhentos a seiscentos metros de comprimento
e oito a quinze centímetros de circunferência. Não é fácil imaginar um material que reúna tantas vantagens e se
adapte tão perfeitamente às necessidades da navegação como o cabo de bambu. E a bordo dos juncos que
navegam no Alto Yangzi Jiang que o seu papel é capital.
A subida faz-se, com efeito, à corda na quase totalidade do percurso através de gargantas profundas, de
flancos abruptos, oferecendo muito poucos caminhos de acesso, sempre difícil aos sirgadores, que ainda por
cima têm mil dificuldades em arrastar à espia de alagem por cima dos rochedos de arestas cortantes onde outro
material que não fosse o bambu se gastaria rapidamente.
Pela sua leveza, resistência e dureza, o cabo de bambu convém particularmente à subida dos numerosos
108
Fig. 4 Montagem de uma vela
Estampa 7a Alto Yangai Jiang
OBRAS CONSULTADAS:
rápidos do alto Yangzi Jiang. Estas passagens
perigosas só podem ser transpostas com o esforço
de centenas de sirgadores, repartidos em vários
grupos, manobrando espias de duzentos a trezentos
metros de comprimento.
“ No esforço considerável, diz o Dr. Legenare,
a que o cabo está sujeito, em certos momentos,
quando a corrente é forte, acontece que o cabo venha
a raspar nos rochedos e o contacto com uma agulha
ou uma aresta cortante é tanto mais intimo quanto a
tensão é mais forte. Produz-se portanto uma
verdadeira serragem do cabo. muito mais rápida e
marcada com um cabo de cânhamo do que com um
de bambu. Os europeus que já liveram esta
experiência, reconhecem que a superioridade do cabo
de bambu sobre as outras qualidades de cabos que
podem ser usados no Alto Yangzi Jiang é
incontestável *.
Uma outra vantagem, não menos preciosa,
reside no facto de o bambu ser um material pouco
sensível às intempéries. Não sofre por esse facto
deformações apreciáveis, enquanto que os cabos de
“ânhamo encolhem com a chuva e esticam nos climas
quentes, obrigando a tripulação a renová-los
frequentemente durante uma travessia, para manter
a tensão dos cabos fixos. Por outro lado, o bambu,
por causa da sua rigidez, não é utilizável nas
manobras correntes. É então substituído por uma
fibra de uma variedade de palmeira (1) muito comum
na China, que se presta, por ser muito flexível, à
confecção deste cabo.
Deux aunnées au Setchouen, pelo Dr. A. F. Legendre ( 1905 ).
Descrição geográfica, historique de la Chine, pelo P. Du Halde ( 1735 ).
Vorage de "Ambassade de la Compagnie des Indes Orientales, por Van Braam Houckgest
LIZA).
Alto Yangzi Jiang
O moitão chinês é feito duma só peça de madeira dura, teca ou cânfora, com uma abertura rectangular para
alojar a roldana, que é também de madeira. Não tem alça. Usa-se a maior parte das vezes como moitão volante
no aparelho do velame, que tem, como já se viu atrás, múltiplas bolinas. Entre os juncos que frequentam os
portos abertos ao comércio estrangeiro, um grande número adoptaram o moitão de tipo ocidental que, como
vamos ver, pouco difere dos chineses.
É Em francês “ chamerops “. para que se não encontrou tradução.
109
A figura | da Estampa 49 representa uma moitão com abertura para introduzir o tirador de um cabo sobre
o qual se exerce a tracção. À figura 2 é uma talha semelhante ao primeiro aparelho precedente e utilizada da
mesma maneira. A figura 3 é um moitão volante, com duas roldanas sobrepostas e a caixa em forma de um 8,
que lembra o que os franceses chamam moitão de violino. É muito usado para espertar as bolinas. A figura 4 é
um moitão duplo, igualmente com roldanas sobrepostas, destinado a actuar sobre um cabo, como nas figuras |
e 2. Os moitões 5, 6. e 7 servem exclusivamente o retorno dos múltiplos cabos de bolina e para espertar estes
últimos por intermédio de um forte cabo de escota simples que passa numa abertura na base do aparelho, ou
numa roldana no caso da escota dupla ( figura 6 ). A figura 5 representa bastante bem a forma das bigotas que
servem para esticar os ovéns nos navios ocidentais. A figura 6 tem muita analogia com o aparelho usado nesses
mesmos navios para aguentar a tralha central dos toldos do convés, numa direcção rectilínea por meio de várias
pernadas de linha, chamadas aranhas.
As adriças das velas e as ostagas servindo de amantilhos às velas passam em moitões colocados no tope
dos mastros, ou então em furos abertos no mesmo sítio, onde se colocam roldanas ( Estampa 42, figuras 7 e 8).
A parte alta em que estão colocadas estas roldanas apresenta dispositivos originais. que não deixam de
prender a atenção, sobretudo quando no tope do mastro flutua um dos cata-ventos de perfil bizarro com que os
marinheiros chineses gostam de ornamentar os seus mastros. Como os ocidentais, os marinheiros chineses
utilizam também acessórios do aparelho que servem para os mesmos fins e são análogos tais como roldanas no
pé dos mastros ou na amurada, cunhos, mesas de malaguetas para dar volta aos cabos de laborar, e também
trambelhos. A Estampa 41 mostra alguns exemplos desses acessórios que são utilizados principalmente nos
juncos de mar.
ÂNCORAS
Os chineses utilizam duas espécies de âncoras: as âncoras de madeira e as âncoras de ferro. Servem-se,
além disso, de fateixas de ferro de três e quatro braços. Enfim, em fundos baixos, usam uma vara ( P) (ver
Estampa 53, figura 2) ou até um simples bambu que espetam verticalmente no fundo, depois de ter passado
numa cavidade para tal preparada na proa do navio. Graças a este processo, o chinês pode parar instantaneamente
o seu barco, no ponto exacto que desejar. sem recorrer a uma âncora ou à um cabo passado para terra. Esta
maneira expedita de fundear é utilizada sobretudo pelos barcos que sobem, à sirga, ao longo de margens com
muita corrente. Se acidentalmente o cabo de alagem parte, o barco fica imediatamente parado por ter fundeado
com a vara. É surpreendente que uma maneira de fundear tão segura como rápida não seja utilizada
universalmente, pelo menos nos lagos e nos rios.
Para manterem a distância à margem a que amarram, a maior parte das vezes a estacas cravadas em terra,
os juncos têm no convés duas antenas, uma a vante e outra à ré, que se enfiam no fundo e que são solidamente
amarradas no extremo que fica a bordo. Quando os juncos se reunem no mesmo ponto da margem, ficam
amarrados de braço dado, perpendicularmente à ela, e mantêm a distância por meio de uma antena ( A ),
Estampa 48 — Espia de alugem em bambu
Ho
colocada a vante sobre o convés ou passando por uma portinhola, como mostra a figura | da Estampa 53.
As âncoras de madeira ( Estampa 50 ) atingem por vezes grandes dimensões (1); o seu peso é considerável
pois são feitas em madeira pesada e muito dura chamada Tiemu (nc 49 ) ou pau ferro, cuja densidade bem
superior à da água lhes assegura unhar bem. Têm um ou dois braços igualmente de madeira, talhados em bisel,
solidamente ligados à haste por travessas reforçadas por robustas arrotaduras de cânhamo ou de bambu.
A extremidade das patas é às vezes guarnecida com uma bainha protectora em ferro. Quanto à haste,
muito comprida se a compararmos com as das nossas âncoras em ferro ( oito metros de comprimento e mais ),
é furada na extremidade livre, e nesse furo passa o cabo da amarra. A outra extremidade recebe, na junção dos
braços, e perpendicularmente a estes, um forte tronco ou uma armação de bambus e de comprimento um pouco
inferior ao da haste, chamado cepo. Nota-se logo que na âncora chinesa, quer seja de madeira ou de ferro, o
cepo está próximo da junção dos braços e da haste, enquanto que entre nós está no começo da haste, não longe
do anete que liga a âncora à amarra.
Quais as razões que puderam fazer com que os chineses adoptassem este dispositivo que remonta
imquestionavelmente a tempos muito antigos ?
Não há dúvida que sob o ponto de vista de arrumação e de manipulação o cepo instalado à moda ocidental
apresenta inconvenientes. Tentou remediar-se este inconveniente, tornando-o móvel ou mesmo suprimindo-o,
Fig. 5 Fig. 6 Fig. 7
Estampa 49
1) As âncoras do Qixing ( ver tomo HI) tinham um comprimento de cerca de dez metros.
tt
mas estas inovações não deixam também de apresentar, por sua vez, sérios inconvenientes. Ao contrário, o cepo
instalado à maneira chinesa é de grande comodidade nas manobras de fundear e na instalação a bordo. A
eficácia desta âncora no agarrar-se ao fundo, resulta precisamente da posição do cepo, perto do nascimento dos
braços. É tácil de nos darmos conta que, qualquer que seja a maneira como a âncora cai no fundo, uma das duas
patas fica sempre em contacto com o solo, com tendência para se enterrar desde que a amarra exerça a menor
tracção sobre a haste.
Com o cepo instalado à ocidental, acontece frequentemente que as duas patas caiam no fundo
horizontalmente. Nesse caso o ferro unha duma maneira instável, e o navio irá à garra, até que um obstáculo
venha modificar a posição da âncora e fazê-la assim unhar.
As âncoras de madeira tanto se usam nos juncos de mar como nos de rio. A manobra de fundear e de içar
o ferro são facilitadas visto a proa destes juncos ter uma forma especial, que [az com que a âncora possa
assentar horizontalmente sobre uma plataforma, ficando a haste nessa plataforma e as patas de fora (ver Estampa
52, figuras3e 5).
Nestes juncos não há turco do ferro nem boças: não têm qualquer utilidade. Na posição que indicámos, a
âncora fica sujeita pelo seu próprio peso e, em caso de mau tempo, por um ou mais botões.
Para fundear, basta largar uma certa quantidade de cabo à um dos bordos do junco, depois com uma
alavanca levantar a haste até que a âncora, arrastada pelo seu próprio peso, se vire e caia ao mar. Para içar O
ferro há um guincho ou um molinete, colocado à vante entre as duas falcas que reminam a amurada ( Estampa
54. figuras 2 e 3). Um arinque ligado a um dos braços permite depois içá-la à altura conveniente, de forma que
uma simples tracção sobre a amarra tende a colocar a haste em posição horizontal na plataforma, ficando o cepo
e as patas de fora.
Quando as âncoras são muito grandes, os chineses servem-se para as içar duma sampana especial ( ver
Estampa 53, figura 3 ); de um pequeno pau de carga ou de um guincho permitindo içar à âncora verticalmente,
enquanto a tripulação acciona o guincho para a levar à posição. Estas sampanas têm geralmente à popa, em vez
de leme, um leme lateral destinado a atenuar as guinadas, quando operam nos rios.
ÂNCORAS E FATEIXAS DE FERRO
Estas âncoras ( Estampa 51 ) são usadas na China há muito tempo. P. du Halde menciona a sua existência
nos navios mercantes.
Na Collection des Livres Anciens et Modernes (tomo I. pag. 73, nota 26). diz-se que nos mares do Norte,
em que os fundos são arenosos, se podem largar âncoras de ferro, enquanto que nos mares do Sul, onde as águas
são pouco profundas, é preferível largar âncoras de madeira. Esta escolha no uso dos dois tipos de âncoras pode
encontrar explicação no facto de a âncora de madeira, sendo relativamente mais leve na água do que à âncora de
ferro, poder ser assim mais facilmente içada nas águas profundas que a âncora de ferro. Pelo contrário, nos
fundos arenosos e pequenos, a âncora de madeira, por causa do seu volume, oferece uma grande resistência ao
garrar, sobretudo se as correntes de maré provocaram o seu enterramento, como é muito frequente nestas costas.
A indústria chinesa não estava à altura de fabricar estas grandes âncoras de ferro forjado numa só peça,
verdadeiras obras primas da metalurgia ocidental, conseguidas por processos e ferramentas das mais perfeitas.
As âncoras fabricadas pelos ferreiros chineses, apesar de formadas pela reunião de várias peças, não são menos,
no seu género, belas peças de ferraria, oferecendo as melhores garantias de robustez.
A âncora de ferro é bascada nos mesmos princípios que a âncora de madeira. Tem uma haste e dois
braços ligados por um anel e cunhas de ferro rebitadas a quente. O cepo é igualmente colocado próximo do
cruzamento dos braços com a haste e perpendicularmente a estes. E em ferro, ou feito duma barra de madeira.
A manobra das âncoras faz-se da mesma maneira que a dos ferros de madeira, mas os juncos que usam
estas âncoras são normalmente equipados com boças análogas às nossas, e nesse caso o cepo assenta na maior
Estampa SO Ancoras de madeira
parte dos casos no alcatrate. Nos rios, nomeadamente no Baixo Yangzi Jiang, os grandes juncos usam de
preferência fateixas em ferro com quatro braços. Estas fateixas ficam suspensas pelos braços a cada bordo, à
proa ou no extremo de uma peça de madeira quadrada, onde estão as boças e saindo ligeiramente do painel a
vante ( Estampa 52, figura 2).
Certos juncos do lago Poyang ( nc 50 ) estão equipados com quatro boças colocadas perpendicularmente
ao painel de vante com o mesmo número de fateixas em posição para fundear ( Estampa 52, figura 1). Os juncos
de Shandong (nc 51), chamados Sha Chuan ( ne 33), utilizam igualmente fateixas de ferro de quatro braços,
mas têm cepo perto do anete, contrariamente ao uso chinês, Não há explicação para a utilidade de um cepo
numa fateixa com vários braços, a menos que esta peça assente horizontalmente na travessa de vante do junco
para amarrar melhor a fateixa na sua posição de manobra no mar, ou para facilitar a sua manobra.
ÂNCORAS FLUTUANTES
A âncora flutuante ( Estampa 53, figuras 4, 5 e 6 ) é usada na China num grande número de casos :
[º. Para diminuir o abatimento dos juncos de mar, quando submetidos a vento de través, caso em que
correm o perigo de ser levados para a praia ou para fundos baixos;
2º. Nos juncos de pesca para reduzir a velocidade em relação ao fundo, onde arrastam as redes;
3º. Nas jangadas ou comboios de madeira que descem os grandes cursos de água ao sabor da corrente, em
especial o Yangzi Hang.
Estas enormes massas flutuantes (ver parte descritiva- Baixo Yangzi Jiang) sem velocidade própria nem
meios de governar, não podem modificar o rumo senão com a ajuda duma âncora flutuante fundeada no meio da
corrente e virada rapidamente ao cabrestante. Esta manobra, habilmente executada, permite manter-se no canal
e evitar o encalhe, muitas vezes desastroso para as jangadas.
Citaremos para o primeiro caso os Sha Chuan, grandes juncos de pouco calado e de grandes velas que
navegam no golfo de Bei Zhili e ao longo das costas arenosas e pouco fundas a Norte do Yangzi Jiang.
Independentemente de lemes laterais, de que se servem para diminuir o abatimento ( figura 7 - Estampa 53),
utilizam para o mesmo fim uma âncora flutuante, uma espécie de grande cesto rectangular de três a quatro
metros de lado, com os bordos levantados trinta centímetros, feitos de esteira de bambu, e reforçados por cordas
fixadas em diagonal no fundo ( Estampa 53, figura 4 ).
Um pé de galinha com quatro ramos é amarrado aos extremos, sendo os dois ramos inferiores mais curtos
do que os outros para dar uma ligeira inclinação à âncora. No ponto de junção dos quatro ramos fixa-se o cabo
de reboque que deve manter o junco a uma certa distância do aparelho. A um dos lados amarra-se uma segunda
espia, por meio da qual se pode meter dentro, horizontalmente e sobre a água, o cesto. Quando o vento refresc:
e empurra para a costa, lançam à água este precioso travão que neutraliza em grande parte o efeito do vento
sobre 0 casco.
À parte o Sha Chuan, não parece que outros juncos oceânicos usem a âncora flutuante durante a sua
navegação. Quanto ao uso deste aparelho para reduzir a velocidade dos barcos de pesca, está tão espalhado nos
cursos de água do interior como na costa. As figuras 5 e 6 mostram dois aparelhos que são de uso corrente
nestes navios.
Acontece frequentemente nos rios onde os juncos que estão fundeados, querendo evitar guinadas
produzidas pelas flutuações da corrente, larguem pela popa uma âncora flutuante que lhes assegura uma
imobilidade quase completa. Com este fim, as sampanas dos grandes juncos utilizadas para içar os ferros, põem
em vez do leme uma prancha de madeira com a forma de um leme lateral ( figura 3 ). Para se defenderem duma
rajada, Os juncos oceânicos usam uma âncora flutuante, assim como para se manterem aproados à vaga e
evitarem o perigo de apanhar o mar pelo través. É o mesmo processo que utilizam, nas mesmas circunstâncias,
os navios de vela de outros países.
CABRESTANTE
Os grandes juncos oceânicos que frequentam os portos abertos ao comércio com o estrangeiro, adoptaram
na maioria o cabrestante de origem ocidental, enquanto os juncos fluviais ficaram fiéis ao tipo local melhor
adaptado às suas modestas necessidades. É interessante notar a analogia entre o cabrestante dos juncos de mar
( Estampa 55 - figura 4 ) e o dos navios europeus dos séculos XVILe XVIII, analogia que resulta sem dúvida da
adopção pelos chineses do aparelho ocidental aquando dos primeiros contactos com os europeus.
Os juncos, não tendo grandes tripulações, as manobras de força, em particular o içar as grandes e pesadas
velas, cujo peso ainda é aumentado pelas múltiplas vergas intermédias, exigem o uso do cabrestante ou do
guincho. Os grandes juncos de mar têm normalmente dois, um a vante e outro a ré do mastro grande, em bordos
opostos; os juncos de rio só têm um a vante do mastro principal mas alguns, mesmo de grandes dimensões, não
têm nenhum. Acontece O mesmo com os juncos do Alto Yangzi Jiang, que não têm no convés qualquer aparelho
para as manobras de força.
O cabrestante dos juncos de mar (figura 4) é formado duma mecha de madeira que atravessa o convés e
assenta por um macho numa cavidade praticada num reforço do tabuado do porão; a saia à volta da qual se
enrola o cabo é constituída por seis à oito peças de madeira ligadas à mecha, e cujo perfil ligeiramente cónico
permite, como nos nossos cabrestantes, fazer variar o esforço de tracção pela simples deslocação do cabo. Por
cima da saia fica o chapéu circular, furado a toda a volta para receber as extremidades das barras do cabrestante.
O cabrestante dos juncos dos lagos e dos rios ( figuras 5, 6 e 7), distingue-se do precedente pela sua
RE
Estampa 5! Âncoras de ferro
grande simplicidade de construção que não afecta em nada as suas qualidades práticas. É uma espécie de
torniquete colocado num eixo vertical, em torno do qual pode rodar livremente. A gola é constituída por varas
de madeira fixas pelas extremidades a dois pratos circulares a maior parte das vezes de diâmetros diferentes, de
molde a dar ao conjunto a forma cónica e permitindo modificar à vontade o esforço sobre o cabo. A manobra do
torniquete é feita com a ajuda de barras ( figura 6, B ) introduzidas no espaço deixado livre entre as varas. O
mesmo processo de rotação é usado, em muito maior escala, nos comboios de madeira do Yangzi Jiang ( ver
parte descritiva - Baixo Yangzi Jiang ).
GUINCHOS
De todos os aparelhos para levantar pesos usados na marinha chinesa, o guincho a braço é o mais
vulgarizado nos juncos, de mar e de rio. Não há navio, de pouca importância que seja, de pesca ou de cabotagem,
que não tenha à popa ao menos um guincho para içar ou arriar o leme ( Estampa 39, figuras | e 2; Estampa 54,
figuras 4e 5). Nos juncos de maiores dimensões, dois ou três guinchos, à falta de cabrestante, estão colocados
no pé dos mastros principais para a manobra das velas ( Estampa 55 - figura 3 ), assim como o mais a vante
possível para içar as âncoras (Estampa 54 - figura 2 e 3). O guincho do convés é formado por uma peça de
madeira cilíndrica, assentando nas duas extremidades em dois suportes verticais que são a maior parte das
vezes móveis para eventualmente desempachar o convés ( Estampa 55 - figuras | e 3). A sua manobra faz-se
por meio de barras fixadas no eixo.
5
Estampa 52. Yangzi diang
CABEÇOS
Os cabeços são muito utilizados como ponto de amarração no convés dos juncos. Há-os de duas espécies:
os cabeços verticais, colocados a maior parte das vezes a vante, c os horizontais, utilizados nos juncos de rio e
mais particularmente nos do Alto Yangzi Jiang, onde têm um papel de primeiro plano nas manobras de içar o
ferro e de fundear.
Os cabeços verticais ( Estampa 55, figura 2 ) constam de um bloco cilíndrico de madeira que atravessa o
convés, assentando por um macho no pavimento do porão. Servem para amarração ao longo das margens, para
o fundear das âncoras e a manobra das velas. Os cabeços horizontais (Estampa 54 - figura |) são igualmente
fortes; assentam na amurada com as extremidades saindo para fora, Cavilhas de madeira (aja ) enfiadas nos
buracos feitos nessas extremidades servem de cunhos de amarração. Estes cabeços são geralmente dispostos,
de três a quatro no convés a vante do mastro grande, e outros dois a ré na parte ocupada pelos alojamentos. Só
as extremidades dos dois últimos é que são visíveis por fora do casco. O cabeço de vante faz corpo com a baliza
do painel ao qual está ligado por tiras de ferro (€ b,b ). No meio delas, isto é, no eixo do convés, duas cavilhas
verticais ( CC ) enquadram o local destinado para o grande leme, chamado “Sao” (ne 52), que se usa para
reforçar a acção do leme ( Estampa 56 ). Certos juncos, entre os maiores, instalam na parte de vante deste
cabeço duas ou três boças correntes ( figura 6 da Estampa 54 ), que servem para diminuir à velocidade numa
atracação precipitada. Esta manobra, correntemente usada pelos marinheiros chineses, consiste em espetar bem
a vante ao junco uma forte vara, em volta da qual se enrola a boça formada por vários fios que se deixa correr
muito devagar até à paragem completa do junco.
H6
Fig. 3
Sampana para içar as âncoras
Fig. 1 Amarração com antena
com um leme lateral à popa
mori.
AM PRIDE,
A
Fig. 4-5 Âncoras flutuantes
Fig. 7 Leme lateral Fig. 8 Fateixa
Estampa 53
As extremidades dos cabeços de ré que saem das superstruturas e que saem para fora da amurada são
também utilizadas para a manobra dos lemes de gingar laterais; as da extrema popa, servem de apoio às amarras
que envolvem o casco e consolidam o leme compensado ( Estampa 40 ).
Estes cabeços horizontais estão bem colocados para amarrar e deixar correr as espias de alagem. As suas
extremidades salientes são utilizadas como suporte dos lemes de gingar laterais ( Estampa 54 - figura |). Quando
a saliência não for suficiente para accionar o leme de gingar, prolonga-se por meio duma prancha móvel (PP),
com uma cavilha vertical (v,v), que serve de pivot ao leme de gingar lateral.
Um dos cabeços de vante tem muitas vezes a meio uma peça de madeira vertical ( B ) para amarrar as
regeiras.
REMOS
Os chineses usam, como nós, o remo ordinário que actua pelo través do navio. O remo é composto de
uma ou duas peças: o punho e à pá. Passa por um estropo suspenso de um tolete de madeira encastrado na borda
da embarcação, ou então assenta num entalhe fixado ao tolete (1).
Nas pequenas sampanas a mesma pessoa manobra um remo de cada bordo, mas contrariamente ao que é
de uso nos nossos países, o remador fica de pé virado para a proa. Pode assim verificar o caminho a seguir c os
obstáculos que vai encontrar.
Esta posição é mais lógica, e podemos acrescentar, mais digna que a nossa, estando os homens sentados
nas bancadas de frente para a popa, como estavam outrora as tripulações das galés, com a cabeça baixa, o olhar
DO autor quer certamente referir-se a tuna toleteira. (N.T.).
!7
Fig. 1 Guincho desmontável Fig. 2 Cabeço vertical Fig. 3 Guincho de pé de mastro
OI
Fig. + Juncos de mar Fig. 5 Tipos de cabrestante - juncos de lagos e de rios
Estampa 55
As vezes, por ordem do piloto, sempre com atenção aos perigos imprevistos da viagem, a equipa é
alertada, e, então, agitam-se os braços febrilmente, e o chefe, que é também o treinador, deita-se todo para trás,
tocando quase na amurada com os ombros, para se levantar a seguir e se inclinar para o outro bordo, enquanto
lança muitos gritos que estimulam o zelo dos remadores.
A manobra do remo de gingar não deixa de produzir movimentos de balanço desagradáveis, por isso, em
certas regiões calmas, é costume rebocar os juncos que levam passageiros importantes por intermédio de uma
sampana especial em que vão os remadores com os seus remos de gingar.
SAO ( ne 52)
Os chineses designam pelo nome de “Chao” ou “Sao”, em francês “balai”, um forte remo, colocado o
mais a vante possível e destinado a reforçar a acção do leme ou a fazer as vezes dele, quando o navio se encontra
parado em relação à água ( Estampa 56, figura 1). O “Sao” usa-se nos juncos que navegam em paragens com
correntes violentas cortadas por remoínhos e rápidos. O nome de “vassoura” evoca bem o movimento transver-
sal de vai vém que se dá a este dispositivo para determinar o movimento giratório. Não é sem razão que o “Sao”
está colocado bem à proa do junco, onde ocupa um espaço importante, no lugar dos arranjos que são geralmente
consagrados aos viajantes e às mercadorias. É preciso notar que nesta posição o braço de alavanca do “Sao”,
que de si é muito grande, se soma à distância que separa o seu pivot do centro de carena. Em consequência, O
binário de rotação será tanto maior quanto mais o centro de carena for deslocado para ré. E 0 caso dos juncos do
Alto Yangzi Jiang. que têm o centro do seu binário de rotação colocado para ré da vertical do centro de flutuação
e cujo tabuado de fundo, em forma de arco, com linhas afiladas a vante, facilitam ainda o movimento de
giração. Em águas revoltas o leme não tem efeito a maior parte das vezes. Neste caso, o “Sao” é indispensável
para assegurar a segurança do navio, € como a sua eficácia aumenta com o comprimento, os chineses dão-lhe
dimensões consideráveis que podem atingir ou mesmo ir além dos três quartos do comprimento do junco.
120
O “Sao” (figura |) repousa em equilíbrio entre dois cunhos de madeira (aa) fixos a meio do painel de
vante. A sua haste ( AB ) é reforçada por uma forte peça de madeira ( b,b ) e tem dois cabos que correm, cada um
a seu lado, ao longo da mesma, e sobre os quais actuam os homens para imprimir ao “Sao” o movimento
transversal. Duas talhas ( d,d ), ou simples cabos fixos à extremidade da haste, permitem imobilizá-lo quando a
pá está fora de água.
O “Sao” dos grandes juncos é manobrado por três ou quatro homens, sempre prontos a actuar sob o olhar
vigilante do piloto, que ao menor alerta os faz agir vigorosamente.
As figuras | e 2 representam duas formas de pás utilizadas no Yangzi Jiang. A figura 4 mostra um
dispositivo de suporte para o “Sao”, que faz de leme nos pequenos juncos. As jangadas navegando nas torrentes
do Yangzi Jiang superior usam para governar um aparelho dos mais primitivos ( figura 5 ), composto de três
bambus entrelaçados, reforçados pelas ligações que formam a pá. Este “Sao” pode estar à proa ou à popa da
jangada.
BÚSSOLA MARÍTIMA
As propriedades da agulha magnetizada são conhecidas na China desde tempos imemoriais. O mesmo
não acontece com a bússola que, sendo invenção mais recente, é já antiga.
Os anais mencionam que, em 121] a.c., os habitantes de You Chong, reino marítimo do Sul (a Cochinchina.
sem dúvida) vieram trazer ao rei Cheng Wang ( ne 53 ), da dinastia dos Zhou ( ne 54 ) (em 1113 a. c.) diversos
presentes de alto valor, e, em troca deles, o ministro Zhougong ( nc 55 ) presenteou-os com cinco carros
ligeiros que mostravam o Sul nas viagens para longe.
Diante desses carros estava uma estatueta que, qualquer que fosse a direcção tomada pelo carro, se
voltava sempre para o Sul, indicando-o com a mão. Esta invenção era atribuída a Huangdi ( nc 3 ), que viveu
2698 anos antes de Cristo. A invenção era fundada sobre o conhecimento da polaridade da agulha magnética.
Mas se é provável que os Chineses se adiantaram a todos os outros povos neste conhecimento, será do mesmo
modo certo que tenham sabido tirar partido dela, em primeiro lugar, para conduzir os seus navios ?
Há fortes probabilidades em favor desta prioridade, mas numa época anterior em pouco àquela em que a
bússola foi conhecida na Europa, isto é, na segunda metade do século XH. Os anais chineses pretendem que a
bússola estava em uso nos seus navios nos séculos VII e VIII da nossa era e, segundo outros autores, desde o
século IV.
Até aqui nada de espantar; seria difícil de admitir que tendo nas mãos um aparelho que marcava uma
direcção fixa em terra, o chinês não tivesse tido a ideia de o utilizar para obter esta mesma direcção no mar.
O uso da bússola devia permitir aos chineses fazerem-se ao mar com mais confiança que os marinheiros
estrangeiros que a não possuíam. Puderam assim aventurar-se, por volta do século VII, até à Índia, Golfo
Pérsico e costas da Arábia, aproveitando a monção do nordeste, e voltando à China com a monção do sudoeste.
Foi sem dúvida durante estas viagens que os Árabes conheceram a bússola e a revelaram aos Francos. no
Mediterrâneo, na época das Cruzadas.
No começo, este instrumento foi uma fraca ajuda para os navegadores, dada a sua construção primitiva.
Compunha-se simplesmente duma agulha de ferro friccionado numa pedra íman, sustentada por um pedaço de
cortiça ou de madeira flutuando à superfície da água, numa peguena tigela. Chamava-se “ marinette”. (1)
Só cerca de 1480 os portugueses a aperfeiçoaram e lhe deram o aspecto e as graduações que ainda tem
hoje.
A natureza e as causas das propriedades do íman, foram, em todos os tempos, objecto da atenção dos
chineses. A sua teoria, a este respeito, como em tantos outros, é inteiramente oposta à dos europeus. É certo que
quando à agulha magnetizada, suspensa pelo seu centro, vira uma das suas pontas para o Norte, a outra aponta
(1). Não encontrámos tradução portuguesa para “ marinette". N.F
121
Fig. 1 Sao de junco
suporte
Fig. 7 Leme de ging
ar de ré
e
Fig. 2 Pá de Sao do Baixo Yangzi Jiang
Fig. 3 Pá de um pequeno Sao
Estampa 56 Sao e remos de pingar
para o Sul, conservando cada uma a sua polaridade, pois se rodarmos a agulha em sentido inverso vê-la-cmos
voltar à posição primitiva. Assim, a força que atrai esta agulha pode estar situada num, ou noutro, dos dois
pólos da terra. Na Europa, pensou-se que a agulha era atraída para o pólo Norte, enquanto que na China, se
atribuía ao pólo Sul este poder de atracção.
O nome dado pelos chineses à bússola ordinária usada pelos geomantes é Zhi Nan Zhen (nc 56 ), o que
quer dizer “agulha dirigir Sul”. O pólo Sul da agulha tem uma marca distintiva, representando um ferro de
lança, enquanto que na bússola europeia, esta marca está no pólo Norte da agulha (2). A bússola dos marinheiros
chama-se Luo Pan ( nc 58 ) (Estampa 57).
O Imperador Kangxi ( ne 57) ( 1654-1722 ) tinha o hábito de escrever sobre vários assuntos e tendo
acolhido sábios missionários não foi alheio às suas opiniões filosóficas. Eis o que ele escreveu a respeito da
bússola : “ Ouvi dizer aos europeus que a agulha obedecia ao Norte. Nos nossos mais antigos anais, diz-se que
ela se vira para o Sul. Mas como nem uns nem outros explicam porquê, não vejo que haja muita vantagem a
adoptar uma opinião, preferentemente à outra. Os antigos são os primeiros em data, e quanto mais vou avançando,
mais estou convencido dos seus conhecimentos relativamente às operações e aos mecanismos da natureza.
Além disso, como toda a acção esmorece e é quase interrompida junto do pólo Norte, é menos verosímil
que o poder de atrair o íman venha desse lado ”.
Du Halde diz-nos que os chineses colocavam a sua bússola em cima duma camada de areia, que servia
bem menos para as assentar com suavidade e garantir que não eram afectadas pelos movimentos do navio, do
que para receber os pauzinhos de incenso, com que as perfumavam constantemente, para atrair as boas graças
(2). Na bússola chinesa moderna a marca distintiva está colocada, como na nossa, sobre o pólo Norte da agulha.
122
dos seus deuses.
No relato de viagem de Macartney, feito na China de 1792 a 1794, o autor mostra-nos a que grau de
perfeição tinham chegado os chineses, naquela época, na construção das suas bússolas.
“ À agulha magnetizada de que se servem, interpretamos nós, raramente excede uma polegada de
comprimento e uma linha de espessura. Fica suspensa, com extrema delicadeza e é singularmente sensível,
quer dizer que parece mover-se, por pouco que a caixa em que está colocada mude de posição para Leste ou
para Oeste, dado que de facto a natureza do íman e à perfeição da máquina que a contém. fazem com que a
agulha seja privada de qualquer movimento, e fique constantemente apontada para a mesma posição do céu,
qualquer que possa ser a rapidez com que rode a caixa da agulha, ou os objectos que a cercam. De acordo com
o que o senhor Barron notou, esta regularidade da agulha chinesa é o efeito duma invenção muito especial.
Aplica-se, diz ele, ( Estampa 57, figura 2 ), um pedaço de cobre delgado à roda do centro da agulha e fixa-se nos
bordos duma taça hemisférica do mesmo metal, que se vira. Esta taça recebe um pivot de aço que sai duma
cavidade feita num pedaço de madeira redondo e muito leve, ou de cortiça, que forma a caixa da bússola. A
superfície da taça e do pivot são cuidadosamente polidas, a fim de evitar tanto quanto possível toda a espécie
de atrito. Os bordos da taça, que são de grande proporção , aumentam o seu peso, e fazem com que na sua
posição horizontal ela tenda a conservar o centro de gravidade em todas as situações da bússola, quase em
coincidência com o centro de suspensão. A cavidade na qual está suspensa tem uma forma circular e chega
apenas para receber esta agulha, assim como a taça e o pivot. Por cima da cavidade há uma peça delgada de
talco transparente que impede a agulha de ser afectada pelo ar exterior, mas permite facilmente observar o seu
mínimo movimento. A pequena agulha da bússola dos chineses tem um grande vantagem sobre aquelas de que
nos servimos na Europa, no que toca à inclinação sobre o horizonte, nas quais se exige que um extremo seja
mais pesado que o outro para contrabalançar a atracção magnética.
Este imperativo, sendo diferente em cada parte do mundo, mostra que a agulha só pode estar
verdadeiramente certa no sítio em que é construída. Nas curtas e leves agulhas, suspensas ao modo dos chineses,
o peso que está abaixo do ponto de suspensão é mais que suficiente para vencer o poder magnético da inclinação
em todas as partes do globo. Estas agulhas também nunca têm desvio na sua posição horizontal.
Na superfície exterior da caixa, que raramente tem mais de quatro polegadas, vêem-se linhas concêntricas
com caracteres diferentes. Há oito marcados sobre o do centro, quatro dos quais indicam os quatro pontos
cardiais, isto é E., O., N., S., e os outros quatro pontos intermédios.
Os mesmos oito caracteres significam as oito divisões naturais do dia e do tempo, durante o qual a terra
gira em torno do seu eixo, prosseguindo o seu caminho à volta do sol. Cada uma destas divisões é,
consequentemente, de três horas. Esta divisão está perfeitamente de acordo com a primeira bússola, que se diz
ter aparecido na Europa no princípio do século IV. Só à medida que os marinheiros se tornaram mais experientes
e mais exactos nas suas observações, é que este instrumento foi subdividido em 32 pontos.
Num outro círculo da bússola chinesa estão traçadas 24 divisões, cada uma das quais tem um carácter
que marca 1/24 avos do dia. Seguindo esta divisão, cada ponto ou 24º parte da bússola compreende um número
integral de 15 graus sobre os 360, pelos quais se convencionou dividir os círculos da esfera celeste, o que
provavelmente começou nesta época recuada em que se supunha que o sol fazia o seu curso aparente num
espaço de 360 dias .
A gravura que acompanha esta descrição com a menção “ Bússola Chinesa *, não representa, como
alguns poderiam crer, a bússola dos marinheiros, mas sim o instrumento de que se servem, ainda hoje, os
geomantes, que gozam na China de grande popularidade. Esta bússola dos geomantes, cuja agulha tem metade
do comprimento da bússola dos marinheiros, possui numerosos círculos concêntricos nos quais traçam divisões
que dizem respeito aos diversos elementos da sua ciência oculta. Na bússola marítima há um só círculo, com 24
divisões representando as direcções do vento, à maneira chinesa.
123
Estampa 57
DOCUMENTOS CONSULTADOS:
Description de "empire de la Chine, pelo Padre Du Halde, a
Voyage dans [intérieur de la Chine eten Tartarie, fait dans les années 1792-93-94, por Lord Macartney.
North China Branch of the Royal Asiatic Society, Xangai 1877, por 3. Edkins.
124
NOTAS CHINESAS
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55
56
57
58
PEKIN
REI HO
CHAN TOUNG
CHA-SHA
HOUANG HO
NANKIN
T'SONG MING
TAIHOU
CHANGHAI
SSECHOUAN
YANG TSE KIANG
POYANG
TONG TING
TCHE KIANG
FOUKIEN
AMOY
SWATOW
KOUANGSI
SIKIANG
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KOUAN-TOUNG
NGANTING
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BEIJING
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HUANG HE
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CHONGMING
TAI HU
SHANGHAI
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POYANG
TONGTING
ZHEJIANG
FUJIAN
XIAMEN
SANTOU
GUANGX!
XIJIANG
CANTÃO
GUANGDONG
NANNING
JIAOZHOU
CHAN TOUNG
“ HAINAN
N
HH
ORNAMENTAÇÃO E TIPOS
23) de todas as regiões do Império, sem excepção.
A prática de pintar um olho na parte de vante dos juncos não é exclusiva da China. Desde à mais Alta
Antiguidade, os Egípeios ornamentavam a proa dos seus navios com este olho místico, chamado “ouza” (Estampa
58). ao qual atribuíam virtudes sobrenaturais e em especial a de os proteger contra a má sorte e os perigos da
navegação.
Pode ver-se hoje o olho pintado à proa de um grande número de pangaios árabes traficando no Oceano
Índico, Mar Vermelho e Golfo Pérsico. É provável que os árabes tivessem tomado este ornamento aos egípcios
e o tivessem transmitido aos chineses no curso das suas longínquas e frequentes relações comerciais. Em
reforço desta opinião, faremos observar que os juncos ornamentados com o olho pertencem à portos que foram
centros de comércio árabe, portos que se encontram precisamente nas províncias de Zhejiang e de Fujian,
citadas acima.
Um outro caso bem significativo que corrobora esta opinião, é dado por M.LA. Donnelly, no seu
interessante trabalho (€ Chinese Junks and other native craft. pg. 8, Kelly & Walsh, Xangai. 1924 ), no qual
menciona o junco traficando entre Jiaozhou Ene 4) e Ta Pouto Ene ED) como o único entre os do Golfo de Bei
Zhili, que apresenta a vante o olho simbólico, O porto de Jitozhou ecra com efeito uma importante feitoria árabe
no século IV.
No espírito dos marinheiros chineses, sempre fiéis às suas superstições milenárias, o olho destina-se a
afastar a má sorte e a apaziguar os génios malignos. Outros. de espírito mais simplista, consideram que o junco,
assim como o homem, devem ter olhos (Estampa 59) para navegarem no meio dos perigos da costa, que não são
necessários para o barco que navega no interior das terras, que pode, de certo modo, navegar de olhos fechados.
No nosso século utilitário, em que os esforços tendem cada dia mais para a uniformização da matéria em
detrimento do pitoresco e da beleza, espantamo-nos desta profusão de desenhos e de pinturas que ainda
ornamentam hoje, e teremos que o lastimar, sem dúvida por pouco tempo, à maior parte dos juncos oceânicos.
Sem dúvida que essas decorações nunca igualaram em época nenhuma, nem em riqueza nem em obras de arte,
as dos navios do Ocidente que eram revestidos no século XVII de sumptuosos dourados, e que desde o século
XY já tinham estandartes de cores deslumbrantes.
Podiam ver-se, no entanto, em meados do século passado, grandes juncos militares apresentando nas
suas popas um luxo inaudito de decorações fantásticas, como símbolos guerreiros, dragões de goela aberta,
com olhos em chama e de garras ameaçadoras. Outros navios, especialmente destinados aos altos mandarins
mostravam. tanto no interior como no exterior, amuradas pintadas e douradas com fausto, realçadas por esse
belo verniz chinês que não tem igual no mundo, com janelas com guarmições finamente esculpidas, a que se
sobrepunham lanternas e pendões multicores (ver parte descritiva, Costas Leste ). Todo o gosto dos artistas
chineses se manifestava na variedade e na finura destes ornamentos. Actualmente o declínio da marinha chinesa
prossegue imparavelmente com a expansão dos barcos a motor. Acontece o mesmo com a decoração dos juncos.
cada vez mais abandonada e que passará, em breve, a ser uma mera recordação.
Bem raros, com efeito, são os juncos que hoje oferecem interesse do ponto de vista da ornamentação
exterior. Por coincidência curiosa, estes juncos ornumentados com pinturas pertencem todos à categoria daqueles
citados mais acima, com o olho pintado a vante, ou seja, os das costas de Fujian e de Zhejiang. Não haverá que
ver nisto uma nova prova da influência do Egipto cujos navios eram decorados com as mais vivas cores”? Entre
estes juncos de adornos originais, citaremos, em primeiro lugar, o de Hangzhou (ne 5) (ver parte descritiva,
Costas Leste), que apresenta uma grande variedade de assuntos na ornamentação do casco: à vante Ba Gua (nc
6) simbólicos (Estampa 60 , figuras [ e 3), no lugar do olho tradicional que foi desviado para o painel de vante.
À popa uma fénix com as asas abertas a cobrir uma grande superfície do casco, enquanto que a proa ca popa,
de formas quadradas, são decoradas com uma hedionda cabeça de tigre. de boca escancarada, em cores vivas.
Nas duas extremidades do casco, como ao longo da borda mostram-se formas de grinaldas (figura 4) e grandes
Estampa 59 Ornumentações - olhos
quadrados ornados de motivos variados, que representam, sem dúvida portinholas (figura 2).
O junco de Ningbo (ne 7), reservado aos viajantes (parte descritiva, Costas Leste), apresenta nos seus
flancos motivos decorativos que não deixam de ser originais C Estampa 6 1), em especial o olho de vante englobado
numa figura bizarra, uma espécie de bólide com o seu rasto luminoso, destinado sem dúvida a dar aos viajantes
a impressão de um deslocamento rápido.
Os juncos de pesca de Zhejiang e de Fujiang têm decorações muito sóbrias. O casco é normalmente
branco na parte inferior e a amurada é azul ou vermelha ou simplesmente envernizada. Esta é ornamentada de
cinco quadrados brancos, com um pequeno quadrado vermelho no centro, o que pode dar, à distância, a aparência
de portinholas ornamentadas com um canhão.
O olho é representado a vante no centro dum grande rectângulo pintado de verde, enquanto que a amurada
de ré é decorada com um peixe de cor vermelha e de forma ligeiramente ondulada. Este género de decoração
está muito espalhado nos barcos de pesca desta região.
Uma menção especial deve ser reservada para o junco de mar de Fuzhou (nc 8) que concretiza
incontestavelmente a mais bela expressão da construção chinesa e, merece, a esse título, ser chamado o “ Rei
dos Mares da China “. O casco deste junco, de formas que se elevam à proa e a ré, oferece uma certa analogia
com a nau do século XVI, em especial com a “Santa Maria” de Cristóvão Colombo ( ver parte descritiva,
Costas Leste ). A decoração concentra-se toda no vasto painel de ré de forma elíptica que se eleva muito acima
da linha de água. A ornamentação, de carácter estritamente simbólico, não deixa nenhum lugar para a fantasia
do artista. O seu fim não é satisfazer a vista de quem passa com motivos atraentes, mas sim criar em volta do
navio uma atmosfera favorável às divindades do mar. É assim que se vê por baixo da galeria que cobre o painel
de popa uma grande fénix com as asas bem abertas dominando, em enquadramentos de flores e nuvens, animais
fantásticos como dragões, delfins. e outros motivos emblemáticos de cores berrantes. Nada choca na apresentação
destes inumeráveis motivos, que são tão variados na forma como no colorido. Apercebemo-nos assim da
habilidade do artista. ou mais exactamente do artesão decorador. que soube tratar estes assuntos com um justo
sentimento do desenho e da harmonia das cores.
Infelizmente, estas belas decorações não podem resistir muito tempo às intempéries e ao contacto com a
água do mar. O chinês nada faz para as abrigar desta lenta destruição, é indiferente a toda a precaução que exija
um esforço sem contrapartida de lucro assegurado, de tal modo que estes magníficos juncos oceânicos despojam-
-se pouco a pouco da deslumbrante ornamentação que caracteriza com tanto pitoresco a construção chinesa e
faz a admiração dos viajantes.
Teremos várias vezes ocasião, quando descrevermos os juncos, de assinalar entre os ornatos pintados no
casco os motivos simbólicos de formas muito variadas cuja origem remonta às mais antigas tradições da China.
Estes ornamentos pintados com cores garridas, contribuem para dar ao junco um carácter majestoso, próprio, e
despertar a imaginação de quem passa. Mas a escolha destes motivos está sobretudo ligada ao desejo dos
navegadores de obterem a protecção das divindades para que as suas empresas sejam bem sucedidas.
Estampa 60 Ornamentações - pinturas
Estampa 61 Ornamentações - pinturas
RE!
Estampa 62 Ornamentações - pinturas
FÊNIX
Entre estes motivos, citaremos em primeiro lugar a Fénix que decora tão artisticamente o painel de popa
de vários juncos de Zhejiang e de Fujian. bem como os bordos do junco de Hangzhou, citados mais acima. E
um pássaro fabuloso, de formas elegantes, de plumagem esplendorosa (Estampa 62). É representada com a
cabeça de um faisão e corpo de pavão com as asas abertas. Era o emblema consagrado às Imperatrizes.
DRAGÃO
O dragão de cinco garras era considerado, até à implantação da República em 1912, como o símbolo da
dignidade Imperial. O dragão aparece raramente na decoração dos juncos. É representado na forma de uma
serpente com quatro patas, uma fisionomia aterradora, a bocarra aberta deixando ver filas de dentes acerados,
os olhos enormes e dois cornos por cima da cabeça. Ornamentava outrora a bandeira nacional (ver Estampa 63).
TALJI
O Tai Ji (ne 9) ( Estampa 63) é um dos símbolos mais vulgarizados na decoração dos juncos de Fujian e
de Zhejiang. Compõe-se dum círculo no qual estão inscritas duas figuras em forma de vírgula, uma branca com
um círculo preto no centro, outra preta com um círculo branco no centro, representando uma a lua. a outra O sol.
Simboliza as duas forças fundamentais da natureza, o Yin (nc 10) e o Yang. O primeiro, princípio feminino,
903
fig. | fig. 2 fig. 3 fig. 4
Estampa 63. Ornamentações - pinturas
135
Estampa 64. Ba Gua
representa a lua, O frio, as trevas; 0 Yang. princípio masculino, identifica o sol, o calor, a luz. As duas cores
elementares, branco e preto, são muitas vezes substituídas pelo vermelho e verde, bem como as figuras em
fórmula de vírgula, qua aparecem por vezes com a silhueta de um peixe nos juncos de pesca ( figuras 2 e 3).
O Yin e o Yang são também representados por dois motivos formados de duas linhas, uma contínua
representando o Yang, e a outra formada por dois traços, representando o Yin. As várias combinações destes
motivos repartidos pelos lados de um octógono, inscritos em três círculos concêntricos, constituem o símbolo
chamado Ba Gua (Estampa 64). Este emblema é pouco usado na decoração dos juncos. Notámo-lo apenas nos
juncos de Hangzhou onde é apresentado sob diversas formas de carácter muito artístico (Estampa 60, figuras |
e 3). Além destes emblemas que se notam nos juncos de Fujian ou de Zhejiang, em especial nos de Fuzhou
(parte descritiva, Costas Leste), há outros de menor importância sob o ponto de vista ornamental que figuram
como acessório na decoração destes mesmos juncos. Citaremos entre outros os “Oito Objectos Preciosos”,
emblemas Budistas e Tauístas compreendendo uma grande variedade de motivos muito decorativos: o morcego.
emblema de felicidade e da longevidade, etc. Independentemente destes motivos simbólicos, os chineses
decoram às vezes as falcas de vante com faixas coloridas e ornamentadas com grinaldas de flores. No Sha
Chuan ( nc | ), juncos dos mares do Norte, estas faixas, da cor natural da madeira, são esculpidas em forma de
voluta. E o único caso, tanto quanto sabemos, em que à escultura entra na decoração dum junco.
JUNCO DE MANDARIM
Os juncos atribuídos ao serviço dos mandarins são cada vez mais desprezados. salvo pelas altas autoridades
provinciais, que dispõem de barcos especiais e a maior parte das vezes canhoneiras atribuídas à polícia Fluvial,
e confortavelmente reconvertidos para as recepções oficiais. Os mandarins menos importantes servem-se de
juncos de viajantes, que são sempre muito numerosos nos cursos de água: recebem para esta ocasião um
arranjo correspondente à importância do funcionário ( ver Estampa 65 ).
De muito longe, o junco dos mandarins fica à conhecer-se pela profusão da sua decoração exterior, as
suas múltiplas flâmulas drapejando ao vento e os seus grupos de soldados e de remadores de casaca vermelha,
calções azuis e turbante preto. A porta, dando acesso ao salão de recepção ( ver parte descritiva, Alto Yangzi
Jiang ) está adornada com um toldo vermelho com baldaquim à que se sobrepõe um chapéu de sol aberto cuja
largura e número de folhos variam segundo a categoria do mandarim. De cada lado da entrada duas enormes
136
PÃES da
“Rego çeaS PICA ; PE Do ;
=
Estampa 65 Ornamentações
lanternas redondas de papel oleado, ornamentadas com caracteres vermelhos e pretos, completam a decoração.
Sobre os lados do tecto são aplicadas as tábuas pessoais do mandarim, tendo a letras de ouro, os seus títulos e
funções.
Ao aproximar-se duma cidade, os soldados apinhados no tecto das superstruturas disparam salvas de
mosquetaria, lançam petardos, enquanto outros, com trompas compridas, fazem ouvir sons graves e dissonantes
que se misturam ao barulho ensurdecedor dos tan-tans. Estas manifestações pueris, de índole camnavalesca,
chamam a multidão dos curiosos que nunca se cansam de os admirar numa atitude cheia de deferência.
A Estampa 65 representa o junco do Alto Yangzi Jiang, chamado Kua Zi ( ne 13), destinado ao transporte
de viajantes e provisoriamente equipado para junco de mandarim. A equipa de vante manobra os remos enquanto
que o séquito de escolta, postado sobre os tectos, tem por missão anunciar a passagem do funcionário com
muita música e petardos.
PAO CHUAN, junco da polícia
O junco da polícia, conhecido pelo nome de Pao Chuan (nc 14) Estampa 66),é utilizado pelos mandarins
nas suas viagens oficiais, e lembra duma forma marcante, a galera subtil do século XV, representada na quinta
parte dos Souvenirs de Marine do Almirante Páris ( pag. 228, fig. 22). Tem linhas esguias, anda bem à vela, e
graças ao seu fraco calado e às suas qualidades manobreiras, pode penetrar nos mais pequenos recantos dos rios
acessíveis aos mais pequeninos barcos. O comando é exercido por um mandarim pouco graduado, que fica no
137
compartimento central, mas cede o seu lugar ao alto funcionário cujo distintivo está içado no mastro e espalhado
à volta dos camarotes. Este tipo de junco de polícia é vulgar na bacia do Médio Yangzi Jiang, no lago Poyang
Hu( nc 15 ) e no Alto Yangzi Jiang até Chongging( ne 16 ). Na subida dos rápidos estes juncos são acompanhados,
da mesma forma que os Kua Zi quando levam um mandarim, por barcos salva-vidas chamados Hong Chuan
tripulados por homens de élite que, além das funções específicas, ajudam na manobra das espias.
Os chineses nunca viajam de noite nos rios, por causa dos perigos da navegação e sobretudo por receio
dos ladrões. E por esta mesma razão que o junco nunca pára num lugar isolado para passar à noite, mas sempre
numa cidade ou aldeia e perto de outras embarcações. Nos juncos que levam uma personagem oficial, a guarda
Y
Estampa 66 Ornamentações
138
durante à noite é assegurada por um funcionário que, a horas determinadas, bate num gongo tanto para atestar
a sua vigilância, como para afastar os visitantes mal intencionados. Nos juncos da polícia, o serviço de guarda
é igualmente anunciado pelo barulho do tan-tan, a partir do pôr do sol, que é assinalado por um tiro de canhão.
LANTERNAS
Da mesma forma que na vida civil, religiosa e oficial, onde é de uso generalizado, a lanterna chinesa tem
um papel importante nas manifestações marítimas. E utilizada, não tanto pelo brilho. de resto muito fraco. que
tem a sua luz, mas para chamar à atenção de quem passa, em certas cerimónias públicas ou com o fim mais ou
menos propositado de fazer publicidade.
Não há comerciante, lojista ou artesão que não ornamente a sua frontaria com lanternas com inscrições
multicores. Igualmente, nas casas particulares, a sala de visitas está por elas ornamentada, tendo as lanternas
máximas ou outros motivos pintados com cores do mais vivo possível. É contudo a bordo dos * barcos flor * de
Cantão, que esta decoração luminosa atinge o maior esplendor, nos luxuosos salões onde se reunem os ricos
chineses para receber os amigos e para reuniões de prazer. Vêem-se todas as noites neste mesmo rio de Cantão,
centenas de sampanas que andam dum lado para o outro com as suas pequenas lanternas de papel oleado acesas,
parecendo fogos fátuos dançando uma sarabanda à volta destes sumptuosos palácios flutuantes. Os juncos de
viajantes que navegam nos rios levam bem à vista nos extremos dos seus espaçosos camarotes grandes lanternas,
ornamentadas com inscrições que indicam que serviço fazem e o seu destino. Quanto aos juncos de mar. bem
poucos se preocupam em trazer as luzes de navegação habituais ou em mostrar uma simples lanterna que os
livraria de encontros que lhes são a maior parte das vezes mortais. Por isso, os abalroamentos são frequentes
nas costas da China e nomeadamente no estreito da Formosa onde centenas de juncos, agrupados em flotilhas,
cortam com uma imprudente temeridade a rota dos navios a vapor. As lanternas dos navios de alto mar, mesmo
conservando a simplicidade da sua forma primitiva ( Estampa 67, figura |). modernizaram-se ligeiramente pela
substituição das escamas transparentes de placune*, que até aos últimos anos guarneciam as janelas chinesas,
por vidro.
Estampa 67 Ornamentações
*) Molusco ostracídeo que vive nos mares equatoriais.
149
As lanternas dos juncos de rio são de forma cilíndrica ou esférica ( figuras 2,3 e 4). A armadura é de
madeira ou de fio de ferro, cobertos de rede de bambu, sobre a qual se fixa a matéria transparente, papel oleado,
gaze, ou osso, que recebe a ornamentação e as inscrições pintadas em diversas cores. À iluminação é por azeite
ou por candeia. O suporte da luz desliza entre duas hastes de ferro fixas ao eixo da lanterna, que também pode
mover-se em altura, pela abertura existente na parte de baixo do aparelho. A estampa 67 mostra as formas mais
usuais das lanternas.
CATA-VENTOS
O cata-vento colocado no topo do mastro contribui para dar ao junco chinês um toque de originalidade
que não se encontra em nenhuma outra marinha. É provavelmente assim há anos e há séculos. As figuras que
acompanham o artigo sobre a Antiga Marinha de Guerra ( ver parte [) mostram alguns tipos de cata-ventos que
se usavam no século XVII. Oferecem pouca variedade e as suas dimensões são bem pequenas comparadas com
as de hoje. É verdade que os estandartes e as bandeiras que ornamentam com profusão o convés e os mastros
destes juncos desempenham amplamente o papel que cabe aos cata-ventos. Mas, se nos reportarmos aos desenhos
feitos pelos viajantes do século XVIII, em especial os de W. Alexander que fazia parte do séquito da Embaixada
de Lord MaCartney na sua viagem à China de 1792 à 1794 ( ver parte descritiva, Costas Leste ), ficaremos
impressionados pela importância dada a este aparelho nas aguarelas a cores tão finamente executadas por este
artista. À armadura é volumosa e o tecido da cauda do cata- vento tem as dimensões de um grande estandarte.
De então para cá, o cata-vento foi reduzido a proporções mais modestas, libertado dos seus acessórios inúteis é
pesadões, o que lhe deu uma silhueta fina e graciosa, como se pode ver pelos diferentes tipos apresentados nas
Estampas 68, 69 e 70. O corpo do aparelho é feito duma armadura em metal, cobre ou ferro, em bambu ou em
madeira muito leve, apresentando as formas mais variadas: um pássaro, peixe ou animal simbólico, uma simples
figura geométrica, a maior parte das vezes tendo uma abertura representando um olho encimado por duas
pequenas antenas curvas com borlas nos extremos.
A direcção do vento é dada pela estamenha colocada na cauda e por pequenas bandeiras pregadas nas
costas do aparelho. Em alguns juncos de mar dá-se à estamenha a forma de um saco alongado e ligeiramente
lastrado que, sob a acção do vento, enche e toma uma inclinação maior ou menor segundo a força do vento ( ver
figuras 10, 12, 18 e 20). Os juncos de pesca das Ilhas Zhoushan (ne 17) preferem as cores garridas no casco,
com um grande peixe vermelho pintado a cada bordo da amurada de ré. Adoptaram, como convém à profissão,
o cata-vento em forma de peixe, cuja aresta superior é guarnecida de pequenas bandeiras ( figuras 17, 8 19).
O perfil do peixe apresenta várias formas, mais frequentemente convencionais, em grande número de juncos de
mar (figuras 5, 11, 13, 26 e 30). Também é muito vulgar o cata-vento em perfil de pássaro, em toda à extensão
das costas onde mostra a sua silhueta graciosa e viva (figuras 2, 7,8 e 12), A maior parte dos juncos do interior
não tem cata-vento.
Este aparelho não lhes daria, de facto, informações na navegação de rio, onde a direcção do vento é a
cada momento contrariada pelos acidentes do terreno e os obstáculos existentes nas margens. As figuras 21,22,
23, 24 representam alguns dos cata-ventos usados pelos juncos dos Poyang Hu (ne 15) e Dongting Hu (nc 18
). São artisticamente compostos com um fim parece que puramente ornamental.
Os juncos militares trazem, a maior parte das vezes, no mastro-grande, um emblema guerreiro, uma
espécie de sabre com uma grande lâmina, instalado à entrada dos ” Yamens ” e dos pagodes (figura |). Este
emblema aparece igualmente em alguns juncos do Alto Yangzi Jiang, que não têm qualquer carácter oficial (
figura 23 ).
BANDEIRAS
Ao longo dos tempos os chineses mostraram um gosto muito pronunciado pelas manifestacções públicas
Ho
Fig. 6-10 Juncos das costas de Fujian e de Shandong
Estampa 68 Cata-ventos
Giroueltes.
Fig. Lorcha
Fig. 16 Lorcha Fig. 17-19 Juncos de pesca das Ilhas Fig.20 Sha Chuan
" Zhoushan
Estampa 69. Cata-ventos
tl
Fig. 26-30 Juncos das costas de Zhejiang
Estampa 70. Catra-ventos
onde se desfraldam bandeiras e insígnias com acompanhamento de gongos, de tan-tans e de barulhentas peças
de artifício. Os pendões multicores, com as formas mais diversas e cobertas de inscrições desempenham assim
um papel muito importante nas cerimónias. Enquanto nos outros países o emblema nacional ocupa sempre o
primeiro lugar nas festas públicas e privadas, na China, e sob o regime Imperial , raramente participa nessas
manifestações, mesmo se oficiais. Para dizer a verdade, o chinês não considerava a bandeira nacional como o
símbolo da pátria, mas unicamente do poder da família imperial, à quem testemunhava uma grande veneração.
Esta bandeira cra a triangular. Representava o corpo de um dragão de cor verde com uma bola de fogo sobre
fundo amarelo. Só o Imperador tinha o direito de usar a sua imagem com cinco garras: os mandarins das quatro
primeiras categorias, com botão vermelho ou azul também tinham esse direito, mas só com quatro garras.
A Estampa 71 mostra as diferentes insígnias que eram utilizadas no princípio deste século na marinha
chinesa. Ao centro pode ver-se a bandeira nacional que era içada nos navios de guerra, com o dragão simbólico
de quatro garras. As outras bandeiras eram reservadas aos funcionários civis e militares, como distintivos da
sua categoria. Quando se deslocavam num navio os mandarins faziam inscrever num canto o seu nome ou o do
Vice-rei de quem dependiam. Os oficiais de marinha transformavam às vezes a bandeira quadrada em triângulo,
como as dos mandarins de primeiro e segundo grau. Quanto aos juncos de comércio adoptavam, depois de
consulta aos geomantes, a forma e as cores que estes julgavam lhes trariam felicidade.
No entanto, os navios a vapor em contacto com o estrangeiro e também os navios de guerra, tinham
substituído há alguns anos a bandeira triangular pela forma oblonga para se conformarem aos usos internacionais.
Esta bandeira foi substituída depois da proclamação da República em 1912, por uma nova bandeira de
em fundo azult Estampa 72, figura |).
Esta mesma estampa mostra diversas maneiras de desfraldar as bandeiras e os cata-ventos, seja no topo
o.
cor vermelha, ornamentada num dos ângulos de um * nascer do sol
dos mastros, seja num pau de bandeira suspenso por duas adriças (figura +). seja ainda por uma vara flexível no
142
Mandarins de 1º
e 2º grau (botão ver-
4º grau ) 6º grau (botão
(botão azul branco mate)
escuro)
melho)
1º e 2º grau 7º grau (botão
(outra forma) de ouro)
Bandeira nacional
Imperial
8º e 9º grau
3º grau (botão 5º grau (botão
azul claro) branco translúcido) (botão de cobre)
Estampa 7! Bandeiras da Marinha de Guerra Imperial
Fig. 2 E Fig. 3
Junco de pesca Junco de Polícia
(Ulhas Zhoushan)
Fig. 5 Fig. 6 Fig. 7
Juncos da Gabelle (Fujian) Juncos da Polícia (Zhejiang)
Estampa 72. Bandeiras diversas
143
prolongamento do mastro ou mesmo no convés a ré, na amurada.
Este último dispositivo está espalhado entre os juncos de pesca das Ilhas Zhoushan (ne 17), que içam
várias pequenas bandeiras triangulares escalonadas numa vara que tem o cata-vento, e às vezes coroada por um
ramo de folhagem. Os juncos encarregados da polícia costeira ou duma função administrativa, distinguem-se
pela multiplicidade das suas insígnias indicando as suas tarefas especiais ( figuras 5, 0,7 e 8).
LONG CHUAN - BARCO DRAGÃO
Não há cidade ou mesmo aldeia na China, em que não se veja abrigado em qualquer pagode à beira dum
lago ou curso de água, uma espécie de barco fino e leve em forma de piroga alongada, o casco de escamas
verdes ou vermelhas ( Estampas 73, 74 ). Este barco é um comprido Long Chuan ( ne 19), ou seja *
barco-dragão *. A proa e a popa representam a cabeça e a cauda do dragão e são formadas de grossas peças em
madeira esculpida e pintadas de vermelho. Estas duas peças são as mais das vezes expostas no pagode em
cavaletes. enquanto o corpo do barco é enterrado no lodo para que não apodreça.
O quinto dia da quinta lua é o dia fixado para a festa do dragão. Esta festa destina-se à comemorar um
acontecimento sucedido vários séculos antes da nossa era e contado de várias maneiras por numerosos autores,
que de resto não estão de acordo, nem com a época nem com o lugar do acontecimento em questão.
Segundo certos anais. foi em Jingzhou ( nc 20 ) no Yangzi Jiang perto de Shashi ( nc 21 ), capital do
estado feudatário do rei Zou (nc 22). que cerca do ano 300 a.c.. 0 fiel ministro do príncipe Huai( nc 23 ) de Zou,
chamado Qu Yuan, se suicidou, deitando-se ao rio Miluo ( nc 25 ). Esse ministro de que todos gostavam pela
sua rectidão e probidade, sucumbiu às intrigas da inveja e foi indignamente despojado de todas as honras,
Não podendo sobreviver ao seu infortúnio, deitou-se ao rio, desesperado, e afogou-se. O povo que lhe
queria bem ficou tão condoído com esta perda que perpetuou a sua lembrança por uma festa que se comemora
todos os anos com jogos, festins e torneios aquáticos.
Esta festa. que a princípio se confinava a Jingzhou, expandiu-se depois a todo o Império. Nesse dia
preparavam-se harcas, compridas e estreitas, todas douradas, que têm num extremo a figura de um dragão, e é
por isso que se chamam Long Chuan. Outrora havia combates sobre a água e havia prémios fixados para os
vencedores, mas como estes divertimentos se tornavam perigosos e foram às vezes acompanhados de acidentes
funestos, os mandarins proibiram-nos em quase todo 0 Império.
As barcas, tripuladas por um grande número de homens jovens e ágeis, corriam rapidamente sobre o rio,
como se estivessem à procura do virtuoso mandarim engolido pelas águas. Esta prática perpetua-se regularmente
há mais de 2.000 anos.
Outros autores situam o mesmo acontecimento em Changsha Fu (ne 26 ) à sul do lago Poyang Hu.
O mandarim que governava esta cidade e que o povo estimava e adorava pela sua probidade e virtudes,
afogou-se acidentalmente no rio, e o seu sucessor instituiu em sua honra uma festa que consistia em jogos,
festins e combates sobre a água, como se tivessem querido ir buscar esse mandarim, objecto do amor e da dor de
todos.
Um outro relato contado por M.A .Giles*, atribui este acontecimento ao célebre poeta Qu Yuan (nc 24)
que viveu no século IV antes de Cristo. Este poeta é bem conhecido pela sua elegia Li Sao (ne 27), escrita na
sequência de intrigas de rivais seus, desesperados por terem perdido à confiança do seu Príncipe. Acabrunhado
por outras decepções, caído em desgraça à ponto de não querer mais viver, dirigiu-se para as margens do rio
Não sois Sua Excelência o Ministro 2”
Miluo. Aí encontrou um pescador que se aproximou dele e lhe disse:
Quem é que vos faz vir à um sítio como este? *: “O mundo”, respondeu Qu Yuan, “é odioso só eu sou limpo, As
Ah. disse o pescador, o verdadeiro
“se
pessoas estão todas ébrias e só eu estou sóbrio, por isso mandam-me embora”.
*) M. Giles. Chinese Literature, London. 1901.
ES!
sábio não briga com os que o rodeiam, mas adapta-se a eles. Se, como dizeis, o mundo é odioso, porque é que
não vos lançais à corrente, para o tornar limpo”? Se todos os homens estão ébrios, porque não beber com eles e
evitar-lhes os excessos?”
Depois de algumas momentos de conversa, o pescador foi-se embora. Qu Yuan pegou numa pedra e com
ela nos braços atirou-se ao rio e nele desapareceu.
Isto aconteceu no quinto dia da quinta lua e desde essa época que os habitantes comemoram o
acontecimento por uma solenidade anual com oferendas de canas de bambu que deitam no rio como sacrifício
ao espírito do seu grande herói. E esta a origem do festival do “ barco-dragão ” moderno, que significa andar-
se à procura do corpo de Qu Yuan.
Os holandeses que se dirigiam em Embaixada a Pequim, junto do Imperador da China, deixaram-nos um
relato do encontro que tiveram com o “ barco-dragão “, no dia 25 de Maio de 1656, no Grande Canal.
“ Viram com grande admiração uma quantidade de barcas de forma estranha, entre duas chalupas que os
chineses chamam Long Chuan ou serpentes. Estavam pintadas das mais variadas cores e pareciam levar a
melhor aquelas que conduzem o peixe imperial de Nanjing à Corte. Tinham três mastros, A parte de ré. ou à
popa, estava cheia de figuras de serpentes, ligadas a fitas de várias cores, com grande número de estandartes.
ornamentados com tranças de crina, bandeirolas de seda, e compridas plumas. Duas crianças muito ágeis, que
pareciam suspensas, divertiam os espectadores com vários jogos de destreza. Uma outra que parecia estar
mesmo na popa, com um fato matizado, fazia mil contorsões, às quais parecia forçado por um chinês que o
apoquentava com uma pequena forquilha. Os bordos da barca, cheios de franjas de ouro e de prata. Debaixo
duma grande bandeira, ornamentada com muitas bandeirolas e estandartes, viam-se doze corpulentos marinheiros
sentados e vestidos de seda, de braços nus, cabeça cheia de coroas douradas. Passaram pelas barcas dos
Embaixadores para os cumprimentar, o que lhes valeu logo alguns presentes *,*
Certos autores quiseram ver nesta festa uma homenagem ao dragão que representa à autoridade suprema
na sua mais alta concepção. O dragão era, com efeito, o emblema nacional do Império Chinês, estava pintado
no seu estandarte, figurava nos éditos, livros e todos os instrumentos e insígnias imperiais.
Independentemente da sua autoridade terrestre, o dragão influencia as estações e estende a sua soberania
aos corpos celestes. Os eclipses são devidos à sua voracidade, que o conduz, ocasionalmente, a devorar o sol e
à lua deixando assim o Império em plenas trevas.
Eis uma breve descrição desta festa, tal como se pratica ainda hoje e na qual tomam parte
inúmeros “ barcos-dragão ” vindos das regiões circundantes.
Estes barcos, como já o dissemos atrás, são estreitos, mas compridos bastante para levarem cinquenta a
sessenta homens (cerca de 4 a 5 pés de largura por 100 a [10 de comprimento, em pés chineses de 0,358
metros). Cortam a água com uma grande rapidez, sob o impulso duma guarnição ágil, encorajada durante a
corrida pelas ruidosas aclamações de milhares de espectadores e o barulho ensurdecedor dos tambores e dos
gongos instalados na margem. No centro do barco três robustos tangedores batem alternadamente num enorme
tantã coberto de pele de boi, enquanto que um palhaço profissional, ao lado deles, entretém o público com as
suas caretas e movimentos desordenados. A vante de cada barco, num pequeno estrado, dois homens armados
com compridas alabardas simulam um combate, brandindo as armas da forma mais ameaçadora. Esta corrida
náutica cheia de animação e de alegria é vista todos os anos por uma multidão entusiástica, vinda de todos os
lugares nas margens do rio.
O“ barco-dragão “ lembra pelo seu aspecto exterior o “drakkar” usado no século IX da nossa era pelos piratas escandinavos.
Assim como o Long Chuan, o seu nome provinha da cabeça do dragão ou du serpente que lhe ornamentava a proa, e da forma alongada
que se prestava à comparação com um animal fantástico destinado a semear o pavor nas populações visitadas por estes temíveis
piratas.
*) Histoire Generale des Vovages. MD CCXLVIH-TV, pg. 257.
“Ambassade hollandaise 1656”
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Estampa 73 Diferentes tipos
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Estampa 74 Diferentes tipos
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Estampa 75 Diferentes tipos
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Estampa 77. Diferentes tipos
FA CHUAN
A forma do “ barco-dragão” é dada na China à navios de papel que as populações ribeirinhas lançam ao
sabor da corrente no dia da festa das lanternas. Esta festa muito singular, tem lugar ao cair da noite do primeiro
dia da primeira lua que segue o novo ano chinês.
Estes barcos, chamados Fa Chuan (ver Estampa 75), atingem 8 a TO metros de comprimento, são formados
de uma estrutura muito leve em bambu coberta de papéis multicores, tendo os contornos e os mínimos pormenores
dum junco imperial dos tempos passados. À proa termina, numa curva graciosa, pela figura dum dragão
ameaçador.
No convés erguem-se pavilhões com tectos recurvados por cima dos quais flutuam auriflamas multicores
e bandeiras denteadas. Numerosas personagens, em trajes antigos, com uma espécie de tiara na cabeça, estão de
pé, no convés, viradas para o exterior.
Este conjunto decorativo desce a favor da corrente sobre uma leve jangada de bambu, enquanto que
milhares de barcas minúsculas, de papel oleado, iluminadas por lampiões, acompanham o grande junco no
cenário feérico destas estranhas iluminações. Não é necessário, em tais circunstâncias, apelar ao concurso da
população, cada um sabendo que o génio de bem-fazer dispensa os seus favores conforme a parte proporcional
da participação de cada um.
A forma característica do Long Chuan, foi-lhe sem dúvida dada pelas gentes ribeirinhas, em homenagem
ao culto imperial de que o dragão é o emblema fundamental.
Apoiando esta opinião, reproduzimos um desenho tirado duma estampa chinesa (Estampa 76),
representando o Imperador Suiyangdi (ne 29), da Dinastia Sui (nc 30), passeando no seu navio de parada. Esta
estampa foi extraída dos Feitos memoráveis dos Imperadores da China . A comparação das duas estampas 75
e 76, não deixa dúvidas quanto à semelhança entre o Fa Chuan e o Junco Imperial.
Este mesmo Imperador tinha feito construir, dizem os anais, um tão grande número de juncos magníficos
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Estampa 76. Diferentes tipos
148
para seu uso, que, em fila, ocupavam vinte léguas. Quando estavam em movimento, as duas margens do rio
ficavam guarnecidas por cavaleiros, aos quais as cidades vizinhas tinham que fornecer víveres, do melhor que
se pudesse encontrar.
Actualmente (1900), os juncos destinados ao serviço pessoal do Imperador, limitam-se a duas unidades
confinadas aos lagos do Palácio Imperial de Pequim. O maior dos dois, ao mesmo tempo o mais luxuoso, é um
verdadeiro palácio, e o casco moderno nada tem a ver com o do junco simbólico do Imperador Suiyangdi. O
casco foi buscar a sua forma aos grandes juncos do Baixo Yangzi Jiang, enquanto que as superstruturas, servindo
de habitação ao Imperador e ao seu séguito, lembram em muitos pontos as do junco de Yangzi Jiang.
Na Estampa 73 representamos um Long Chuan do Alto Yangzi Jiang, a que juntamos um desenho de
origem cantonense datando do princípio deste século ( Estampa 74 ).
Tendo cada localidade o seu barco especial, não é surpreendente encontrar-se em cada um deles mudanças
no equipamento e na ornamentação.
DOCUMENTOS CONSULTADOS
M.G. Pauthier, La Chine,1937.
J. Edkins, Journal of North China, Xangai, 1877.
Matignon, Superstition, crime et misére en Chine, 1899.
Elisée et Onésime Reclus, L'Empire du Milieu, 1900.
H. A. Giles, Chinese Literature, London, 1901.
Hourst, Dans les Rapides du Fleuve Bleu, 1904.
H. Doré, Recherches sur les superstitions en Chine, Xangai, 1911.
149
O QIYING
(Premier Navire Chinois naviguant dans "Ocean Atlantique 1846/78 (nc 32) ( Estampa 77).
Em 1847, várias revistas e jornais franceses e estrangeiros relataram, em numerosos artigos, a viagem
dum junco chinês, o Qiying, vindo de Hong Kong ( nc 33 ) e que se dirigia a Inglaterra com o fim de ser
utilizado para uma exposição flutuante de arte chinesa. Era, dizia-se, a primeira vez que um navio desta espécie
atravessava o Atlântico, por isso o seu sucesso foi considerável.
Damos a seguir o resumo dos principais artigos publicados a seu respeito nas revistas e jornais da época.
O Qiying deixou Hong Kong a 6 de Dezembro de 1846 e fundeou na ilha de Santa Helena a 17 de Abril
de 1847. Este junco chinês só teve bom tempo durante à primeira parte da travessia, mas teve que arribar seis
semanas no mar de Java, depois no estreito de Sunda por causa de ventos contrários, dobrando enfim o Cabo da
Boa Esperança depois de ter suportado, a 22 e 23 de Março. por altura da ilha Maurícia, uma tempestade
bastante violenta, que de resto não lhe causou nenhuma avaria.
Este navio, fretado pela especulação inglesa para fazer um museu flutuante, cujo primeiro destino era a
Inglaterra. não chegou, podemos dizer. senão por acaso a Nova lorque nos primeiros dias de Julho de 1847,
depois de 212 dias de mar. e a Inglaterra a 27 de Março do ano seguinte.
O Qiying. que parecia brilhar mais pela solidez do que pela velocidade, é um navio de 800 toneladas de
deslocamento, com 160 pés de comprimento, 33 pés de largura e um calado de 16 pés.
O navio foi construído com excelentes condições de segurança e comportou-se muito bem no mar. Não
se parece com nenhum navio construído nos nossos países. Baixo a meio, as duas extremidades apresentam,
pelo contrário, uma sobre elevação excessiva ( 9 metros ) a vante, 13,50 metros a ré, comparável à de um navio
com três cobertas. As amuradas são ornamentadas exteriormente, com esteiras pintadas de branco, preto e
vermelho.
A vante e a cada bordo, está pintado um olho gigantesco, e no painel de popa um grande pássaro com as
asas abertas, parecendo uma águia.
Os dois extremos do junco são cortados quase em ângulo recto, a parte de vante aberta pouco mais ou
menos como são os ferry-boats de Brooklyn que são destinados especialmente ao transporte de viaturas com
atrelado.
O mastro de vante, com a altura mínima de 75 pés, é sensivelmente inclinado para vante ; o mastro de ré
tem 50 pés de altura, eleva-se a um bordo perto do painel de popa, para não estorvar a manobra da cana do leme,
Não tem ovéns nem estais. As velas são de esteira finamente tecida, muito resistentes, mas em compensação
muito pesadas.
A vela grande pesa cerca de nove toneladas, compreendendo também o peso das vergas intermédias. Um
tal peso necessita duma força muito grande para ser manobrado. São necessários 40) homens para a içar com
auxílio de cabrestantes.
A mastreação compreende três mastros de madeira, formados por troncos de árvores que foram apenas
polidos, depois de se ter tirado a casca; o mastro grande tem 95 pés de altura e 10 pés de circunferência. Está
implantado no centro do convés. Em caso de mau tempo, a redução do volume do pano faz-se arriando
simplesmente a vela da quantidade desejada, o que evita fazer subir homens ao mastro para rizar a vela, manobra
sempre perigosa com mau tempo. Em conseguência disto três ou quatro marinheiros são suficientes para manobrar
O junco com toda a segurança, sem precisarem de mais ajuda. No extremo de ré está a parte mais surpreendente
do junco. O seu imenso leme, não está preso como entre nós por ferragens robustas, mas simplesmente suspenso
por três cabos de bambu de grande bitola, que se enrolam em guinchos, colocados na vertical dum entalhe feito
no painel de popa, de forma a que o leme possa, por uma simples manobra dos guinchos. subir ou descer até 24
pés abaixo da linha de água o que representa 12 pés a mais que o calado do junco.
Esta particularidade do leme dá ao navio uma grande estabilidade de rumo e uma facilidade de evolução
150
das mais notáveis. Mas, concebe-se que nesta posição a manobra do leme seja penosa e exija o emprego de
fortes talhas e de muitos homens. Quando se aproxima mau tempo, o leme é remontado a fim de diminuir o
esforço na cana e a fadiga do casco. Usa-se o mesmo procedimento quando se avizinham fundos baixos a fim de
evitar o encalhe. O peso deste leme é de sete toneladas.
As âncoras do Qiying têm também particularidades que espantam o europeu. São de madeira de teca ( nc
34 ), e têm um comprimento de cerca de dez metros. O cepo é também de madeira e colocado na junção da haste
e das patas, e não como entre nós na extremidade da haste. Esta particularidade das âncoras chinesas parece
preferível, dizem, pois assegura melhor que a âncora se agarre bem ao fundo do mar. Não havendo amarras de
ferro na China, as âncoras são manobradas por fortes cabos feitos da casca dos bambus e há um cabrestante
entre os dois mastros de vante onde se enrolam as amarras.
Entrando no junco, a atenção do visitante é atraída pela ornamentação dos salões, que, dentro de alguns
dias, serão convertidos em curioso museu. O grande salão de dez metros de comprimento, e de sete a oito
metros de largura, tem 3,70 metros de altura. É decorado com belos desenhos de cores vivas.
As paredes estão atapetadas de pinturas representando animais mais ou menos fantásticos, mas todos de
aspecto igualmente feroz. Num nicho, ao fundo do salão, vê-se a estátua em madeira dourada duma deusa com
quatro olhos e 18 braços, tendo em cada, um objecto diferente. Num outro compartimento há duas outras
imagens representando provavelmente padres. Enfim, numa última sala vê-se a imagem do deus do mar e mais
algumas pinturas chinesas representando mulheres, uma delas com um cachimbo na boca. Diante desta última
divindade há uma lâmpada acesa. Não há a bordo um único pedaço de vidro. As aberturas destinadas a entrar
luz, são fechadas com cascas de ostras perlíferas, cortadas em lâminas muito finas e encastradas em caixilhos
de madeira.
A tripulação é composta por 15 marinheiros europeus e cerca de 50 chineses, estes últimos destinados a
figurar no número das curiosidades do navio.
Foi cunhada uma medalha comemorativa da viagem do navio, o primeiro do seu género a fazer a perigosa
navegação de Cantão (ne 35 ) até à América e Inglaterra.
Esta medalha, de 18 centímetros de diâmetro, tem no anverso a representação do junco feita com cuidado
e no reverso uma inscrição em inglês, que se traduz :
O primeiro navio Chinês
que veio à Europa
ou dobrou o Cabo
As suas dimensões são:
Comprimento 160 pés, boca 33 pés, pontal do porão 16 pés
Porte 800 toneladas
Mastro principal de pau ferro, comprimento, 90 pés
Velas feitas com esteira forte; a vela principal pesa 7 toneladas
E um óptimo navio
e fez a viagem de Boston, U.S. para Jersey em 21 dias
Chegou a Inglaterra q
27 de Março de 1848 *
Ver também Estampas 73-81
* Original na página seguinte.
151
The first Chinese vessel ever
brought to Europe, or even
rounded the Cupe.
Her dimensions are
length 160 ft.. breadth 33 ft., depth of hold 16 fr.
burthen 800 tons
Main mast of iron wood, 90 ft long
The sails are made of strong matting; the main sail weights nearly 9 tons
her anchors are iron-wood, the rudder weighs 7 tons
She is an excellent boat
und mude a voyage from Boston U.S. to Jersey in 21 days
arrived in England
27 March 1848
DOCUMENTOS CONSULTADOS
Annales maritimes et coloniales, 1847
Moniteur Universel.“ Description d'un navire chinois à Ste.Hélêne”, 1847, page 2096
Moniteur Universel.“ La jonque Keying à New York“, 1847, pag. 2390.
Un petit opuscule edité à Londres à usage des Visiteurs du Yexing ( 1847).
JUNCOS IMPERIAIS
Durante numerosos anos, os juncos chamados imperiais desempenharam um grande papel no movimento
da navegação interior.
Sob este nome, é preciso incluir os juncos destinados ao transporte do tributo em géneros que as províncias
do Império deviam entregar todos os anos à corte de Pequim ( Estampa 82, estampa chinesa ). Este tributo
consistia em matérias de toda a espécie produzidas pelas províncias, especialmente o arroz que constituía quase
a totalidade do tributo.
Os viajantes dos séculos XVIl e XVIII deixaram-nos relações muito interessantes sobre esta frota de rio
que todos os anos vinha de todos os pontos do Império para Pequim pelo Grande Canal, navegável nessa altura
em todo o seu percurso, entre Hangzhou ( nc 5 ) e Tianjing ( nc 36 ). Esta frota era considerável. Autores
chineses estão de acordo em dizer que compreendia 9.999 juncos; porquê este número de 9.999, se seria mais
simples arredondá-lo para 10.000 ? É precisamente esta simplicidade que os chineses, por orgulho nacional não
quiseram exprimir, porque os dois monossílabos Yi Wan (nc 37) significando 10.000, são muito curtos, tanto na
língua falada como na língua escrita, para dar a impressão de poder que se devia atribuir a esta frota chamada
imperial.
O padre Hernandez Navarrete, que permaneceu na China de 1640 a 1660. dá ao número 9.999 juncos
uma explicação a que não falta originalidade. Um Imperador, de que não dá o nome , desejando constituir uma
frota de juncos para as suas necessidades pessoais e da sua corte, mandou construir 10.000 juncos. Acabada a
construção, o Imperador quis saber a quantidade de ferro que tinha sido utilizada na construção. Deu ordem
para queimar um, e mandou pesar o ferro que dele se aproveitou. Assim a frota imperial foi reduzida a 9.999
juncos.
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Estampa 82 Junco Imperial
153
Este número foi mantido pelos seus sucessores, por respeito pela memória deste Imperador.
O padre Navarrete aprova este procedimento do Imperador, destinado a controlar o gasto do material de
ferro que, naquela época, tinha um preço alto.
Pelos meados do século XVIII, os juncos imperiais estavam repartidos em três classes , com as seguintes
denominações:
p: Os Liang Chuan (nc 38) (Liang = grão, cereal; Chuan = barco)
PA Os Long Yi Chuan (ne 39) (Long = dragão; Yi = fatos )
3. Os Zuo Chuan (nc 40) (Zuo = mandarim ).
Os Liang Chuan ( ne 38 ), (abreviatura de Liang Mi Chuan) ( ne 41), (cereais, arroz barco) tinham a
mesma largura desde a proa até à popa. Eram especialmente usados no transporte dos produtos que constituíam
o tributo de cada província para a corte de Pequim. Das três classes de juncos imperiais a dos Liang Chuan era
a mais importante em número e dimensões.
O número 9.999 refere-se a estes juncos, e as suas dimensões, nomeadamente o calado, variavam com a
época em que tinham sido postos ao serviço.
Os Long Yi Chuan ( nc 39), ou barcos de fatos do dragão, quer dizer dos tecidos destinados ao Imperador,
serviam para transportar das províncias para a corte os brocados e as outras peças de seda que compunham o
tributo imperial. Segundo Franco Gemelli Carreri ( 1696 ), o número destes barcos era de 365, tantos como os
dias do ano, porque chamando-se o Imperador filho do Céu, tudo o que lhe pertencia devia tirar o seu nome do
céu, do sol, da lua, dos planetas e das estrelas.
Os Zuo Chuan (nc 40) estavam equipados para transportar os mandarins ao seu governo e embaixadores
e pessoas de distinção enviadas pela corte ou por ela chamados. Estes juncos, diz o Padre du Halde, são pintados,
dourados, e decorados com dragões de três garras (1), envernizados por dentro, assim como por fora. Os juncos
de dimensões médias, que servem correntemente, têm 80 pés de comprimento, 16 de largura e 9 de pontal. A
forma é quadrada e plana, excepto para a proa, onde se vai arredondando.
Além do alojamento do patrão e família há uma cozinha, duas grandes câmaras, uma a ré, outra a vante,
e uma sala com a altura de seis a sete pés, e a largura de onze a doze. Com esta sala comunica uma antecâmara
e duas ou três outras divisões com um guarda-roupa sem ornamentos.
Todo este conjunto é no mesmo piso e constitui o alojamento reservado para o mandarim, que aí dorme,
come, escreve, recebe as visitas. Não lhe falta nenhuma comodidade que tenha no palácio. Como não há maneira
de viajar mais cómoda do que nestas barcas, todos os senhores dão preferência aos “ carros de água “. O interior
dos alojamentos é revestido dum belo verniz vermelho e branco, as paredes e o tectos são ornamentados com
muitas obras de escultura, de pintura e de dourados. As mesas e as cadeiras são envernizadas em vermelho ou
preto.
A cada bordo, as salas têm janelas que podem ser tiradas. Em lugar de vidros usam-se belas cascas de
ostras*, muito delgadas e transparentes, ou então tecidos finos acetinados com uma espécie de cera lustrosa €
enriquecidos de flores, árvores e duma grande variedade de figuras.
O convés está envolvido por galerias para dar passagem aos marinheiros, evitando que incomodem os
viajantes. Por cima deste alojamento há uma cobertura, uma espécie de plataforma ou de terraço, aberta dos
lados, reservada à música, que compreende quatro ou cinco tocadores de instrumentos. Por baixo deste alojamento
é o fundo do porão, que é dividido em pequenos compartimentos para as bagagens.
1) Os dragões de cinco garras são reservados exclusivamente para o Imperador.
*) A falta de vidro, de que os Chineses não conheciam o processo de fabrico, usavam-se para as janelas cascas de placuna, uma espécie
de escama muito fina e semi-transparente, originária de Manila.
154
Estampa 78 (anverso)
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Estampa 81 (reverso) Este desenho e as medalhas pertencem ao National Maritime Museum, Greenwich, Inglaterra.
Manifestamos « nossa gratidão pela graciosa autorização de as publicar.
158
O Zuo Chuan (ne 40 ,*), quando leva grandes mandarins, é seguido de várias outras barcas, entre as quais
há sempre pelo menos uma chamada Huo Shi Chuan (nc 42) (Shi = víveres), ou barca de provisões. Leva a
cozinha e os alimentos.
Uma outra barca leva a escolta dos soldados, uma terceira mais pequena e mais leve, que se poderia
chamar barca dos furriéis, visto que a sua função é de alertar e tomar todas as disposições relativas à passagem.
Estas barcas têm os seus remadores e, em caso de necessidade, podem ser levadas à sirga ao longo da margem
por um certo número de homens fornecidos pelo mandarim local. O número destes homens determina-se
segundo o número de cavalos marcado no Qin Chai ( nc 44 ), ou livro de patentes do Imperador, a saber, três
homens por cavalo.
Quando um enviado do Imperador está a bordo, colocam-se à proa e à popa lanternas nas quais se lê, a
letras de ouro, as seguintes palavras “ Qin Chai ” ( nc 44 ) (enviado do Imperador). Estas inscrições são
acompanhadas por bandeirolas e estandartes de seda de várias cores.
À partida e à chegada acendem-se as lanternas da popa, e o corpo da guarda cumprimenta o mandarim
com uma descarga de caixas e com o soar das trombetas. Quando se faz noite, acendem-se as lanternas da popa
e da proa, bem como outras treze mais pequenas, suspensas como um rosário ao longo do mastro, a saber: dez
em baixo perpendicularmente e três em cima horizontalmente.
Os Long Chuan, tendo por missão transportar o tributo imperial, só fazem uma viagem por ano e não
levam senão uma quarta parte da carga que podem transportar. Isto para uma navegação segura, por causa do
assoreamento do canal.
Os vencimentos do patrão são pagos pelo tesouro imperial segundo a distância dos lugares; por exemplo,
os que vêm de Jiangxi (nc 45), a mais de trezentas léguas de Pequim, recebem cem “liang“ (nc 46), ou cem
taéis. Esta quantia parece na verdade pequena para tão grande distância, mas o patrão é compensado pela
autorização que tem de tomar passagens e mercadorias, que são isentas de direitos de alfândega.
A relação da viagem de Van Braam Houckgeest dá algumas precisões sobre estes grandes juncos
encontrados em 1795 pela Embaixada da Companhia das Índias Orientais Holandesas.
“ Estes juncos tinham 35 a 100 pés de comprimento e 22 a 25 de largura. São tripulados por uma média
de vinte homens cada. Os capitães e os pilotos levam as mulheres e as crianças a bordo e aí vivem com a
família, como se vê nos barcos de Colónia, no nosso país. Notei ali várias destas mulheres que eram bonitas e
tinham muito bom aspecto e outras que levam a sedução tão longe que até se pintam.
Nestes navios que têm o fundo quase chato e são quadrados, a carga é estivada nos porões, enquanto que
a parte de cima é reservada para ter os alojamentos. Um passadiço corre a todo o comprimento do navio e nos
lados fazem-se aberturas ou janelas para alumiar os alojamentos. O Capitão aloja à popa do navio, e por cima
dele fica ainda o piloto. Toda a parte de vante fica para a tripulação. As cozinhas ficam entre o alojamento do
"apitão e o dos marinheiros.
Estes navios têm dois mastros, um a vante e outro a dois terços da popa. À proa é elevada e cortada quase
verticalmente. O fundo é chato, o que lhes dá uma forma mais ou menos quadrada e os torna próprios para
receber carregamentos consideráveis “.
Na sua viagem a Pequim, o senhor M. de Guignes, descreve estes mesmos juncos, com algumas diferenças
pouco importantes no seu arranjo:
“ Vimos passar, diz ele, várias barcas imperiais; são belas e muito grandes. A vante têm um cabrestante,
mesmo ao pé um arco de triunfo em madeira vermelha envernizado e dourado, servindo para aguentar as
âncoras (ver Estampa 83), c as janelas são da mesma madeira. Uma barca média que medi, tinha 92 pés de
*) Segundo o Padre Navarrete, o número de Zuo Chuan era de 300.
159
comprimento por 18 de largura. O local em que está colocado o cabrestante tem quinze a dezasseis pés. Há uma
passagem de três pés de largo implantada nos dois bordos do navio e que serve para a comunicação da proa com
a popa”. A imensa frota de Liang Chuan, avaliada em vários milhares de juncos, encarregada de transportar
todos os anos o tributo imperial para Pequim, era susceptível de levar grandes quantidades de víveres,
nomeadamente arroz que as províncias do Yangzi Jiang produzem em abundância.
Na época da viagem de Marco Polo, a quantidade de arroz produzida pelo Jiangnan (nc 47)*, elevava-se
a 3.522.163 hectolitros. O anuário imperial, escreve P.D.Gandar, fixa ainda em 1.423.273 picos de arroz ( cerc:
de 84.000 toneladas ) o tributo que esta província deve pagar à corte. Um efectivo de 4 a 5.000 juncos repartidos
por 65 flotilhas transportam-no através do Canal Imperial. Segundo este mesmo autor, o total do tributo pago
pelas províncias de Shandong (nc 48), He” nan (nc 49), Huguang (ne 50)**, Jiangxi (nc 45), e três departamentos
do Zhejiang (nc 52), elevar-se-ia ao total de 2.138.134 picos, ou seja cerca de 123.500 toneladas. Enfim, certos
Estampa 83 Junco de recreio Imperial
historiadores chineses avaliam em 750 milhões de libras a quantidade de arroz enviado anualmente para
Pequim, no fim do século XVII. Cada um destes juncos de transporte, acrescenta P.D.Gandar, pode carregar de
200 a 400 Dan (nc 51) de mercadorias (12 a 24 toneladas).
O Patrão recebe do governador da sua província 800 sapecas por pico, pelo frete, e é-lhe permitido
completar o carregamento com as suas mercadorias, que ficam isentas de direitos alfandegários e que revende
com grandes lucros, no norte.
Estes juncos fazem só uma viagem por ano. Todos os anos, no segundo dia da segunda lua, uma destas
flotilhas larga de Fan Choer, no Gaoyou (nc 77) e não chega a Beicang Chang (nc 78) antes da oitava lua.
Independentemente destes juncos que se dirigem a Pequim pelos canais e rios, há outros, de construção
mais sólida, que transportam o tributo imperial por mar. A viagem é sem dúvida mais curta, mas a travessia
*) Sob o nome de Jiangnan (ne 47), é preciso entender o conjunto das duas províncias de Jiangsu (ne 54) e de Anhui (ne 56 ).
$$ O Wu Guang (ne 50 ) é uma antiga província que compreendia as províncias actuais de He Bei e de Henan.
160
comporta mais riscos. A capacidade média desses juncos é de 2.000 picos (cerca de 120 toneladas). Sobem para
o norte, à vela, durante a quarta lua ( Junho), no princípio da monção de sudoeste e voltam vazios na nona lua
(Novembro) com a monção de nordeste.
Se bem que esta travessia de ida e volta pareça longa, visto que a sua duração é de cerca de seis meses, é
contudo duas vezes mais rápida que a efectuada pelo Canal Imperial que exige igualmente seis meses só para a
subida.
É na província de Jiangnan (nc 47), principalmente no distrito de Suzhou (nc 57) que são construídos a
maior parte dos juncos destinados ao transporte do arroz (Estampa 84). A província de Shandong (nc 58)
constrói Os seus próprios juncos.
Imagina-se como devia ser difícil a administração e a fiscalização duma frota destas que, durante seis
meses do ano, estava ocupada numa navegação laboriosa e difícil através de toda a China.
Os 200.000 homens que compunham a sua tripulação eram recrutados, na sua grande maioria, na escumalha
OI
NO
Estampa 84 Junco de transporte
da população das cidades. Traziam a desordem por onde passavam, vivendo da pilhagem e do crime. Por isso
era necessário ter um corpo de polícia importante para manter a ordem entre eles.
Esse corpo contava 240 tenentes, 120 oficiais de escolta e 66.000 homens encarregados de executar as
ordens.
Os juncos eram inspeccionados à passagem por Huaian Fu (nc 59) pelo Cha Cang Yu Shi (nc 60), e, se ele
constatasse qualquer infracção aos regulamentos das dimensões dos juncos fixadas pelas ordenanças imperiais
ou qualquer irregularidade, o patrão era passível de ser punido, enquanto que o intendente sob à jurisdição do
qual estava, assim como o oficial de escolta encarregado da flotilha, eram denunciados ao trono. A inspecção
constava de nove pontos: a madeira de construção do junco em geral, o forro exterior do navio, a quilha, os
vaus, Os porões, os pregos, as costuras, a proa e a popa, enfim, as espias de alagem.
Os juncos imperiais tinham dois mastros, o de vante tinha 40 pés de altura, o do centro, o mastro grande,
60 pés. Estas dimensões estavam em uso durante o governo do Imperador Kangxi (nc 61 ). Foram modificadas
por uma nova ordenança no décimo nono ano do seu reino, em 1680.
Estes mastros envergavam velas rectangulares em esteira ou de algodão, reforçadas por numerosas vergas
161
intermédias, tendo cada uma a sua bolina, cujo conjunto reunido num ponto, constituía , como ainda hoje se vê,
a escota da vela. Quando o vento não permitia o uso do velame, o junco era alado por um cabo. Este cabo feito
de casca de bambu é muito resistente, embora seja muito leve e a sua bitola não exceda a do dedo mínimo.
Amarra-se ao extremo duma pesada peça de madeira, que atravessa o casco, sobe ao longo do mastro de
vante, passa por um anel formado por uma volta igualmente feita de cabo de bambu, daí vai a terra onde é alado
por uma equipa duma dezena de homens, tripulantes do junco, enquanto quatro ou cinco homens vão andando
ao longo do dique pelo través do junco, carregando duas âncoras leves de madeira, cujos cabos igualmente de
bambu, mas de maior bitola que o cabo que começámos por mencionar, que são amarrados a cabeços ou
barrotes verticais muito fortes, colocados nos castelos de proa e de popa.
A velocidade do junco é a de um homem a passo, o leme de popa e o remo colocado a vante permitem
manter 0 junco em bom rumo no eixo da corrente.
Quando o piloto quer parar o junco e amarrá-lo ao longo do dique, as duas âncoras são postas em terra €
os seus cabos ligados aos cabeços de vante ou aos de ré, segundo o junco vai contra ou a favor da corrente.
No tempo de Marco Polo, os juncos do Yangzi Jiang eram alados por meio de dez a doze cavalos. Este
modo de alagem desapareceu há muito tempo, pois os missionários do século XVI não o mencionam já. De
resto os cavalos são raros na China, assim como o gado duma forma geral, com excepção do búfalo que não se
vê como usar como animal de tiro na navegação.
Em geral, os juncos que navegam no canal possuem um mastro móvel que se pode abater fácil e rapidamente
para permitir a passagem por baixo das pontes. Este mastro é composto por duas peças de madeira que se
reunem no topo, mas que na sua parte inferior são independentes uma da outra, estão fixas em anéis de ferro,
um em cada bordo do convés. Duas outras peças de madeira igualmente ligadas no topo e assentando sobre o
convés do junco têm os seus extremos fixados em anéis de ferro (ver Estampa 84). Uma talha liga o topo do
mastro à junção das duas peças que assentam no convés. Uma simples tracção sobre a talha permite abater o
mastro mantendo-o em posição conveniente no convés.
CANAL IMPERIAL
O destino dos juncos imperiais está por demais ligado ao do Canal Imperial, para que se não digam
algumas palavras sobre esta artéria importante que atravessa uma grande parte da China ( ver carta da China )
e que é considerado como uma das maravilhas do engenho humano. Este canal foi utilizado durante numerosos
séculos para o transporte do tributo que as províncias deviam enviar todos os anos à corte de Pequim. Foi
começado no século VI antes de Cristo e terminado por volta do ano 1300 da nossa era. Tem cerca de 1.500
quilómetros de comprimento, de Hangzhou ( nc 5), na província de Zhejiang (nc 52), até Tianjin (nc 62) e para
além até Pequim (nc 63). Esta via de navegação foi formada pela reunião, uns aos outros, de vários rios, lagos
e pântanos , situados por vezes a níveis diferentes, donde a necessidade de construir diques de dragar os lodos
e de instalar eclusas para regularizar a corrente.
A parte sul do canal, entre Hangzhou e o Yangzi Jiang, não oferece dificuldades à navegação; a água é
abundante em toda a parte, a corrente variável com as marés que se fazem sentir em toda esta secção, não há
eclusas, mas as pontes são numerosas.
A parte norte, que vai do Yangzi Jiang até Tianjin, apresenta, pelo contrário, muitas dificuldades. O canal
é, em certos lugares, mais alto que a planície, noutros são as margens, dominadas pelos outeiros donde jorram
torrentes e rios que muitas vezes dificultam a navegação . À passagem do rio Amarelo é particularmente difícil,
às vezes mesmo impossível, quando o seu nível não corresponde ao do canal. As pontes são menos numerosas
do que na parte sul, enquanto que as eclusas se sucedem por vezes a intervalos muito curtos. A passagem destas
eclusas é uma operação que não se faz sem grandes dificuldades nem perigos sérios. Uma centena de homens é
muitas vezes necessária para a manobra dos cabrestantes destinados a fazer passar o junco duma secção para
162
outra.
No relato da viagem à China de Lord MaCartney encontramos acerca desta navegação, informações que
se referem à época em que o canal estava em plena actividade.
“ É nesta província de Shandong (nc 48), lemos nós, que está situado Linging Fu ( nc 64 ), onde começa
o famoso canal imperial que faz com que se possa ir por água de Cantão Fu ( nc 35 ) até pouco além de Pequim.
Estende-se de Linging Fu a Hangzhou, na província de Zhejiang e tem 72 eclusas em que se pagam direitos em
nome do Imperador.
O canal tem 500 milhas de comprimento. Passa, não só através de montanhas e vales, mas através de rios
e lagos... Há muitas sinuosidades no seu trajecto. E de largura desigual e às vezes mesmo muito considerável e
as suas águas raramente estão paradas.
O seu curso é ainda moderado por eclusas que atravessam o canal em pontos em que se julgou necessário,
mas é raro que distem uma da outra menos de uma milha, a água não tendo senão pouca corrente em muitos
sítios. As eclusas (ver Estampa 85) são todas em granito e não têm portas como as da Europa. São de construção
simples, fáceis de abrir e fechar, e não exigem senão uma manutenção muito pouco custosa. Consistem em
algumas pranchas que se colocam separadamente umas por cima das outras, numa ranhura de dois sólidos
pilares de pedra, que sobressaem dos dois lados do canal e não tendo entre eles senão o espaço necessário para
a passagem dos maiores barcos. Há poucos troços em que o canal seja perfeitamente de nível. As eclusas que o
atravessam, e outras que estão nas suas margens, servem para regular a quantidade de água que deve haver. E
preciso uma certa habilidade para que os navios que passam pelas eclusas não tenham nenhum acidente. Como
consequência, cada junco tem na parte de vante um grande remo por meio do qual um homem da tripulação o
governa muito bem. Durante esse tempo, outros homens colocados nos pilares, e com almofadas de pele.
debruadas de crina, impedem que o barco tenha avarias se, na rapidez da passagem, chocar contra os pilares.
Entre os pilares são lançadas pontes em madeira, muito leves, que se tiram facilmente quando os barcos
têm necessidade de passar.
As eclusas só abrem a horas certas, Então, todos os barcos que se juntaram no intervalo passam, pagando
uma leve portagem que reverte para a manutenção das eclusas e das margens do canal. Para passar duma secção
Estampa 85 — Eclusa do canal imperial
163
para a outra, os barcos são alados por cabrestantes, dois chegando normalmente, apesar de, às vezes, se terem
que usar quatro ou seis, quando os barcos têm um peso considerável.*
Quando um barco está para passar, os cabos dos cabrestantes, com uma volta na ponta, são firmemente
amarrados à popa, e, para maior segurança, depois de se terem passado as voltas uma na outra, introduz-se uma
cavilha de madeira para impedir que o nó se destaça. Em seguida faz-se com que esses cabos tomem uma
direcção conveniente ao longo da amurada.
E então que os homens manobram os cabrestantes até que o barco, tendo perdido o equilíbrio, seja
rapidamente lançado, pelo próprio peso, na bacia inferior, onde é preservado de se encher de água por meio
duma espécie de grande leque em verga, de um tecido muito fechado, e que houve o cuidado de instalar na proa
do junco *.
A profundidade do canal tem sofrido, através dos séculos, grandes variações, provocadas pela abundância
das cheias e pelos lodos que daí resultam. Foi-se pois conduzido a não ultrapassar um determinado calado e,
consequentemente, a reduzir o peso da carga. Depois, aumentado o assoreamento do canal, as ordenanças
imperiais que fixavam as dimensões dos juncos de transporte determinaram que se reduzissem ainda mais as
dimensões dos juncos de transporte até ao dia em que o canal, tornado cada vez mais inacessível, se tornou
obsoleto, desviando o transporte do tributo em grande parte para o mar, apesar de todos os riscos da navegação.
Hoje, o grande canal não corresponde mais às necessidades modernas, e só serve para as transacções
locais.
A travessia do antigo leito do Huang He ( nc 65 ) é tão difícil que a partir de 1909 se construiu uma linha
férrea, para permitir o trasbordo das mercadorias entre Suzhou ( nc 57 ) e Haizhou ( ne 66 ), na província de
Jiangsu ( nc 54).
*) Hoje os cabrestantes são virados a braço de homem ou por búfalos.
DOCUMENTOS CONSULTADOS SOBRE OS JUNCOS IMPERIAIS
E O GRANDE CANAL
G.M.H. Playfair, “The grain transport system of China”, China Review, Vol HI.
P.D. Gandar, “ Canal Impérial. Variétés sinologiques, Nº.4. Xangai, 1894.
G. Pauthier, Le Livre de Marco Polo, 1865.
G. Staunton, Voyage duns Vintérieur de la Chine eten Tartarie par [ Ambassade de Lord MaCartney en 1792-
3-4. e
M. Holmes, Même voyage, 1805.
J. Barrow, Voyage en Chine formant le complément du Vovage de Lord MaCartney, 1805.
P. Du Halde. Description de |" Empire de la Chine. 1735.
Histoire générale des vovages. 1748. Tome VI.
De Guignes, Voyage à Pekin, 1784 à 1801. 1808.
Voyage de "Ambassade de la Compagnie des Indes Orientales Hollandaises vers PEmpereur de Chine en
1794-1795. Tiré du journal d' André Everard van Braam Houckgest.
16d
INSTALAÇÃO DUMA ECLUSA NO CANAL IMPERIAL
A. Plano inclinado ligando duas secções.
B.B. Pranchas móveis sobrepostas, formando barragem, para permitir ao junco que desce com a corrente
alcançar o plano inclinado, de que será lançado para o canal inferior. Os extremos destas pranchas são encastradas
numa ranhura feita nos dois lados da eclusa.
V.V. Guinchos que servem para levantar e colocar as pranchas da barragem.
C.C. Cabrestantes de alagem. Há-os de duas qualidades: os mais fortes são manobrados no interior dum
enquadramento de madeiros (a,a) em que assenta o eixo do cabrestante. Os outros, de menor potência, estão
agrupados em linha, a cada lado da eclusa. Os eixos (D, D) são mantidos pelos ovéns (b,b) fixados à cabeça , e
Estampa 86 Eclusa
por um estai ( d.d ) cujas extremidades se fixam no solo.
A Estampa 86 representa um junco em posição para passar a barragem, donde as pranchas ( B,B ) foram
tiradas. No painel de proa está colocada uma defesa ( E ) em verga, de malhas muito fechadas, destinada a
proteger o junco contra a invasão da água durante a descida do plano inclinado ( Ver também a Estampa 87 ).
SUPERSTIÇÕES, RITOS E CERIMÓNIAS
O marinheiro chinês é supersticioso e fatalista por natureza. Antes de partir, preocupa-se primeiro em
aplacar os génios maus da água e do ar por meio dum sacrifício propiciatório a fim de que lhe sejam favoráveis
durante a viagem.
Esta cerimónia, celebrada com uma certa gravidade pelo patrão e pelo piloto, consiste em acender na
proa do junco varinhas de incenso e a queimar papéis com inscrições rituais ou representando sapecas ou
moedas de bronze. que se deitam à água, a bombordo e a estibordo do junco. O oficiante, virado para a proa,
face aos génios malignos que espiam a partida do navio, prosterna-se para a direita e para a esquerda, enquanto
os seus acólitos fazem soar o gongo e o tantã com um alarido atroador ( Estampa 88 ).
Se, apesar deste cerimonial, o mau tempo castiga o junco, os marinheiros, no momento em que a tempestade
atinge o seu paroxismo, lançam ao mar um junco de papel, tendo em pequeno, as formas e as proporções
daquele que tripulam. Esperam assim enganar os espíritos irritados e, melhor do que lançando óleo ao mar,
acalmar a tempestade *.
*) J.J. Matignon, Superstition, Crime et Misére en Chine, 1899.
165
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Estampa 88 Momento de paragem
Em calma podre, as mesmas oferendas de papéis dourados, de varinhas de incenso, são feitas com profusão,
enquanto o piloto empoleirado na parte mais alta do junco faz ouvir um assobio agudo e cadenciado, destinado,
no seu espírito, a atrair o vento libertador.
Nas passagens perigosas, ou antes da faina que precede a subida dos rápidos, sacrifica-se um galo à proa
do junco (Estampa 90); o sangue deitado na água irá apaziguar os monstros, que, para se oporem à subida do
rio, esperam pelo navio antes que ele entre nos rápidos e nos turbilhões (Estampa 90). Depois do sacrifício do
galo, as penas são arrancadas e coladas na amurada numa poça de sangue, ficando a prova do sacrifício visível
para todos. Por trás do patrão que acaba de proceder à execução, fica o cozinheiro da guarnição pronto a receber
discretamente o corpo da vítima, para lhe reservar o destino que se adivinha. Durante a cerimónia, a tripulação
faz detonar pequenos petardos vermelhos enfiados como se fossem rosários, cujo rebentamento irregular, dá a
Husão de um tiroteio.
E sobretudo no interior das terras que as práticas supersticiosas são respeitadas pelos barqueiros e entre
a população que vive na água ou ao longo das margens. Numerosos pagodes dedicados aos génios das águas
foram construídos na proximidade das passagens perigosas. Nas colinas e nas pontas que dominam o curso dos
rios, também se erguem, como se fossem faróis, torres com vários andares, chamadas Feng Shui (nc 67) - vento
e água - cuja localização foi cuidadosamente determinada pelos geomantes, com o fim de obter a protecção dos
génios do vento e das águas (Estampa 89).
Estes génios são de duas espécies: os bons e os maus. A estes últimos, o chinês, supersticioso e astuto,
consagra a sua mais ardente devoção, a fim de ficar nas suas graças indispensáveis e salutares, enquanto acha
menos útil gastar o seu tempo e o seu dinheiro a dar presentes aos génios bons que são por natureza benevolentes
e misericordiosos. Cada uma destas divindades ocupa um pagode próprio dominando o rio nas passagens
perigosas, que ficam submetidas à sua influência, boa ou má, segundo o que se lhes atribui. Mas enquanto o
génio bom tem as janelas escancaradas para poder dispensar os seus favores aos juncos que enfrentam os
perigos, o pagode do génio mau tem as portadas das janelas fechadas com o fito de obstarem à propagação das
suas influências nefastas. Estas portas serão, contudo, abertas durante os períodos em que os perigos desaparecem
166
Estampa 87 Passagem de eclusa ( plano inclinado )
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Estampa 89 Junco frente do templo
com certas alturas de água. Os dois génios ficam então em pé de igualdade, para grande satisfação dos interessados,
que se acham temporariamente dispensados de qualquer cerimonial em relação a eles.
| De todas as regiões do vasto Império Chinês, a bacia do Yangzi Jiang é a que oferece o maior número de
vias navegáveis, e também as maiores dificuldades de navegação. Por isso mesmo se encontra nas margens dos
seus cursos de água uma grande quantidade de monumentos mais ou menos importantes dedicados às divindades
das águas. Entre os primeiros, citaremos o grande Buda, talhado na rocha há cerca de mil e duzentos anos, e que
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Estampa 90 Cerimónia para acalmar as águas
168
está um Buda. Este culto é feito menos para perpetuar a lembrança do infeliz mandarim cujo nome caiu no
esquecimento que para afastar os maus espíritos, instigadores do naufrágio.
Um último exemplo demonstrará, mesmo que isso possa parecer supérfluo, a que ponto as crenças
supersticiosas estão bem arreigadas no espírito dos barqueiros chineses.
Nas proximidades da cidade de Guizhou Fu (nc 71) entre Yichang e Chongging (nc 16), estão as gargantas
de Fengxiang Xia ( nc 73 ) designação que, traduzida palavra a palavra, quer dizer “caixa de vento”, ou “fole”.
Eliseu e Onésimo Reclus qualificam como a “mais gigantesca escultura do universo terrestre”.
Este Buda tem por missão proteger os navios numa passagem muito temida, situada em frente da cidade
de Jiading (ne 68 ), no Min Jiang ( nc 69), afluente importante do Alto Yangzi Jiang na província de Sichuan
(nc 70 ). Se bem que não esteja de pé mas sentado, com os pés na água e as mãos pousadas nos joelhos, este
deus atinge 120 metros de altura, o que no espírito dos chineses é particularmente favorável à expansão da sua
influência. Um pouco a montante de Chongging (nc 16), na mesma província, na proximidade duma passagem
perigosa do Yangzi Jiang há uma cabeça de chinês esculpida na falésia e colorida.
Esta figura terá sido feita, diz-se, há mais de um século, para lembrar um alto mandarim que naufragara
neste local. Círios e varinhas de incenso são queimados permanentemente, mesmo ao lado, num nicho em que
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Estampa 91 Inscrições
São gargantas admiráveis, formadas por duas muralhas abruptas, muito altas, no alto das quais se divisam, à
entrada duma gruta inacessível, várias grandes caixas rectangulares que seriam, segundo se diz, foles chineses.
De acordo com a lenda, estes foles teriam sido colocados no século II por génios complacentes e sem sombra
de dúvida muito desportivos, com o fim de produzir em permanência o vento necessário aos juncos para atravessar
esta passagem, que redemoinhos muito violentos tornam muito perigosa. Ora, num determinado ano, os chineses
constataram que os foles tinham sido levados para dentro da gruta. Acusaram os europeus de terem cometido
esta feia acção com o fim de entravar a navegação. Foi preciso muita habilidade e paciência da parte das
autoridades locais para fazer compreender aos barqueiros chineses o absurdo desta lenda. Ainda hoje imaginam
que, se os ventos não sopram tão fortemente como outrora, isso é devido à aversão que os génios do rio sentem
169
pelos “ diabos do ocidente
As tripulações dos juncos de mar têm menos tendência que os dos juncos de rio para praticar Os ritos
consagrados à navegação. O contacto com as marinhas estrangeiras. que desconhecem estes usos, as longas
travessias à vela, no decorrer das quais se dão conta que a sua salvação e do seu navio é unicamente devida à
habilidade das suas manobras e não à intervenção duma divindade do mar, tornam-nos a maior parte das vezes
indiferentes à prática de cerimónias propiciatórias.
Apesar disso, praticam com deferência o culto dos seus deuses tutelares, que ocupam, na parte de ré do
convés, um pequeno altar, diante do qual queimam em permanência varinhas de incenso junto dum talismã,
onde o deus das águas, Longwang (nc 74), é rogado a conceder uma viagem favorável, uma navegação feliz aos
barcos de comércio, a fim de que os armadores façam rápida fortuna ( Estampa 91 ).*
*) Esta súplica-talismã foi extraída das Recherches sur les Superstitions en Chine, por Henri Doré. Xangai, 19H. H. Doré, tomo E nº2,
página 209, figura 145.
Os “tao-che “ imaginaram esta súplica-talismã, em favor dos navegadores. Nela se roga a Longwang (ne 74), 0 deus das águas,
que conceda uma viagem favorável e uma feliz navegação dos navios de comércio, a fim de que os armadores façam uma rápida
fortuna.
170
POPULAÇÃO MARÍTIMA
Nos países ocidentais entendemos pela expressão “população flutuante”, aquela que não tem domicílio
permanente no local em que no momento habita. Na China, esta designação refere-se à população que vive
exclusivamente sobre a água, sem ligação com terra. É nas províncias do sul, na do Guangdong (nc 75) em
particular, onde a navegação interior é muito activa, que se podem ver milhares e milhares de seres humanos,
homens, mulheres, crianças, velhos, vivendo em barcos de todas as formas e dimensões, errando sem parar nos
cursos de água até aos lugares mais inacessíveis, à procura do sustento diário.
O porto de Hong Kong e o rio de Cantão oferecem sobre este aspecto os espectáculos mais imprevistos
e mais fantásticos. Encontra-se ali a todo o momento do dia e da noite a representação fiel e muitas vezes
trágica do que é, na China mais de que em qualquer outro sítio, a luta pela vida. Os barqueiros, de modos rudes
e independentes, pertencem à uma raça à parte, de origem desconhecida. Os seus costumes e as suas tradições
diferem muitas vezes dos que têm os seus vizinhos chineses que os mantêm à parte e os desprezam, como
pertencendo, assim o asseguram, a uma casta envilecida. Como a lei lhes proíbe habitar e possuir seja o que for
em terra, casam-se sempre entre eles. Toda a sua existência , desde o nascimento até à morte, é passada a bordo
do seu návio, onde exercem as profissões mais diversas a fim de prover às necessidades da imensa cidade
flutuante.
Nas ruas populosas de Cantão vê-se uma grande quantidade de comerciantes de víveres, alfaiates,
sapateiros, barbeiros, músicos ambulantes, enfim, uma multidão sedenta de ganho, evoluindo em cima uns dos
outros, sobre uma água lodacenta, exalando um cheiro nauseabundo que se junta ao da população aquática, para
quem a limpeza é uma preocupação mínima.
É preciso ouvir os gritos destes comerciantes, as interpelações barulhentas de barco para barco onde
flutuam os farrapos que a mulher da sampana acabou de lavar tranquilamente à borda do seu barco, no meio
da barulheira deste formigueiro aquático. É um espectáculo inesquecível que afecta penosamente e sem
descanso a vista. o olfacto e o ouvido do viajante perdido nesta cidade estranha.
São em geral as mulheres e as crianças que dirigem estas casas flutuantes, enquanto que os maridos estão
ocupados em rudes trabalhos nos juncos de comércio. A família, composta às vezes por três gerações, ocupa-se
do trabalho diário; a mãe ajudada pela filha mais velha manobra o leme de gingar de ré. e ao mesmo tempo
prepara a tigela de arroz e peixe que constitui a refeição da família. À proa, uma mulher nova e vigilante, com
o filho enfaixado às costas, dá uma boa remada, muitas vezes reforçada com uma linguagem a condizer, sobretudo
se também têm que usar o croque para afastar um imprudente ou um obstáculo imprevisto. Ao lado dela, dois
miúdos da altura duma bota exercitam-se gravemente no manejo do remo materno, cada um deles tendo às
costas uma cabaça atada a alguns metros de linha de pesca. de forma que se caírem ao mar, possam ser recolhidos
sem mal de maior.
Esta população marítima, que poderíamos qualificar com mais razão de aquática. pois cresce e vive na
água, não tem nada de comum com os arrojados marinheiros que labutam penosamente nos juncos de mar e de
rio. Mostraremos mais adiante, na parte descritiva dos juncos, a tarefa árdua e perigosa imposta diariamente a
esses marinheiros, principalmente os do Yangzi Jiang, na passagem dos rápidos, e a coragem e a tenacidade de
que têm que dar provas a todo o momento para ultrapassar estes terríveis obstáculos. Quanto aos marinheiros da
costa que têm que fazer face aos perigos do mar, aos tufões devastadores tão frequentes nos mares da China,
deixamos a palavra a Dujardin-Beaumetz:
“ É, na verdade uma bela frota, esta frota mercante da China, e que reservatório incomparável de
iza:
marinheiros que ela veio a encontrar em toda esta população que navega nos recortes duma costa, toda ela
salpicada de recifes e ilhotas, no meio de brumas e do perigo dos tufões, e que é duma disciplina, duma paciência,
duma docilidade e duma coragem a toda à prova. São virtudes comuns a todos os marinheiros; duvido que
sejam levadas mais longe do que na China.
Este fervilhar humano que é a China extravasou para o mar, e é uma visão do futuro de amanhã, atravessar
num navio a vapor uma flotilha de pescadores e de navios de cabotagem que, aos milhares. labutam penosamente
nestes mares terríveis. Ficar-me-á toda a vida na cabeça o mugido da nossa sereia quando havia nevociro, ao
qual respondiam tantas cega-regas, tantãs, gritos de marujos, que tínhamos que parar horas inteiras no meio
desta planície humana, pedindo misericórdia ao gigante europeu que os teria triturado. E ao largo, bem antes de
chegar à costa, estes juncos abordando um navio em pleno andamento por todos os lados. Estes homens amarelos
atiram os seus grampos e içam-se para bordo, como piratas à abordagem, procurando trabalho ou volumes para
transportar. Se caem ao mar, será a morte, ninguém os salvará; o demónio do mar quis a sua presa, que fique
com ela! Se se repescasse , a má sorte viria com ela e procuraria outra vítima!
Estes juncos, com as suas imensas velas de bambu, a proa alçada com olhos enormes como se fossem
monstros marinhos, o castelo de popa com grandes janelas todas pintalgadas de cores vivas, os [flancos
arredondados e maciços, encontram-se em toda a parte, sacudidos por todos os mares. Têm grandes canhões
para se defenderem dos piratas, dizem eles. Se fosse preciso tornar-se-iam piratas, dizem os espíritos rabugentos,
que vos mostram, mesmo no convés do navio que vos transporta, espingardas carregadas e instruções para O
caso de ataque dos piratas, e as grades de ferro que vos separam dos passageiros chineses *.
A marinha chinesa não terá dificuldade, quando chegar o momento, em encontrar excelentes tripulações
entre estes valorosos marinheiros.
DOCUMENTOS CONSULTADOS
A. Colquhoun. La Chine méridionale, 1884.
The East of Asia Magazine, Xangai 1903,
Dujardin-Beaumetz “La Chine dans ses rapports actuels avec " Europe”, (Extrait de la Réforme Sociale,
1897)
172
PIRATARIA
Na China, a pirataria tem sido exercida em todos os tempos como uma verdadeira indústria, e ainda o é
às vezes. As costas meridionais, e mais especificamente as de Fujian, têm sido infestadas, desde tempos
imemoriais, por um verdadeiro exército de piratas. Prestam-se aliás tão bem para esta actividade, que nenhum
mar do globo teve que sofrer tanto com as suas depradações. Numerosos e inacessíveis lugares de refúgio, nas
baías profundas, nas ilhas e rochedos inabordáveis, dão uma segurança completa a estes “ irmãos da costa “,
que sabem escapar a todas as perseguições.
As crónicas nacionais conservaram os nomes de alguns destes bandidos célebres, de quem a fortuna fez
“Reis do mar”, mais poderosos que o Filho do Céu, o Imperador, desafiando as frotas militares e tratando com
ele de igual para igual. No princípio do século passado, a frota dos piratas não contava menos de seiscentos
juncos de cem a trezentas toneladas de arqueação, armados com peças compradas aos europeus ou tirados dos
navios capturados.
As suas armas individuais eram simples lanças de quatro a cinco metros de comprimento que acabavam
em dardos de bambu, em lanças de ferro ou punhais ( ver parte descritiva, Costas do Sul ).
Mais de 70.000 homens exerciam então a profissão de pirata, e todas as forças da Marinha Imperial não
teriam podido vencer a sua resistência .
Eram homens valentes e estavam submetidos a uma disciplina de que aceitavam as mais rígidas prescrições.
Era - lhes proibido ir a terra sem autorização sob pena dos castigos mais severos. As presas deviam ser registadas
e distribuídas em partes iguais. Uma falta, um desvio de dinheiros, trazia a morte.
O dinheiro não se dividia como o resto; entregava-se ao chefe, que dava um quinto àqueles que lhe
tinham deitado a mão e guardava o resto para as despesas da comunidade. Todas as provisões ou munições
pedidas aos habitantes deviam ser pagas imediatamente. Pedia-se resgate pelas prisioneiras mas eram respeitadas
só as mais belas, e aquelas de quem nunca se recebia o resgate, eram divididas, mediante um preço de compra,
pelos piratas celibatários. Aqueles que tivessem comprado uma cativa, deviam imediatamente fazê-la sua esposa
legítima. Um camarote privativo era-lhe atribuído e à família. Um acto de violência ou de devassidão era
punido com a pena última. Assim, disciplinados, os piratas eram ainda mais temíveis.
Tinham seis esquadras comandadas por chefes que içavam audaciosamente as suas bandeiras próprias,
vermelha, amarela, verde, azul, branca e preta.
Em vão enviava o governo de Pequim ordem sobre ordem para que os destruíssem; os Almirantes do
Imperador eram vencidos um após outro. Assim, em desespero de causa, o Governo achava às vezes mais
prudente e mais económico comprar, com custosos sacríficios e com honrarias oficiais, o apoio destes chefes
piratas, aos quais confiavam o cuidado de defender a segurança das costas contra a violência dos seus antigos
companheiros.
Cidades inteiras pagavam - lhes tributo e salvavam os seus navios, quando passavam. As que recusavam,
eram saqueadas e queimadas. Matavam os velhos e as crianças e raptavam as mulheres e os cadáveres para
pedir resgate. Em qualquer outro sítio que não a China, esta especulação com as ossadas teria sido absurda, mas
no Celeste Império, um homem de bem tem o dever de resgatar o seu antepassado morto, mais caro que o seu
irmão vivo.
Os piratas chineses não atacavam outrora os navios europeus, porque estes estavam armados com canhões
e estavam precavidos contra os piratas de todo o mundo.
Os marinheiros portugueses, mais expostos que quaisquer outros, pelo facto de terem base em Macau,
lograram construir um modelo híbrido sino-europeu, que se usa ainda hoje e tomou o nome de Lorcha (nc 76)
( ver parte descritiva, Costas Leste), uma espécie de junco com dois ou três mastros, duma centena de toneladas
de deslocamento e armado com alguns canhões fundidos. Estes navios, tripulados por marinheiros portugueses,
serviam de escolta, mediante um certo pagamento, aos comboios de juncos que temiam os piratas. As lorchas
Ns:
encarregavam-se de fazer a guarda à volta do rebanho e de atacar os piratas se eles aparecessem.
O uso das lorchas tornou-se a pouco e pouco lucrativo, por isso o número destes navios aumentou
rapidamente, trazendo como era de prever abusos, que, no entanto, desagradavam menos aos mandarins que a
intervenção de navios de guerra estrangeiros.
Na hora presente, a pirataria quase desapareceu do alto mar, mas existe ainda em certas baías retiradas,
de acesso difícil, assim como nas aproximações de Hong Kong e Cantão, onde os atentados são ainda frequentes,
apesar de todas as precauções tomadas.
Assim, os barcos que levam passageiros, à vela ou a vapor, chineses ou estrangeiros, estão armados com
espingardas e canhões montados permanentemente ao longo da amurada para repelir um ataque súbito. Têm
ainda redes de ferro, ao longo da amurada, para impedir os piratas de entrar a bordo.
Os passageiros estão confinados ao convés superior, separados por uma forte rede de arame do resto da
tripulação. Mas estas precauções ainda são insuficientes para frustrar os golpes destes valentes corsários, que
não recuam diante de nenhum obstáculo. Não há conta para os casos em que os piratas entram a bordo com o ar
de comerciantes tranquilos, com os seus cúmplices que finjem não conhecer. A um sinal combinado, o bando
volta a reunir-se e, num ápice, domina ou massacra o capitão, oficiais e tripulação, enquanto novos cúmplices,
com ar de pacíficos pescadores acorrem com as suas sampanas, encostam ao navio, e recolhem as mercadorias
que lhes são atiradas pela borda. Tudo isto não dura senão um instante, e os piratas-passageiros abandonam
rapidamente o campo das suas tristes façanhas.
Os juncos de comércio não são poupados apesar de o saque ser fraco. Por isso, o receio dos piratas, junta
de ordinário os juncos de comércio em comboios. Nunca perdendo a terra de vista, seguindo todos os contornos
da costa, metendo-se dentro de todas baías, estes navios de cabotagem estão habituados a fundear todas as
noites; não voltam a partir para nova tirada senão depois de terem decidido a largada de comum acordo. Os
jJuncos que opinam por partir içam uma das suas velas, os que são de opinião de continuar no fundeadouro,
conservam todas as suas velas ferradas. Se, apesar do voto da minoria , a partida é decidida, toda a flotilha larga
e se dirige para uma nova tirada. Apesar de tantas precauções os piratas que não param de rondar à volta destes
comboios, raptam com frequência algumas ovelhas do rebanho.
Estes homens, capazes de tanta audácia e determinação, gozam de todas as aptidões da sua profissão:
certeza de golpe de vista, astúcia na preparação do golpe, rapidez e energia de execução. Não há dúvida que são
os mais temíveis piratas do mundo. Nenhum obstáculo os faz parar quando se resolvem a atacar um navio, a sua
audácia não tem limites e muitas vezes os vemos lançar-se em acções, à primeira vista loucas, mas nas quais O
sucesso vem quase sempre coroar a sua temeridade.
Não se pode deixar em silêncio o processo pouco banal que usam para desviar os golpes que lhe são
destinados. Já se viram piratas que, ao lançar-se ao mar para fugir dos navios pilhados, tinham deitado ao mar
previamente um grande número de cocos. Entre estes cocos flutuantes é muito difícil distinguir as cabeças dos
nadadores e, portanto, disparar projécteis contra eles.
DOCUMENTOS CONSULTADOS
J. Dyer Ball, Things Chinese, 1904
Old Nick, La Chine Ouverte, 1845.
Jurien de la Graviere, Voyage en Chine.
[74
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YANGZI JIANG
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IV
DESCRIÇÃO DOS JUNCOS
PREÂMBULO
A Administração das Alfândegas Imperiais Chinesas publicou nos seus relatórios anuais e decenais,
assim como em catálogos especialmente editados por ocasião de exposições nas capitais europeias, interessantes
informações sobre os juncos que frequentam os portos abertos ao comércio estrangeiro. Ainda que essas
publicações tenham sido feitas com o fim de dar informações comerciais, não deixam de conter uma preciosa
informação para o estudo de que nos ocupamos. Encontram-se aí, em geral, os nomes dos juncos em caracteres
chineses com tradução em inglês, o porto de origem, as dimensões, a natureza da carga e as principais
características que permitem identificá-los.
São às centenas e mesmo aos milhares os juncos que estão registados nos portos abertos. Podemos assim
imaginar como deve ser grande a sua variedade, quando se pensa que cada região, cada aldeia mesmo, possui os
seus tipos particulares, apropriados às necessidades comerciais e às exigências da navegação. A título de exemplo
citaremos o porto de Niuzhuang, no golfo de Liaodong, onde o Serviço das Alfândegas Imperiais registou, em
1901, a entrada de 12.000 juncos, dos quais 10.000 fluviais, número que não representa o total destes barcos,
que é estimado em 16.000 de todas as dimensões.
Não é possível reproduzir aqui a abundante documentação publicada pela Administração das Alfândegas.
Limitar-nos-emos, portanto, a citar os principais assuntos que entram no quadro do nosso trabalho.
Nos relatórios das Alfândegas Chinesas os nomes dos juncos e das localidades são escritos segundo a
ortografia inglesa.*
NIUZHUANG (nc 1)
O porto de Niuzhuang, ou mais exactamente Yingkou (nc 2), está situado na foz do Liao He (nc 3). E
um importante porto da Manchúria que tem comércio principalmente com o norte e o centro da China. Nas
marés vivas, O Liao He é navegável até Xinmin Fu ( nc 194), à uma centena de milhas a montante de Yingkuo,
mas está fechado pelos gelos durante quatro ou cinco meses por ano. Em 1901, como acabámos de dizer,
registaram-se na Alfândega 12.000 juncos, dos quais 10.000 fluviais. Este último número não representa a
totalidade da frota estimada em 16.000 juncos de todas as dimensões. O relatório das Alfândegas Imperiais de
1892/1901 dá a lista dos principais tipos que freguentam o porto de Yingkou.
Ii Nan He Chuan ( nc 4) - Nome genérico dos juncos que traficam com Tianjin (nc 5 ); sãovulgarmente
chamados Wai Chuan.
2. Gai Qiao Chuan (nc 6) - Capacidade: 1.300 picos, como o anterior.
3. Wai Chuan (nc 7)- Trafica com Tianjin.
4. Beihe Chuan (nc 8)- Originário de Ninghe Xian ( nc 9) a 30 milhas a norte de Dagu (ne 10).
Capacidade: 100 a 1.300 picos.
> Bei Niao Chuan (nc 11)- Originário de Bei Zhili ( nc 12). Capacidade: 100 a 1.000 picos.
6. Dong Chuan (nc 13)- Originário de Shandong ( nc 14 ). Capacidade: 100 à 1.000 picos.
7. | Deng You Chuan (ne 15) - Mesmo tipo do junco precedente.
8 Yan Jian Fei ( nc 16 ) - Pequeno junco de mar originário de Yingkou; trafica com Zhifu (ne 17), Tianjin
e outros portos do golfo de Beizhi. Capacidade: 80 a 350 picos.
9. GualLa (nc 18)- Mesmo uso que o precedente.
10. Hong Tou (nc 19) - Mesmo uso que os dois juncos precedentes.
*N, Editor : o editor adoptou nesta edição a pronunciação da língua oficial "chinese - mandarim”, por razões de maior facilidade de
consulta nos dicionários e mapas de língua chinesa.
181
|. Sha Chuan (nc 20) - Originário de Shanghai ( nc 24 ) e de Jiangsu ( ne 25 ). Capacidade: 500 à 2.500
picos.
12. Nan Chuan (nc 21 ) - Mesma origem que o junco precedente.
13. Ning Chuan (nc 22) - Originário de Ningbo (nc 23 ) e outros portos de Zhejiang ( nc 26 ), Capacidade:
700 a 2.200 picos.
14. Niao Chuan (nc 27) - Originário da província de Fujian ( nc 28 ). Capacidade : 500 a 2.000 picos.
15. Diao Chuan (nc 29) - Este junco, como o anterior, é conhecido com o mesmo nome de Diao Chuan.
16. Cao Chuan (nc 30 ) - Faz comércio no interior das terras. Há-os aos milhares.
17. DaNiu (nc 31)- Outra categoria de junco de rio que compreende duas classes: os Da Niu e os Xiao
Niu.
18. Xiao Niu (nc 32).
19. He Nei Niu (nc 33) - Junco traficando na costa.
20. Niu Kou Bo Chuan (nc 34 ) - Junco de comércio.
21. Niu Kou Cao Zi Chuan (nc 35 ) - Junco de rio.
22. Xiao Niu Chuan (nc 36 ) - Pequeno barco de rio usado no transporte de feijões e favas. Mesmo tipo que
o número 18.
23. Sampana China (nc 37) - Sampana com uma vela.
24. Sampana a Remo (nc 38 ) - Sampana com leme de gingar à popa.
Além destes juncos, vêem-se no porto de Yingkou grandes juncos de Fujian ( nc 28 ) e de Zhejiang (nc 26).
TIANJIN ( nc 5)
Tianjin é o único porto da província de Bei Zhili, e ao mesmo tempo da Mongólia e da Manchúria. Está
situado numa região extremamente fértil, sobre um rio navegável, o Bei He ( nc 39 ), no ponto de convergência
do Grande Canal Imperial, e um pouco a jusante da junção de dois afluentes importantes. Pelo contrário, a orla
marítima, formada de aluviões que se prolongam para o largo em declive imperceptível é de acesso perigoso
para os navios e não tem nenhum abrigo, onde se possa arribar, a não ser a península de Shandong, país
montanhoso, cuja cadeia contínua tem aberturas pontuais que oferecem alguns abrigos aos navegadores.
Eis a lista dos principais barcos de mar e de rio utilizados no porto de Tianjin.
Yan Chuan ( ne 40 ) - Junco para o transporte de sal, oriundo de Fujian.
Mo Chuan (nc 41 ) - Junco de comércio.
Guan Chuan ( nc 42 ) - Junco de rio para uso dos mandarins.
Hai Chuan (nc 43) - Junco de mar característico de Tianjin.
Lian Liang Chuan ( nc 44 ) - Junco do Grande Canal para o transporte de cereais.
Ke Chuan (nc 45 ) - Junco de passageiros.
San Ban Chuan ( nc 46 ) - Sampana comum.
ns ENA o Dol
LEIEU (une )
Zhifu é um porto importante da costa setentrional da província de Shandong, aberto ao comércio
estrangeiro, no Golfo de Bei Zhili. Pode receber navios de qualquer tonelagem, ao abrigo dum promontório que
protege a rada na parte noroeste.
O Catálogo da Exposição de Liêge de 1905, dá as informações seguintes sobre os navios utilizados no
porto.
182
I. Ding You (ne 47) - Comprimento: 77 pés; boca: 20 pés; pontal: 5 pés. Capacidade: 108 toneladas. Tem
3 velas e uma tripulação de 9 homens.
2 Gua Tou ( nc 48 ) - Comprimento: 44 pés; boca: 15 pés; pontal: 4 pés. 3 velas. Tripulação: 9 homens.
a. Gua Lou (nc 49)- Comprimento: 76 pés; boca: 12 pés: pontal: 6 pés. Capacidade: 73 toneladas. 3 velas.
Tripulação: 9 homens.
4. Sampana (San Ban) (nc 50 ) - Comprimento: 17 pés; boca 6 pés: pontal: 4 pés. Tripulação : 2 homens.
SHANDONG (nc 14)
BAÍA DE JIAOZHOU ( nc 51)
O tipo dos juncos muda logo que se passa a fronteira do Jiangsu ( nc 25 ) para entrar na província de
Shandong. É na baía de Jiaozhou, ou mais exactamente no porto de Qingdao (nc 52 ), que se pode de qualquer
modo fixar a linha de demarcação entre os juncos do Norte e os das costas meridionais da China.
Demos, na parte descritiva, as características dos vários juncos, de que as principais são as seguintes:
formas maciças dos barcos de rio, com as extremidades de vante e de ré com painel e fundo chato. Ausência de
olho pintado a vante dos dois bordos.
As informações seguintes foram extraídas do relatório decenal das Alfândegas Imperiais ( 1892-1901 ):
Ik Diao Chuan ( nc 29) - Junco oriundo de Fujian. Capacidade: 3.000 a 6.000 picos. Tripulação: 26 homens.
Três mastros com a vela do meio muito grande e elevada; uma vela a vante mais pequena num mastro muito
inclinado para vante, e uma pequena mezena por cima duma popa elevada. As suas linhas são muito mais finas
que as dos navios que ordinariamente frequentam o porto. Como os navios de Fujian não têm o direito de
comerciar com os portos de Shandong, os proprietários destes barcos contornam a lei fazendo registar os seus
papéis na província da Zhejiang.
EA Ning Chuan ( nc 22 ) - Semelhantes na aparência aos juncos de Fujian. Uma cinquentena destes juncos
originários de Ningbo ( nc 23), frequenta o porto de Jiaozhou.
op Sha Chuan ( nc 20 ) - Vêm de diferentes portos do Jiangsu. Capacidade: 2.000 a 6.000 picos. Tripulação:
20 homens.
Levam algodão e voltam com papel.
Os juncos de tonelagem média têm uma capacidade de 1.500 picos e uma tripulação de 15 homens.
Oriundos do Norte da província do Jiangsu.
Os juncos pequenos, com uma capacidade de 600 picos e com uma tripulação de 7 homens, vêm igualmente
do Norte do Jiangsu e da fronteira do Shandong. Têm fundo chato e pequeno calado, por causa dos bancos de
areia donde lhes veio o nome.
4. Do extremo Sul do Shandong à parte Norte do distrito de Jiaozhou, encontra-se um tipo de barco, sem
castelos, com roda de proa em ponta e com uma popa larga, armando dois ou três mastros, conhecido pelo nome
de Ji Wu Zi ( nc 56 ). Os maiores têm uma capacidade de 300 picos e uma tripulação de 7 homens. Os mais
pequenos 200 picos e uma tripulação de 5 a 6 homens. Fazem o seu comércio ao longo das costas entre o Sul do
Shandong e o Norte do Jiangsu. A mercadoria é protegida com esteiras colocadas no convés.
A particularidade destes barcos de mar, oriundos provavelmente de Ningbo ou de Fujian, são os dois
olhos pintados a vante que não se notam nas embarcações do Norte.
>; Gua Luo ( nc 49).
6. Ding You ( ne 47 ) - Deve ser feita distinção entre estes dois tipos, segundo o mastro de vante está
colocado mesmo no porão, ou a vante dele. Estes barcos são construídos num distrito do Shandong, situado a
NE de Jiaozhou, bem como na península de Guangdong ocupada por Porto Artur. Têm um aspecto rústico com
bordo livre pouco elevado e com uma comprida escotilha que sobressai três a quatro pés acima do convés. Esta
183
disposição facilita o carregamento habitual das peças de madeira. O Gua Lou - cesto para cabaças ou para
melões - varia muito em tonelagem. Os maiores têm três mastros e uma tripulação de 26 homens, São os únicos
que se vêem em Jiaozhou. O seu nome especial provém do facto de serem mais estreitos a meio que nos
extremos, com o fim de pagarem menos direitos alfandegários que têm por base a largura do junco no centro.
SHANGHAI (nc 24)
Em 1832. 0 Missionário Holandês* Ch. Gutzlaff contou durante sete dias mais de 400 juncos entrando
diariamente no porto de Shanghai, o que representa uma média anual de 146.000 juncos. Em 1920, este número
reduzia-se a cerca de 50.000, ou seja, um terço do de 1832.
A província de Jiangsu fornece o maior número desses juncos, cerca de 30.000, vem a seguir o Zhejiang
com 18.000, 0 Shandong com 1.300, o Fujian com 500, o Guangdong (nc 58) com 150,0 Jiangxi (nc 59) com
50. Os juncos de mar representam cerca de 40 a 50% do total geral.
Eis a descrição de alguns juncos, entre os mais comuns em Shanghai, que figura no Catálogo da Exposição
de Viena (1873).
E Sha Fei Chuan ( nc 60 ) - Tonelagem variável; dois mastros; camarotes com beliches, bem colocados para
a comodidade dos viajantes. Estes barcos são alugados pelos chineses que convidam os amigos a fazer excursões
nos lagos e nos canais.
2 Pu Xie Tou (nc 61) - Junco de passageiros com camarotes. Diante da câmara de vante ergue-se uma
espécie de pórtico. Na parte de ré erguem-se varas para aguentar um tecto em esteira para proteger a cozinha.
Estes juncos têm um dispositivo de engenhos para baixar e levantar o mastro na passagem das pontes.
ah Wuxi Kuai (nc 62 )- A forma deste junco é um pouco diferente do anterior; possui camarotes cómodos
a vante e a ré. Há varas preparadas para receber esteiras amovíveis que se montam na estação quente. O mastro
é de abater para passagem das pontes.
4. Sha Chuan ( nc 20 ) - Juncos de mar para o transporte de mercadorias. Arma 3 mastros com um mastro
suplementar a estibordo, a vante, onde a vela faz de bujarrona. Por muito simples que o aparelho dum junco
chinês possa parecer, é incompreensível para aqueles que estão habituados aos mastros europeus. As mais
pequenas embarcações chinesas superam muitas vezes os barcos estrangeiros em velocidade. Manobram muito
mais à vontade e surpreende-nos vê-las virar de bordo no mesmo lugar, com as velas cheias num percurso igual
ao seu comprimento.
O relatório decenal de 1892-1901 dá sobre este junco as informações seguintes: estes juncos têm 5
mastros. Têm relativamente pouco calado. Têm fundo chato por via das paragens que percorrem na costa Norte
do Jiangsu, que são formadas por numerosos bancos de areia, donde lhes vem o nome de “ barco da areia “
5. Hua Zi Chuan ( nc 63 ) - Pequena sampana accionada por um leme de gingar à popa. Há numerosas
variedades. As maiores podem levar 40 a 50 passageiros no convés.
6. Xiao San Ban Ta ( nc 64) - E a sampana que se encontra vulgarmente, tanto em Shanghai como em
Ningbo, para transporte de | a 2 passageiros.
A embarcação é manobrada por uma só pessoa. A engenhosa maneira como o leme de gingar se apoia
sobre uma cabeça redonda em ferro merece ser notada.
SUZHOU ( nc 65 )
Suzhou é uma vasta e populosa cidade conhecida pela beleza da sua paisagem e dos seus canais. Está
situada a pouca distância do lago Taihu ( nc 66 ), e a 60 milhas a Oeste de Shanghai. A navegação é muito
*) Aliás, alemão.
184
intensa neste distrito cheio de lagos e de vias navegáveis, entre as quais o Grande Canal Imperial que liga o
porto de Zhenjiang (nc 67), no Yangzi Jiang ao de Hangzhou ( nc 68 ), na baía do mesmo nome na costa norte
de Zhenjiang. O relatório decenal de 1892-1901, dá a seguinte lista dos barcos que frequentam o porto de
Suzhou, com as informações que foram recolhidas pelo senhor Mac Glashan, Assistente das Alfândegas Imperiais.
IE Gong Si Chuan ( nc 69 ) - Barca para passageiros rebocada por uma chalupa a vapor. Faz serviço entre
Shanghai e Hangzhou. Tripulação: 5 a 7 homens.
E Man Jiang Hong (nc 70 ) - O maior modelo das “casas flutuantes”. Usado pelos funcionários nas suas
deslocações na província e no Yangzi Jiang. Tripulação: 6 a 10 homens.
Ea Huguang Chuan (ne 71) - Grande junco para mercadorias comerciando no Yangzi Jiang e a norte dele.
Tripulação: 10 à 12 homens.
4. Hong Tou Chuan ( nc 72 ) - Este junco é vulgarmente chamado “junco de Ningbo”; transporta carvão e
pedras de Shanghai para Hangzhou. Tripulação: 5 a 7 homens.
di Taihu Chuan (nc 73 ) - Junco de lago, fortemente construído: transporta passageiros e mercadorias
através do lago. Tripulação: 3 a 8 homens.
6. Wuxi Kuai (nc 62) - A mais vulgar das “casas flutuantes”. É normalmente rebocada por uma chalupa a
vapor em todas as águas interiores das províncias Sul do rio.
e Pu Xie Tou (nc 61 ) - Mesmo tipo que o do barco anterior, mas com um arranjo dos compartimentos
diferente e mais apropriado ao transporte de mercadorias. Tripulação: 4 a 6 homens.
8. Nanwan Zi (ne 74 ) - Parecido com o barco nº 6 - Trafica em toda a parte sul da região. Tripulação : 5 a
8 homens.
q Wushan Chuan - ( nc 75 ) - Outro tipo de junco de Ningbo, trafica entre Shanghai e o Zhenjiang. Tripulação:
3a 4 homens.
10. Mu Dan Tou ( nc 76 ) - Junco de mercadorias do mesmo tipo do nº 3; trafica no Yangzi Jiang e no Norte
do rio. Tripulação: 5 a 8 homens.
[1. Sha Fei (nc 77) - Mesmo que o junco acima. Tripulação: 6 a 8 homens.
12. Heng Kuai Zi ( nc 78) - Mesmo tipo que o nº 2, mas com um tecto mais baixo. Tripulação: 5 a 8 homens.
13. Lang Chuan (ne 79) - Barco de passagem do Zhenjiang. Raramente transporta mercadorias. Tripulação:
3 a 6 homens.
|4. Si Wang Chuan (nc 80) - Mesmo tipo que o nº 6. Navega no interior do distrito, ao Sul do Yangzi Jiang.
Tripulação: 4 a 6 homens.
15. Da Wang Chuan (nc 81 )- Este tipo é usado no transporte de peixe. Tripulação: 4 a 6 homens.
16. Shao Bo Hua Zi (nc 82) - Transporta mercadorias no norte da província. Toma às vezes passageiros. Faz
comércio em todas as águas do rio. Tripulação: 4 a 6 homens.
17. Shi Tou Chuan (nc 83) - Usado ordinariamente no transporte de pedra nas imediações de Suzhou.
Tripulação: 4 a 6 homens.
18. Guo Gou Zi (nc 84) - Junco do Jiangxi. São em pequeno número; transportam os produtos desta
província para Suzhou. Tripulação: 4 a 6 homens.
19. Shan Shang Chuan (ne 85 ) - Grande junco de transporte de mercadorias e de passageiros no distrito do
lago Taihu (nc 66) ilhas do lago ). Tripulação: 3 a 5 homens.
20. Chongshou Kuai ( nc 86 ) - Este junco é parecido com o nº 6, mas mais pequeno. Faz comércio no sul da
bacia do Yangzi Jiang. Tripulação: 3 a 5 homens.
21. Haining Chuan (nc 87) - Junco de Zhenjiang carregando em geral vinho e papéis divinatórios. Tripulação:
3 a 6 homens.
185
22. Hang Chuan (nc 88) - Faz serviço regular entre Suzhou e as cidades vizinhas, de passageiros e
mercadorias. Tripulação: 3 a 6 homens.
23. Shuang Kai Men (nc 89) - Sampana usada na cidade e nas imediações de Suzhou. Tripulação: 3 a 5
homens.
24. Wujiang Kuai ( nc 90 ) - Mesmo tipo do anterior. Tripulação: 2 a 4 homens.
25. Lu Kuai (nc 91) - Mesmo tipo, mesma tripulação do anterior.
26. Xiao Kuai Chuan ( nc 92) - Sampana em uso em Suzhou e imediações. Tripulação: 2 a 3 homens.
27. Guan Kuai (nc 93 ) - Tudo como o anterior.
28. Mi Bao Zi (nc 94) - Junco especialmente construído para transporte de arroz a granel. Tripulação; 3 a 5
homens.
29. Liao Pi Zi (nc 95) - Pequeno junco de comércio usado no tráfego com Suzhou. Tripulação: 2 a 3
homens.
30. Nantou Chuan (nc 96 ) - Sampana de passagem, munida apenas duma esteira, como cobertura. Tripulação:
2 a 3 homens.
31. Jiao Hua Chuan (ne 97) - Navio de correio, ou barco-pé, movido por meio de um remo seguro ao pé.
32. Gun Gou Zi ( nc 98 ) - Pequeno barco de pesca que leva o peixe para o mercado. Tripulação: 3 a 4
homens.
33. Jian Tou Chuan ( nc 99) - Barco usado ordinariamente pelos chineses do campo, nos arredores de
Suzhou. Tripulação : 2 a 3 homens.
ZHENJIANG ( nc 67)
O porto de Zhenjiang está situado na margem sul do Yangzi Jiang, a 150 milhas, mais ou menos, da sua
foz. A sua situação na proximidade da junção do Grande Canal com o rio dava-lhe uma grande importância do
ponto de vista comercial, quando o Canal estava acessível à navegação em qualquer época. Mas a negligência
na manutenção desta grande via de comunicação desviou gradualmente o comércio para outros portos, em
particular para Hankou ( nc 100). No entanto, a actividade do porto de Zhenjiang continua a ser muito importante
e o número de juncos que o frequentam é considerável, como o testemunham os relatórios das alfândegas
chinesas de 1882-1891, e o Catálogo da Exposição de Viena ( 1873 ), dos quais tirámos as descrições seguintes:
Capacidade ( picos ) Número de mastros Tripulação
Il. Daniao Hu (ne 101). 450/900 é) 4a8
Junco bem construído em
madeira dura. Transporta
arroz a granel.
2. Ningguo Fu Xian 300 Po 7
Chuan (nc 102).
Construídos especialmen-
te para navegar nos ca-
nais de águas pouco pro-
fundas, entre as colinas.
São feitos em madeira
macia leve.
186
3. Nanjing Liang
Peng Zi Chuan ( nc 103).
Comércio entre Nanjing e
Zhejiang, construídos
em madeira dura, são bons
navios, muito manobráveis.
Estes juncos vão às vezes
a Suzhou e a Changzhou
(nc 104) pelo Grande
Canal e levam passageiros.
4. Jiangpu Chuan
(nc 105).
5. Tai Hua Zi (nc 106).
Este junco é conhecido em
Zhenjiang por estes dois
nomes. Vem do distrito de
Jiangpu e desce pelo
Canal até Suzhou. O patrão
vive sempre a bordo
com a família.
6. Liuhe Chuan
(nc 108).
7. Jiang Chuan (nc 109).
Este junco é conhecido em
Zhenjiang sob estes dois
nomes. Faz comércio com
Changzhou pelo Grande
Canal, mas não leva passa-
geiros.
8. Yangzhou Fu Chuan
(ne 10).
9. Nanwan Shaobei
Hua Zi (ne 11).
Juncos de viajantes para
todos os destinos. São grandes
e confortáveis. 5 à 6 famílias
podem ter lugar em camarotes
separados. Muito usados
pelos funcionários.
50/200
100/200
100/200
100/500
2a4
187
3a4
10. Shaobo Hua 20/100 | 244
Zi Chuan (nc 112).
Especialmente destinados à
navegação nos canais e
pequenas angras com muito
bom tempo. Este junco,
devido à grande superfície
que as obras mortas
oferecem ao vento, não pode
navegar com segurança nos
grandes rios.
11. Yangzhou Bang 50/70 la2 2a4
Chuan (nc 113).
12. He Hua Ban Gong -
(nc 114).
13. Mio Kua Zi (nc 115). -
14. Wucang Zi (ne 117). -
Este junco é conhecido sob
estes quatro nomes em Zhenjiang
Tem muito pouca tonelagem;
faz comércio com
Yangzhou (nc 116) no Jiangsu.
Além das mercadorias
transporta ordinariamente
uma vintena de passageiros.
15. Zhenjiang Ke Chuan 100 2 6
(nc 118).
Só foram construídos dois
juncos deste tipo para o
transporte de lingotes de
prata, de sapecas e de pas-
sageiros entre Yangzhou
e Zhenjiang. São de boa
construção, sólidos, e em
madeira dura.
16. Bo Chuan (nc 119). 100/400 |
Junco de carga de Zhenjiang
usado na carga e descarga
dos navios a vapor. Transporta
188
por vezes as mercadorias até
Changzhou e Wujin (nc 120).
Há cinquenta juncos destes.
17. Kai Shao Da 100/300
Jiang Hua (nc 121).
Utilizados principalmente no
transporte das mercadorias
estrangeiras de Zhenjiang para
Nanjing. Voltam, regra geral,
vazios, mas às vezes podem
trazer mercadorias e passageiros.
Os mais pequenos destes juncos
servem de “ferry-boat” entre
Zhenjiang e Guazhou
(nc 122) no Jiangsu; trans-
portam 20 a 30 passageiros.
18. Xiao Hu Guang 15/50
Hua Zi (nc 123).
Sampana de Zhezhou; trans-
porta habitualmente passageiros
em pequenas distâncias ou merca-
dorias ligeiras para as aldeias
vizinhas. A tripulação é forma-
da, em geral, por trabalhadores
do campo, no Verão, e de bordo,
no Inverno.
19. Shaobo Hu Chuan 200
(nc 124).
Junco do distrito de Yangzhou
(nc 116). Exporta produtos de
Puzhou (nc 125) para Zhenjiang,
e volta vazio.
20. Xiao Fan Chuan 300/500
(nc 126).
Junco do distrito de Ponte Yaojia
(nc 127). Estes juncos foram
usados, num ano, para o trans-
porte do tributo de arroz para O
Norte.
21. Chongming Sha 300/2000
189
Sao
Sal
Chuan (nc 128).
Estes juncos são conhecidos
como juncos de Shanghai. Sobem
até Nanjing e Pokou (nc 129).
22. Ningbo Chuan 400/2000 3 Tal6
(nc 130).
Estes juncos levam para Ningbo
o arroz desta região. À ida
vão geralmente vazios, excepto
em Maio quando levam peixe no
gelo ou então toros de madeira
e madeira para caixões.
23. Shanhuai Chuan 100/500
(nc 131).
Estes juncos transportam vá-
rias mercadorias. Houve um ano
em que foram utilizados no trans-
porte do tributo de arroz para
o Norte.
to
Ra
24. Taizhou Zhuang Yan Guan Bo (nc 132).
Estes juncos são exclusivamente usados no transporte do sal proveniente da província de Jiangsu. Este
sal é trazido pelo Grande Canal para a margem norte do Yangzi Jiang, onde é armazenado em vastos depósitos,
perto dos quais está amarrada uma grande flotilha, com os navios em filas muito juntas. O número destes juncos
foi avaliado durante muitos anos em cerca de 1.800, tripulados por 30.000 homens.
25. Mo Pai (nc 133).
Estas enormes jangadas, semelhantes a aldeias flutuantes, descem o Yangzi Jiang para Zhenjiang vindos
de Hubei (nc 134), e do Jiangxi. As madeiras de que são compostas vão formando pequenas jangadas do Alto
Yangzi Jiang até ao depósito cerca de 10 milhas da foz do rio Han Jiang (nc 135), onde se juntam para formar
grandes jangadas de 300 a 500 pés de largo e de 8 a 10 pés de profundidade. Contêm 10.000 a 15.000 troncos de
árvores de todas as dimensões, e mais de 1.000 pranchas para sobrados. 120 a 200 homens são usados nestas
Jangadas como marinheiros, cozinheiros, serventes, etc. A descida leva 2 a 4 meses, mas às vezes, devido a
acidentes de percurso como os encalhes que obrigam a desmontar e a tornar a montar a jangada, a viagem chega
a levar um ano inteiro.
( As descrições acima são extraídas do relatório decenal das Alfândegas Imperiais de 1882-1891. O que
se segue é extraído do Catálogo da Exposição de Viena ( 1873 )).
26. Pu Xie Tou (nc 61 ).
Este nome vem duma cidade vizinha de Zhenjiang onde se constroem muitos destes juncos que são
utilizados sobretudo no Grande Canal para o transporte de viajantes. O preço elevado das passagens só as
tornam acessíveis aos funcionários e às famílias ricas. As instalações são convenientes para o gosto dos chineses:
camarotes particulares, salão de recepções, sala de jantar, porão para bagagens, etc. O espaço a ré dos camarotes
190
é reservado para a tripulação e para as cozinhas. Comprimento: 70 pés: largura: 18 pés: pontal: 3 pés. Têm
mastros e velas e utilizam remos de formas especiais. Andam cerca de 30 milhas por dia.
27. Yangzhou Hua Zi ( ne 136 ).
Junco para passageiros da classe média. Graças ao seu fraco calado podem entrar bem dentro das angras.
À tripulação compreende o proprietário e a família que ocupam a parte de ré do barco.
28. Hong Chuan ( nc 53 ).
Barco de salvamento. Deslocamento: cerca de 20 toneladas. Construído no estilo dos juncos locais mas
com linhas mais finas e de aspecto mais bonito. Dois mastros com velas, dois lemes laterais, âncoras e amarras
de ferro de tipo chinês. Cabrestante em madeira dura.
29. Xun Chuan (ne 137).
Barco de salvamento de tipo idêntico ao anterior, mas de mais pequena tonelagem ( cerca de 12 toneladas)
construído em madeira de cipreste. Mesmo aparelho que o precedente, mesmas instalações no convés.
NANJING ( ne 54)
A cidade de Nanjing, antiga capital do Império durante a dinastia Ming (1368 - 1644), está situada no
interior da margem direita do Yangzi Jiang, 45 milhas a montante de Zhenjiang (nc 67), e a 210 milhas de
Shanghai (nc 24), O seu porto, Xiaguan (nc 57), é acessível todo o ano aos grandes navios oceânicos; é servido
regularmente pelos barcos a vapor que circulam entre Shanghai e Hankou. O comércio é pouco activo e consiste
principalmente em tecidos, algodão em bruto, cânhamo, cereais, etc, para exportação, e em fazendas de lã.
farinha, cobre para sapecas, artigos estrangeiros, etc, para importação. As informações que se seguem foram
extraídas do relatório decenal das Alfândegas Imperiais de 1892/1901.
LISTA DOS JUNCOS QUE FAZEM COMÉRCIO ENTRE NANJING E OS
PORTOS DA COSTA
Designação local dos Lugar onde se Capacidade de Géneros
juncos exerce o comércio transporte em picos transportados
|. Ningbo Diao Zi (nc 138) Zhenjiang 4.500/1.500 diversos
2. Shao Diao Zi (nc 139) Zhenjtang 3.500/1.300 petróleo
3. Long Kou (nc 140) Guangdong 5.000/1.800 açucar e óleo
4, Fong Kou (nc 141) É 4.000/1.800 E Hi
5. Hua Pi (nc 142) Fujian 5.000/2.000 petróleo e óleo
6. Hua Diao Zi (nc 143) s 4.000/1.800 diversos
7. Sha Diao Zi (nc 144) Formosa 4.000/1.400 açucar
8. Hai Diao Zi (nc 145) Hong Kong 5.000/1.700 artigos de Cantão e
do estrangeiro
9. Jia Ban (nc 146) Niuzhuang 6.000/2.500 petróleo e diversos
10. Ya Shao Zi (nc 147) Hunan (nc 165) 5SO0/170 combustível
[. Yu Ying Zi (nc 148) js 450/200 papel
12. Guan Shao Hua Zi (nc 149) “à 340/160 cereais
13. Diao Gou Zi (nc 150) E 2.400/1.000 sal
191
Chuan (nc 128).
Estes juncos são conhecidos
como juncos de Shanghai. Sobem
até Nanjing e Pokou (nc 129).
22. Ningbo Chuan 400/2000 3 Tal6
(ne 130).
Estes juncos levam para Ningbo
o arroz desta região. À ida
vão geralmente vazios, excepto
em Maio quando levam peixe no
gelo ou então toros de madeira
e madeira para caixões.
23. Shanhuai Chuan 100/500
(ne 13);
Estes juncos transportam vá-
rias mercadorias. Houve um ano
em que foram utilizados no trans-
porte do tributo de arroz para
o Norte.
Ho
7all
24. Taizhou Zhuang Yan Guan Bo (ne 132).
Estes juncos são exclusivamente usados no transporte do sal proveniente da província de Jiangsu. Este
sal é trazido pelo Grande Canal para a margem norte do Yangzi Jiang, onde é armazenado em vastos depósitos,
perto dos quais está amarrada uma grande flotilha, com os navios em filas muito juntas. O número destes juncos
foi avaliado durante muitos anos em cerca de 1.800, tripulados por 30.000 homens.
25. Mo Pai (nc 133).
Estas enormes jangadas, semelhantes a aldeias flutuantes, descem o Yangzi Jiang para Zhenjiang vindos
de Hubei (nc 134), e do Jiangxi. As madeiras de que são compostas vão formando pequenas jangadas do Alto
Yangzi Jiang até ao depósito cerca de 10 milhas da foz do rio Han Jiang (ne 135), onde se juntam para formar
grandes jangadas de 300 a 500 pés de largo e de 8 a 10 pés de profundidade. Contêm 10.000 a 15.000 troncos de
árvores de todas as dimensões, e mais de 1.000 pranchas para sobrados. 120 a 200 homens são usados nestas
Jangadas como marinheiros, cozinheiros, serventes, etc. A descida leva 2 à 4 meses, mas às vezes, devido a
acidentes de percurso como os encalhes que obrigam a desmontar e a tornar a montar a jangada, à viagem chega
a levar um ano inteiro.
( As descrições acima são extraídas do relatório decenal das Alfândegas Imperiais de 1882-1891. O que
se segue é extraído do Catálogo da Exposição de Viena ( 1873 )).
26. Pu Xie Tou ( nc 61 ).
Este nome vem duma cidade vizinha de Zhenjiang onde se constroem muitos destes juncos que são
utilizados sobretudo no Grande Canal para o transporte de viajantes. O preço elevado das passagens só as
tornam acessíveis aos funcionários e às famílias ricas. As instalações são convenientes para o gosto dos chineses:
camarotes particulares, salão de recepções, sala de jantar, porão para bagagens, etc. O espaço a ré dos camarotes
190
é reservado para a tripulação e para as cozinhas. Comprimento: 70 pés: largura: 18 pés: pontal: 3 pés. Têm
mastros e velas e utilizam remos de formas especiais. Andam cerca de 30 milhas por dia.
27. Yangzhou Hua Zi ( nc 136 ).
Junco para passageiros da classe média. Graças ao seu fraco calado podem entrar bem dentro das angras.
A tripulação compreende o proprietário e a família que ocupam a parte de ré do barco.
28. Hong Chuan (ne 53 ).
Barco de salvamento. Deslocamento: cerca de 20 toneladas. Construído no estilo dos juncos locais mas
com linhas mais finas e de aspecto mais bonito. Dois mastros com velas, dois lemes laterais, âncoras e amarras
de ferro de tipo chinês. Cabrestante em madeira dura.
29. Xun Chuan (nc 137).
Barco de salvamento de tipo idêntico ao anterior, mas de mais pequena tonelagem ( cerca de 12 toneladas)
construído em madeira de cipreste. Mesmo aparelho que o precedente, mesmas instalações no convés.
NANJING (nc 54)
A cidade de Nanjing, antiga capital do Império durante a dinastia Ming (1368 - 1644), está situada no
interior da margem direita do Yangzi Jiang, 45 milhas a montante de Zhenjiang (nc 67), e a 210 milhas de
Shanghai (nc 24). O seu porto, Xiaguan (nc 57), é acessível todo o ano aos grandes navios oceânicos; é servido
regularmente pelos barcos a vapor que circulam entre Shanghai e Hankou. O comércio é pouco activo e consiste
principalmente em tecidos, algodão em bruto, cânhamo, cereais, etc, para exportação, e em fazendas de lã,
farinha, cobre para sapecas, artigos estrangeiros, etc, para importação. As informações que se seguem foram
extraídas do relatório decenal das Alfândegas Imperiais de 1892/1901 .
LISTA DOS JUNCOS QUE FAZEM COMÉRCIO ENTRE NANJING E OS
PORTOS DA COSTA
Designação local dos
Juncos
|. Ningbo Diao Zi (nc 138)
2. Shao Diao Zi (nc 139)
3. Long Kou (nc 140)
4. Fong Kou (nc 141)
S. Hua Pi (nc 142)
6. Hua Diao Zi (nc 143)
7. Sha Diao Zi (nc 144)
8. Hai Diao Zi (nc 145)
9. Jia Ban (nc 146)
10. Ya Shao Zi (nc 147)
(1. Yu Ying Zi (nc 148)
12. Guan Shao Hua Zi (nc 149)
13. Diao Gou Zi (nc 150)
Lugar onde se
exerce o comércio
Zhenjiang
Zhenjiang
Guangdong
Fujian
Formosa
Hong Kong
Niuzhuang
Hunan (nc 165)
e
ce
191
Capacidade de
transporte em picos
4.500/1.500
3.500/1.300
5.000/1.800
4.000/1.800
5.000/2.000
4.000/1.800
4.000/1.400
5.000/1.700
6.000/2.500
500/170
450/200
340/160
2.400/1.000
Géneros
transportados
diversos
petróleo
açucar e óleo
petróleo e óleo
diversos
açucar
artigos de Cantão e
do estrangeiro
petróleo e diversos
combustível
papel
cercais
sal
—
Tm?
. Xian Guo Lan Zi (ne 151)
. Dao Bo Zi (nc 152)
. Dou Zi (nc 153)
. Hong Xiu Xie (nc 154)
. Fang Chuan (nc 155)
19.
20.
. Ma Hu Zi (nc 158)
. Bai Sha Zhou (ne 159)
. Liangshan Zi (ne 160)
. Lou Chuan (nc 161)
. Liang Peng (ne 162)
. Nei He Wu Cang (nc 163)
. Pai Hua (nc 164)
Wu Cang Zi (nc 156)
San Cang Zi (nc 157)
. Pu Shao (nc 169)
. Shi Shao (ne 170)
30.
3.
. Nan Wan Zi (nc 74)
Sa
. Xiao Huang Kua (nc 174)
. Yao Chuan (ne 175)
. Xuan Chuan (nc 176)
. Ban Kuai (nc 177)
38.
. Sha Chuan (nc 20)
40.
41.
- Yu Dong Zi
3. Si Wang Chuan (nc 80)
. Mi Bao Zi (nc 94)
San Cang (nc 171)
Wu Cang Shao Bo (nc 172)
Da Huang Kua (nc 173)
Taihu Chuan (nc 78)
Jiang Dong Zi (nc 178)
Chongding (nc 180)
te
Hubei (nc 134)
Jiangxi (nc 59)
“
ee
Anhuai (nc 167)
Nanjing (nc 54)
te
Liu He (nc 168)
“é
Yangzhou (nc 116)
te
Tsing Kiang Pu
Suzhou (nc 65)
“e
Jiangyin (ne 1779)
Chongming (ne 181)1.000/300
600/240
600/1460
480/200
500/220
800/200
400/240
270/140
440/240
600/320
380/250
500/350
320/160
260/150
300/140
340/200
240/140
200/130
500/240
400/150
300/160
300/160
300/140
300/170
320/180
250/150
320/150
380/240
Tongzhou (ne 591) 500/320
eu
te
ENTRE NANJING E OS PORTOS DA COSTA
Wuhu é sensivelmente o mesmo do Hankou e de Jiujiang ( nc 183).
1.000/240
500/250
WUHU (nc 182)
A cidade de Wuhu está situada na margem direita do Yangzi Jiang, a montante de Nanjing, na província
de Anhui (nc 167). O porto é um centro comercial importante em ligação por canais e rios com os distritos do
chá, do arroz, do algodão e da seda, que são as suas principais exportações. O número de juncos que frequentam
chá, diversos
arroz, diversos
cereais
papel
porcelana
cereais
cereais
cereais
chá
cânhamo
cereais
ervilhas, feijão, sésamo
cereais, feijão, ervilhas
cereais, favas,
ervilhas, sésamo
cereais
cereais
sésamo, feijões
diversos, passageiros
diversos
cereais
cereais
passageiros
cereais
cereais
passageiros
cereais
cereais,ervilhas, feijões
diversos
fatos para indígenas
algodão em bruto
ArTOZ,
O relatório decenal das Alfândegas Imperiais de 1882-1901 dá as seguintes informações sobre estes
juncos:
Bai Sha Zhou (nc 159) - Cap. em picos: 100/600; comp. em pés chineses: 33 à 57. Tripulação: 3 a 6
192
homens. Proa e popa planas; ao centro uma grande e alta superstrutura. Oriundo de Anhui (nc 167).
2. Cao Chuan (ne 30) - Cap. 200 a 400 picos. Comp. 34 a 42 pés. Trip. 3 a 6 homens. Mesmas formas a
vante e a ré. Superstrutura baixa. Os juncos que transportavam o tributo Imperial tinham este nome.
EA Huang Shao Chuan (nc 184) - Cap. 100 a 300 picos. Comp. 28 a 38 pés. Trip. 2 a 4 homens. Mesmas
formas à proa e à popa. A superstrutura de ré tem um tecto plano. Pequena superstrutura no centro.
4. WuCang Chuan (nc 185 )- Cap. 100 a 200 picos. Comp. 25 a 30 pés. Trip. 2 a 3 homens. Mesmas formas
a vante e a ré. Grandes superstruturas ao centro.* Há outro tipo maior. Cap. 200 a 300 picos. Comp. 30 a 40 pés.
Tripulação: 3 a 5 homens.
de Ban Chuan (nc 186) - Cap. 50 a 200 picos. Comp. 15 a 25 pés. Trip. 2 a 3 homens. As mesmas formas à
vante e a ré. Superstrutura do centro com tecto plano.
6. Dou Chuan (ne 187) - Cap. 600 a 700 picos. Comp. 50 a 60 pés. Trip. 7 a 8 homens. Mesmas formas à
vante e a ré. Grande superstrutura ao centro.
e; Bai Jiang Chuan (nc 188) - Cap. 500 a 700 picos. Comp. 50 a 60 pés. Trip. 4a 7 homens. Proa e popa
planas.
8. Hua Chuan (ne 189) - Cap. 200 a 400 picos. Comp. 24 a 30 pés. Trip. 3 a 5 homens. Mesmas formas à
proa e popa. Rouf central com tecto plano.
9. Xuan Chuan (ne 176) - Cap. 300 a 700 picos. Comp. 30 a 60 pés. Trip. 4a 8 homens. Proa e popa largas.
Convés baixo. Rouf alto e espaçoso.
10. Ba Dou Chuan (ne 190) - Cap. 300 a 700 picos. Comp. 30 a 60 pés. Trip. 34 6 homens. Proa e popa
planas, rufo elevado. O centro do junco é largo e espaçoso. Este junco é oriundo da província de Anhui,
assim como todos os anteriores. O tipo seguinte com as mesmas formas é conhecido pelo mesmo nome e é
oriundo do Jiangxi (ne 59). Cap. 300 a 500 picos. Comp. 50 a 60 pés. Tripulação 4 a 8 homens.
EH. Lou Chuan (ne 161) - Cap. 400 a 500 picos. Comp. 50 a 80 pés. Trip. 7 a 9 homens. Proa e popa planas.
Rufo central mais alto que os outros. Este junco é oriundo do Jiangsu. A província de Hubei (nc 134) constrói
o mesmo tipo de junco, conhecido pelo mesmo nome, com as mesmas características.
12. Yan Chuan (ne 40) - Cap. 1.000 a 2.000 picos. Comp. 80 a 100 pés. Trip. 7 a 16 homens. Popa e proa
terminadas em ponta. Rouf central comprido e tão alto como o de ré. Oriundo do Jiangxi.
13. Yu Chuan (ne 191) - Cap. 300 à 900 picos. Comp. 40 a 70 pés. Trip. 4 a 5 homens. Popa e proa rectas.
Rouf central com tecto baixo, sendo o de ré mais elevado. Este junco e os seguintes são oriundos do Hubei.
|4. Ya Shao Chuan (ne 192) - Cap. 200 à 500 picos. Comp. 30 a 60 pés. Trip. 3 a 6 homens. Proa e popas
planas. Rouf central baixo, o de ré mais alto.
15. Shawo Chuan (nc 193) - Cap. 300 a 40 picos. Comp. 40 a 60 pés. Trip. 3 a 6 homens. Proa plana, popa
redonda, grande Rouf no centro.
16. Diao Gou Chuan (ne 195) - Cap. 700 a 1.000 picos. Comp. SO a 80 pés. Trip. 6 a 10 homens. Proa e popa
elevadas, Roufespaçosos.
I7. Chen Chuan (ne 196) - Cap. 400 a 800 picos. Comp. 50 a 80 pés. Trip. 5 a 8 homens. Proa e popa elevam-
- se nas suas extremidades.
JIUJIANG (nc 183)
Jiujiang é um dos portos mais importantes do Baixo Yangzi Jiang. A sua actividade comercial exerce-se
principalmente na bacia do lago Poyang, o qual é sulcado por numerosas artérias navegáveis, por onde são
transportados produtos vários, tais como: arroz, chá, tabaco, papel e as porcelanas bem conhecidas de Jingdezhen
*) As superstruturas aqui referidas são na nomenclatura francesa “Rouf”, na inglesa - “deckhouse”. O português - casa de convés,
não nos parece de adoptar: Por isso passaremos a adoptar Rouf: N.T.
193
(nc 198). A maior parte dos juncos que frequentam Jiujiang faz comércio com os portos do lago Poyang (nc
197). O seu número era estimado em mais de 11.000 em 1919 e em 8.700 em 1928, abstracção feita a partir do
cálculo dos mais pequenos, que circulam em grande número nas regiões superiores da bacia. O relatório decenal
das Alfândegas de 1882 a 1891 dá informações sobre os principais juncos que faziam comércio naquela época
com Jiujiang, que se indicam a seguir.
O relatório decenal de 1892-1901, dá também uma lista dos principais juncos que frequentam o porto de
Jiujiang. Esta lista dá, além disso, o nome das províncias de onde são oriundos, a sua capacidade aproximada de
transporte e o número de homens da tripulação. Três destes juncos figuram na lista anterior com características
um pouco diferentes.
Nome do junco Lugar de construção Dimensões em pés
Núm. de Capac. Tripulação
Comp. Boca Pontal Mastros em picos
|. Man Jiang Hong Hanyang Fu (ne 199) 90/65 19/12 7/5 443 3.500/1.200 [8/12
(ne 70) (Hubei)
2. Che Pai (nc 205) 8565 18/12 6.5/5 443 2:800/1.200 18/12
3. Ya Shao (nc 206) e 70/60 4/1 7/6 Ei 2.000/1.200 12/10
4. Diao Gou (nc 207) Changsha Fu BO IM Was 4/3 2.800/1.200 [8/10
(nc 200) (Hunan)
5. Xiao Bo Chuan | Hangzhou Fu 80/70 1712 7/5 3 2:800/1.200 180
(nc 208) (nc 201) (Hunan)
6. Chen Chuan Chenzhou Fu SOMo SM HS É) 2.500/1.200 12/18
(ncl96) (nc 202) (Hunan)
7. Fu Chuan Wuzhou Fu 100/70 15/11 7/5 4/3 3.200/1.200 16/12
(nc 209) (nc 203) (Jiangxi)
8. Shan Chuan Jiningzhou 80/69 18/12 8/6 4/3 3.000/1.400 6/12
(nc 210) (nc 204) (Shandong)
Nome do junco Província de origem Capac. em picos Tripulação
9. Diao Gou (nc 207) Hunan (nc 165) 3.000/1.000 15/18
pI/I4
JO. X1ao Bo Chuan (nc 208) 2.000/700 14/16
ne
|. Chen Chuan (nc 196) 1.000/700 [2/14
6/9
12 EnGan ineo! 1.000/700 14
6/9
13. Pa Chuan (nc 212) 800/400 7ATO)
4/7
14. Hong Chuan (nc 213) Hubei (nc 134) 3.000/1.000 17/20)
JYIS
15. Ya Shao (ne 206) 800/300 17/00
3/6
16. Bian Zi (nc 214) 700/300 7/9
215
194
17. San Guan Cang (c 215) E 500/250 4/7
3/6
18. Hua Zi Chuan (nc 63) é 150/50 3/6
I/4
19. Cao Zi (nc 216) Jiangsu (nc 25) 2.000/1.000 1416
10/12
20. San Ban (nc 217) a 2.000/1.000 [4/16
HO/12
21. Dou Chuan (nc 187) o 650/200 9
3/6
22. Bai Sha Zhou (nc 166) ca 400/200 5/8
3/5
23. Gan Chuan (nc 218) Jiangxi (nc 59) 1.000/500 12/14
6/9
24. Luoan (ne 219) E 700/250 E7ARO)
46
25. Fu Chuan (nc 209) da 3.000/1.000 15/18
H/14
26. Luotan (nc 220) " 900/350 [7/13
4/6
27. Ba Dou (nc 190) E 700/200 79
3/5
28. Dao Zi (nc 221) » 900/400 1/13
5/8
Na tese que apresentou, em 1932, à Faculdade de Letras de Paris para obter o diploma de Doutor por essa
Universidade, o senhor Wang Chingchi descreveu com muito pormenor, que encontrou nas melhores fontes, o
estado actual dos navios de tráfego fluvial, isto é, dos juncos, do Yangzi Jiang em toda a extensão da bacia
navegável. No que diz respeito ao porto de Jiujiang, o senhor Wang indica três categorias de juncos: 1º. Os da
província de Jiangxi que vêm do lago Poyang (ne 197) e dos seus afluentes; 2º. Os que vêm dos portos do
Yangzi Jiang a jusante de Jiujiang; 3º. Os que vêm de montante.
1º. Juncos de vai-vem entre Jiujiang, Nanchang (ne 222) e os portos do lago Poyang. O âmbito da navegação
dos juncos na rede do lago Poyang é bastante vasto. Ganzhou, Nanchang. Raozhou (nc 223), Wuchengzhen (nc
224), Ruihong (nc 225), Hukou (nc 226) e sobretudo Jiujiang, são os grandes centros desse comércio. As suas
dimensões variam consideravelmente e as suas variedades dependem sobretudo da profundidade das águas e da
natureza da corrente.
Nome do junco Exportação Importação
29. Gan Chuan (nc 218) Chá, papel Algodões estrangeiros 30 a 60 tons.
30. Fu Chuan (ns 209) Porcelanas Fios de algodão RP o
31. Daozi (nc 221) Panos de rami Algodão em bruto Ora
32. Xiaoan (nc 227) Feijão, arroz Quinquilharias oO
195
33. Luotan (ne 220) Sementes de Artigos diversos 30460 “
melancia
34. Lin Jiang (nc 229) Indigo Ep ltd
35. Ba Dou Chuan (nc 190) Pranchas de madeira RS
2º, Juncos vindos dos portos do Baixo Yangzi Jiang a Jiujiang, aos lagos e aos portos fluviais interiores, isto é,
juncos a jusante.
36. Diao Gou (nc 207) Porcelana, papel Sal 75 a 325 tons
37. Xiao Bo (ne 230) Madeira de construção if 45 a 105 º
38. Shan Chuan (nc 210) Bambu 704 105 *
39. Cao Zi (nc 216) Cal E 254 70 *
40. Hong Chuan (nc 213) Óleo de Tong É 75 a 400 “
41. Chen Chuan (nc 196) Petardos E Dia BO *
42. Tong Zi Ke (nc 231) Verniz Bla Gm +
43. Dao Ba (nc 232) Dióspiros, alúmen E 25 a 40 *
44. Xia Jiang Zi (nc 233) Fazendas de Nanjin lá E
3º. Juncos vindos dos portos a montante de Jiujiang aos lagos e aos portos fluviais interiores, isto é Juncos a
montante.
45. Bian Zi (nc 214) Porcelana Tabaco, rami 7a35 tons.
46. Hua Zi Chuan (nc 63) Papel Bambu, plantas a
A repartição geográfica dos juncos era assim a montante: 11.984 em 1919; 6.220 em 1928. A jusante 7.759 em
1919; 6.077 em 1928. Entre Jiujiang, Nanchang e os portos do Poyang: 11.126 em 1919; 8.703 em 1928.
HANKOU (ne 100)
Hankou fica na confluência do rio Han Jiang e do Yangzi Jiang. E um centro importante do comércio da
China, acessível aos maiores navios oceânicos, ligado por um lado com a vasta bacia do lago Dongting (ne
234), e por outro lado com o Shanxi (nc 235) e as margens do Huang He por via de Han Jiang. No fim do século
passado, o número de juncos que visitava anualmente Hankou e o rio Han Jiang era avaliado em 23.500, com
uma tonelagem global de 1.000.000 de toneladas, tripulados por 165.000 homens. Os maiores atinjem 15,5 pés
de largura, com uma capacidade de 1.100 picos e com uma tripulação de 12 homens. Os mais pequenos mediam
7 pés de largura, com uma capacidade de 150 picos e uma tripulação de 3 homens. Ainda que sejam conhecidos
por nomes diferentes, os 14 tipos seguintes diferem pouco uns dos outros. À sua descrição é nos dada pelo
Relatório Decenal de 1882-1891.
1. | Ya Shao (nc 206). Este junco vem de Jingshan (nc 238), Huangpu, etc. Transporta: arroz, favas, sementes
de sésamo. Também faz comércio no Yangzi Jiang. Capacidade: 50 a 150 picos.
po Bian Zi (nc 214). Vem de Xiang He, Huangpu, Ma liang, etc,. Transporta : tecidos de Nanjing, tabaco,
cânhamo. Circula entre Xiangyang (nc 239), Huangbei (ne 237) e Hankou, donde lhe vem o nome de Xiangyang
Bian Zi ou Huangbei Bian Zi.
3. — Tianmen (nc 236). Este junco e o seguinte fazem comércio entre Dean Fu (nc 240) e Hankou.
Transportam: sebo, pedra de cânhamo e óleo de sésamo.
[96
4. Zhao Shi (nc 241).
o Luotang (nc 242). Este junco e o seguinte transportam de Jiangxi: Porcelana, sabão e frutas.
6. FuDiaoZi (nc 243).
E Pai Zi (nc 244). Faz comércio entre o Hunan e Hankou com plantas medicinais.
8. Huo Liu Zi (nc 245). Vem de Shanxi (nc 235) com papel, pranchas de pinho, casca de carvalho, cordas
de palha. Retorna com: tecidos de algodão, etc. Capacidade: 100 a 200 picos.
9; Bai Mu (nc 246). Traz de Sichuan (nc 247), algodão, papéis, sementes de colza, plantas medicinais.
Retorna com algodão em bruto, tecidos de algodão, peixe seco, etc.
10. Maquewei (nc 248). O mesmo comércio que o anterior.
11. Diao Gou (nc 207). Vem do lago Dongting, de Changsha (nc 249) e de Xiangtan (ne 250), com arroz,
papéis, panos de rami, fatos de palha, óleos vegetais. Os que transportam sal têm uma capacidade de 120 a
3.000 picos. Comprimento: 90 pés; Largura: 18 pés; Calado: 12 pés.
12. Xiao Bo (nc 230). Vem de Hengzhou (nc 251), no rio Xiangshut (nc 252) que se lança no lago Dongting.
Transporta arroz, carvão de madeira, sementes de lótus.
13. BaGan (nc 253, ver também nc 211). Vem de Zhenzhou e de Heng Shan (nc 254), com fibras de bambu,
potassa e auripigmento.
I4. Mayang (nc 255). Vem de Changde (nc 256), no rio Yuan Jiang (nc 257) que vai ter ao lago Dongting.
Transporta : óleo, papéis, carvão, arroz, tecidos de rami.
As descrições seguintes são extraídas do Catálogo da Exposição de Liége (1905) e de vários relatórios
das alfândegas imperiais.
5: Man Jiang Hong (nc 70). Junco para viajantes; vem de Siang Tou. O rufo é dividido em vários
compartimentos com janelas. É usado sobretudo pelos mandarins. Durante a estação do chá transporta esta
mercadoria a Hankou. Capacidade: 100 picos. Comprimento: 100 pés. Boca: 14 pés.
16. Mao Ban de Baogingfu (nc 258). Utilizado no transporte de carvão de Baogingfu (nc 261) ( Hunan ), a
Hankou. Construído em pranchas de pinheiro montadas grosseiramente, mas suficientemente sólidas para permitir
uma viagem. Chegado ao destino, é desmontado e vendido, enquanto que o aparelho e os instrumentos de
navegação são mandados para Baogingtu.
17. Dao Xia Zi (nc 259). Oriundo de Changsha (nc 249). Comprimento: 60 pés. Boca: 1 | pés. Pontal: 6 pés.
I8. Jin Zi (nc 260). Oriundo de Baogingfu (nc 261), transporta carvão, arroz, aço. Comprimento: 65 pés.
Boca: 13 pés; Pontal: 6 pés.
9. — Qiu Zi (nc 262). Oriundo de Hunan. Traz cereais e carvão para Hankou.
O. Sha Gua Zi (nc 263, ver também nc 193). Junco do rio Xiangshui (nc 252) afluente do lago Dongting.
Dao Ba Zi (nc 264). Como o anterior.
2. Ping Ban Chuan (nc 265). Como os dois anteriores.
3. Cao Zi(nc 216). Oriundo do lago Poyang, na província de Jiangxi. Traz: porcelanas, arroz, papéis, ervas
medicinais, frutos. De retorno leva: peles de vaca, cereais, etc.
O O tm
YUEZHOU (nc 266)
Yuezhou fica situado à entrada do canal que faz comunicar o Yangzi Jiang com o lago Dongting. Tem um
movimento de juncos considerável; circulam aos milhares em todos os sentidos nos canais e rios que desaguam
nesse lago. Num só ano, em 1894, passaram por Yuezhou 25.000 juncos em direcção a Hunan, com uma
capacidade que ia de 250 a 1.500 picos. Sob o ponto de vista comercial o porto de Yuezhou é de importância
secundária; a sua actividade limita-se quase exclusivamente ao registo do movimento dos navios que circulam
entre 0 lago e o rio. À tonelagem dos juncos que passam por Yuezhou a caminho de Hunan era, segundo o
Relatório Decenal de 1892-1901, de 1.050.000 toneladas por ano, à saída do lago, e de 919.000 à entrada. A
197
diferença provém das saídas dos juncos de carvão que são desmontados e vendidos à chegada a Hankou. O
número de barcos ocupados no tráfego da província era de cerca de 13.000. Todos estes juncos são construídos
na província com madeiras da região. Uma grande parte dos juncos que navegam no Yangzi Jiang. em especial
os juncos de sal, são feitos em Hunan. A cidade de Xiangtan (nc 250) é o principal centro de construção. Os
números citados acima não têm em consideração o movimento considerável de Chengde (nc 256), pelas rotas
navegáveis a Oeste do lago. As informações que seguem, acerca dos juncos que frequentam o porto de Yuezhou,
são extraídas do Relatório Decenal de 1892-1901.
Designação local dos juncos Capacidade Número de Tripulação
em picos mastros
1. Yongzhou Xiao Bo (nc 267) 300/500 E 517
2. Chenzhou Xiao Bo (nc 268) 300/800 2/3 RJARO)
3. Ping Tou Xiao Bo (nc 269) 100/1.000 É 412
4. Xiao Bo (nc 230) 300/500 » 5/7
5. Hu Die Chuan (nc 270) 300/400 2 5/6
6. Manlin Jiang (nc 271) 200/800 2/3 410
7. Dao Ba (nc 232) 300/600 2 5/8
8. Yongfeng Chuan (nc 273) 200/300 2 3/4
9. Gushui Chuan (ne 274) 200/300 u 3/4
10. Ping Ban Chuan (nc 265) 500/800 2/3 TÃO
UH. Wu Zi (nc 275) 500/800 2/3 o
12. Shu Wu Zi (nc 276) 500/800 2/3 10
13. Man Jiang Hong (ne 70) 1.800/3.000 3/4 20/28
14. Ba Gan (nc 277).Ver também (ne 211, 253) 600/1.100 2/3 8/12
15. Wu Jiang 71 (nc 278) 200/500 2 417
16. Dao Ba (nc 232).Ver também (nc 264, 272) E do ce
17. Wu Zi (nc 275) so
18. Chang Shu Ba Gan (nc 279) 600/1.100 2/3 8/12
19. Heng Shan Ba Gan (nc 280) 400/800 2/3 6/10
20. Bingzhou Ba Gan (nc 281) 600/800 5) 8/10
21. Mayang Ba Gan (nc 282) 500/800 2) PATO)
22. Liuyang Qiu Zi Chuan (nc 283) 200/800 5) VIO
23. Changsha Diao Gou Zi (nc 284) 1.700/3.000 3/4 18/28
24. Hengzhou Yanchuan Xiao Bo (nc 285) 1.000/1.900 3 16/20
25. Dao Ba Zi (nc 272). Ver também (nc 232) 200/500 2 4/7
26. Wu Zi (nc 275) 300/600 ) S/8
27. Qiu Zi (nc 262) 300/400 2 5/6
28. Chan Zi (nc 286) 200/300 2 4/5
29, Pin Jiang Diao Gou Zi (nc 287) 1.500/1.800 3 14/20
30. Hua Zi Chuan (nc 63) 100/300 1/2 2/5
31. Ya Shao (nc 206) 300/500 2 8/7
32. Xin Qiang Chan Zi (nc 288) 100/300 o 3/5
33. Tong Bian Zi (nc 289) 100/300 2 3/5
34. Tong Zi Ke (nc 231) 100/300 > 3/5
198
35. Mao Ban De Baogingfu (nc 258) 800/1.000 2 6/11
36. Qiu Zi (nc 262) 400/1.000 2/3 6/12
37. Shu Wu Zi (nc 276) 300/800 2 TATO)
38. Xinhua Bo Chuan (nc 290) 200/300 2 4/5
39. Anhua Shu Zi Chuan (nc 291) E ) 4/6
40. Qi Ban Zi (nc 292) É 2 4/5
41. Tong Gan Zi (nc 293) ii 2 4/5
42. Dou Gan Zi (nc 294) sá 2) “
43. Chan Chuan (nc 295) 2) e
44. Chan Zi (nc 286) 2)
45. Tong Bian Zi (nc 289) 2)
46. Kai Shao (nc 296). 2) “
Ver também (nc 121,149) 7 2 A
47. Mayang Chuan (ne 297) 300/600 2 5/8
48. Chen Tiao Chuan (nc 298) 500/1.500 2/3 7/16
49. Chenzhou Chen Chuan (nc 299) 1.500/2.000 3 16/22
50. Ban Chuan (ne 300) Ver também (nc 186) 300/800 2/3 S/10
51. Jingshi (nc 301) 200/300 » 4/7
52. Bo Chuan (nc 119) lá 2 d
53.Hua Zi Chuan (nc 63) 200 p 3
54. Ya Shao (nc 206) 500/800 2: 10
SHASHI (nc 302)
Os juncos que fazem comércio com Shashi classificam-se em três categorias:
1º. Chuan Chuan (ne 303). Este tipo de junco compreende dez variedades registadas em Shashi, todas
construídas na província de Sichuan. A maior parte têm a bordo o mestre do junco e a família. Estes juncos
recebem um tratamento com óleo de Tong You (nc 304) que conserva bem a madeira. Quando sobem o rio,
levam principalmente algodão em bruto, fatos chineses, peixe salgado, mercadorias estrangeiras. Na descida,
trazem sal, ópio, açucar e plantas medicinais. Regra geral, há pouco lucro na viagem de subida, dadas as
despesas de pilotagem e os salários dos sirgadores que são altos. As despesas da descida são avaliadas em um
quinto a um quarto das da subida.
2º. Nan Chuan (ne 305), ou juncos de Hunan. Há dezassete variedades. Viajam entre Shashi e os portos do
Hunan, a maior parte das vezes pela via dos canais que ligam com o lago Dongting por meio de pequenos
cursos de água perfeitamente adaptados às relações comerciais. O comércio do arroz é muito cómodo para os
patrões dos juncos, que podem vender a sua mercadoria a retalho à chegada ao porto ou a granel aos comerciantes.
Estes juncos voltam para jusante com produtos do Sichuan, bolos de sementes de sésamo e várias mercadorias
estrangeiras.
3º. | Hua Chuan (nc 189). São oriundos de Hubei, fazem comércio no Yangzi Jiang, entre Yichang (nc 306) e
Hankou, e também nos canais que comunicam com o rio Han Jiang, donde chegam ao Norte da província. O
comércio consiste na troca de produtos locais e principalmente no transporte de viajantes. Há doze variedades
destes juncos. Não se constroem juncos em Shashi, por falta de madeira.
1º. Descrição dos Chuan Chuan
|. Mayang Zi (ne 307). Um dos principais tipos de junco de Sichuan vistos em Shashi, utilizado no comércio
199
com esta província, para exportação dos seguintes produtos: algodão em bruto, tecidos de Nanjing, peixe salgado;
e para importação: sal, etc. Tripulação: 8 a 12 homens. Capacidade: 600 a 1.000 picos.
2
doe
Maquewei (nc 248). Distingue-se do junco anterior pela forma da popa que lembra à cauda aberta dum
pardal. E usado no mesmo comércio. Capacidade: 500 a 1.200 picos. Tripulação: 6 a 8 homens.
as Mao Yu Chiu (nc 308). Este junco não tem a forma oval em dorso de baleia dos dois antecedentes, cujos
bordos a apresentam.
4. San Cang Zi (ne 157). Junco de pouco calado posto à disposição dos funcionários. Circula nos cursos de
água vizinhos e transporta passageiros e mercadorias. Capacidade: 200 à 400 picos. Tripulação: 6 homens.
5. Kua Zi Chuan (nc 309). Este junco é às vezes chamado Ssu Ts'ang Kua Tzu, pelo facto do seu porão ser
dividido em quatro compartimentos estanques. Parece mais uma “casa flutuante” que um dos barcos descritos
acima. Capacidade: 300 a 500 picos. Tripulação: 6 homens.
6. Rao Bai Zi (nc 310). Junco de grande largura, solidamente construído. A popa parece-se por vezes, com
a dum navio estrangeiro com quilha. Importa sal e carvão, este último oriundo do Alto Yangzi Jiang: Wu Shan
(nc 314), Guaizhou (nc 313), Changyang (ne 311), Yidu (ne 312), Capacidade: 250 a 400 picos. Tripulação: 6
homens.
E Ba Wo Zi (nc 315). Junco com um só mastro. Costado vertical a toda a altura do casco. O convés está
revestido, do centro para ré, com esteiras oleadas e estanques. Importam: sal, plantas medicinais, etc. Exportam:
algodão em bruto, peixe salgado, tecidos de Nanjing. Capacidade: 200 a 480 picos. Tripulação: 4 a 6 homens.
8. Chen Bo Zi (nc 316). Junco longo e estreito, com um grande leme, costado arredondado em oval, convés
coberto com esteiras oleadas. Pratica o mesmo comércio que o anterior. Capacidade: 250 picos. Tripulação: 4 a
5 homens.
9. Shao Mayang (nc 317). Junco de média tonelagem. Mesmo comércio que os dois anteriores. Capacidade:
200 a 300 picos. Tripulação: 10 a 18 homens.
10. Wu Ban (nc 318). Junco ligeiro, construção rústica, vem raramente até Shashi. Transporta sirgadores
destinados aos grandes juncos. Com vento favorável a viagem de subida até Chongging (nc 319) pode ser feita
em 20 dias. Capacidade: 20 a 100 picos. Tripulação: 10 a 18 homens.
2º. Descrição dos Nan Chuan ou juncos de Hunan
HH. Jingshi Chiu Chuan (ne 320). Junco comprido, estreito, com um grande leme. Importa arroz, bolos,
varinhas rituais, etc. Em geral a mercadoria pertence ao proprietário do barco que a vende em Shashi. Capacidade:
30 a 150 picos. Tripulação: 3 a 4 homens.
[2. Canggang Chiu Chuan (nc 321). Parecido com o barco anterior, mas distinguindo-se pelas diferentes
formas da popa. Transporta arroz para Shashi e volta a Hunan geralmente vazio. Capacidade: 50 à 140 picos.
Tripulação: 3 a 5 homens.
13. Liuyang Chiu Chuan (nc 322, ver também nc 283). Faz comércio em diversos locais de Hunan. Exporta:
bolos de sementes de sésamo, açucar, etc. Importa: arroz e fibras de bambu. Capacidade: 60 a 300 picos.
Tripulação: 3 a 5 homens.
14. Wu Jiang Zi (nc 278). Junco de formas bonitas e bordos angulosos. Bom veleiro, quando em boas mãos.
Exporta: favas, bolos de sementes de sésamo. Importa: arroz e papel. Capacidade: 40 a 200 picos. Tripulação:
2 a 4 homens.
15. Dao Ba Zi (nc 264). Bem construído, com passadiço à volta das superstruturas de forma oval. Usado no
comércio entre Changsha e Taoyuan (nc 423). Importa arroz. Capacidade: 80 a 100 picos. Tripulação: 2 à 4
homens.
16. Ya Shao Hua Zi (nc 323). Popa aberta. Oriundo de Lin Xiang Xian. Chega geralmente com sapecas para
200
a compra do sal de Sichuan. Capacidade: 80 a 200 picos. Tripulação: 3 a 4 homens.
17. Jingshi Bo Chuan (nc 324). Junco de tonelagem média. Importa arroz. Capacidade: 150 a 300 picos.
Tripulação: 4 à 6 homens.
18. Hengzhou Xiao Bo (nc 325). Junco forte de construção rústica. Transporta antracite de Yidu e carvão de
Hengzhou. Exporta: objectos de madeira lacada vermelha. Importa: arroz, carvão, frutas. Capacidade: 250
picos. Tripulação: 5 homens.
19. Touyuan Bo Zi (nc 326). Este junco tem uma popa comprida e inclinada. E coberta com esteiras oleadas.
A família do proprietário vive à bordo nos grandes juncos. Exporta: arroz, bolos, varinhas rituais. Capacidade:
40 à 220 picos. Tripulação: 3 a 4 homens.
20. Chenzhou Xiao Bo (nc 268). Este junco faz a viagem de Zhenzhou (ne 202) a Shashi (ne 302) em cerca
de 20 dias. carregado de arroz. Exporta mercadorias diversas, importa arroz e carvão. Capacidade: 400 picos.
Tripulação: 4 a 6 homens.
21. Ba Gan (nc 253, ver também ne 277). Junco para viajantes (house-boat), utilizado principalmente pelos
funcionários e famílias. Camarotes bem decorados com mesas, cadeiras,etc. Capacidade: 300 picos. Tripulação:
4 homens.
22. Chang Chuan (nc 295). Faz comércio com Yuezhou (nc 266). Transporta mercadorias diversas. Capacidade:
40 a 60 picos. Tripulação: 2 homens.
23. Chen Tiao Chuan (nc 298). Grande junco construído em Zhenzhou (nc 202). É usado no comércio com
Sichuan. Exporta: tecidos de Nanjing, algodão em bruto. Importa: sal. plantas medicinais, etc. Capacidade: 600
a 800 picos. Tripulação: 8 homens.
24. Longyang Piao Zi (nc 329). Junco facilmente reconhecível pela forma da popa. inclinada para a água de
8 a TO pés. Exporta: açucar, etc. Importa: arroz, etc. Capacidade: 50 picos. Tripulação: 2 homens.
25. Sha Gua Zi (nc 263). Um mastro, com a popa meio aberta e rufo em quadrado. Passadiço a toda à volta
do convés com a largura de um pé. Exporta: plantas medicinais. Importa: ferro e arroz. Vem mais frequentemente
de Heng Shan (nc 328), depois duma viagem de um mês. Capacidade: SO a 400 picos. Tripulação: 2 a 6 homens.
26. Xiao Ma Yang (nc 330). Pequeno barco com fraco calado, fácil de manobrar. Oriundo de Chang (nc 256).
Pode ser alugado por 3.000 a 4.000 sapecas para fazer a viagem até Changde - distância - 200 milhas. Capacidade:
300 à 400 picos. Tripulação: 3 a 4 homens.
27. Chan Zi (nc 286) popa aberta. Construído em Pa Ling Hsien. Transporta sal entre Youzhou e Shashi.
Capacidade: 300 a 400 picos. Tripulação: 3 a 4 homens.
3º. Descrição dos Ha Chuan oriundos de Hubei
28. Jinbang Hua Zi (ne 331). Este tipo está muito disseminado no Yangzi Jiang: popa aberta, rufo quadrado.
Transporta mercadorias diversas. Capacidade: 30 a 200 picos. Tripulação: 2 a 4 homens.
29. Guo Shan Ya Shao (nc 332). Oriundos de Guo Shan e de Ching Ho K'ou. Normalmente são alugados
para esta viagem. Importa: algodão em bruto, cobre para sapecas. Exporta: sal. Capacidade: 150 a 200 picos.
Tripulação: 3 a 4 homens.
30. Huangpo Bian Zi (ne 333). Vê-se este junco sobretudo no canal de Bianju (nc 334). Faz comércio com
Hankou e o rio Han Jiang. Exporta: sebo vegetal, artigos de madeira, etc. Importa: algodão, cânhamo e objectos
estrangeiros. Capacidade: 50 a 120 picos. Tripulação: 2 a 4 homens.
31. Tuo Bian Zi (nc 335). O mais vulgarizado dos barcos navegando no Bianju. Importa: ópio, açucar, e
materiais diversos. Capacidade: 50 a 150 picos. Tripulação: 2 a 3 homens.
32. YaShao (nc 206). Distingue-se dos outros pela popa. Exporta e importa materiais diversos e passageiros.
Capacidade: 50 a 150 picos. Tripulação: 2 a 3 homens.
33. Man Gan (ne 336). Junco de passageiros. O preço da viagem para Hankou é de 800 sapecas, sem
201
alimentação. A duração da viagem: 5 a 6 dias. Capacidade: 120 a 150 picos. Tripulação: 8 homens.
34. Xiangyang Bian Zi (nc 337). Pequeno calado. É utilizado principalmente no comércio do canal. Exporta
e importa materiais diversos e passageiros. Capacidade: 180 picos. Tripulação: 4 homens.
35. — Yidu Xia Hua Zi (nc 338). Junco robusto, bem adaptado à sua função. Traz antracite de Itou para além
de Yichang. Importa carvão. Capacidade: 250 picos. Tripulação: 3 a 4 homens.
36. Herong Rao Bai (nc 339). Junco longo e estreito, construído em Herong. Importa: carvão e carvão de
madeira, Capacidade: 60 pés. Tripulação: 3 homens.
37. Yidu Rao Bai (nc 340). Dois mastros. O convés é coberto com esteiras. Mesmo comércio que o anterior.
Capacidade: 120 picos. Tripulação: 3 a 4 homens.
38. Yidu Ya Shao (nc 341). Junco para passageiros (ferry-boat), colocado sob o controlo do presidente de 13
corporações. O preço da passagem para atravessar o rio é de 3 sapecas. Capacidade: 180 picos. Tripulação: 3 a
4 homens.
39; Bo Chuan (nc 119). Junco de carga construído em Changde (nc 256). Dividido em compartimentos
estanques cobertos de painéis móveis ao nível do alcatrate. Capacidade: 300 a 400 picos. Tripulação: 3 homens.
YICHANG (nc 306)
Yichang é o ponto importante de separação entre as bacias do Médio e do Alto Yangzi Jiang. Este porto
é frequentado por duas classes de juncos bem distintos: os Nan Chuan (nc 305), juncos do Yangzi Jiang do Sul
ou Baixo Yangzi Jiang, e os juncos Chuan He Chuan (nc 303) ou juncos do Yangzi Jiang superior. As dificuldades
de navegacão nesta última bacia obrigam ao uso de barcos especialmente construídos e tripulados por homens
bem treinados para enfrentar os perigos da viagem. O comércio entre Chongqing (nc 319) e Yichang é feito em
exclusivo por estes últimos juncos. Um grande junco de 100 toneladas faz uma viagem por ano, ida e volta,
entre estes dois portos: um junco médio de 50 toneladas, faz duas viagens no mesmo lapso de tempo. A duração
da viagem de subida é de um mês em média, a de descida, de oito a dez dias.
Estas viagens realizam-se durante o período de águas baixas, durante os três primeiros meses do ano.
Depois, o movimento abranda progressivamente para cessar quase completamente durante o período de águas
altas que vai do mês de Junho ao de Novembro.
Além das sampanas, há 24 variedades de juncos frequentando o porto de Yichang. A lista seguinte é dada
pelo Relatório das Alfândegas Imperiais de 1882-1891. Compreende 15 variedades de juncos para o Alto Yangzi
Jiang e 9 para o Médio Yangzi Jiang.
1º. Juncos do Alto Yangzi Jiang - Chuan He Chuan
K Mayang Zi (nc 307). Capacidade: 300 a 600 picos. São os juncos mais procurados entre os que vão até
Chongging. Os maiores têm 45 pés de comprimento, || pés de boca.
2. Maquewei (nc 248). Um dos maiores juncos registados em Chongging. Capacidade: 1.300 picos. É muitas
vezes conhecido pelo nome local Baogingfu (nc 261).
3 Chen Bo Zi (nc 342). Oriundo de Chenzhou Fu (nc 202), na província de Hunan. É uma variedade dos
grandes juncos, cuja capacidade média é de 400 picos. Vêm de Hunan e não fazem, em geral, comércio para
montante de Yichang.
4. — Qiu Chuan (nc 344). Fazem-se notar pelas formas afiladas da proa e da popa. Fazem um comércio activo
com Chongging, onde vão em grande número. Capacidade: 150 a 400 picos.
5. Chen Tião Chuan (nc 298). Oriundo de Hunan. Capacidade: 1.200 picos. Tripulação: 7 homens e 30
sirgadores.
6. Chen Bian Zi (nc 345). Oriundo de Hunan. Capacidade: 400 picos. Tripulação: 5 homens e 20 sirgadores.
202
rA Rao Bai Zi (nc 310). Junco solidamente construído. Capacidade: 250 a 400 picos. Tripulação: 6 homens
e 25 sirgadores.
8. Kuyang Zi (nc 346). O mesmo que o anterior.
9. E Er Zi (nc 347). Oriundo de Guaizhou (nc 313), a montante de Yichang. Capacidade: 300 picos. Tripulação:
5 homens e 21 sirgadores.
10. Ba Wo Zi (nc 315). Oriundo de Lo Lou. Capacidade: 200 picos. Tripulação: 5 homens e 15 sirgadores.
1H. Hua Zi (nc 348). Pequeno junco de fraca tonelagem. Capacidade: 100 a 300 picos. Tripulação: 5 homens
e 15 sirgadores.
12. Wu Ban (nc 318). Construção leve e rústica. São geralmente utilizados para transportar os homens da
sirga para os grandes juncos. Capacidade: 20 a 100 picos. Tripulação: [5 homens.
13. Jiao Chuan (nc 343). Este tipo de junco raramente sobe o Alto Yangzi Jiang. A sua capacidade de
transporte é de cerca de 200 picos.
|4. San Ban (nc 349), (ver também nc 217). Junco forte, construção rústica. Capacidade: 1.800picos. Tripulação:
5 homens e 21 para a sirga.
I5. Kua Zi Chuan (ne 309). De todos os juncos atrás enumerados, o Kua Zi é o único tipo realmente
apropriado para receber os passageiros do Alto Yangzi Jiang. Comprimento: SO a 70 pés: boca de 8 a 13
pés. Capacidade: 400 a 600 picos. O número destes juncos diminui pouco a pouco, desde que a navegação
a vapor se desenvolveu.
2º. Juncos do Sul ou do Baixo Yangzi Jiang - Nan Chuan (nc 305)
16. BoChuan (nc 119). Oriundo de Changde (nc 256), no Hunan. Capacidade: 300 a 400 picos. Tripulação:
5 a 7 homens.
17. Xiao Bo Chuan (nc 208). Oriundo de Heng Shan (nc 329) no Hunan. Capacidade: 300 a 500 picos.
Tripulação: 5 a 7 homens.
18. Ya Shao (ne 206). Oriundo de Hunan. Esta classe compreende vários tipos de tonelagens diferentes,
variando de 170 a 500 picos.
19. Sha Guo Zi (nc 263). Oriundo do rio Xtangshui (nc 252) que vai desaguar no lago Dongting.
20. Bai Jiang Chuan (nc 188). Oriundo da província de Anhui (nc 167). Capacidade: 200 a 500 picos.
Tripulação: 4 a 7 homens.
21. WuJiang Zi (nc 350). Oriundo de Xiangtan (nc 250), no rio do mesmo nome, no Hunan. Capacidade:
200 a 500 picos. Tripulação: 4 a 7 homens.
2. ChiuJiang Zi (nc 351). Não há informações.
Man Jiang Hong (ne 70)
4. Liu Zi(ne352)
t2 1919 t
dao
CHONGQING (ne 319)
Chongging é o centro principal e o mais activo do comércio do Sichuan. Esta grande cidade tem no seu
mercado os produtos mais variados, que são encaminhados pela província por uma classe de pequenos juncos
que sobem por todos os cursos de água navegáveis. Os produtos importados consistem em laníficios, fio de
algodão, tecidos e fitas de seda. quinquilharias, etc. Os produtos exportados são ópio, seda. peles, almíscar, óleo
e cera vegetal, ginseng. plantas medicinais, etc. É difícil estimar o número de juncos que comerceiam no Alto
Yangzi Jiang e seus afluentes. O comércio é muito activo e abundante por toda a parte. Segundo certas estatísticas,
Sichuan não possuiria menos de 10.000 juncos, empregando uma população de 300.000 habitantes. No fim do
século passado, o posto exterior das Alfândegas Imperiais em Tan Kia Touo registava 5.647 juncos na subida e
6.080 na descida. Por outro lado, havia 5.000 juncos fazendo comércio no rio Jialing Jiang (nc 353) que entra
203
no Yangzi Jiang em Chongging, e ainda 750 que iam para Luzhou (nc 354) e para Xuzhou Fu (nc 570). Desde
a introdução do navio a vapor, estes números têm-se reduzido significativamente.
Designação local dos juncos
|. Changzhou Ma Yang Zi
(nc 355)
2. Chenzhou Ma Yang Zi (nc 356)
3. Chen Bian Zi (nc 357)
(ver também nc 345)
4. Zhen Bo Zi (nc 342)
5. Chen Tiao Chuan (nc 298)
6. Qiao Yan Chuan (nc 358)
7. Qian Dan Ge (nc 359)
8. Qiu Qiu Chuan (nc 360)
9. Jin Yin Ding (nc 361)
10. Qiu Zi (nc 262)
11. Chong Yan Bang (nc 362)
12. Hou Ban (nc 363)
13. Xiao Chen Bo Zi (nc 364)
14. Rao Guai Zi (nc 365)
15. Ku Niu Chuan (nc 366)
16. Gua Pi Chuan (nc 367)
17. Guan Niu Duo (nc 368)
18. Guizhou Ma Hang Zi (nc 369)
Lugar de origem
Fuzhou (nc 572)
e Wanxian (nc 571)
Hunan
Hunan
Yichang (nc 306)
Chenzhou Fu (nc 202)
Chu Ken An
Suining (nc 573)
e Hsiao Ho
Nei Chiang
Fuzhou e Hsiao Ho
Wuchengzhen
Jiangxi
Yunnan
Denglingguan
Hezhou
Guizhou
204
Cap.
(picos)
500
600
400
300
1.200
1.400
800
100
100
30
400
800
400
300
400
300
2.000
800
Tripul.
9/41
Sirga
31/39
2
19. Guo Chan Tou (ne 370)
20. Lao Ya Qiu (nc 371)
21. Liu Ye Bang (nc 372)
22. Lu Ban (nc 373)
23. Ma Er Duo (nc 374)
24. Mao Ban de
Baogingfu (nc 258)
25. Mao Yu Chiu (nc 308)
26. Nan He Chuan (nc 4)
27. Nanban Ma Que Wei (nc 327)
28. E Er Zi (nc 347)
29. Ba Gan Chuan (nc 375)
30. Ba Wo Zi (nc 315)
31. Bai Jia Tou (nc 376)
32. Bai Ban Ma Que Wei (nc 377)
33, Ban Tou Chuan (nc 378)
34. San Ban (nc 50)
35. Shou Kou Ma Yang Zi
(nc 379)
36. Dahe Chuan (nc 380)
37. Tai Hong Chuan (nc 381)
38. Diao Kou Chuan (nc 382)
Luozhou (nc 354)
Suining
Nei Chiang
Kaixian (nc 579)
Chongging e Xiao He
Hezhou (nc 574)
Luzhou (nc 354)
e Xiao He
Jiading Fu (nc 575)
e Zhugengtan (nc 576)
Chongqging e Yichang
Guaizhou
Jiading Fu
Lou Lou
pequenos cursos de água
Chongging e Yichang
Meizhou (nc 577)
Zhi Jiang (nc 578)
Wan Hsien
Zhiu Fu (nc 570)
Lou Si
Yunnan
205
1.600
1.200
100
300
300
300
1.200
800
1.200
300
20
200
200/300
1.000
70
1.800
400
600
200
600
[0]
to
24
22
39. Ti Lan Chuan (nc 383) Wu Dong Jiao 1.200 G 34
40. Diao Gou (ne 207) Hunan 1.000 4 TO)
41. Duo Long (nc 384) parte Sup. do rio (em geral) 30/40 2 4
42. Duo Long Zi (nc 385) Changshou (nc 580)
e Fuzhou 400 5 IR
43. Cao Yao Chuan (nc 386) Bai He 300 6 '
44. Dong Gua Chuan (nc 387) Luzhou 400 4 I8
45. Wu Jiang Zi (nc 278) Hunan 40 6 ”
46. Wu Gui Ke (nc 388) Yung Ning 400 + 13
47. Yan Huo Chuan (nc 389) Chongging 800 15 E
48. Yin Yang He (nc 390) Suining e rios 200 3 4
49. Hong Chuan (nc 391) Barco de salvamento
(comprimento 32 pés) É!
50. Jiu Ming Chuan (ne 392). Barco de salvamento tendo por missão salvar pessoas e não material. O seu
nome “ barco para salvar a vida “ já de resto o Indica.
51. Mayang Chuan (nc 297); Comprimento: 45 pés; Largura: 12 pés. Capacidade: 300 a 600 picos. Transporta
mercadoria diversa. Tipo em desaparecimento, ameaçado pela concorrência dos navios a vapor, como de resto
todos os outros tipos em uso no rio.
NINGBO (nc 23) e ARQUIPÉLAGO DAS ZHOUSHAN
Em 1873 o Serviço das Alfândegas Imperiais avaliava em 8.000 e 9.000 0 número de juncos que se
dedicavam à pesca do choco no arquipélago das Zhoushan (nc 581). Cada navio tem uma média de 6 homens de
tripulação, sendo o total de homens envolvidos nesta pesca de 48.000 à 50.000, sem contar os que tripulavam os
inúmeros pequenos barcos dos portos costeiros. Em 1875 o número de juncos de toda à espécie empregados na
pesca nas Zhoushan era de 20.000 e a população costeira que tirava os seus recursos da pesca era estimada em
1.000.000. Neste mesmo ano de 1875 o Relatório das Alfândegas Imperiais dá o número de juncos registados
em Ningbo, com o seu destino, proveniência e uso.
Estes juncos repartem-se da seguinte forma:
130 juncos fazem comércio com Fujian.
200 juncos fazem comércio com Zhenjiang (nc 67).
100 juncos fazem comércio com Niuzhuang (ne 1).
206
100 juncos, mais ou menos. provêm de Wenzhou (nc 582) e de Taizhou (nc 583).
[30 a 140 provêm de Fujian.
O Relatório Decenal de 1882-1891 reproduz sensivelmente estes mesmos números. com informações
sobre o género de comércio desses juncos que são descritos como segue:
IE Dan Chuan (nc 393). Tipo antigo. À proa é quadrada e à frente tem uma superfície redonda livre. A cada
bordo está ornamentado com um olho, Faz comércio com os portos do Norte. Tripulação: 16 a 24 homens.
Es San Bu Xiang (nc 394). Tipo mais moderno que o anterior. tendo uma proa mais estreita com uma borda
falsa em forma de cornos. Este nome San Bu Xiang, que significa literalmente “terceiro não semelhante” foi-
lhe dado, diz-se, porque o primeiro navio deste tipo era um barco que não tinha semelhança com um dos três
tipos principais de navios existentes nessa época. Faz comércio com os portos do Norte.
3. SiBu Xiang (nc 395), literalmente “quarto não semelhante”. Tipo mais moderno que o anterior. Estes dois
últimos navios são melhores manobreiros e andam mais que o Tan Chuan (Nº 1). Estes têm âncoras e amarras de
ferro e estão equipados com material europeu. Este tipo é maior que o anterior. Faz comércio com o Norte.
Tripulação: [6 a 24 homens.
4. Tiao Chuan, ou Niao Chuan (nc 27). Juncos mais pequenos que os três precedentes. Tripulação: 8 a 12
homens. Fazem comércio com Fuzhou e Zhenjiang.
a Bai Bi Ke (nc 396). Literalmente “casco branco”. Mesmas dimensões que o anterior. Tripulação: 8 a 12
homens. As variedades seguintes estão atribuídas a diferentes utilizações nos rios.
6. Bai Tong Zai (nc 397). Barco sem convés para o transporte de pedra.
7. Wu Peng Chuan (nc 398). Barco para passageiros com o rufo pintado de preto.
8. Xin Ban Chuan (nc 399). Barco para o serviço de correio, com o rufo vermelho.
9 Wu Shan Chuan (ne 15). Junco de comércio traficando com Feng Hua (ne 584). Proa e popa quadradas.
IO. Hang Chuan (nc 88). Barco para passageiros.
1. Jiao Hua Chuan (ne 97). Pequeno barco movido por um remo manobrado com o pé. Chama-se geralmente
a este tipo de barco “ barco-correio “. Percorre 400 lis ou 40 léguas em 24 horas. Neste período, o barqueiro não
pode parar senão durante duas horas. O peso total da embarcação é de 130 quilos.
12. Jiao Da Chuan (ne 400). Literalmente “barco manobrado com o pé”. O Catálogo da Exposição das Pescas
de Londres (1883) descreve da maneira seguinte este barco que pertence à mesma categoria que o anterior:
“Este barco é usado para viagens rápidas nos rios e canais. Leva só um passageiro e raramente dois. Sendo
aquecido durante o inverno, é muito confortável e perfeitamente seco. O homem impele o barco com um
simples remo plano e grande, manobrado a um bordo com o pé. enquanto governa com uma pangaia que tem
debaixo do braço. Rema às vezes de 18 a 24 horas por dia, sem interrupção. Pára uns instantes para aprontar a
comida que prepara muito simplesmente num pequeno forno de argila, colocado em frente dele”. Este mesmo
Catálogo de Londres dá as indicações que se seguem sobre os barcos de Ningpo.
13. Bing Xian Chuan (ne 401). “Barco-gelo”, De maiores dimensões que o Mo Yu Chuan descrito mais
adiante, mas com muito poucas diferenças no que diz respeito às instalações interiores. que compreendem duas
cobertas e vários compartimentos para guardar o gelo. Um rufo de madeira cobre quase a totalidade do convés.
deixando apenas o espaço estrictamente necessário para a manobra das velas. Os alojamentos da tripulação são
dentro do rufo num compartimento, a cada extremo, e reservado para a cozinha e para as caixas de água doce.
Na parte de vante erguem-se dois mastros. A porta do leme, em forma de machado. desce abaixo da quilha.
Com este dispositivo o junco evolui rapidamente e é mais fácil de manobrar que os barcos em que o leme está
ao nível da quilha ou acima. Este barco leva ao mar o gelo para os pescadores e traz para o porto os produtos da
pesca. Tem o comprimento de 65 pés, e a largura de 13 pés.
14. Mo Yu Chuan (ne 402). “Barco-polvo”. Tem 56 pés de comprimento, e boca de 8 pés e meio. Tem quilha
dupla, particularidade comum a quase todas as embarcações à vela da região. Na parte de vante há dois mastros
207
mi e e O
com velas, que são manobradas por dois mestres de pesca, chamados “Low Dah”, um colocado a vante do
mastro grande, e outro na parte de ré do barco. O convés é formado por painéis móveis, dando acesso ao porão,
que é dividido em compartimentos, onde se conserva o peixe até ao regresso ao porto. O compartimento de
vante serve às vezes de cisterna de água doce, o de ré, de cozinha. O convés é coberto parcialmente por um rufo
de madeira protegido por esteiras. Serve de alojamento da tripulação composta normalmente por seis homens.
A vela grande é dividida em duas partes desiguais por cabos de bambu. Para as preservar do apodrecimento,
tingem-se com casca de mangueira. Quando não há vento, os homens servem-se de dois ou vários lemes de
gingar grandes, chamados “Yiao Luo” . A âncora é de madeira dura, como a de todos os barcos do mesmo tipo.
A rede de pesca é suspensa ao longo do costado. Os mastros são desmontáveis e podem ser colocados no
convés. A cada bordo da proa está pintado um olho, o qual, segundo a superstição local. serve para encontrar o
rumo do navio e evitar que tenha má sorte. À pesca do choco continua durante o dia e a noite. De noite acende-
-se um farol no convés, e o seu brilho atrai o peixe para que venha à superfície da água.
|5. Xiao San Ban Ta Ke (nc 64). “Pequeno-três-pranchas-transporte-passageiros”. Representa o tipo de
sampana bem conhecido que se vê em Shanghai e em Ningbo para o transporte de um ou dois passageiros, no
porto, ou entre os navios e a margem. O engenhoso dispositivo, por meio do qual o leme de gingar gira na
cabeça duma cavilha de ferro colocada à popa, merece ser assinalado. Este tipo de barco é conduzido por um só
homem.
16. Tiao Yu Chuan (nc 403). Literalmente “saltar-peixe-barco”. Comprimento: 29 pés e meio; calado muito
pequeno. A todo o comprimento do navio está fixada uma prancha pintada de branco, dum pé de largura,
projectando-se para o exterior na direcção da água, com uma fraca inclinação. Do outro bordo coloca-se uma
rede vertical. Durante as noites claras os pescadores saem com estes barcos e o peixe, atraído pelo reflexo da lua
sobre a prancha, salta sobre esta e cai no barco onde é capturado. A rede impede-o de passar por cima e cair no
outro bordo.
17. Lu Ci Chuan (nc 404). Literalmente “ barco-alcatraz “. A pesca com o alcatraz pratica-se nos lagos, rios
e canais onde não há corrente. Os barcos são muito leves, têm 18 pés de comprimento por dois e meio de boca,
com muito pequeno calado. Os palmípedes ficam numa travessa e são lançados à água pelo barqueiro por meio
duma vara. Têm normalmente à volta do pescoço um colar de cânhamo, para os impedir de engolir o peixe.
O Catálogo da Exposição Internacional das Pescas, que se realizou em Berlim em 1880, tem um relato
pormenorizado sobre a forma como os alcatrazes são criados e treinados, e a forma como estes pássaros são
usados na pesca. Este mesmo Catálogo dá a descrição dos barcos seguintes que são usados nas pescas do alto e
de rio, no distrito de Ningbo e no Arquipélago das Zhoushan.
18. San Ban Chuan (nc 405). Barco comum, muito usado na pesca nos lagos e nos rios. Comprimento: 25 pés
largura: 2,5 pés.
19. Ningbo Bu Chuan (nc 406). Comprimento: 33 pés; largura: 3,5 pés. Têm um só mastro à vante. Convés
coberto com pranchas móveis. O porão está dividido em compartimentos como o do Wu Zei Chuan, descrito
mais adiante. A tripulação acomoda-se no convés, abrigada por esteiras.
20. Pi Xia Chuan (nc 407). Barco para a pesca do camarão. Comprimento: 45 pés; boca de 6 pés. Pouca
diferença faz do barco anterior, de que tem as formas. As bordas de tempo são mais baixas. O porão é coberto
com esteiras impermeáveis: dois dos seus compartimentos destinam-se a guardar os camarões pescados.
21. Xian Guo Chuan (nc 408). Barco de pesca semelhante ao anterior. Faz a pesca com linhas flutuantes.
22. Ban Zeng Chuan (nc 409). Barco de pesca com rede horizontal. A rede é suspensa pelo extremo duma
antena colocada à proa. A rede é içada ou arriada por cabos e moitões.
23. Dui Chuan Wang (ne 410). Semelhante ao Pi Xia Chuan. Pescam em parelha com uma rede de arrasto. A
rede fica entre os dois barcos e arrasta pelo fundo.
24. Shenjiamen Yu Chuan (nc 411). Barco de pesca de Yijiamen (nc 585) (Has Zhoushan ). Tem fundo
208
chato com 55 pés de comprimento. O porão está dividido em compartimentos revestidos de painéis espessos.
Dois destes compartimentos são para a tripulação.
25. Zhang Wang Chuan (nc 412). Um grupo de barcos comuns coloca-se numa linha perpendicular à
corrente, com redes suspensas entre eles. Os barcos viram com a maré.
26. Fei Wang Chuan (nc 413). Este barco coloca-se no ponto de encontro de dois cursos de água ou à entrada
dos lagos e foz dos rios. Utilizam-se estes barcos quando a corrente e o vento são fortes. As redes usadas são
formadas por duas bolsas colocadas uma dentro da outra, com a abertura orientada para à proa.
27. WuZei Chuan (nc 414). Barco para a pesca do polvo. Pesca também no mar alto, mas mais frequentemente
perto das costas. Fraca tonelagem e uma tripulação de 4 a 5 homens que pescam o polvo com rede. A estação
desta pesca vai de meados do Verão a meados do Outono.
28. Zhu Pai Wang (nc 415). Jangada de bambu que pesca na baía de Nimrod. A rede está suspensa num quadro
a um dos bordos da jangada. Uma pequena cabana serve de abrigo ao pescador.
29. —Tuo Feng Pa Chuan (nc 416). Dedica-se à pesca nos lagos. Um cabo comprido, lastrado com um peso e
lançado à água pela popa do barco. No extremo do cabo, está colocado uma espécie de ancinho de bambu, onde
se dispõem, a uma certa distância uns dos outros, os fortes anzóis.
30. Ni Mo (ne 417). Trenó para deslizar sobre o lodo. No meio do trenó, que tem a forma duma tina alongada,
com 7 pés de comprimento e | pé de largura são colocados sobre os lados dois barrotes verticais, ligados por
uma barra horizontal. O condutor coloca um pé no trenó e, apoiando-se na barra, empurra-o com o outro pé que
apoia no lodo.
31. Tan Chuan (nc 418). Barco para navegar em fundos baixos. Convés largo, muito alto na parte de ré.
Fundo chato. Enquanto há água o barco é impelido por uma vara. Quando falta a água, o barqueiro desce e
empurra o barco de maneira a que ele passe o obstáculo, para o que se apoia numa barra disposta para este fim
na popa da embarcação.
32. Bu Chuan (nc 419). Grande junco duma capacidade de 30 toneladas e guarnecido por 10 homens. Há
cerca de 700 deste tipo no distrito de Ningbo. Utilizam-se na pesca à rede e ficam cinco meses fora, da Primavera
até ao Outono.
33. DaDui Chuan (nc 420). Há cerca de 500 barcos deste tipo em Ningbo. Têm capacidade para 18 toneladas
e uma tripulação de [5 homens. Pescam sempre em parelha, arrastando entre eles uma grande rede, chamada
“Da Wang”. Pescam normalmente no Inverno.
34. Xiao Dui Chuan (nc 421). Este barco pertence à mesma categoria do anterior, mas é mais pequeno. Tem
capacidade para 3 toneladas. A tripulação é de [| a 12 homens. Há cerca de 250 parelhas no distrito, das quais
50 em Ningbo.
35. Baiguan Chuan (ne 422). Barco usado para a navegação interior, oriundo de Baiguan (nc 586). Transporta
mercadorias nos rios, canais e pequenas angras.
FUZHOU (nc 424)
Fuzhou, capital da província de Fujian, é uma grande cidade de mais de 600.000 habitantes, situada no
rio Min Jiang (nc 425), a 35 milhas da foz. Esta província não tem outra saída, razão pela qual o seu comércio
se faz por esta via. Dispõe para isso duma frota considerável de juncos, a mais importante das costas da China,
Segundo o Relatório Decenal das Alfândegas Imperiais de 1882-1891, é difícil de calcular, mesmo
aproximadamente, o número de juncos usados em Fuzhou, mas podemos estimar em 2.000, pelo menos, o
número de entradas por ano. Os juncos que fazem um serviço regular são classificados em três grupos distintos.
Têm uma marca distintiva, que consiste na cor pintada no casco. Cada centro adoptou a sua cor própria, pelo
que é muito simples identificá-los:
- Juncos de Ningbo - casco negro - Wu Cao (nc 426).
209
- Juncos de Fujian - cabeça verde - Lu Tou (ne 427).
- Juncos de Cantão - cabeça vermelha - Hong Tou (nc 72).
- Juncos da Formosa - carena branca - Bai Di (nc 428).
Os juncos de Ningbo (ne 23) fazem 50% do comércio. À seguir, por ordem de importância, vêm os de
Fujian (nc 28), de Cantão e da Formosa, estes últimos em muito pequeno número. As tripulações são de 20 a 30
homens, conforme a tonclagem. O Relatório das Alfândegas de 1904, dá algumas precisões sobre os juncos de
Fuzhou. Há 7 tipos. diz o Relatório, cada um deles tendo características particulares, fáceis de distinguir:
JE Bei qing (nc 429). Junco de Ningbo. Grande variedade de tonelagem. Os mais pequenos levam 200 a 600
picos, com 6 a 9 pés de calado. Os maiores levam 2.000 a 6.000 picos. Têm 100 pés de comprimento, 25 pés de
boca; 10 a I4 pés de calado. Os primeiros fazem comércio regular com Shanghai e Ningbo; os últimos, o
transporte de madeiras com estes mesmos portos e com o Baixo Yangzi Jiang. São robustos navios oceânicos.
O casco de todos estes juncos está pintado de cores diferentes, branco, amarelo, azul ou vermelho, na estrutura
superior. Há 400 a 500 juncos do porto de Ningbo que fazem comércio com Fuzhou.
or Bei Bo (nc 430). Juncos de Shandong. Há-os da mesma forma e mesma tonelagem que os de Ningbo,
mas diferem pelo aparelho, o de vante principalmente, e pela pintura. À parte baixa do casco é sempre preta, a
parte alta está ornamentada com painéis pintados de amarelo e azul com cercaduras verdes e vermelhas, Levam
2.000 a 6.000 picos, o comprimento atinge 120 pés, a boca 30 pés e o calado de 10 a 14 pés. São muito
manobráveis e bem tripulados. São 50 a 60, mas este número diminui todos os anos, por o comércio com
Shandong ser menos lucrativo nos últimos tempos, devido à concorrência dos navios a vapor. Estes barcos
fazem 2 a 3 viagens para o Norte, por ano. À tripulação é de 15 a 30 marinheiros e 3 a 4 oficiais. Entre os
últimos, contam-se o proprietário do barco, o piloto e o comissário.
3. YanYuChuan (ne 431). Literalmente: “sal, peixe”. São pequenos juncos de 300 à 1.000 picos. O aparelho
e a pintura são sensivelmente os mesmos que o dos navios anteriores. Há 28 a 30 usados neste comércio do sal
para pescado. O calado é de LO pés.
4. Min Chuan (nc 432). Juncos de Fujian. São uma centena. Diferem dos de Shandong, excepto no aparelho
e na pintura, porque os juncos de Fujian não usam nem o amarelo nem o azul nos painéis da borda, e o seu
aparelho é menos complicado. Tirando isto, têm as mesmas características. Os três primeiros juncos, Bei Ging,
Bei Bo, Yan Yu Chuan, são vulgarmente conhecidos pelo nome de Bei Chuan (nc 433), “barco do Norte”,
porque fazem comércio nas águas dos mares do Norte da China, Os Min Chuan, são chamados Nan Chuan (ne
434), “barco do Sul”, porque o seu comércio é no Sul, O porto de Fuzhou goza de grande reputação na construção
de barcos, pela qualidade das suas madeiras, porque a força de trabalhos é barata, e por ter bons operários. A
maior parte dos juncos oceânicos são construídos aqui.
DA Du Chuan (nc 435). São pequenos barcos de capacidade entre 20 e 200 picos, com calado variável. Esta
categoria compreende barcos de passagem, pequenos barcos de cabotagem, etc. A descrição destes barcos seria
difícil, dadas as suas muitas variedades. São pelo menos 500 e este número é muito aproximado.
6. Hu Chuan (nc 436). Há muitas variedades de várias tonelagens, dos 400 aos 500 picos, com um calado
médio de 8 pés. São barcos destinados à vigilância, armados de velhos canhões, e distinguem-se dos outros
barcos pela sua brilhante flâmula. Não se usam para o transporte de mercadorias, mas a sua tripulação dedica-
se muitas vezes ao contrabando. Alguns são pintados de branco, outros de vermelho, e um ou dois tipos de
verde.
e Taiwan Chuan ( nc 437). Junco de Fujian com bandeira japonesa. Faz comércio entre a costa chinesa e a
Formosa.
8. Shipu Chuan (nc 438). Em 1904, segundo o Relatório das Alfândegas (Alfândega Local ), o número
destes juncos era de 28, usados no comércio do peixe salgado. Vinham vazios para Shipu, no Norte da bata de
Sanmen
210
(nc 439), no Zhejiang, onde tomavam dos barcos de pesca o peixe salgado que levavam a Fuzhou. Levam 5 a 14
dias para vender e descarregar a carga que é vendida em Fuzhou, em quantidades de 5 a 50 picos.
o Yan Chuan (ne 40). “Junco do sal” .São em geral velhos Bei Bo, velhos demais para ir até ao Norte. Todo
o sal importado em Fuzhou vem do distrito de Xinghua (nc 440). Estes juncos fazem 3 a 4 viagens por ano.
As informações que se seguem foram-nos enviadas, em Março de 1914, pelo senhor M.G.Stocker,
funcionário das Alfândegas (Alfândegas Locais) em Fuzhou.
10. Yuan Di (nc 441). “Fundo redondo”. São excelentes barcos de mar, ainda que de fraca tonelagem. São
usados principalmente na pesca e também para rebocar os grandes juncos de mar, quando sobem o rio.
HH. Bai Di (ne 428). “Fundo branco”. Pequenos juncos, grosseiramente construídos, medíocres navios de mar,
nada rápidos. Usam-se sobretudo na pequena cabotagem. À maior parte faz comércio com os arredores da foz
do rio Min Jiang.
12. Mao Lan (nc 442). Estes juncos são de tonelagem média, fortemente construídos. Excelente barco de mar,
embora lento. Transporta toda a espécie de mercadoria, e faz comércio em toda a costa e vai mesmo até à Ilha
Formosa.
13. Du Chuan (nc 435). “Ferry-boat”. Pequenas embarcações grosseiramente construídas e usadas para O
comércio ribeirinho. Os passageiros indígenas preferem este modo de transporte ao da chalupa a vapor, mais
rápido, mas mais caro. Levam as mercadorias que podem. mas grande parte do interior é destinado aos passageiros.
Há um outro tipo de Du chuan, o qual, embora construído e aparelhado como os outros, é melhor para o mar e
equipado com melhores velas, e ainda mais bem pintado.
|4. Shandong Chuan (nc 443). São os maiores juncos que frequentam o porto. Fazem comércio com as
províncias do Norte em especial com Shandong. São bons barcos de mar, andando bem, embora de construção
pesada. Duram 30 a 40 anos.
Terminaremos esta nomenclatura dos juncos do porto de Fuzhou pela lista dos modelos que figuraram na
Exposição de Liêge de 1905. Esta lista indica simplesmente a natureza dos barcos, as suas dimensões, capacidade
e preço.
Dimensões em pés
Compri. Boca Cala. Cuptons) Preço (francos)
Juncos de mar 110/120 25/30 15/20 150/200 45.000/62.500
( Os maiores fazem comércio com Shandong, os outros com Shanghai )
Barcos de passageiros 15/35 5/9 - 5/6 50
IO passag 350
Barcos de mandarins 70 o) + 10 passag. 3.000
Barcos para transporte
de trigo 40 6 E: EO) 200
E “ “palha 2o 5 - 0,750 Do
na » o “o madeira 70 16 - 4.500 1.750
d aco 30 6 - 0,600 200
o “ “pedras 45 IO E 0,750 500
io “ “mercadorias 45 8 - 0.600 500
ZA)
Barcos para transp. de sal 90 25 9 75 30.000
( Os juncos de sal vão até ao Annam )
Três barcos ligados para a
navegação interior.
(As características são comuns
aos três) 20 4 0,150 25
Barcos para a região dos 65 9 - 0,500 815
rápidos 65 I5 - 0,750 1.000
Barcos para os pequenos
canais 30 5 - 0,450 50
Barcos de prazer 30 IO - 0,450 100
Barcaças 80 60 - 6* 2.500
Barcos dragão 60 4 - PAi Jos 250
* passageiros
XIAMEN (nc 444)
O porto de Xiamen é um dos melhores e o mais acessível de toda a costa da China. Segundo o Relatório
das Alfândegas de 1882-1891, ao qual vamos buscar as informações que seguem, a capacidade dos juncos de
mar que entram no porto era de cerca de 200.000 picos por ano. Há quatro variedades de juncos, cujos nomes
chineses são os seguintes:
Il. Xiang Zhi Bei (nc 445).
Da Bei (nc 446).
Xiao Bei (nc 447).
4. Bo Zai (nc 448).
A maior parte destes juncos está ocupada com o transporte de mercadorias e de viajantes entre Xiamen e
a Ilha Formosa. Os outros fazem comércio com Ningbo, Shanghai, Zhifu (nc 17) e Tianjin. Os últimos largam
de Xiamen em Maio ou Junho, em plena monção de sudoeste e voltam com a de nordeste, em Novembro ou
Dezembro. Durante o resto do ano ficam amarrados, fazendo assim anualmente duas viagens de 2.300 milhas.
Têm uma tripulação numerosa, de 80 a 120 homens, e levam uma carga considerável.
Esta classe de juncos está condenada a desaparecer, diante da superioridade reconhecida pelos chineses
aos navios estrangeiros. O Catálogo da Exposição de Viena (1873) dá as informações seguintes acerca destes
juncos: Os juncos que fazem comércio com Cantão e Shantou são conhecidos pelo nome de Hong Tou, “cabeça
vermelha” (nc 19), os de Fujian, sob o nome de Ging Tou (nc 449), por “cabeça verde”. A capacidade de
transporte varia de 10.000 a 30.000 picos.
Sao
Os grandes juncos que comerciavam outrora entre Xiamen, o Sião e os Estreitos, estão agora confinados
ao transporte entre Tainan Fu (nc 451), Ningbo e Xiamen, visto os comerciantes dos Estreitos utilizarem os
navios a vapor que vão regularmente a Xiamen e num tempo mais curto. À tripulação dos juncos é estimada em
cerca de 12 homens para 1.000 picos.
Juncos de guerra. Estes juncos possuem muito boas linhas; andam geralmente à vela e são fáceis de
ela
manobrar. Graças ao seu fraco calado podem entrar nas baías menos profundas e em todas as angras da costa.
Em geral, têm armamento pesado e uma guarnição importante. Podem suportar a comparação com os navios de
guerra chineses. Há vários tipos: os maiores têm 90 pés de comprimento, 25 de largura, e 8 de pontal. O
armamento consiste em 8 canhões. A guarnição chega a ter 80 homens, sendo metade soldados.
No Catálogo da Exposição Universal de Paris (1878) encontramos breves indicações sobre os diversos
modelos de juncos de mar e de rio utilizados em Xiamen naquela época. Entre os 20 tipos enumerados, não nos
referiremos senão ao junco de comércio que, segundo o Catálogo, seria o maior construído na China e cujas
características são as seguintes: Comprimento da quilha: 86 pés, boca 32 pés, pontal || pés, capacidade de
transporte 7.500 a 8.000 picos ( 400 a 420 toneladas ). Preço de construção: 15.000 taéis, ou seja 128.300
francos.
ILHA FORMOSA
Possuímos poucas informações sobre os navios chineses da Ilha Formosa. Esta ilha foi cedida ao Japão
em 1895, pelo tratado de Simonoseki. Está situada a cerca de 120 milhas da costa de Fujian. As costas são de
difícil acesso, sobretudo na parte ocidental, que está sujeita a violentas ressacas.
O Catálogo da Exposição de Viena (1873) dá descrições de alguns barcos em uso nos portos abertos ao
comércio estrangeiro de Danshui (nc 450), Tainan Fu (nc 451) e de Da Gao (nc 452), que se seguem .
1. Hong Tou Ting (nc 453). Barco de formas esguias usado na navegação interior para a passagem dos
rápidos.
2: Da Bian Yu Ting (ne 454). Barco com arpão usado para a pesca do linguado.
E Tiao Bai Yu Chuan (nc 455). Literalmente : “saltando-branco-peixe-barco”. A pesca faz-se com luar. A
embarcação está fundeada perpendicularmente à corrente, à saída dum rápido, em geral. A prancha móvel
pintada de branco está meio imersa, do bordo donde vem a corrente, e o peixe, descendo o rápido, salta por cima
da prancha e cai no porão.
4. Barco de pesca de Taikou - Comprimento: 34 pés; boca: 12 pés; 3 homens de tripulação. O mastro é fixado
no fundo, por meio de cunhas de madeira dura. O mastro tem «44 pés de altura. Não tem estais e enverga uma
vela simples. Durante a pesca a rede fica ligada a duas varas que se projectam uma sobre a proa, a outra sobre
a popa, e a rede fica suspensa entre as duas varas. O barco mantem-se aproado ao vento com à vela meia
carregada e vai descaindo com a corrente, levando a rede atrás dele. Estas redes têm de 100 a 150 pés de
omprimento.
Catamaran de Mar - Estas espécies de barcos de pesca, saem aos pares. Têm 25 a 35 pés de comprimento,
5 a 6 de boca, e são formados por 13 bambus de 15 polegadas de espessura, fortemente ligados por rota. A rede,
que tem um comprimento de 150 a 180 pés, fica suspensa entre os dois catamarans, à popa, que se deixam
descair com o controlo da vela e dos remos.
6. Catamaran para pescar nas angras - Têm cerca de 18 a 20 pés de comprimento. São manobrados por um
no o
só homem com um só par de remos.
O Catálogo da Exposição das Pescas de Londres (1883), dá mais informações pormenorizadas sobre os
barcos usados nas costas da Formosa, nomeadamente os seguintes:
li Zhu Pai (nc 456). Catamarans que são o principal meio de comunição com os navios que estão na rada.
Nenhum outro barco poderia aguentar o assalto das enormes vagas que se formam nas barras ao longo das
costas. Os catamarans de mar têm três lemes, um ao centro está inserido entre fortes bambus, os outros dois a
sotavento. Estes dispositivos têm uma importância capital para a segurança da navegação, porque sem eles, os
catamarans seriam incapazes de manter a sua rota, no meio das grandes vagas ou de andar à vela contra o vento.
Há uma espécie de catamaran mais pequeno que o anterior, formado por apenas oito bambus. Nunca se aventura
no mar, mas dedica-se a pesca nos portos, nas angras e nos rios. Os indígenas da Formosa usam para a pesca de
219
água doce uma grande jangada de bambu, chamada:
8. Cao Di Yu Pai (nc 457). Esta jangada é formada por 16 à 20 bambus ligados uns aos outros, com TO pés
de largura por 20 a 30 de comprimento. No centro desta plataforma eleva-se uma cabana de palha grosseira, que
serve de abrigo a toda a família. A pesca faz-se com uma rede, de forma quadrada, instalada na popa. A rede é
montada em dois arcos flexíveis, dispostos em cruz, e ligados pelo centro à extremidade dum mastaréu, O içar
e o arriar da rede processa-se com a ajuda dum cabo fixado na extremidade de outro mastaréu, colocado em
ângulo recto com o primeiro, e ligados na parte de cima por uma corda. Durante à pesca a jangada fica imobilizada,
em cima dum bambu espetado no fundo, ou então fundeada. A vara é o único processo de propulsão usado nos
rios.
9. Ke Zeng Chuan (nc 458). Estes barcos são construídos solidamente, com uma espécie de cedro, chamado
Nan Mu (ne 459), ou madeira de cânfora. O comprimento varia entre 35 a 42 pés, a boca é de 8 à 12 pés. Quando
andam na faina da pesca estes navios só trazem um mastro. Quando transportam mercadorias, instala-se a vante
um pequeno mastro suplementar. A tripulação é de 4 homens. Estes juncos são excelentes barcos para o mar.
Podem virar de bordo quase dentro dum comprimento do navio. Para este efeito, quando o homem do leme acha
o momento favorável para virar de bordo, iça o leme para fora de água com o guincho, depois do que o junco
roda imediatamente no sítio em que está até que a vela receba o vento do bordo oposto. Arria-se então o leme
para a posição em que estava. Se o tempo for calmo, a propulsão faz-se com dois remos, um à proa, e o outro
perto da popa. Estes juncos navegam geralmente em parelha.
10. Tou Wei Gang Ke Zeng Chuan (nc 460). Este junco é semelhante ao anterior, a não ser por estar equipado
com duas vergônteas muito fortes, que saem para o exterior, como se fossem retrancas. O pé da vergôntea está
ligado ao convés. No outro extremo há uma polé onde passa o cabo que está fixado à rede e serve para a içar e
arriar. Estes juncos pescam separadamente nas angras e nos rios e também ao longo da costa ocidental da
Formosa.
SHANTOU (nc 461)
Porto da costa norte da província de Guangdong, situado a cinco milhas do mar no delta formado pelo rio
Han Jiang (nc 466). Tem 60.000 habitantes. Segundo o Relatório Decenal das Alfândegas Marítimas de 1882-
-1891 não havia mais de 400 juncos de mar nesse porto em 1858, reduzindo-se esse número a 300 em [869,a
10 em 1882 e a 80 em 1891. Este rápido decréscimo, acrescenta esse relatório, é devido à concorrência dos
navios a vapor e também, em parte, à depreciação de certos produtos que eram objecto dum comércio importante
por via marítima. Na mesma época havia em Shantou cinco variedades de juncos de mar que se ocupavam da
cabotagem. Estes juncos faziam comércio principalmente com os portos de Guangdong, até à ilha de Hainan
(nc 462) e Beihai (nc 463), na fronteira do Tonguim, assim como Ningbo, no Zhejiang. O comércio com os
portos do Norte, outrora muito importante, deixou agora de existir. Pelo contrário, a indústria da pesca mantém-
- se, como no passado, e desde tempos muito recuados, no primeiro plano das ocupações das populações costeiras.
O peixe constitui uma parte importante da economia doméstica dos chineses. Junto com o arroz constitur O
principal elemento da sua alimentação quotidiana. Quando se considera a extensão destas costas semeadas de
ilhas, cortadas por numerosas e imensas baías, formando excelentes abrigos para os pescadores, apercebemo-
-nos da importância da indústria da pesca no comprido litoral das províncias de Zhejiang. de Fujian e de
Guangdong. Encontramos, a esse respeito, num documento publicado pelo Serviço das Alfândegas Chinesas,
por ocasião da Exposição Internacional das Pescas, que teve lugar em Londres em 1883, muito interessantes
informações sobre os barcos de pesca, processos e aparelhos de pesca em uso nos portos de Shantou, Ningho,
Formosa e Yichang.
Damos a seguir um breve resumo dos métodos de pesca, assim como a descrição sumária dos barcos
usados no distrito de Shantou, Haimen e Dahaobu, situados nas proximidades desta cidade, que são estações
214
importantes para os pescadores de alto mar. É neste último porto que há vários estaleiros de construção de
juncos, manufacturas de velas e de aparelhos de toda a espécie, para uso dos pescadores. A estação de pesca no
alto mar vai do sétimo mês chinês (Agosto) até ao terceiro mês (Abril). Os barcos de Dahaobu compreendem as
cinco categorias seguintes:
Tripulação
Da Zeng (ne 469) Estima-se o seu número em 100 parelhas. 6 homens
Qian Zeng (ne 470) Estimados em 120 parelhas. 5 homens
Ao Zeng (nc 471) Estimados em 70 parelhas. 4 homens
Li Niao (nc 472) Estimados 120 a 130 parelhas. 3 homens
Diao Cao (ne 473) O seu número é estimado em 40 a 50 barcos 5 a 6 homens
Em Haimen os barcos de pesca compreendem as três categorias seguintes:
Tripulação
Ch'ien Tseng. O seu número é estimado em 150 parelhas. 6 homens
Niao Wang (nc 474) estimados em 275 parelhas. 4 homens
Neiwan (ne 475) O número de barcos estima-se em 200. 4 homens
Em Dahaobu e em Haimen os barcos pescam sempre em parelha, com uma rede que arrastam entre eles. Estes
barcos não estão fora mais que um dia. Quando saem de noite, fazem-se sinais com varas de incenso que ardem
como se fossem tochas, com o fim de orientar os seus movimentos.
Os pescadores da ilha de Nanao (nc 464) ( ilha à entrada da baía de Shantou), procedem diferentemente:
os barcos formam grupos, cada grupo conduzido por dois grandes barcos, chamados Qiaogu (nc 465), literalmente
“bater o tambor”. O Qiaogu tem geralmente uma tripulação de 15 homens; os pequenos barcos, 3 a 4 homens.
Os grandes barcos arrastam redes, os pequenos ajudam a levantá-las. De dia fazem-se sinais de bandeiras, de
noite usam-se lanternas colocadas no tope do mastro, que servem de guia para os barcos do mesmo grupo. Logo
que as redes são lançadas à água. os pequenos barcos cercam-nas, os marinheiros batem na água com varas de
bambu para fazer sair o peixe do seu abrigo e levá-lo para a rede. A um sinal combinado, os pequenos barcos
avançam lentamente para o centro e a rede é levantada. Durante o quarto, quinto e sexto mês (Maio, Junho,
Julho), estes barcos vão para o mar em parelha, em lugar de ir em grupos, e vão à pesca do polvo. A tarefa destes
pescadores é muito árdua. Estes homens são fortes, robustos e bem à altura da sua tarefa. A maior parte vive nos
barcos, com bastante pobreza, pois não enriquecem neste ofício. Desde tempos recuados que os pescadores de
Dahaobu (nc 587) e de Haimen (nc 468) se associaram em corporações. Têm salas de reunião, e pagodes onde
evocam as suas divindades antes de largar para o mar.
Za o]
a, Trem de
Modelos de barcos, redes e outros apetrechos de pesca são colocados como oferendas nos pagodes para
assegurar a protecção das tripulações e o sucesso no lançamento das redes. Em Double Island, uma pequena
ilha situada a SE de Shantou, os pescadores ergueram um magnífico pagode onde fazem uma peregrinação
todos os anos, pelo aniversário de Tianhou (nc 467), a Deusa do mar protectora dos marinheiros. Eis, agora, a
lista dos juncos de mar e de pesca do distrito de Shantou. com as informações dadas pelas duas publicações do
Serviço das Alfândegas Imperiais, citadas mais acima.
Os números 1, 2, 3, 4, 5 representam as cinco principais variedades de juncos de alto mar do porto de
Shantou. Estes navios fazem comércio com os portos de Guangdong até à ilha de Hainan (nc 462) e Beihai (nc
463), na fronteira do Tonquim e com Ningbo, no Zhejiang. O comércio com os portos do Norte, outrora muito
florescente, já não existe.
; Lorcha (nc 228). O mais importante dos cinco barcos de Shantou que se dedicam à grande cabotagem. De
origem portuguesa. Têm 800 picos de capacidade de transporte.
Pa Toumeng (nc 476). Tipo essencialmente chinês, com uma proa menos bojuda do que à que existe na
maioria dos juncos desta categoria. O guincho da âncora está entre os dois bordos, a vante. Capacidade de
transporte: 6.000 picos.
3. — Haibo (nc 477). Mesma tonelagem que o anterior. Segundo o Relatório Decenal de 1882-1891, à capacidade
de transporte do Haibo seria de 3.000 a 4.000 picos, enquanto que o Catálogo da Exposição Internacional das
Pescas em Londres apresenta um modelo visto em Shantou, com a capacidade de 1.000 toneladas.
4. | Hong Tou (nc 19). Este navio denominado Ta Hung T'ou Yang, é descrito da forma seguinte - Construído
em madeira leve, com fundo chato e com um grande leme, tem o porão dividido em compartimentos estanques
para a arrecadação das mercadorias. A tonelagem dos maiores juncos atinje 1.000 toneladas. O aparelho consiste
em quatro mastros de madeira dura, com velas. Os mastros de ré são colocados a um bordo cada e pelo través
um do outro, e são juntos no tope por três vergas horizontais. No rufo de ré, a bombordo, é a cozinha; a
estibordo, o paiol dos géneros, e a ré, as caixas de água. O espaço compreendido por cima da popa é ocupado
pelo patrão do junco que vigia o rumo e a manobra do convés. O painel da popa é cuidadosamente pintado e
ornamentado com esculturas.
5. Qing Tou (nc 449). É o último tipo de junco de mar mencionado no Relatório Decenal de 1882-1891.
Capacidade: 3.000 a 4.000 picos. Este mesmo barco, chamado Ch'ing T'ou Chien no Catálogo de Londres, é
assim descrito: construção em madeira leve. O porão é dividido como o do Hong Tou (Nº4). A mastreação
consiste em três mastros, com velas grosseiras de esteira. O leme pode ser içado ou arriado, conforme a
profundidade. A média das tripulações destes cinco navios é de 20 a 30 homens. Os navios seguintes de qualquer
tonelagem e para qualquer função são assim descritos no Catálogo de Londres de 1883.
6. Da Zeng (nc 469). Comprimento: 51 pés; largura: 14,5 pés; fundo chato, particularidade comum a quase
todos os barcos de pesca de Shantou. Dois mastros, o maior ao centro, o outro a ré com velas rectangulares
feitas com folhas de bambu juntas umas às outras. O porão é dividido em compartimentos estanques onde se
guarda o peixe até voltar ao porto. O compartimeno de vante é as mais das vezes utilizado como caixão de água
doce, o seguinte serve de coberta da tripulação que é normalmente de seis homens. Se faltar vento, a propulsão
faz-se com remos de gingar. Os mastros podem ser desmontados e colocados no convés. A duas amuras estão
ornamentadas com o olho simbólico que descobre o rumo e afasta o junco dos perigos.
os Wo Zeng (nc 478). Comprimento: 41 pés; boca 10,5 pés. Estes barcos andam em parelha com a rede
suspensa entre eles, que arrastam enquanto navegam. Esta pesca tem lugar de Setembro a Abril. Há uma outra
variedade de Wo Zeng, com 37 pés de comprimento, e com | pés de boca e que pesca todo o ano, também em
parelha. Cada um destes dois barcos tem a sua rede, e resulta desta forma que a mesma rede só é utilizada de
dois em dois dias, visto que só se arrasta com uma.
216
8. Li Niao (nc 472). Mesmo processo de pesca que acima. É usado de Março a Setembro. O segundo barco
é substituído por uma jangada de bambu, descrita a seguir,
9. Zhu Pai (nc 456). Esta jangada é constituída por dez peças de bambu dispostas em hexágono. Os pescadores
pretendem que este arranjo evita que a jangada se parta.
10. Ao Zeng (nc 471). Comprimento: 25 pés: boca: 8,5 pés. A rede é presa na extremidade duma comprida
alavanca, o que permite baixá-la ou tirá-la da água. É tripulado por 4 homens.
[Tião Bai (nc 479). Dois barcos amarrados um ao outro para a pesca nocturna. Comprimento: 25 pés; boca:
2.5 pés. Muito pequeno calado. No bordo livre do barco coloca-se uma prancha pintada de branco, com 2 pés e
meio de largura, projectando-se para o exterior como se fosse uma placa ligeiramente inclinada para a água. Os
pescadores saem com noite clara, o luar reflecte-se nas pranchas. O peixe salta por cima delas e cai no barco
onde é capturado. Esta pesca efectua-se de Abril à Setembro,
12. Nei Wan (nc 475). Pequeno barco de pesca de Haimen, tripulado por 4 homens. O seu uso já foi descrito
acima.
13. Da Nei Wan (nc 480). Comprimento: 43 pés; boca: 13,5 pés. A maneira de pescar é a mesma que se usa
com o Gua Zeng (nº7).
Flotilha de pesca da ilha Nanao. Estes barcos operam todo o ano em número de 40 ou 45. Dois grandes barcos
servem de guias até ao locais da pesca. A partida faz-se na maré baixa, e o regresso com a maré cheia. Os barcos
grandes arrastam as redes, os pequenos ajudam a levantá-las. Esta pesca tem lugar do mês de Agosto a Abril.
Durante os outros meses, os barcos pescam em parelha.
4. Qiao Gu (nc 465). Grandes barcos de pesca da ilha Nanao. (Ver mais acima o seu uso). Literalmente “bater
no tambor”, A tripulação é normalmente de 15 homens.
15. Diao Guo Chuan (nc 207). Comprimento: 32 pés; boca: 10,5 pés. Construído com compartimentos estanques
para a estiva do peixe. A tripulação abriga-se debaixo de esteiras.
16. Niao Wang (nc 474). Comprimento: 28 pés: boca: 8 pés. Barco de pesca de Haimen (Ver mais acima o seu
uso). O convés é corrido em todo o comprimento, excepto à popa onde há um pequeno espaço reservado para a
tripulação, que se compõe de 4 homens.
17. Diao Cao (nc 473). Comprimento: 36 pés; boca: | [5 pés. Barco de pesca de Haimen ( Ver acima o seu uso).
Mesmo convés corrido, como o do anterior. À proa, os caixões de água doce, à popa o alojamento para o
pessoal, 5 a 6 homens. É usado na pesca de Maio a Outubro.
18. Shou Yu Chuan (nc 481). Barco de pesca construído como o anterior. Serve de barcaça à flotilha de
Dahaobu, para o transporte da pesca. Comprimento: 28 pés; boca: 9,5 pés.
19. Chen Guo (nc 482). O convés é inteiramente aberto, salvo numa parte, coberta com uma esteira, que serve
de abrigo à tripulação. Mesmo na popa há um pequeno compartimento atribuído à cozinha. Comprimento: 29
pés; boca: 10 pés.
20. Xiao Li Niao (nc 483). Pertence à categoria das sampanas. Comprimento 23 pés: boca: 8,5 pés. Serve
geralmente para transporte de passageiros; só quando os tempos são duros, ou quando a pesca é produtiva é que
se ocupa do rude trabalho da pesca.
21. Dan Ta (nc 484). Com 18 pés de comprimento e 8 pés de boca. Este barco é usado na pesca da mesma
forma que o anterior. Quando não há vento, a propulsão faz-se com um remo colocado à popa.
22. Hong Rou Chuan (nc 485). Comprimento: 28 pés; boca: 8 pés. Este barco destina-se à pesca de conchas.
Para isso, utiliza um arrasto para dragar o fundo. As conchas são guardadas em compartimentos estanques até
ao regresso ao porto.
23. Bo Ke Chuan (nc 486) Comprimento: 40 pés; boca: | | pés. Mesma construção que o anterior. Em cada
bordo, suspendem-se no exterior grandes cestos de bambu, nos quais o peixe é lavado e escolhido antes de ser
metido a bordo. Estes barcos são movidos por dois ou mais remos. Pescam todo o ano.
AIEA
— Pa *
24. Xie Long Chuan (nc 487). “barco-caranguejo”. Comprimento: 40 pés, boca: 1 | pés. Mesma construção
que o Zhenkou (nº 19). Este barco vai todos os dias aos pesqueiros, onde larga a murgerona e entra à noite com
o peixe.
25. Dingshan Chuan (nc 488). “barco-mandarim”. Comprimento: 30 pés, boca: 10,5 pés. O seu serviço consiste
em cruzar nos locais de pesca para proteger os barcos de pesca.
Os navios seguintes, são, na maior parte, navios de cabotagem entre os portos da costa.
26. Chaoyang Ba Jiang (nc 489). Este barco é semelhante ao Qing Tou (Nº 5) excepto por ter uma antena no
convés, de bombordo a estibordo, e onde assenta a vela grande quando é arriada.
27. Yuan Wei (nc 490). Construído em madeira leve. O porão é dividido em compartimentos para se estivar
a carga. Dois mastros, um a vante, o outro a meio navio. A ré, há um espaço reservado para tripulação.
28. SiCao (nc 491). Esta classe de navio é geralmente usado para o transporte das conchas (moluscos, etc).
A borda falsa não fica no prolongamento do costado, como na maior parte dos grandes navios, mas ligeiramente
recuada. A tripulação é de cerca de 10 homens.
29. Kai Bo Ting (nc 492). Faz cabotagem. Três mastros com velas de esteira. Na parte de ré do convés, há um
rufo de cada bordo, um para a tripulação, outro para os passageiros.
30. Jiang Chuan (nc 493). Mesmo tipo que o anterior. Quando falta o vento, usa oito remos.
31. DaShan Fang (ne 494). O convés é quase horizontal. Serve como barcaça ao serviço dos navios a vapor
fundeados na rada.
32. PaJiang Ting (nc 495). O porão é dividido em compartimentos, geralmente a céu aberto. A mercadoria,
que é muitas vezes açucar, é protegida da chuva por esteiras.
33. Chaoyang Jin Chuan (nc 496). O porão é dividido em 9 compartimentos: os dois de vante são para a
tripulação, que compreende geralmente dez homens.
34. Da Ba Chuan (nc 497). Este tipo é utilizado pelos mandarins nas suas deslocações oficiais. No convés
ergue-se um grande rufo.
35. Da Zhu Gan Da (nc 498). O porão é a céu aberto, coberto por esteiras móveis, se em tempo húmido.
Caixões de água doce a vante; alojamento da tripulação a ré. Se não tiver carga, toma passageiros.
36. Si Du (nc 499). O porão está dividido em oito compartimentos. Estes barcos têm um só mastro; calado
muito pequeno.
37. Wu Du (nc 500). Semelhante ao barco anterior.
38. Zhu Gan Da. Este barco é do tipo do Da Zhu Gan Da (nc 498), descrito mais acima, salvo nas dimensões,
que são mais pequenas.
39. TuCao (nc 501). De formas quase rectangulares, com fundo chato. E usado normalmente para transportar
lastro para Os navios estrangeiros que estão no porto.
40. Li Niao (nc 472). Dois mastros com velas de esteira. A tripulação dorme no convés, não estando previsto
qualquer alojamento para o efeito.
41. Chang Wei Chuan (nc 502). Estes barcos estão divididos em compartimentos, sempre abertos para receber
as mercadorias destinadas aos navios estrangeiros ou descarregadas por eles.
42. Liu Peng Chuan (nc 503). Segundo o Relatório Decenal de 1882-1891, este barco é conhecido pelos
estrangeiros com o nome de “paper-boat” ou navio de papel, visto que é usado para o transporte de papel e
carvão de madeira. Tem fundo chato, com a proa levantada em ponta a uma altura de 10 pés para tacilitar a
alagem à vara, que obriga a um grande esforço. Os homens partindo da parte elevada da proa, descem ao longo
de todo o convés, com a vara nos ombros, o corpo quase horizonral. Obtêm assim uma grande velocidade.
Segundo o Catálogo da Exposição Internacional das Pescas de Londres, em 1883, 0 nome de “barco papel”, ser-
-Jhe-ia dado, pela fraca espessura do forro do costado. No centro do convés há um grande rufo, em esteira, para
guardar os remos. Este barco tem muito pouco calado; serve para transportar viajantes nas baías e nos rios, que
218
Eds
abundam na região.
CANTÃO
Demos no capítulo consagrado aos navios do Guangdong a descrição, devida ao senhor Mayers, de um
grande número de juncos que frequentam o porto de Cantão, descrição que apareceu por volta de 1880, na
Revista Inglesa “Notes and Queries“ de Shanghai. Eis a lista desses juncos acompanhada duma breve descrição:
Cao Chuan (nc 30). Junco de comércio.
Tou Meng (ne 476). Um dos mais pequenos juncos de comércio.
Ku Tch'ouan, ou Da yu chuan. Junco de pesca; um só mastro.
Yan Chuan (nc 40). Junco de mar para transporte de sal.
Xia Ting (nc 504). Barco de mar aparelhado, a maior parte das vezes, à europeia.
Xia Ju Ting (nc 505). Barco rápido ou barco camarão.
Zhan Chuan (nc 506), Junco de guerra.
Todos estes barcos pertencem à categoria de barcos de mar, os seguintes à categoria de barcos de rio:
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13.
Tuo Chuan (nc 507). Grande barco de passagem.
Guo Ting (nc 508). “Barco frutos”, utilizado como barco de passagem.
Du Chuan (nc 509). Barco de passagem local.
He Tou Chuan (nc 510). Chamado “barco chá” pelos europeus.
Lao Long Chuan (nc 511). Semelhante ao anterior, mas de maiores dimensões.
Zhi Tong Ting (ne 512). Barco para passageiros, de menor tonelagem que os anteriores, mas mais
cuidadosamente decorado. E usado pelos funcionários.
Os barcos Nos, 11, 12, 13, tomam o nome das localidades em que originalmente foram utilizados.
[4 Kuai Ting (nc 513). Barco rápido para viajantes, tipo gôndola.
[5. Si Cang Chuan (nc 514). Barco de comércio de Bei Jiang (rio do Norte).
16. Sha Pian (nc 515). Parece-se com o He Tou (Nº 11), mas é mais pequeno.
|7. Xi Gua Bian (nc 516). Barco de carga chamado “water melon slice” - “talhada de melância”.
18. Cha Ting (nc 517). Barcaça para o transporte do chá.
19. Hua Chan Tou (ne 518). Barco de carga para subir os rápidos dos rios do Norte e de Leste. E chamado
“shovel head”, ou cabeça em forma de pá.
20. Man Chuan (nc 519). Barco de comércio actuando nos distritos de sudoeste.
21. Ban Mi Ting (ne 520). Barco para transporte de arroz.
22. Mayang Chuan (nc 297). Barco para transporte de sal.
23. Xun Chuan (nc 521). Cruzadores de várias tonelagens usados em serviço de polícia e para cobrar os
impostos.
24. Ba Chuan (nc 522). Barco de combate. Canhoneira mais pequena que a anterior.
25. Wen Shu Ting (nc 523). Barco-correio ou “despatch boat”.
26. Heng Shui Du (nc 524). Ferry boat do rio de Cantão.
27. Sha Ting (nc 525). Sampana de Cantão, muito comum no delta.
28. Ma Ling Ting (nc 526). Chamado “barco pantufa”, (slipper boat), às vezes mais pequeno que o anterior.
29. Sampana (nc 50). Três pranchas. Chamado “paper boat” pelos europeus.
30. Long Chuan (ne 527). Barco dragão, usado nas festas do dragão.
31. Chang Long (ne 528). Com a forma alongada da sampana. Chamado “snake boat” - barco serpente. Muito
usado pelos piratas.
32. ChakKe Ting (nc 529). Barco de comerciante ambulante.
33. Nan Wu Ting (nc 530). Barco de bonzos.
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34. ZhuJia Ting (nc 531). Barco para habitação.
35. Hua Chuan (nc 532). Barco-flor.
O Relatório Decenal das Alfândegas Chinesas (1882-1891) fornece as informações seguintes sobre a
navegação e o uso de alguns destes navios. O movimento marítimo do porto de Cantão é considerável e
compreende uma grande variedade de barcos. Os mais importantes são os que fazem comércio com Hong
Kong, Macau e a costa Oeste.
O junco de Hong Kong tem uma capacidade média de 5.000 picos. O número dos que estão afectos ao
transportes de mercadorias e ao de passageiros entre Cantão e Hong Kong varia conforme as circunstâncias.
Muitos deles dedicam-se à pesca, quando o frete é baixo. Em geral fazem 33 viagens por ano.
O junco de Macau é mais pequeno do que o de Hong Kong. A capacidade é 3.000 picos em média.
Fazem 30 viagens por ano, entre Cantão e Macau.
Os juncos do sal (Yan Chuan) (nc 40), que trazem este produto da costa Oeste, são navios de tipo maior,
com uma capacidade de cerca de 9.000 picos. Fazem quatro viagens por ano.
O comércio entre Cantão e as várias cidades e mercados do delta e com o Xi Jiang, faz-se principalmente
pelos navios de passageiros conhecidos pelo nome de Xiang Du (nc 533), com uma capacidade média de 2.000
picos, ainda que alguns atinjam quase o dobro desta tonelagem. Há cerca de 90 barcos deste género em Cantão
fazendo uma ou duas viagens por dia com passageiros e mercadorias.
Estes barcos pertencem, agora, quase todos ao tipo conhecido pelo nome de Che Du (nc 534), barco de
passagem*. Este tipo de barco foi introduzido em Cantão em 1882. Têm geralmente 70 a 90 pés de comprimento,
10 a 12 pés de boca. O porão tem cinco ou seis compartimentos, alguns divididos em camarotes e podendo levar
150 passageiros abaixo do convés e muito mais acima. O barco tem uma vela. A propulsão é feita por uma roda
à popa, que é posta em movimento por 16 a 20 homens. A velocidade é de cerca de seis nós. Este progresso da
navegação foi seguido pelo uso de chalupas a vapor para rebocar os barcos de passageiros e de juncos de toda a
espécie que navegam nos cursos de água do delta.
ILHA DA LAPA
A Nha da Lapa fica algumas milhas a oeste da possessão portuguesa de Macau (ne 535). E uma estação
da Alfândega Chinesa que comanda uma das principais entradas do Xi Jiang (nc 536).
Em 1891 o número total de embarcações entradas no seu porto chegou a 61.096, 0 que representa uma
média de 170 juncos por dia.
O comércio local envolvia 21.173 juncos, com uma tonelagem global de 988.066 toneladas; o comércio
exterior 1.713 juncos com 247.577. É dificil descrever todos os tipos de juncos locais. Há, contudo, dois deles
que merecem ser mencionados. São:
|. Os juncos com porões centrais que fazem o comércio ao longo das costas baixas do Delta.
2. Os juncos com rodas à popa, movidas pelos pés, pelo mesmo princípio dos moinhos de farinha ou das noras.
A maioria dos juncos da Lapa, utilizados nos serviços interiores, estão assim equipados.
Em 1900 havia 14.294 juncos no comércio com os portos da China, 1219 com Hong Kong, 14 com o
Sião e o Annam, e um de 172 toneladas com Singapura.
MENGZISHI (nc 537)
A cidade de Mengzishi fica no sul da província Yunnan (nc 538), não longe da fronteira com o Tonquim,
*) No original, bateau-bac. Hoje equivale a um ferry-boat. Então transportava passageiros e carga duma margem dum rio para a outra,
N.T.
220
no rio Nanxi (nc 539), afluente do rio Vermelho (ne 540). É um centro comercial importante em relação com o
Tonquim, Cantão e Hong Kong. O porto de Manhao (nc 541) é o término da navegação no rio Vermelho.
Durante o período (1882-1891) (ver Relatório Decenal), este porto era servido por 123 navios, sem contar as
pequenas barcas que vão mais a montante do rio. A tonelagem do conjunto era de 357 toneladas. Há três
variedades de barcos usados exclusivamente no comércio com Laokai (nc 542), ponto terminal na fronteira. Os
maiores, chamados Manhao Chuan (nc 543), vão por vezes até Hanoi. Levam 4 toneladas, com uma tripulação
de 6 a 8 homens. O segundo tipo, chamado Hong Wei Chuan (nc 544) - popa vermelha - tem uma capacidade
para 2 ou 3 toneladas e uma tripulação de seis homens. O terceiro tipo, chamado Tiao Geng Chuan (nc 545) -
colher de sopa - leva apenas | tonelada e 3 homens de tripulação. Estes juncos são estreitos, mas muito compridos
em relação à boca. Têm fraco calado. Tendo um tabuado muito [flexível nos dois bordos, podem aguentar
grandes choques na passagem dos rápidos. A mastreação consiste em dois mastros em forma de V invertido,
dentro do qual fica a palhota arqueada, coberta de esteiras, estando os dois pés fixos no alcatrate. O mastro pode
ser levantado ou abatido rapidamente. Enverga uma vela quadrada do tipo habitual.
Remos e varas são os outros meios de locomoção. Para descer os rápidos é preciso actuar com muita
habilidade: a subida à sirga, se for só com a tripulação, é muito árdua. Estes juncos, conforme a tonelagem,
fazem TO à 20 viagens por ano. Nas marés vivas o comércio pára. Em 1902 o movimento comercial tinha
crescido muito. Havia 475 juncos, com uma tonelagem total de 1.300 toneladas, e as tripulações iam a cerca de
2.900 homens.
ILHA DE HAINAN (nc 462)
A grande ilha de Hainan fica entre o mar da China e o Golfo do Tonguim. A capital é Qiongzhou (ne
546). no nordeste da ilha, não longe de Haikou (nc 547), o porto que está aberto ao comércio estrangeiro.
Segundo o Relatório Decenal de 1882-1891, este porto estaria em declínio. Era frequentado por 83 juncos, 33
vindos de Shantou, 29 de Jiangmen (nc 588), perto de Cantão e 21 de Beihai. Os juncos de Shantou são de dois
tipos: Haibo (nc 477) e Hong Tou (nc 19), tendo uma capacidade de 2.000 a 5.000 picos. São oriundos de
Shantou e de Fujian. Os juncos de Jiangmen são também de duas qualidades: o Toumeng (nc 476) e o Tuo
Chuan (nc 507), com uma capacidade de 400 a 800 picos e uma tripulação de 10 a 14 homens. Fazem, mais ou
menos, quatro viagens por ano. Os juncos de Beihai são conhecidos pelo nome das localidades de que são
oriundos: Gaozhou (nc 548), Leizhou (nc 549), Lianzhou (ne 550). Têm uma capacidade de 400 a 2.000 picos
e uma tripulação de 7 a 12 homens. Estes juncos dividem-se em duas classes: Tuo Chuan (nc 507) e Jian Tou
Chuan (nc 551). Vão à península de Leizhou e fazem 25 a 30 viagens por ano. O Catálogo da Exposição de
Liêge (1905) dá as seguintes dimensões para os juncos de mar e de rio: Juncos de mar: comprimento: 108 pés;
boca: 28 pés: calado: 10 pés; capacidade: 300 toneladas. Barcos cosidos: comprimento: 28 pés: boca: 8,5 pés:
capacidade: 4 toneladas. Barcos de rio: comprimento: 52 pés; boca: 9,5 pés; calado: 2,5 pés; capacidade |4
toneladas. Barcaças: comprimento: 42 pés; boca: | pés; capacidade: 10 toneladas. Como o acesso ao porto de
Hoikou é muito difícil para os navios a vapor, por causa dos bancos de areia, as barcaças vão ao mar buscar as
mercadorias.
LONGZHOU (nc 552)
A cidade de Longzhou fica na margem esquerda do Zuo Jiang (nc 553), afluente do Xi Jiang (nc 536), ou
rio de Cantão. Não tem comunicações rápidas com o mar, nem com os outros locais da província de Guangxi.
O no está entalado entre altas margens rochosas que produzem alguns rápidos só transponíveis durante a estação
das águas mortas.
Há 13 tipos de barcos usados no comércio, em Longzhou. A maior parte destes barcos recebem o nome
da localidade de que são oriundos. O Relatório Decenal das Alfândegas Imperiais de 1882-1891. dá a seu
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respeito as informações seguintes:
| Dao Ba Chuan (nc 554, ver também ne 272). Capacidade: 300 picos. Tripulação: 10 homens.
A Bei Liu Chuan (nc 555): os mesmos dados.
E He Tou Chuan (ne 510): “ ç
4. Wulinkou (ne 556):
5 Gui Xian Chuan (nc 557). Tripulação: 8 homens. Os restantes dados iguais.
6. Baise Chuan (nc 558). Capacidade: 200 picos; restantes dados iguais .
e Zhaoping Chuan (nc 559). Restantes dados iguais. Tripulação: 7 homens.
8. Kuai Lin Chuan (nc 560). Mesmos dados.
9 Meg Jiang Chuan (nc 561). Mesmos dados. Tripulação: 6 homens.
10. Zhoubian Chuan (nc 562). Mesmos dados.
HI. Hunan Chuan (ne 563). *
12. San Ban Chuan (nc 46). *
13. Longzhou Chuan (nc 564). Capacidade : 12 picos. Restantes elementos iguais.
Este junco é oriundo de Longzhou. É igualmente conhecido sob quatro outros nomes das localidades com que
faz comércio. O mesmo se diz dos juncos seguintes, que pertencem ao mesmo tipo.
|4. Ming Jiang Chuan (nc 565).
15. Nanning Chuan (ne 566).
Estes juncos fazem comércio com Ningmingzhou (nc 589), Nanning (nc 590) e o Tonquim. Capacidade: 120
picos. Tripulação: 6 homens.
16. Jiaofeng Chuan (nc 567).
17. Muma Chuan (nc 568).
Independentemente destes juncos há barcos de rodas, accionados unicamente por homens, que fazem
serviço entre Nanning e Longzhou. É preciso contar sete dias, em águas baixas, para a viagem de subida.
BEIHAI (nc 463)
Este porto fica no golfo do Tonquim, na costa Oeste da província de Guangdong. Era no fim do século
passado um centro comercial importante, saída das províncias de Guangxi, Yunnan e Kuaizhou. Mas a sua
actividade marítima decresceu acentuadamente depois da abertura do Guangdong ao comércio estrangeiro e
com a concorrência dos portos do Tonquim.
Segundo o Relatório Decenal das Alfândegas Imperiais de 1182-1891, o número de grandes juncos
frequentando o porto de Beihai reduz-se a algumas unidades que levam a mercadoria aos portos vizinhos. Estes
jJuncos chamam-se Toumeng e Anpu Du.
IE Toumeng (nc 476). Capacidade: 3.000 a 5.000 picos. Tripulação: 16 a 20 homens. Estes juncos são
construídos muito solidamente e habilmente manobrados. Cerca de 40 fazem comércio com Singapura. Fazem
uma só viagem por ano.
2 Anpu Du (ne 569). Outro tipo de juncos, de uma capacidade de 600 a 700 picos. Como o nome indica,
traficam entre Anpu e Hanoi. A fraca tonelagem não lhes permite fazer grandes viagens. Há, além disso, um
tipo ainda mais pequeno, de 200 a 500 picos de capacidade, de muito pequeno calado, que transporta passageiros
e mercadorias entre Beihai e os pequenos portos vizinhos.
Em 1905, o número de juncos de todas as tonelagens que visitaram este porto atingiu os 886.
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ALTO YANGZI JIANG
NAVEGAÇÃO DOS JUNCOS NO ALTO YANGZI JIANG
A simples descrição dos juncos do alto rio seria de leitura demasiado penosa, se não fosse precedida de
algumas informações sobre o género de navegação que esses navios nele são chamados a praticar.
O Yangzi Jiang, com 3.000 quilómetros de vias navegáveis, apresenta nesse longo percurso uma tal
diversidade de aspectos, que aí encontramos toda a gama de obstáculos que se podem esperar, de uma forma
geral. da navegação fluvial. É portanto interessante olhar para as dificuldades da rota e apercebermo-nos das
providências tomadas para as ultrapassar, tanto pelo construtor do junco como pela tripulação.
O Baixo Yangzi Jiang, desde a foz até Yichang (nc 1), a 1.800 quilómetros do mar, não apresenta
dificuldades sérias à navegação. O rio é largo em toda a parte e tem profundidade suficiente mesmo em períodos
de águas baixas, para dar acesso aos maiores juncos. Não nos aparecem. enfim, salvo uma corrente às vezes
bastante violenta, nenhum dos grandes obstáculos que se encontram tantas vezes a montante de Yichang.
Na secção superior, que se designa com o nome de Alto Yangzi Jiang, o aspecto do rio muda totalmente.
À imensa planície que se estende quase uniformemente até ao mar, sucede de repente uma região montanhosa
em que o rio corre num corredor estreito, sinuoso, encaixado profundamente entre duas margens abruptas. O
seu curso é cortado por numerosos e violentos rápidos, que constituem com as fortes cheias de verão, os principais
obstáculos à navegação. Estes rápidos resultam de escolhos no leito do rio, de uma elevação brusca do fundo
formada pelos materiais arrastados pelas torrentes e mais vezes ainda pela aproximação das margens que apertam
a veia líquida.
Aparecem, em geral, sob à forma duma vasta toalha de água, lisa à superfície e animada de grande
velocidade. Muito larga no princípio, esta toalha aperta desenhando um grande V e termina em ponta para
baixo, com uma velocidade mais e mais acentuada. De cada lado desta veia líquida, surge a água e vagas curtas
e cavadas que chocam umas com as outras e rebentam ao longo das margens, enquanto que na base da ponta se
formam grandes turbilhões em todos os sentidos, que descem com o tumulto e o fragor duma catarata.
TRANSPOSIÇÃO DE UM RÁPIDO
A transposição de um rápido à subida é sempre uma operação delicada e perigosa. Leva a maior parte das
vezes duas a três horas, exige esforço contínuo e necessita de uma grande experiência. golpe de vista e uma
habilidade manobreira de primeira ordem. Os pilotos e os patrões dos juncos, que de pais para filhos, e desde a
primeira juventude, exercem esta dura profissão em que têm a vida sempre em perigo, reúnem estas qualidades.
Quanto às equipas de sirgadores e de remadores dão provas de arrojo e de habilidade extraordinária.
Nada os faz parar nas suas tarefas perigosas, e se acontece algum acidente, o que é bastante frequente, fica a
dever-se mais à falta de força física que à imprevidência. A sua resistência e perseverança no trabalho são
incomparáveis. Durante dias inteiros, cortados apenas pelas horas das refeições, fazem a alagem dos cabos
contra uma corrente violenta, ao longo dessas margens abruptas, por veredas cheias de precipícios quase
inacessíveis ( Estampas 2 e 3).
Mas é na subida dos rápidos que é preciso vê-los no trabalho, se se quiser apreciar as qualidades de
audácia e de sangue-frio que têm que mostrar para ultrapassar os mil e um perigos imprevistos desta navegação.
239
Estampa | Panorâmica de um rápido
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São ajudados nestas manobras por equipas suplementares de alagem, recrutadas localmente nas miseráveis
pequenas aldeias encostadas à margem.
A jusante dos obstáculos que produzem os rápidos, reina uma zona de água calma, onde o junco se abriga
enquanto a tripulação prepara os dispositivos para a subida.
Fortes espias. de casca de bambu com 200 a 300 metros e mais de comprido são estendidas para a
margem. Uma delas passa num moitão ou num anel de cabo depois de ter sido amarrada numa travessa que está
no pé do mastro (Estampa 4) e, daí enviada para terra onde será esticada à ordem do piloto. O chicote dá volta
numa estaca de pedra ou numa rocha e é espertada à medida que se avança. No moitão, em que passa esta espia,
aplica-se um estropo de corda, que vai por seu turno passar numa roldana fixa no tope do mastro.
Graças a este dispositivo a espia de alagem pode ser içada ou arriada para evitar um obstáculo, sem
entravar o andamento dos homens da sirga. Um ou dois cabos passados a terra mantêm o junco de través.
Logo que tudo esteja pronto para se abordar o rápido, um rufo de tambor executado por ordem do piloto
marca o começo das operações. Os homens da sirga. em número de 100 a 200. às vezes mesmo 300, conforme
a violência do rápido, espertam as espias, enquanto a bordo, os cabos passados para terra pelo través são
folgados lentamente e sem saltos, enquanto homens com croques fazem sair o junco do abrigo e o conduzem
para o olho do rápido onde se forma um grande desnível. De repente, o junco é assolado por fortes vagas que lhe
castigam a proa e nela quebram, inundando o convés; depois, sob a impulsão dos remoinhos e dos turbilhões o
Junco é furiosamente sacudido para bombordo ou para estibordo, toda a sua ossada estremece, mergulha e
empina-se, dando terríveis guinadas. O momento é decisivo, angustiante. Nenhuma força humana poderia
evitar um desastre se o piloto, atento aos movimentos desordenados da corrente. não agarrar o momento propício
para se lançar ao ataque.
», o: 0] ” a sa a : k .
Pouco à pouco, no entanto, com o esforço combinado das espias que o prendem à margem, o junco toma
241
uma posição de equilíbrio entre os remoinhos e os turbilhões e chega ao olho do rápido, uma verdadeira subida
duma escada líquida, que é preciso subir polegada a polegada com alternativas inquietantes de paragens e de
recuos, conforme as oscilações da corrente. É uma nova prova por que é preciso passar, mas aqui a ciência do
piloto não entra mais em jogo; o sucesso só depende das espias serem valentes e da resistência dos sirgadores.
Se umas ou outros cederem é quase certa a perda de vidas e bens, pois se for à deriva, incapaz de se governar na
sua descida desenfreada, o junco estará infalivelmente perdido se bater numa rocha,
Enfim passado o obstáculo, livre deste entrave, o junco retoma a velocidade e em breve chega ao topo da
toalha líquida, onde a corrente mal se sente.
A transposição de um rápido é muitas vezes marcada por incidentes, que trazem à luz as sólidas qualidades
das tripulações dos juncos.
Estampa 4 Kua Zi subindo o rio
TRIPULAÇÕES DE JUNCOS
Este pessoal compreende, além do patrão ( nc 2) que tem a direcção geral das operações, o piloto de vante
(Tai Kong ), personagem muito importante, que acumula as funções de mestre com as de piloto em chefe. Fica
à proa, com um comprido bambu que faz de sonda na mão, dando por gestos ao homem do leme as indicações
para O governo. Perto dele está o grande Sao, com quatro ou cinco homens escolhidos, prontos a actuar
vigorosamente a um sinal seu, assim como os grupos dos lemes de gingar laterais. Dá ordens aos homens da
sirga por intermédio do seu homem de confiança, o (Lao Gin Gong) ( nc 3), por meio de sinais convencionais,
tangendo um tambor. Enfim, para terminar esta enumeração do pessoal adstrito especialmente ao junco, é
preciso citar o cozinheiro de bordo ( Estampa 5 ), para o qual os olhares convergem sempre com um certo
enternecimento, e que passa tranquilamente os seus dias sentado num painel do convés, a descascar legumes, a
cozer o arroz da tripulação e que só deita uma mãozinha à manobra no momento em que o perigo o faz sair do
seu nicho.
As equipas de alagem compõem-se de pessoal contratado para a travessia, cujo número pode atingir ou
242
74 E
y ç Cr
Estampa 5 Cozinha da tripulação
Estampa 6
Tracção da espia de alagem
mesmo ir além de 50, e depende da altura de água que leva
o rio. Esta equipa come e dorme a bordo do junco ou do
seu anexo, o Wu Ban (nc 4), (Estampa 22), que o acompanha
na subida do rio. A segunda equipa, essencialmente variável
em número segundo a tonelagem do junco e as
circunstâncias da subida, é recrutada no caminho, nas
inúmeras pequenas aldeias que se erguem nas margens e
nas vizinhanças das passagens perigosas. Estas aldeias
compõem-se de pobres cabanas de pranchas, que se
desmontam e reconstroem mais alto na arriba, à medida
que o nível do rio aumenta durante as cheias de Verão.
Voltam a ser reconstruídas mais a baixo, durante a descida
das águas. Servem de asilo à população andrajosa, roída
pela miséria e pelo ópio, vivendo unicamente do magro
salário que obtêm com a alagem dos juncos. Este bando de
miseráveis. composto por homens de todas as idades,
mulheres e crianças, é dirigido por um chefe armado com
uma chibata de bambu que agita febrilmente, berrando
como um doido e gesticulando para estimular, sem grande
sucesso de resto. o zelo dos sirgadores.
A tracção da espia faz-se com uma faixa de tecido
grosso passada a tiracolo num dos ombros (Estampa 6).
Esta faixa tem nas duas extremidades unidas por um cordão
de três a quatro metros, uma anilha de ferro do tamanho
duma grande sapeca chinesa. Passada à volta da espia de alagem, o cordão é arrastado por ela mesma para vante
e prende tanto mais, quanto mais a tracção é forte. No entanto bastará uma simples paragem na tracção para que
o cordão se solte, e que o sirgador fique liberto instantaneamente da espia. Este dispositivo garante uma segurança
perfeita, pois, muitas vezes, num brusco esticão da espia, o sirgador arrisca-se a ser precipitado no rio, duma
arriba por vezes muito alta. Para andarem nos trilhos pedregosos, os cules sirgadores usam sapatos feitos com
uma sola de palha atada ao pé por cordões. Nos terrenos escorregadios, prendem por baixo das solas um patim
de ferro ( Estampa 7).
Sandália de cule.
Patim
Sandália com patim para cule sirgador:
A equipa do junco compreende três ou quatro latagões, bons nadadores, cujo papel, particularmente
perigoso, é duma importância capital na subida do rio. À sua tarefa é desenrascar a espia sempre que ela fique
presa nas rochas ou noutros obstáculos, tanto nas margens como nas águas mais revoltas. É por vezes com
prodígios de acrobacia que eles conseguem trepar a falésias a pique ou infiltrarem-se nos recantos dos rochedos
varridos pelas águas em fúria. A sua destreza e o seu sangue-frio são na verdade extraordinários.
Em todas as operações de subida, os grandes juncos fazem-se acompanhar por um Wu Ban ( ver Estampa
22), uma espécie de embarcação ligeira, de pequeno calado, servindo para o transporte das espias e para 0 vai-
-vem dos sirgadores entre o junco e à arriba. Entregue só aos seus meios, o grande junco não poderia, sem
perigo, executar estas manobras que se repetem a cada momento do dia.
A NAVEGAÇÃO NA DESCIDA
Na descida as dificuldades são de outra ordem; as equipas ficam a bordo e só intervêm, por ordem do
piloto, para accionar os remos e o grande Sao, tendo em vista facilitar as evoluções quando o junco fica sem
velocidade. É um espectáculo verdadeiramente impressionante esta descida a grande velocidade através dos
rápidos. Os mastros foram arriados e deitados por fora do costado ao longo do casco, as espias, as velas e os
remos sobressalentes são colocados a monte numa inextricável desordem sobre os tectos dos rufos, enquanto o
convés fica cheio de remadores, 60 a 80, de torso nu, os calções azuis flutuando ao vento, uns manobrando os
remos laterais, de pé e face à proa, os outros os grandes lemes de gingar laterais. Uma equipa, dirigida pelo
piloto de vante, actua no Sao intermitentemente, subitamente, energicamente, para evitar um perigo imediato.
Tudo isto se passa no meio de gritos, de vociferações que a ameaça de um perigo acentua. Depois tudo
entra na ordem e os remadores retomam a cadência, acompanhados pelo canto do chefe de fila, a que respondem
244
com o refrão habitual “ Niao Nie “, cem vezes repetido no mesmo tom monótono.
Esta incursão no domínio dos rápidos pode explicar certos pontos da construção chinesa que uma descrição,
mesmo muito precisa, não poderia pôr em relevo se não fosse completada por um olhar lançado sobre a prática
desta navegação tão pouco conhecida. Permite, além disso, mostrar as dificuldades ultrapassadas pelos
marinheiros chineses que foram tantas vezes menosprezados nas suas construções, métodos de navegação e
mentalidade. É preciso ter assistido a esta luta incessante e perigosa contra as diversas formas, por vezes
dissimuladas, que apresenta o elemento líquido, para nos convencermos da audácia e da resistência destes
bravos marinheiros chineses que nunca poderemos deixar de admirar.
A Estampa | representa a vista panorâmica de um rápido durante a subida de um junco por meio dos
dispositivos de alagem que acabámos de descrever. Este rápido apresenta a forma mais geral, dita em degrau de
escada, produzido pela aglomeração de pedras roladas por uma torrente da margem esquerda, pedras que são
despejadas perpendicularmente ao canal reduzindo assim a largura do rio.
A jusante deste degrau, principal obstáculo que tem este rápido, dois grupos de juncos estão estacionados
nesta mesma margem, abrigados da grande corrente. Os do grupo mais afastado procedem à descarga das suas
mercadorias que serão transportadas por via terrestre às costas de homens, a fim de aliviar o junco e também
para evitar os riscos de naufrágio, tão frequentes nestas circunstâncias. Uma vez descarregados. os juncos
sobem na sua vez, até ao segundo grupo e fazem os últimos preparativos para transpor o rápido. A primeira
operação consiste em estender as espias de alagem, duas, três e mesmo quatro, conforme a tonelagem do junco
e a força da corrente.
Estas espias são mantidas acima da água por sampanas e homens ao longo da margem, para evitar que
fiquem presas debaixo das rochas.
Chegam assim ao caminho de alagem, onde as equipas compostas por centenas de homens. mulheres e
crianças, estão prontos a agir ao sinal dado pelo piloto do junco. Uma destas espias, dita de segurança. dá volta
numa rocha e é embarcada à medida que os cules vão avançando. Um segundo trilho, escavado alguns metros
acima desta última, será utilizado durante as cheias.
RECRUTAMENTO DOS CULES PARA A ALAGEM
O número de cules para a alagem recrutados no local para a subida dos rápidos é, em geral, importante.
Homens, mulheres e crianças de todas idades, todos enfezados e fracos, apresentam-se em multidão para tomar
parte neste trabalho, ainda por cima pouco remunerador. Nem todos são aceites, mas os que o não são, não têm
nenhum escrúpulo, uma vez a manobra acabada, de se juntar aos outros para receber o salário a que não têm
direito.
Naturalmente que são tomadas precauções para evitar estes abusos, consistindo uma delas em marcar um
dos braços do contratado com um sinal à tinta da China que servirá de prova no momento do pagamento. Sendo
este carimbo bastante frágil, o menor atrito o poderia apagar, pelo que o homem tem cuidado em ter o braço no
ar, evitando qualquer contacto, o que o torna um trabalhador inútil. O patrão tem que ter muita paciência e
muita indulgência, para tolerar tal atitude, que é contrária aos seus interesses, mas que ele se obriga a aceitar
para salvaguardar o ganha-pão destes miseráveis que, apesar de tudo, lhe são indispensáveis.
GRANDE JUNCO DE COMÉRCIO
Este junco ( Estampa 8 ) representa, sem contestação, o tipo mais apropriado à perigosa navegação nos
rápidos do Alto Yangzi Jtang.
Há-os de várias dimensões, oferecendo sensivelmente as mesmas características: os maiores atingem dO
a 45 metros de comprimento e um deslocamento de 80 a 100 toneladas.
O casco é construído solidamente, o convés pouco elevado acima da água e livre em dois terços do
245
comprimento, tendo em vista facilitar a manobra das espias e dos remadores.
A disposição do convés consiste num rufo construído para ré do mastro e que se divide em três partes. A
de vante reservada ao pessoal, a do centro encerra o leme e tem uma pequena ponte onde fica o piloto, e por fim
a de ré, muito exígua, dá passagem à cachola do leme, Estas três partes são cobertas com um tecto fixo, feito de
esteiras revestidas com um verniz que as torna impermeáveis.
O tecto que cobre o compartimento do leme é mais alto na parte de vante para dar visibilidade ao homem
do leme. O casco apresenta um adelgaçamento considerável, que com as duas fortes cintas que o cinturam
assegura uma sólida ligação no sentido longitudinal.
As anteparas estanques são pouco numerosas, duas ou três a vante e duas a ré, para localizar os veios de
água que se produzem habitualmente nestes locais a seguir a um encalhe ou a um embate numa rocha. Todo o
comprimento do porão é utilizado para as mercadorias, salvo um pequeno compartimento enquadrado por duas
anteparas estanques que é reservado para a cozinha da tripulação.
O convés é constituído por painéis móveis que assentam sobre um forro fixado no interior do casco e no
qual foi cavado um sulco para receber e evacuar a água do convés. O junco não tem guincho nem cabrestante;
todas as manobras de força são feitas a braço, e a maior parte das vezes em terra, por equipas de alagem.
Duas ou três travessas de madeira assentam sobre o alcatrate e são solidamente fixas por botões feitos de
rota. Servem de cabeços e de cunhos para dar volta às espias e para as manobras correntes das velas. No painel
de vante e fazendo corpo com o casco, uma outra travessa serve de suporte ao Sao (nc 5). Os extremos destas
travessas que saem 50 centímetros fora do alcatrate, são usados para aguentar o junco por meio duma estacs
dirigida para vante e na água para o fundo, seja para se evitar uma atracação demasiado violenta ou quebrar o
seguimento do junco. A manobra desta estaca é delicada; exige uma grande prática para assegurar bom resultado,
do qual depende muitas vezes a existência do junco. ( ver II Parte, Estampa 54, figura 6 ).
Duas outras travessas salientes servem de apoio aos imensos lemes de gingar laterais. O leme é de
grandes dimensões; a sua porta compensada adapta-se perfeitamente com a forma curvilínea da carena que se
ergue numa curva regular para formar o painel da popa.
Observando esta porta de leme que, pelo seu perfil, se harmoniza tão bem com a curvatura da carena e
cuja parte inferior está no prolongamento do tabuado de fundo, é-se levado a crer que à compensação foi
realizada não com o fim de diminuir o esforço sobre a cana do leme, mas tendo em vista colmatar o vazio para
a parte de vante da madre, a fim de proteger esta contra um choque brutal de um objecto sobre o qual o junco
deslizasse. É também com o fim de reagir contra um esforço imprevisto sobre a madre que o leme é cinturado
por uma forte espia cujos chicotes dão volta nas duas travessas da popa.
Normalmente, estes juncos têm um leme sobressalente que está, em geral, colocado na antepara exterior
do rufo. Além das velas que não são usadas senão na subida do rio, os meios de propulsão consistem em dois ou
quatro lemes de gingar laterais que se apoiam em pivots encastrados nas travessas do convés sendo cada um
deles manobrado por uma equipa de oito à dez homems.
A vante destes lemes de gingar, há seis a oito remos de cada bordo que servem igualmente para a propulsão.
Enfim, um enorme Sao (nc 5) com uma vintena de metros assenta entre dois cunhos sobre a travessa de vante.
E de uso constante no decorrer da navegação, sobretudo na descida em que o junco se desloca com a corrente e
não obedece ao leme.
Um mastro muito alto, quase tão comprido como o juncos sem ovéns e sem estais, é montado a alguma
distância para vante do rufo. Assenta numa espessa prancha de madeira, no fundo do porão e graças a duas
falcas móveis que o encaixam na enora. Pode facilmente desmontar-se e trazer-se para o convés.
O mastro é envolvido, a dois metros acima do convés, por uma espessa coroa de madeira na qual é
escavado um sulco, servindo de goteira por onde escorre a água ao longo do mastro. A coroa serve ainda de
apoio à vela quando esta é arriada.
246
Estampa 8 Junco de comércio
A vela é feita em duas partes da mesma largura; a que está em contacto com o mastro, de panos cosidos,
enquanto a outra é formada por panos separados e simplesmente ligados por uma cosedura em ponto de bainha.
Estas duas partes são reforçadas por um grande número de varas transversais, fixadas, por um lado, junto da
parte do pano encostada ao mastro, e por outro, alternativamente de um lado e de outro dos panos separados.
A alagem do junco opera-se como já vimos mais acima com uma grande espia feita de casca de bambu.
E amarrada num cabeço no pé do mastro, passa depois num estropo ou num moitão ligados à extremidade de
um cabo que desce para o convés depois de ter passado numa roldana no tope do mastro. Do estropo a espia vai
para a margem. Este dispositivo de roldana móvel permite içar ou arriar a espia à altura que for conveniente para
os obstáculos do caminho.
Na travessia de descida, arria-se sempre o mastro, que não serve nem para a alagem, nem para o velame,
pois um junco nunca desce à vela, por muito favorável que seja o vento. A tripulação é utilizada nos remos, de
pé e de frente para a proa e só deixa de remar para tomar as refeições. Chegada a noite, são montadas esteiras no
convés e os homens deitam-se lado a lado apertados como arenques (Estampa 14)
KUA ZlI (nc 6)
O Kua Zi (Estampa 4) é especialmente destinado ao transporte de passageiros. Este tipo de junco está a
desaparecer de alguns anos a esta parte, diante dos navios à vapor que asseguram as comunicações entre Yichang
(nc 1) e Chongging (ne 7). O comprimento vai de 18 a 25 metros, a boca de 3,5 a 5 metros. O casco é maciço,
pouco robusto e o aspecto não é elegante. Pelo contrário, a decoração está bem concebida para dar um certo
conforto ao viajante complacente.
O alojamento afectado ao uso dos viajantes ocupa dois terços do espaço compreendido entre o mastro e
o painel da popa. Compõe-se de três câmaras, com tectos altos. decoradas com pinturas e separadas por anteparas
móveis, tendo ainda uma câmara mais a ré, que serve de cozinha e de alojamento para os criados. Depois deste
Estampa 9 Kua Zi do Min Jiang
rufo fica o compartimento do leme, aberto por três lados e com uma cobertura mais elevada, permitindo ao
homem do leme, em pé em cima duma pequena plataforma, ver à sua volta. Por trás deste abrigo, um modesto
reduto serve de alojamento ao patrão e à família sendo a porta de entrada decorada com um nicho, semelhante
à frente de um pagode esculpido onde reinam os deuses tutelares, e diante dos quais ardem permanentemente
varinhas perfumadas.
O Kua Zi tem, como a maior parte dos juncos do Alto Yangzi Jiang, um grande Sao a vante, dois lemes de
gingar laterais e vários remos a cada bordo.
Um mastro alto e sólido ergue-se junto da antepara de vante do rufo; enverga uma simples vela rectangu-
lar de algodão que só é utilizada para a subida.
O laopan (nc 2) - patrão do junco - fica, quando se navega, no tecto do rufo, donde dirige as manobras de
alagem enquanto à proa, o piloto chefe, sonda continuamente com um comprido bambu, observando os bruscos
movimentos da corrente, que possam necessitar da intervenção imediata do Sao. Outros juncos do mesmo tipo
(Estampa 9) afectos igualmente ao transporte de viajantes navegam no Alto Yangzi Jiang e seus afluentes. O
casco é mais leve, a popa menos maciça e o conjunto mais elegante que o do Kua 21, descrito mais acima. Estes
juncos sobem o Min Jiang (nc 8), grande afluente da margem esquerda do Yangzi Jiang. até Chengdu (ne 9),
capital da província de Sichuan (nc 10), durante o período das cheias de Maio a Novembro.
INSTALAÇÕES INTERIORES DE UM KUA Z1
Penetremos agora na intimidade destes juncos que tantos viajantes estrangeiros conheceram, por os terem
utilizado nos seus passeios no Alto Yangzi Jiang, na época, pouco longínqua ainda, em que os navios a vapor
não asseguravam o serviço entre Yichang c Zhenjiang.
O junco que vamos descrever nas ocupações diárias dos seus habitantes é um Kua Z1 de tonelagem
média, dez a doze toneladas, decorado como uma casa flutuante (house boat), para uso dos viajantes. Os
248
funcionários chineses servem-se igualmente dele nas suas deslocações oficiais em vez dos juncos militares,
chamados Pa Chuan, que oferecem menos comodidades para as suas recepções.
O comprimento do Kua Zi em questão é de cerca de 20 metros, a boca de 3,50 a 4 metros, o calado médio
de 3 pés.
As suas instalações consistem num rufo de 7,50 metros de comprido, 3.50 metros de boca, 2,5 metros de
altura. Como a parte exterior do rufo coincide com os bordos, a circulação entre proa e popa só se pode fazer
passando pelo tecto do rufo, a que se tem acesso por meio duma escada encostada à antepara a vante, perto do
mastro. Este rufo é exclusivamente para serviço do viajante e da sua casa. A ré fica o compartimento do leme e
o alojamento do patrão.
Quanto à tripulação, dispõe em tudo e para tudo do convés a vante com 8 metros de comprido, entre o
mastro e a roda de proa. É aí que executa as manobras das amarras, dos lemes de gingar e do grande Sao, é aí
que cozinha, toma as refeições e descansa de noite. Custa a perceber, como os 23 homens que compõem a
tripulação, às vezes mesmo mais, possam ocupar-se de tudo isto num espaço tão restrito.
E preciso notar que este convés não está equipado nem com cabrestante nem com âncoras, aparelhos que
não se usam nos juncos do Alto Yangzi Jiang, e que por outro lado os meios de propulsão, remos e remos de
gingar, ficam ao longo da borda durante as refeições, assim como no fundeadouro.
O rufo do viajante compreende quatro compartimentos, separados por divisórias móveis, sendo o maior,
o de vante, com 3,50 por 2.50 metros. Serve de sala de recepção, de escritório e de casa de jantar ( Estampa 10).
Uma porta com dois batentes dá para o convés de manobra e é o acesso principal ao alojamento do viajante.
Quando o junco é ocupado por um mandarim, esta porta é ornamentada com tapeçarias vermelhas com cercaduras
brancas, lanternas e bandeiras enquadrando o guarda-sol vermelho com vários folhos. Aos lados do rufo há
tabuletas com letras de ouro, com os títulos e funções do mandarim ( Estampa 11). A sala de recepção é
mobilada com um divã, mesas, cadeiras, e outro mobiliário de que o viajante paga o aluguer, se não forem de
sua propriedade. A roupa de cama e os utensílios de mesa e de cozinha, são igualmente encargo seu.
Finas esculturas junto das divisórias e painéis, com inscrições em fundo dourado, dão a este interior um
cunho de originalidade e de conforto, que começa por nos seduzir. Mas esta sensação de bem-estar e de intimidade
desaparece quando o junco larga as amarras e começa a viagem. A tripulação está aos remos, os pesados lemes
de gingar laterais são postos em movimento e com os esforços redobrados destes homens, berrando como
doidos e batendo o pé para se entusiasmarem, toda a ossada do Kua Zi estremece, e o barco inclina-se com
balanços bruscos. Estas manobras repetem-se vezes sem conta durante o dia, sempre desagradáveis. havendo
ainda a somar os acidentes materiais que invariavelmente acontecem, à loiça em particular, e que são sempre
irreparáveis durante a viagem. O infortunado viajante só tem uma maneira de se furtar, pelo menos
momentaneamente, a estes contratempos físicos, que é sair de bordo quando as circunstâncias o permitam, no
Hong Chuan que teve a precaução de obter antes da partida de Yichang. Não insistamos mais nos outros
aborrecimentos que esperam o locatário estrangeiro, a quem faltam as comodidades mais indispensáveis, assim
como à tripulação, cuja vizinhança é muitas vezes intolerável.
O quarto de dormir que se segue ao salão tem dimensões um pouco mais pequenas: 3,50 m. por 2 m. É
iluminado por duas janelas a cada bordo, e mobilado sumariamente com um canapé rústico ou uma cama de
bambu e vários objectos trazidos pelo viajante. Este quarto comunica com o seguinte. destinado aos criados,
por uma porta instalada na antepara móvel. É um pequeno reduto de 3,50 m. por 1.50 m., ocupado quase na
totalidade por uma cama de campanha. Penetramos a seguir no último compartimento, que serve de cozinha do
viajante. De dimensões ainda mais reduzidas que o anterior, 3,50 m. por 1.25 m, está atravancado de toda à
espécie de utensílios caseiros, forno, bateria de cozinha, tudo numa desordem inaudita. Quanto à provisões de
boca estão arrumadas, aqui e ali, nos porões, debaixo do chão do rufo, entre a desordem das malas, caixas e
mais bagagens do viajante. Entre os utensílios que é indispensável obter antes da partida assinalemos os recipientes
249
Ee -
aaa
!
Estampa 10 Interior de um Kua Zi de Mandarim
e os jarros destinados à depuração da água para as necessidades diárias. Esta água, tirada à borda, não é potável:
vem carregada de matérias sólidas, com lodo amarelado em suspensão, que só desaparece se se lhe deitar
alúmen.
CASA DO LEME
Saindo deste grande rufo pela porta da cozinha, entramos na casa do leme ( Estampa 12 ), um vasto
compartimento com cerca de 3 metros de lado que está destinado a vários usos, sendo o principal o posto de
navegação ocupado pelo homem do leme. Este, empoleirado na sua pequena ponte, donde tem visão por cima
e para os bordos do rufo, manobra com habilidade e vivacidade o potente leme cuja acção se combina com a do
grande Sao, a vante.
A volta dele, numa confusão indescritível, caçarolas e moitões, marmitas de arroz e cabos, galinhas e
patos que se agitam muitas vezes na companhia de um porquito rabujento, à procura de comida por entre os
detritos da cozinha que estão por aqui e por ali no convés.
É com efeito nesta capoeira improvisada que a mulher do patrão prepara a sua comida, descasca a hortaliça,
lava o arroz, corta a cabeça aos animais e faz tantos outros trabalhos sujos e nauseabundos, como seja a lavagem
dos andrajos que secam depois no tecto, ao lado dos quartos de porco, peixes salgados, patos lacados e outras
provisões de boca. É neste mesmo compartimento que as águas do porão se juntam e ficam estagnadas até ao
momento que as suas emanações fétidas chamem a atenção de quem as despeje.
A Estampa 12 mostra o interior da casa do leme onde os três convivas habituais, o patrão, o piloto e o
homem do leme, tomam as refeições acocorados à volta da marmita de arroz, enquanto a mulher do patrão e o
filho ficam à entrada da porta que dá acesso ao último compartimento do seu alojamento. Depois da refeição da
tarde, esteiras e painéis móveis são colocados à volta das aberturas para transformar em dormitório este pátio
sujeito a todos os ventos. O piloto e o homem do leme, pouco exigentes quanto à questão do conforto, instalam-
-se como podem, neste dormitório improvisado.
O último compartimento, que é ocupado pelo patrão e pela família, é o mais exíguo e o menos habitável
250
3 SJ JoL-
ES
inn eê ea
je
SA
“grala ira vá
3- 4
Por tua
Estampa 1H Porta de entrada do salão de recepção
de todo o junco. Duas pranchas, servindo de camas, constituem o único mobiliário deste tugúrio que fica
encostado ao painel da popa. de que toma à forma alargada na parte de cima, estreita em baixo, o que torna a
circulação impossível, Duas lucarnas a cada bordo, uma terceira a ré, dissipam mal os miasmas da latrina
instalada ao pé dos catres.
Não deixemos estes estranhos compartimentos de ré sem assinalar o modesto altar colocado por cima da
porta do patrão, e onde fica encerrada a divindade tutelar do junco. É aí que reside Tianhou (ne 11), a “Rainha
do Céu”, padroeira dos marinheiros, diante da qual ardem permanentemente delgadas varinhas perfumadas -
“pauzinhos djoss” e papéis divinos - “papéis djoss” - como são chamados em linguagem “pidgin” ou gíria
anglo-chinesa.
REFEIÇÃO DA TRIPULAÇÃO
Voltemos agora ao convés de vante onde à tripulação exerce as suas ocupações quotidianas, quando o
serviço de alagem não a chama para as margens do rio. Ei-los a tomar à sua refeição ( Estampa 13).
O Kua Zi desce lentamente ao sabor da corrente, os remos e o Sao estão fora de água e prontos a ser
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|O REDNERA (Aja
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Estampa 12. Casa do leme
postos em acção por ordem do patrão, que, do alto do tecto do rufo, vigia o rumo. À subida, a refeição toma-se
a maior parte das vezes quando o junco está amarrado, ao abrigo da corrente, e a horas variáveis consoante as
circunstâncias da navegação. Em geral há três refeições quando se navega, duas nos dias de descanso. Os
homens ficam acocorados no convés, com a tijela de arroz numa mão e noutra os pauzinhos de que se servem
a todo o instante para debicar numa tigela comum, um bocado de carne ou de hortaliça, que misturam com o
arroz, o seu alimento principal. Acabada a tigela, o homem pode comer outra € mesmo uma terceira.
Quanto à bebida, consiste unicamente em chá bem quente que o cozinheiro deita na tijela depois da
refeição. Não há álcool, nem vinho de arroz, o que os sirgadores encontram facilmente nas estalagens e nos
locais em que se fuma ópio, sempre muito numerosos nas aproximações dos rápidos.
O cozinheiro é, pelas suas funções, um personagem importante que goza duma grande simpatia entre à
tripulação. Ocupa, no convés a vante, um pequeno compartimento no porão ( Estampa 5 ), arranjada especialmente
para ele e para as grandes marmitas em que coze o arroz, ocupando-se tranquilamente das suas tarefas, sem se
incomodar com a desarrumação, as rixas, OS gritos que ouve à sua volta. Só em casos graves é que sai do seu
buraco, para se juntar à guarnição e ajudar nas manobras urgentes. Se a situação se torna crítica, tenta aplacar o
furor dos génios maus das águas, deitando no rio algumas mãos cheias de arroz. Este gesto conciliador traz-lhe
a gratidão de toda a tripulação que volta a ter confiança no futuro do seu destino.
Estampa 13 Refeição da tripulação
DORMITÓRIO
Depois da refeição da noite são tomadas medidas para transformar a casa de jantar em dormitório. Para
este efeito, são colocados à mesma distância umas das outras estacas à borda, ligadas depois transversalmente
por varas, sobre as quais vão assentar grandes esteiras impermeáveis. Este dormitório improvisado é largamente
aberto dos lados. Os homens, deitados de qualquer forma no convés, sempre mal vestidos, expostos ao vento.
ao frio e à chuva, não têm outro recurso para aguentar estas intempéries, senão enroscar-se uns nos outros como
arenques, ou enrolar-se dois a dois num cobertor, com à cabeça de um em frente dos pés de outro (Estampa 14).
Ao nascer do dia toda esta armação que cobre o convés é prontamente levantada, as esteiras são guardadas por
baixo do tecto do rufo, e serve-se a primeira refeição de arroz.
LARGADA
Acabada a refeição o junco começa a tomar medidas para a largada. Os cabos e as estacas que mantêm o
navio afastado da margem são metidos dentro, os remos e os remos de gingar laterais começam a ser accionados.
fazendo estremecer toda a carcaça do navio, entrando depois em acção o grande Sao. Os remadores. de pé no
convés, a cara virada para vante ( Estampa [5 ), inclinam-se para trás, mergulham na água o seu grande remo e
empurram-no diante deles, enquanto dois potentes lemes de gingar laterais, duma dúzia de metros de comprido,
são manobrados por uma equipa de oito a dez homens, dirigidos por um homem que fica no exterior do convés.
em cima duma prancha que dele sai. E então que começa um barulho infernal: a tripulação, toda ela. grita. uiva.
discute até ao momento em que o chefe de equipa, dominando a algazarra com a sua voz forte. faz ouvir a
melopeia que vai marcar o ritmo do movimento dos remadores. A calma volta pouco a pouco e os homens
manobram em cadência, acompanhando--se com o refrão monótono “ Niao Nide *, muitas vezes repetido.
Depois, subitamente, rompendo o silêncio, o ritmo acelera-se, seja à vista de um junco que se quer ultrapassar,
seja para transpor uma passagem difícil. O andamento precipita-se, as equipas dão força de remos, batendo
fortemente com o pé, todos à uma, o canto transforma-se em uivos, em vociferações selvagens que se repercutem
de um junco para outro e nos flancos abruptos das gargantas, Estas ruidosas manifestações são toleradas, senão
provocadas pelo piloto que dirige as manobras e conduz o junco. O seu papel é, nesta sequência, dos mais
E
Estampa 4 Dormitório da tripulação
importantes: de pé na travessa de vante em que assenta o Sao, segura nas mãos um comprido bambu (Estampa
15), que lhe serve para sondar o canal, agita-se como um diabo, profere injúrias, mostra o punho aos remadores
para os forçar a redobrar de esforços. Durante isto, o patrão, acocorado no seu posto habitual, debaixo do tecto
do rufo, assiste impassível a este tumulto ensurdecedor que se desenrola a seus pés. A sua autoridade é, por
assim dizer, quase nula, e por isso os homens aproveitam para trabalhar o menos possível, o que se explica pelo
tacto de serem alimentados durante toda a viagem qualquer que seja a sua duração, e por terem recebido o
salário antes da partida. No princípio deste século, esses salários atingiam 3.000 sapecas (7 à 8 francos) para a
viagem de subida, aos quais há que juntar a comida de graça. Na descida as equipas não recebem salário, apenas
lhes é dada a alimentação.
Quanto aos sirgadores suplementares recrutados no local para a transposição de um rápido, são uns
pobres miseráveis cobertos de parasitas e de chagas, os rostos abatidos pelo sofrimento e pela falta de alimentação.
Vêem-se mulheres com os pés deformados, mal se aguentando nas pernas, crianças muito novas, com 6
a 7 anos que, com a maior convicção, procuram, sem grande sucesso de resto, mover as grossas espias de
alagem. Estes desgraçados recebem por este duro trabalho que leva duas ou três horas, o magro salário de cinco
sapecas, ou seja, um cêntimo e meio da nossa moeda!
Voltemos a bordo do Kua Zi, que um vento favorável ajuda na subida do rio. Com a vela içada, cheia pelo
vento da popa que sopra nesta direcção uma grande parte do ano, todos os sirgadores estão a bordo num semi-
-repouso no convés, prontos a pôr em acção o grande Sao, uns fumando cachimbo ou comendo a tijela de arroz,
enquanto que outros, preocupados em conservar a vela cheia, não cessam de assobiar para atrair a protecção dos
génios dispensadores de ventos propícios.
Se a subida do rio oferece muitos perigos, é devido à experiência segura do piloto e à resistência que
mantêm as equipas, que as dificuldades podem ser vencidas com o mínimo de perdas. Por outro lado, a descida
apresenta tais imprevistos que os pilotos mais perspicazes são muitas vezes apanhados desprevenidos sendo
incapazes de fazer face a perigos mão esperados. Nesta viagem, como já o dissemos mais atrás, os juncos nunca
se servem da vela por muito favorável que seja o vento. Não sendo utilizada a alagem por cabo, o mastro torna-
-se inútil, sendo arriado e colocado ao longo da borda pelo exterior. O junco conserva-se normalmente à meio
do rio, onde a força do vento junta à acção dos remadores lhe imprime uma velocidade por vezes considerável,
o que lhe permite transpor com algumas perspectivas de sucesso os turbilhões, as contra-correntes e os
254
4 f; Ç =
MPR
Estampa 15 A tripulação dos remos
desnivelamentos que lhe tiram toda à estabilidade na rota.
Ao ver estes juncos sem mastro, o tecto cheio de espias e de toda a espécie de tralha, com cestos e sacos
pendurados nas bordas, numa desordem inextricável, diríamos tratar-se antes de destroços naufragados que as
águas levaram à frente delas. Os patrões dos juncos, que vão muito carregados, tomam a precaução de amarrar
a estrutura de ré com cabos em bambu que contornam o painel da popa ( Ver as Estampas 4e 8 ), a fim de resistir
aos choques que sacodem a popa e criam o risco de fazer saltar o leme dos seus apoios. Qualquer acidente que
ocorra em viagem é pouco menos que irreparável. A imprevidência do chinês é tal que a bordo não há nem
ferramentas, nem material para combater um acidente, por exemplo um veio de água, necessitando apenas
alguns pedaços de pranchas e pregos.
A viagem de descida de um Kua Zi faz-se normalmente em oito a dez dias. de Chongging a Yichang.
enquanto que para a subida é preciso contar com nunca menos de vinte e cinco a trinta e cinco dias. Bem longa
viagem sem dúvida, para percorrer 750 quilómetros, mas como é apaixonante e comovente através de gargantas
grandiosas com escarpas inacessíveis, ao longo de margens batidas por violentos remoinhos, com aproximações
umeaçadoras. Espectáculo inesquecível, pela variedade da paisagem que se desenrola, umas vezes prazenteira.
outras vezes severa, em alternativas de calma e de tumulto ensurdecedor das águas. Mas o que domina as
impressões do viajante, quer seja marinheiro ou não, é a resistência e o magnífico entusiasmo demonstrado
pelas equipas de alagem, nas duras provas dos seus deslocamentos ao longo de trilhos à beira de precipícios e
no meio de rochedos abruptos,
Não se permitem um único instante de repouso desde o nascer ao pôr do sol, salvo durante os poucos
minutos consagrados à tijela de arroz, sempre amarrados aos remos, ou às espias, e sempre manobrando com
ardor e mesmo agilidade.
Tudo isto pertence ao passado, visto que, desde 1909, navios a vapor asseguram as relações entre Yichang
e Chongging eo viajante estrangeiro que goste do pitoresco tem poucas esperanças de fazer esta excursão na
intimidade de um junco chinês.
ALIJAMENTO DA CARGA DOS JUNCOS
A entrada dos grandes rápidos em que o alijamento da carga dos juncos é necessária, os patrões juntam-
-se em número de cinco ou seis para se ajudarem nas operações de alagem e de transporte das mercadorias. A
Estampa 16 representa cules transportando um fardo de algodão com dois compridos bambus num dos ombros.
Têm na mão um grande bastão, de que se servem para manter o equilíbrio nos trilhos rochosos e apoiar a carga
Estampa 16 Transbordo de um fardo de algodão
nas curtas paragens de descanso.
Às pequenas cargas são levadas ao ombro num cesto suspenso por duas braçadeiras que passam em volta
dos braços ( Estampa 17). O carregador leva na mão um bastão ferrado com a forma duma picareta com duas
pontas, nas quais assenta à carga nos momentos de descanso.
Os carregadores de profissão transportam cargas que podem chegar à 200 libras chinesas, ou seja 120
quilos.
Para assinalar a presença ou a vizinhança de um perigo, tal como rochas submarinas, turbilhões,
abaixamento ou queda brusca das águas, os barqueiros tomam às vezes a precaução de espetar na margem, no
local mais próximo do obstáculo, algumas varas de bambu com inscrições ( Estampa 20 ). No pensamento dos
chineses, esta espécie de baliza preenche o duplo propósito de conjurar os maus espíritos que se escondem nas
águas e de servir de marca para Os navegantes.
256
PROTECÇÃO DAS ESPIAS DE ALAGEM
A Estampa 18 mostra um dispositivo frequentemente
usado para evitar que as espias de alagem fiquem presas num
rochedo quando são arrastadas por cima das rochas. Um cabo
de bambu de grande bitola une as várias cabeças de rochas
saídas, de forma que a espia de alagem possa escorregar sem
encontrar um obstáculo que faria correr o risco de imobilizar a
tracção.
Embora feitas de bambu, mais resistente que o cânhamo,
as espias de alagem nos contactos repetidos com os rochedos
deterioram-se rapidamente. A rotura da espia em certos pontos
da margem pode ser fatal para o junco, por isso são tomadas
precauções para evitar o desgaste ou pelo menos para o atenuar.
Uma delas, representada na Estampa 19, consiste na instalação
de dois rolos verticais, apoiados num quadro de madeira fixado
no rochedo que à espia de alagem deve contornar. Não longe
do local erige-se uma estela com o nome do benfeitor que
mandou fazer esta instalação. Fica um homem ao pé deste
aparelho para vigiar o seu funcionamento. Este homem, como
dissemos atrás, tem um papel de primeira importância: é ele
que toma o encargo de libertar a espia quando ela fica presa nas asperezas rochosas, tanto dentro de água como
na margem. E com prodígios de habilidade e de resistência que evita, a todo o momento, o acidente fatal. a
perda do junco.
Estampa 17 Transporte às costas
MAYANGZI (ne 12)
Este junco (Estampas 20, 21) é mais especificamente destinado ao transporte de viajantes no Alto Yangzi
Jiang. Oferece mais conforto que o Kua Zi (nc 6) tendo ainda a vantagem de ser menos alto e, por conseguência,
mais estável. Tem de comprimento 15 a 18 metros e de boca cerca de 3,50 m. O casco apresenta as mesmas
características que a maior parte dos juncos destinados a navegar nos rápidos, tem um fraco adelgaçamento a
meio navio e uma forte precinta que se prolonga até ao topo do painel de popa. Mas, ao contrário dos outros
jJuncos, cujo convés a vante é horizontal e fica perto da linha de água, o Mayangzi tem uma proa esguia que se
eleva numa curva bem lançada e atinge mais ou menos dois metros de altura. Esta forma especial permite
reconhecer este junco à distância. O painel de proa é furado para deixar passar o Sao.
Os alojamentos ocupam dois terços do convés. Consistem num rufo pouco elevado dividido em quatro
camarotes destinados aos passageiros. O patrão do junco e a família ocupam o rufo de ré. Entre estes dois rufos.
um compartimento aberto por três lados é destinado ao piloto que manobra o leme. Uma plataforma móvel,
formada por duas ou três pranchas sustentada por travessas colocadas no exterior, permite ao pessoal a circulação
em volta do rufo central. Assim, como o Kua Zi, este junco só tem um mastro, muito alto, com uma vela
reforçada por um grande número de vergas transversais.
Quando o Mayangzi transporta um personagem oficial, a câmara de vante, geralmente decorada de móveis
e painéis esculpidos, serve de salão de recepção. À larga porta que abre para o convés recebe os mesmos
ornamentos e marcas distintivas que o Kua Zi, quando transporta um mandarim.
WU BAN (nc 4)
Wu Ban, literalmente “ cinco pranchas “ ( Estampa 22), é, como o nome o deixa supor, uma construção
muito rudimentar: o casco é, afinal, o de uma barcaça, bem metida dentro de água, baixa e alongada, sem
convés, nem qualquer superstrutura. As suas linhas de água levantam a vante e à ré, como as de todos os juncos
que circulam nos rápidos.
O comprimento varia de 12 a 18 metros; acompanha os grandes juncos na subida do rio para cooperar nas
manobras de alagem. Transporta as espias e os homens para a alagem, no contínuo vai-vem entre o junco € a
margem. O seu papel é de grande importância quando o junco se não pode aproximar da margem.
O arranjo do Wu Ban é bem concebido para facilitar as operações, pois nada se opõe à circulação do
pessoal em toda a extensão do convés. Assim, o mastro em forma de cábrea, apoia-se nos bordos do casco,
deixando livre o espaço que dá acesso ao porão, e a vela, quando não é utilizada, fica içada com a sua verga de
reforço sem ser arriada até ao pé do mastro. A vela é feita de algodão e não tem varas de reforço: para a ferrar
Espia de alagem
Espia fixa
3 apso
r, ua
Mc DA
Estampa [8 — Protecção das espias de alagem
ae Ê Ce ár A des EN
Estampa 19
Protecção das espias de alugem
258
basta dar-lhe um simples movimento de torsão actuando sobre o punho da amura.
O Wu Ban utiliza vários remos de borda, um remo de gingar a ré, em lugar do leme. O painel de vante é
furado por uma abertura quadrada para a passagem de um madeiro da mesma secção, que serve para fundear ao
longo das margens.
JIALING JIANG (nc 13)
O Jialing Jiang é um dos principais afluentes do Alto Yangzi Jiang. É formado em Hezhou (nc 14) pela
reunião de três rios: 0 Suining He (nc 15),0 Baoning He (nc 16) e o Qian He (nc 17), e lança-se no Yangzi Jiang
em Chongging. depois de um percurso de cerca de 80 quilómetros. O Jialing Jiang e os seus três tributários têm
uma grande importância como vias de penetração indispensáveis à exploração das riquezas do país. Por isso, a
navegação é aí muito activa e o número de juncos considerável, apesar das dificuldades naturais apresentadas
por estes cursos de água.
A artéria principal, o Baoning He, conhecido pelo nome de Jia Ling Jiang, é navegável até Baoning Fu
(nc 18),e para além, até Guangyuan (nc 19), se se tratar de pequenos juncos. O Suining He (ou Fu Jiang) (nc 20)
atravessa ricas regiões florestais, agrícolas e mineiras.
Comboios de madeira de cedro - Nan Mu (nc 21), de cipreste - Bai Mu (nc 22) e de pinho - Song Mu (nc
23), utilizados principalmente para a construção de juncos; comboios de bambus destinados a ser transformados
em cabos e em espias de alagem, descem até Hezhou, enquanto juncos sobem de Chongging carregados de
carvão até Yangdun Xi(ne 24), donde voltam com carga de sal.
O Qian He, afluente de menor importância, serve para dar saída aos produtos agrícolas, plantas medicinais,
arroz. ópio, tabaco, culturas muito desenvolvidas em Xichuan.
Quanto aos juncos, muito numerosos como dissemos, têm dimensões e formas que variam consoante a
natureza da secção do rio em que fazem comércio. Entre Chongging e Hezhou estes juncos têm a forma ha-
bitual dos juncos do Yangzi Jiang e muitas vezes a mesma tonelagem.
A montante de Hezhou têm menos boca, são muito baixos, mas também muitos compridos. atingindo
alguns 30 metros. O costado é bojudo, de maneira que o calado varia pouco com a carga e, em qualquer caso
nunca ultrapassa 3 pés (menos de | metro). Enfim, a parte de ré é a maior parte das vezes elevada e pontiaguda.
A montante de Suining (nc 25) os juncos conservam estas formas, mas as dimensões são mais pequenas.
Os grandes juncos não vão além de Taihezhen (nc 26), a cerca de 350 quilómetros de Chongging. A navegação
faz-se até Mianzhou (nc 27), a montante de Tongchuan (nc 28), em lanchões baixos, com popa quadrada e
costado direito é com um calado que varia entre 1,5 e 2 pés. Na época das cheias estas pequenas barcas sobem
até Chong Ba para carregar plantas medicinais.
As várias categorias de barcos que acabámos de enumerar sumariamente pertencem na maior parte aos
tipos que se usam nos cursos de água de Xichuan (nc 10), nomeadamente no Min Jiang (nc 29) e no rio de
Luzhou (nc 30). A sua descrição será feita nas páginas que seguem.
Segundo o Serviço das Alfândegas Imperiais de Chongging, o número dos juncos que fazem comércio na
bacia do Jialing Jiang. elevava-se a 5.000 no princípio do século actual.
Limitar-nos-emos a fazer a descrição do mais importante e mais típico dos juncos que navegam neste rio.
descendo até Chongging e aos portos vizinhos do Yangzi Jiang, a maior parte das vezes com um carregamento
de sal e plantas medicinais.
GRANDE JUNCO DO JIALING JIANG
O grande junco do Jialing Jiang é perfeitamente adequado ao género de navegação deste rio. Os obstáculos
que tem de vencer são menos perigosos e mais acessíveis que os do Alto Yangzi Jiang. Não há rápidos
propriamente ditos, mas desnivelamentos produzidos pelos bancos de calhau rolado que obstruem o leito de um
Estampa 20. Maxangri subindo o rio
Estampa 21 Mayangzi transportando passageiros
260
patamar mais ou menos extenso. No caso da barragem ser intransponível em águas baixas, as populações
ribeirinhas escavam um canal de quatro a cinco pés de profundidade, permitindo a passagem de um junco de
cada vez.
A navegação é bastante intensa, salvo durante todo o período de duração das cheias, em que os movimentos
das águas são tão consideráveis e a corrente tão violenta que a circulação no rio fica quase interrompida.
A Estampa 23 representa o tipo corrente do grande junco de Jialing Jiang. Tem um comprimento de cerca
de 40 metros, uma boca de só 4,50 m., linhas espantosamente finas para um junco que não tem outro propósito
que não o transporte de mercadorias. Esta finura de formas tem por fim facilitar o andamento, mas também
reduzir a superfície da casa mestra para um mesmo deslocamento.
Além disso, o costado apresenta um grande adelgaçamento, de forma que o calado varia pouco com o
aumento da carga. Estas características do casco decorrem das necessidades de navegação que impõem à tripulação
grandes esforços para mover o junco nos bancos de calhau, seja empurrando-o com croques ou mesmo movendo-
-o a ombro. Estas operações são facilitadas pela pequena altura do convés acima da água. O convés estende-se
por metade do comprimento do junco. Ao centro, fica um mastro com uma vela rectangular de panos
alternadamente azuis e brancos. Quanto ao arranjo interior é o mesmo que o do grande junco de comércio
descrito mais acima ( Estampa 8).
JUNCOS MÉDIOS
Encontram-se em diversas localidades do Alto Yangzi Jiang, principalmente em Luzhou, a montante de
Chongging. juncos de dimensões médias que os povos ribeirinhos classificam na categoria dos Wu Ban (nc 4),
ainda que diferentes destes últimos, tanto nas formas como no arranjo do convés. O comprimento varia de 15 a
20 metros. O casco destes juncos apresenta conformação análoga à da maior parte dos juncos do Alto Yangzi
Jiang e em especial aos de Jialing Jiang (ne 13). Ficam à flor da água, apresentam muitas vezes um adelgaçamento
pronunciado, que assegura uma boa solidez longitudinal, e o convés é desempachado para vante do mastro. No
centro têm um mastro que serve para a alagem e que pode envergar uma vela rectangular de algodão sem varas
de reforço.
Geralmente esta vela pode ser ferrada na verga alta por uma simples torsão do punho da amura ( Estampa
24). Um rufo de madeira vai do pé do mastro até ao painel de popa. É coberto com esteiras móveis. excepto na
casa do leme, que fica a descoberto.
Em certos juncos, o abrigo da popa por cima da madre do leme é todo de madeira (Estampas 24, 26). A
maior parte destes juncos médios navegam em regiões onde os rápidos são pouco numerosos e menos perigosos
que os de jusante, as equipas de remadores e de alagem sendo, portanto, mais reduzidas. O leme é compensado.
Empregam remos de cada bordo e raramente Sao ou remos de gingar laterais.
O junco representado na Estampa 27 navega principalmente no rio Luzhou (nc 30). O seu fraco calado
permite-lhe subir, durante a estação das cheias, no Verão, até Jianzhounan (nc 31) a cerca de 400 quilómetros do
confluente do Yangzi Jiang, através de ricas regiões agrícolas e mineiras que lhe garantem carga importante.
CHEN BO ZlI (nc 32)
Uma menção especial deve ser feita para o junco da Estampa 28, chamado Chen Bo Zi, que vem do nome
da localidade de Hunan (nc 33 ) de onde é oriundo. A parte de ré deste junco tem uma forma pouco comum no
Alto Yangzi Jiang. Ordinariamente, o painel da popa alarga quando sobe, enquanto que no Chen Bo Zi estreita
em forma de V invertido (Estampa 29), o que dá à popa um contorno arredondado. que acentua o estreitamento
do costado sobre o qual assentam as anteparas laterais do rufo. Da mesma forma que nos juncos descritos
acima, 0 rufo ocupa metade do comprimento do convés e vai até ao pé do mastro. É coberto com esteiras
261
Estampa 22 Wu Ban fundeado
Estampa 23 Junco do Jialing Jiang
oleadas, abrigando o porão das mercadorias que serve eventualmente de alojamento aos passageiros. Na parte
de ré fica o alojamento do patrão, protegido por um rufo arqueado no qual entra a madre do leme.
Este junco está equipado para transpor os maiores rápidos a montante de Yichang. Tem um robusto
mastro com vela rectangular. reforçada por numerosas varas transversais. O Chen Bo Zi é um junco comprido
(A+,
Estampa 24 Junco de comércio de Luzhou
Estampa 25 Junco de comércio de Luchou
Estampa 26 Junco de comércio de Luchou
Estampa 27
Junco de comércio de Luz
hou
264
Estampa 28
Estampa 29
Junco de comércio - Chen Bo Zi
Chen Bo Zi visto de popa
205
e estreito: comprimento - ) pés: boca- 6 pés. A
tripulação compreende quatro a cinco homens
ajudados por uma equipa de alagem de trinta
elementos.
Este tipo de junco, da mesma origem e da
mesma forma, mas de maiores dimensões, vai voltar
a encontrar-se em Shashi (nc 34) e no lago Tongtinghu
(ES).
WAI PIGU CHUAN (nc36) (Popa torcida)
À umas sessenta milhas de Chongging, no Alto
Yangzi Jiang. encontra-se a cidade de Fuzhou. na
confluência dum grande afluente. o Wu Jiang. que
nasce à cerca de 800 quilómetros na província de
Guizhou (ne 37).
À navegação neste rio é cortada por violentos
rápidos, não é possível senão num curto percurso e
com juncos espectais, e de maneira bem singular. que
não se encontra em nenhuma outra parte. Chama-se : Wai Pi Gu Chuan - barco de popa torcida.
Este junco ( Estampas 30, 31 ) não tem leme tradicional, é governado por uma equipa de cinco a seis
homens manobrando remos comuns, a vante de um rufo central. Por cima deste rufo há uma ponte para o piloto
que governa por meio de um comprido leme de gingar colocado no eixo do junco. Um segundo leme de gingar,
de modelo mais pequeno, manobrado por quatro homens, está colocado a estibordo na parte de ré do ruto. Serve
para a propulsão, mas se for o caso, nas passagens difíceis, pode juntar a sua acção de governo à do piloto.
Os rápidos do He Jiang (nc 38) são duma extrema violência e as margens, abruptas quase por toda à
parte, estão cheias de rochas perigosas. E imperativo, portanto, que os juncos que navegam neste curso de água
tenham dispositivos especiais que lhe tragam o máximo de segurança. Esta segurança depende essencialmente
dos meios de manobra, que além de poderosos, devem também ser rápidos. O chinês caprichou em conseguir
estas condições por processos simples e práticos, sem se preocupar com o aspecto visual, que no caso do Wai Pi
Gu Chuan, deita por terra as nossas ideias usuais da técnica da construção naval.
A sobrelevação anormal da popa, deformação esta que para o espectador desprevenido parece resultar
mais de um desastre que de um plano maduramente estudado, tem fim duplo: colocar o pivot do grande leme de
gingar mesmo no eixo do barco, e pela elevação acima do nível da água, dar a este leme grande comprimento
para lhe aumentar a potência. Vê-se, por outro lado que, graças à deformação do casco a estibordo, o segundo
leme de gingar fica livre para se mover para um e para outro lado do seu eixo, sem nunca estorvar o movimento
do grande leme principal que opera por cima dele. Resulta deste dispositivo que os dois lemes podem concorrer
no governo do barco sem interferirem um com o outro, enquanto que se estivessem colocados num junco de
formas normais, o pequeno leme de gingar colocado a um bordo, só poderia ser usado para a propulsão.
Esta conformação especial da popa deu lugar a diversas explicações por parte de viajantes estrangeiros.
mas nenhuma, a não ser esta última, parece ter obtido aprovação bem categórica. A parte de vante deste junco
apresenta igualmente uma deformação, que é mais difícil de explicar.
Esta parte do convés eleva-se para bombordo, enquanto que a parte de ré se inclina em sentido inverso,
pelo que este casco no seu conjunto lembra vagamente a forma de um parafuso.
Esta observação foi feita por A .J.Little em 1883 (1), e antes já Francis Garnier (2) tinha escrito a este
propósito: “ Os barcos desta região são construídos da forma mais singular do mundo. O seu tabuado é todo
dobrado em rosca de parafuso de vante a ré. Daqui resulta que o convés está inclinado a vante num sentido, e à
ré no sentido contrário. Este dispositivo tem por fim, sem dúvida, melhor adaptar o costado do barco aos filetes
torcidos pela violência da corrente, nos locais apertados “.
É provável que esta inclinação da parte de vante não tenha sido feita pelo construtor, mas que resulte,
como se pode constatar em tantos outros juncos de formas primitivas, do movimento constante à que é submetido
o convés do lado de bombordo no embarque e desembarque de mercadorias pesadas, que se faz sempre do
mesmo bordo, tanto à partida como à chegada ao destino.
O ordenamento interno do junco é suficientemente explicado nas figuras da Estampa 31, para que seja
necessário alongarmo-nos na sua descrição.
Podemos aperceber-nos da grande dimensão que foi dada ao leme de gingar central, que é formado por
duas fortes peças de madeira gémeas, e leva na extremidade superior uma grande pedra destinada a mantê-lo em
equilíbrio no seu robusto suporte de madeira.
O pequeno leme de gingar é constituído da mesma forma. A ponte de manobra fica, nos grandes juncos,
dois a três metros acima da palhota central. Esta grande elevação permite não somente dar maior horizonte ao
piloto, mas sobretudo aumentar o comprimento do leme de gingar e, por consequência, a potência. O equilíbrio
(1) Archibald J. Little, Through the Yangzi gorges; 1888.
(2) Francis Garnier, De Paris au Tibet; 1887.
266
Estampa 30
é
Pa
Wai Pi Gu Chuan ( Junco do Wu diang Zi)
Estampa 31
Wai Pi Gu Chuan ( Junco do Wu diang Zi)
267
desta ponte é bastante precário e para a consolidar os chineses empregam um entrançado de cabos de bambu,
que se pode apertar à vontade por meio de varas que se apoiam na cobertura.
Estes juncos não asseguram um tráfego importante nem remunerador, pelos riscos que correm. Assim, a
vista do Wai Bo Fu que chama sempre a atenção do viajante pelas suas formas bizarras, provoca a maior parte
das vezes piedade, pela falta de manutenção, a porcaria do casco e a miséria negra dos ocupantes.
JUNCO DE Z1 LIU JING (nc 39)
Zi Liu Jing é um centro muito importante de produção de sal na província de Sichuan, num afluente do
Luo He (nc 40), que por sua vez é afluente do Alto Yangzi Jiang. Vindos de todo o lado, centenas de juncos
comprimem-se uns contra Os outros, num rio encaixado entre altas colinas, onde há numerosas minas de
sal-gema.
Os juncos do transporte de sal são bizarramente construídos (Estampa 32). Têm 13 a 20 metros de
comprimento, pouca altura acima da linha de água, a balaustrada é mais alta no centro, de forma que o forro do
casco assim como o do convés que lhe fica junto e serve de passadiço, apresentam um desnível em forma de
arco baixando para vante e para ré. Além disso, a amurada do painel de vante em lugar de ser horizontal como
é costume, é fortemente inclinada para bombordo. Não será de ver nesta inclinação, já observada nos juncos do
He Jiang (nc 38) o resultado duma deformação produzida pelo vai-vem do pessoal e da carga?
Quanto à sobrelevação do forro do convés, parece, afinal, que tem por fim reforçar a estrutura longitudi-
nal, em lugar de percintas que tornariam muitos pesados estes juncos de construção ligeira. Além disso, a todo
o comprimento do porão, fasquias semi-cilíndricas são pregadas nas juntas do forro do fundo, com o duplo
propósito de concorrer para a rigidez longitudinal e a receber, por meio de um sobrado, o carregamento que fica
assim ao abrigo da água do porão. As linhas de água do forro do fundo elevam-se para a proa, a fim de facilitar
a passagem nos bancos de calhaus na época das águas baixas.
A popa é plana, de forma arredondada e tem no centro um pivot de ferro, no qual se apoia o longo e
pesado Sao que é equilibrado com um bloco de pedra. Nos grandes juncos o painel de popa é solidamente
construído com pranchas cruzadas (figura 1). À proa também possui um pivot destinado à manobra de um leme
de gingar. No centro do convés há um abrigo em esteira, que pode ser prolongado para vante ou para ré por meio
de suportes móveis.
A vante do abrigo ergue-se um só mastro; não tem vela e serve exclusivamente de apoio ao cabo auxiliar
da alagem que é içado até ao tope do mastro por meio duma urraca. Para amarrar ao longo das margens, o junco
utiliza o processo bem conhecido, e de resto muito prático, da vara enterrada verticalmente no lodo depois de
ter passado numa abertura feita no casco. A vante e a ré, há esta forma improvisada de ancorar, de forma que o
junco pode manter-se atravessado à corrente, perpendicularmente à margem e receber a carga de sacos de sal,
ao mesmo tempo que outros juncos podem atracar a ele de braço dado, com a proa para a margem.
Cerca de dois mil juncos aguardam a sua vez, sob o controlo da administração do sal, para transportar O
carregamento para montante até Dengyingguan (nc 41), onde é trasbordado para grandes juncos que descem o
Luo He, e se espalham depois por todo o Yangzi Jiang.
Depois de descarregarem os sacos de sal, os juncos voltam a Zi Liu Jing (nc 39) vazios, vencendo a
corrente com a ajuda de alguns sirgadores.
JUNCO DAS SALINAS DE GUIZHOU FU
Existe no Alto Yangzi Jiang, entre Yichang e Chongging, a um quilómetro a jusante da cidade de Guizhou
Fu (nc 42), um poço de água salobra aberto num grande banco de areia que só emerge durante as águas baixas.
4.000 a 5.000 habitantes instalam-se neste banco, em casas de bambu e de esteira, junto dos furos evaporatórios
que servem para extrair o sal. Estas instalações são desmontadas desde as primeiras cheias, e a exploração é
suspensa durante cinco a seis meses. O transporte de sal ocasiona um movimento considerável de juncos, e
268
Estampa 32 Junco de Zi Liu Jing
Estampa 33 Salinas de Guizhou Fi. Junco para transporte de sal
269
alguns penetram muito longe pelos afluentes até ao interior das terras.
Estes juncos têm forma de gôndolas venezianas, com a popa muito alta e recurvada graciosamente como
uma lira. São oriundos do rio Dagian (nc 43), pequeno afluente da margem esquerda. O transporte de sal faz-se
em sacos muito bem atados, depois de terem sido controlados pela alfândega local.
A Estampa 33 representa um desses juncos fundeado numa estaca, ao longo da margem onde estão os
fornos de evaporação. Não muito longe, na longa margem arenosa que se estende na base das muralhas da
cidade pode ver-se uma aglomeração de cabanas cheias de indigentes, de comerciantes, barbeiros, restaurantes,
de casas onde se fuma ópio, e de cafés-concerto.
É uma escala que os juncos fazem regularmente para passar a noite e dar alguma distração às tripulações.
XU FU
Xu Fu (nc 44) marca a confluência de duas artérias importantes, o Jin Sha Jiang e o Min Jiang que, ao
juntarem-se, formam o Yangzi Jiang propriamente dito. E a encruzilhada onde se encontra um grande número
de juncos, relacionando esta cidade com o Yunnan e a vasta e rica planície de Chengdu.
Entre as numerosas variedades de juncos que frequentam este porto, distinguem-se quatro tipos diferentes:
O maior é conhecido pelo nome de Nan He Chuan (nc 45) (Estampa 34). Com 15 a 18 metros de comprido,
tem formas esguias e a silhueta do junco de Jialing Jiang (Estampa 23). O bordo livre é pequeno, o casco é
reforçado por um adelgaçamento com dupla curvatura, o convés a vante é bem desempachado para a manobra
dos remos. Não tem Sao; este aparelho é raramente usado nestas paragens onde não há que enfrentar os mesmos
perigos que a jusante. Um rufo de madeira coberto de esteiras vai desde meio convés, onde se ergue o mastro,
até a ré servindo de abrigo ao homem do leme. Vários destes juncos descem até Hankou no Outono, carregados
de sementes de colza, de algodão, de laranjas e de ervas medicinais.
po
Ip
O Ban Tou Chuan (nc 46) ( estampa 35), com o comprimento de uma dúzia de metros, é especialmente
utilizado no Min Jiang (nc 29) para o transporte de viajantes entre Chengdu (nc 9) e Chongging (ne 7). A
tripulação é de quatro homens: à popa o patrão que governa com um forte remo, a vante os três homens
manobrando cada um um remo. O casco é o de uma chata vulgar com um rufo de esteira em dois terços do
comprimento. Um pequeno mastro móvel pode ser hasteado a vante do rufo. O revestimento do porão é feito
simplesmente com um ripado de bambu, que fica debaixo do rufo.
3. O Zhongyuan Bo (nc 47) ( Estampa 36) é um junco com popa quadrada oriundo de Luzhou (nc 30). É das
mesmas dimensões do Ban Tou Chuan, duma construção mais robusta, mas com formas menos finas. Um rufo
de madeira coberto de esteiras ocupa o meio do convés, assim como um remo encostado à antepara de vante. O
mastro enverga uma vela rectangular. A tripulação é de quatro a cinco homens e a ré o patrão que manobra o
leme.
4. OWu Ban (nc 4) ( Estampa 37), forte embarcação de passagem, que sobe o Jinsha Jiang(ne 48) até Man Yn
Seu (nc 49). As formas são afiladas, principalmente na parte de vante, a fim de facilitar a transposição dos
bancos de calhau, muito numerosos a montante de Xu Fu. Dispõe de leme compensado e pode andar à vela ou
a remos. À tripulação é de quatro a cinco homens.
MIN JIANG
O Min Jiang (nc 29) é acessível aos grandes juncos até Jiading (nc 50) e mesmo mais além, até Chengdu,
durantes as águas altas, de Maio a Novembro. A Estampa 38 representa um destes juncos do tipo Kua Zi que
tem as mesmas características que os usados para transporte de viajantes. Distingue-se destes últimos pela popa
menos maciça e pelo seu painel da popa fortemente inclinado e fora da prumada. Como a maior parte dos
juncos que navegam a montante de Chongqing, não usa Sao, usando remos e remos de gingar laterais.
270
Estampa 34 Jinsha Jiang - Nan He Chuan
Estampa 35. Xu Fu - Ban Tou Chuan
Um outro tipo de junco ( Estampa 39 ) mais importante e afectado unicamente ao transporte de mercadorias.
pode também comerciar com Chengdu, mas as suas transações comerciais fazem-se mais frequentemente a
jusante até Chongging. Como a maior parte dos juncos que navegam no Alto Yangzi Jiang apresenta formas de
carena muito finas com os extremos elevados. Os painéis de vante e de ré têm a forma de um triângulo isósceles.
O comprimento atinge 20 metros.
Não pode subir até Chengdu, senão durante o período de águas altas, de Maio a Novembro.
Pelo contrário, as pequenas embarcações do tipo Wu Ban, podem circular todo o ano nos numerosos
afluentes que irrigam a grande planície de Chengdu. São de fraca tonelagem, de construção ligeira, com um
convés pouco elevado acima da água. Um rufo de madeira ou um simples abrigo de esteiras móveis estende-se
para ré do mastro (Estampa 40 ). O casco é consolidado com uma forte reentrância com percintas e o forro do
fundo eleva-se à proa e à popa a fim de facilitar o deslizar do barco nos fundos baixos, que são muito frequentes
271
nestes afluentes. Estes Wu Ban sobem os cursos de água até ao extremo limite da navegabilidade, e mesmo para
além, o que se torna numa navegação semi-terrestre.
Os bancos de calhau e de areia sobre os quais a água desce em toalhas rápidas e pouco profundas são
transpostos por uma alagem especial, que consiste em arrastar o barco levantando-o ligeiramente com o auxílio
de um rolo de madeira colocado transversalmente à proa e do qual se ocupa uma equipa, enquanto outra tenta,
com um forte empurrão, fazê-lo transpor o obstáculo.
Se a operação não é bem sucedida, a tripulação recorre a outro processo, que é muitas vezes eficaz,
mesmo com o barco carregado. No fundo de calhaus ou de areia, colocam-se a cada lado da linha de água
grandes pranchas de madeira dispostas em leque e assentes na sua dimensão mais estreita ( Estampa 41). Uma
das extremidades da prancha aplica-se contra o casco, a outra fica sujeita à corrente que canaliza para esta
espécie de funil. Graças a esta barragem improvisada, o nível da água sobe e alivia o peso do barco que se pode
assim deslocar alguns metros. Repete-se esta operação até se atingir a outra vertente do banco. A manobra exige
tempo e paciência, coisas que o chinês não poupa, nem uma nem outra, sempre que o seu interesse está em jogo.
Este processo é utilizado tanto para a subida como para a descida de um banco.
JANGADAS
As populações ribeirinhas do Jin Jiang (nc 51) e dos seus afluentes vindos da montanha usam jangadas de
várias dimensões como meio de transporte. As maiores são feitas de bambu ou de madeira de construção e só
fazem a viagem de descida. Chegadas ao destino são desmontadas e a tripulação volta por terra. A Estampa 42
mostra uma destas jangadas conduzida por 4 homens; os dois de vante e de ré guiam à jangada por meio de um
Sao feito de três bambus entrelaçados e ligados e atados à pá, também ela de bambu. Dois homens, um à cada
bordo, manobram um remo feito da mesma maneira. No centro da jangada há um pequeno mastro, com um
quadrado por vela, que se iça nas águas calmas da planície de Chengdu.
A pequena jandada, conduzida por dois homens (Estampa 43) é utilizada para as necessidades do
proprietário e, em especial, para levar vitualhas para o mercado vizinho. A madeira de que é feita a jangada é
também um objecto para negociar, o que evita ao proprietário os riscos do regresso.
BARCOS DO JINSHA JIANG (nc 48)
A montante de Man Yn Seu (nc 49), a 110 quilómetros de Xu Fu (nc 44) e a cerca de 3.000 quilómetros
do mar, o Yangzi Jiang, conhecido com o nome de Jinsha Jiang (nc 48), “ rio da areia dourada “, torna-se
impraticável para os juncos. Corre a maior parte do tempo num desfiladeiro profundo e sinuoso, cortado por
obstáculos, que dão lugar ao nascimento de violentos rápidos. No intervalo desses rápidos, algumas secções são
acessíveis à navegação, mas raramente utilizados pelas populações ribeirinhas, com receio das tribos selvagens
que ocupam a margem esquerda e da qual se consideram os donos. No entanto, um certo número de jangadas
montadas pelos chineses asseguram, de onde em onde, comunicações duma margem para à outra. Algumas
barcas transportam mesmo mercadorias e passageiros em pontos bastante afastados uns dos outros. É assim que
uma centena de pequenas barcas transportam os produtos das salinas de Yan Jing(ne 52), centro duma exploração
importante perto da foz do Pudu He (nc 53) para Qiao Jia Ting(nc 54), peguena sub-prefeitura que se eleva num
outeiro da margem direita. Descem em seguida até Hekoudun (nc 55) a 120 quilómetros de distância, para
carregar açúcar. A montante desta secção, o rio está cortado por poderosos rápidos com forte declive, descendo
em cascata, opondo-se assim a qualquer navegação das barcas. Depois, a partir de Ho Meng Tchang (nc 56), o
curso do rio melhora e volta a ser acessível aos barcos até às aproximações da ponte suspensa de Tseu Li
Kiao(nc 57), a mais de 1.000 quilómetros de Xu Fu e a 4.000 quilómetros do mar.
Para lá deste ponto, o rio desce em forma de torrente num estreito vale desértico em que os meios de
comunicação se reduzem a algumas pirogas, escavadas em troncos de árvore (Estampa 44). No século passado,
os habitantes das margens construíam jangadas de madeira de cedro e de castanho que lançavam no rio para
serem levadas até Xu Fu e Chongging onde eram usadas na confecção de caixões. Este comércio desapareceu.
HENG JIANG
O Heng Jiang (nc 58), afluente da margem direita do Jinsha Jiang (nc 48). desagua em Anbian (nc 59) a
14 milhas a montante de Xu Fu (nc 44). E a única via de comunicações por via marítima entre o Sichuan e o
Yunnan, mas o curso torrentoso torna-a inutilizável, como via de transporte, acima de Laoyatan (nc 60), a 45
milhas de Anbian, último burgo importante do Yunnan e onde se faz o trânsito de mercadorias entre as duas
províncias. Os pequenos juncos do Jinsha Jiang são os únicos que se podem aventurar neste rio, cujo leito
sinuoso está semeado de obstáculos perigosos.
Estampa 36
Bs
BARCA DE HUANGGUOSHU
A Estampa 45, representa a barca de passagem que serve Huangguoshu (ne 61). a 150 quilómetros de
Man Yn Seu. Com uma dezena de metros de comprimento, tem à forma de um batelão vulgar, de fundo chato,
com a parte de ré um pouco mais elevada que a de vante, Construção sólida, ligação do tabuado com grampos
de ferro, costuras calafetadas com um betume composto de cal e óleo de polir. É manobrado por dois homens a
vante, cada um a um remo, a ré pelo patrão que governa com um São a bombordo e um remo a estibordo. Estes
homens ficam nos extremos da barca numa pequena plataforma mais elevada que o porão ocupado pelos
passageiros.
Os meios de manobra consistem em cabos de bambu cujo uso é desconhecido a montante, em longas
varas com croques em ferro e amarras de ferro. Em geral as embarcações da região empregam como cabos para
amarração lianas entrelaçadas.
BARCA DO PUDU HE (nc 53)
Esta barca faz o serviço no Pudu He, quando ele conflui com o Jinsha Jiang (nc 48), a 550 quilómetros de
Xu Fu. Só excepcionalmente serve a margem esquerda do rio, que é constituída por um maciço montanhoso
desabitado.O preço da passagem do rio é de 40 sapecas ( 0.28 Fr. da nossa moeda, conforme o valor do franco
em 1930), valor muito alto, se se comparar com o que se paga noutros sítios. mas que não chega para manter o
passador e os dois ajudantes, visto que os viajantes são muito raros nesta rota. Por outro lado, o preço da própria
barca também é muito elevado. o que nada tem de surpreendente numa região onde por falta de madeira nas
margens do rio, os construtores têm que fazer vir os troncos de árvores da montanha, com grandes custos.
A barca do Pudu He é do mesmo tipo que a de Hu Kouzhou, mas de construção mais cuidada, com
tabuado aparelhado, ligado por grampos de ferro. formando juntas estanques. Estas barcas são tripuladas por
dois homens a vante que maunobram dois remos, e a ré pelo patrão que tem numa mão um remo e na outra um
comprido Sao, que por meio duma grande pedra é equilibrado pelo punho. O fundo da barca é feito com
pranchas de uma só peça que vão de vante a ré. E uma característica feliz em caso de choque com uma rocha, a
barca tendo assim uma tendência a deslizar, enquanto que, se as pranchas estivessem no sentido perpendicular,
ficariam presas e abririam um veio de água.
BARCA DE MACHAN
A barca representada na Estampa 46 é oriunda de Machan (ne 62), importante localidade situada na
margem esquerda do rio, a cerca de 30 km. do confluente do Yalong (nc 63). E usada para o transporte de
viajantes e de mercadorias nas secções navegáveis, onde circula nos dois sentidos. mas muito irregularmente
por falta de elementos suficientes de tráfego.
Estas barcas, de construção rústica, com um comprimento duma dezena de metros, são feitas com pranchas
não aparelhadas, aplainadas grosseiramente e unidas por grampos de ferro.
A madeira utilizada é uma espécie de faia vermelha, impermeável, resistente e flexível, qualidades que
lhe permitem fazer frente com sucesso, como veremos mais adiante, aos mais perigosos obstáculos do rio.
A forma é a de uma chata vulgar: os dois bordos elevados de um metro estão ligados a um fundo chato
que se levanta sob o mesmo ângulo a vante e a ré; três balizas formam anteparas estanques com furos de
drenagem para escoamento das águas, consolidam a barca no sentido transversal, mas sem nenhuma ligação no
sentido do comprimento, de mancira que o conjunto possui uma grande elasticidade, que sendo às vezes perigosa
nos remoinhos e nos turbilhões, facilita a transposição de certos obstáculos, nos quais uma grande rigidez
cederia com o tempo a esforços prolongados não apoiados. São verdadeiros barcos de borracha, ao mesmo
tempo flexíveis e resistentes, cujas extremidades de vante e de ré oscilam independentemente, sob o efeito da
arfagem, de um choque ou duma simples carga.
(Es
SE
e
Ú
- Wu Ban Nan Yu Seu
stampa 37. Jinsha Jiang
E
Junco de viajantes do tipo Kua Zi
Estampa 38 Min Jiang -
2
Estampa 39 Min Jiang - Grande junco de comércio
Estampa 40 Wu Ban navegando nos arredores de Chengdu
276
Estampa 41 Plano de um dispositivo para navegação de pequenos fundos
Estampa 42. Jangada de bambus no Min Jiang
277
Na descida, quatro homens chegam para a manobra: o patrão a vante governa com a ajuda de um robusto
Sao, é três homens ficam aos remos nos bordos da jangada. O Sao assenta no bordo recurvado de vante, que é
reforçado por um conjunto de cabos cruzados, destinado a reagir contra o impulso transversal do Sao. Quanto
aos remos, em número de três, dois a estibordo e o outro a ré a bombordo, apoiam-se num suporte formado por
um tronco de árvore de um metro de altura fixado ao chão da jangada. Estas jangadas circulam em grande
número entre as cidades de Yazhou (nc 69) e de Jiading (nc 50), distantes de cerca de 200 quilómetros, com uma
diferença de nível que atinge cerca de 225 metros, ou seja um declive médio de 1,12m por quilómetro. A
duração da travessia na descida é de cerca de 24 horas com águas altas, e de dois a três dias, com águas baixas.
Na subida, a travessia exige respectivamente de 8 a 20 dias. Estas jangadas levam os produtos para
jusante, até Xu Fu e mesmo para além, até He Jiang (nc 70), no Yangzi Jiang , a mais de 350 quilómetros de
Jiading. Chegados a esta distância, a subida do rio seria muito onerosa, pelo que há interesse em desmanchar a
jangada e vender os bambus no local. Como é de supor, a descida através das águas tumultuosas do Ya He não
deixa de ser emocionante e mesmo alarmante. Apesar da catástrofe parecer inevitável a todo o momento, é
preciso dizê-lo bem, os acidentes são raros, e isto devido ao golpe de vista e ao sangue frio destes corajosos
barqueiros.
BARCAS DO TONG HE
Além das jangadas de bambu que circulam até Jiading e para além até ao Yangzi Jiang, a navegação no
Ya He (nc 67) e no Tong He (nc 71), afluentes torrentosos do Min Jiang, no Sichuan, não é praticável senão para
certos tipos de barcos usados no vai-vem, nas secções calmas e pouco extensas. São mais propriamente barcas
de passagem, com pequeno calado, com propulsão apenas a remos ( Estampa 51).
Enquanto o conjunto do casco é de um traçado primitivo e frágil, o tabuado do fundo, pelo contrário, é
construído cuidadosamente segundo o sistema de costado trincado duplo, pouco usado na China, e mesmo no
estrangeiro (ver Cap. II). No costado trincado duplo as pranchas sobrepõem-se duas a duas e asseguram, assim,
uma melhor ligação longitudinal do que o costado trincado simples.
A barca de Tong He, com 15 metros de comprido e 2,50 de boca, não tem nem anteparas, nem reforços
interiores. À proa e a popa são formados por painéis quadrados, fixados aos dois costados laterais, por simples
cavilhas de madeira muito à vista. Na popa, um homem manobra um comprido leme de gingar equilibrado por
uma pedra pesada e empoleirado numa ponte ligeira, enquanto a vante dois homens accionam dois remos, um
a cada bordo. Dois bancos, no centro, são a única ligação entre os dois costados laterais.
BARCOS DE SALVAMENTO (Hong Chuan) ( nc 72)
Poucas regiões frequentadas por juncos são tão férteis em sinistros como as do Alto Yangzi Jiang. Os
perigos desta navegação provêm dos obstáculos que atravancam o leito do rio e sobretudo do movimeto das
águas, pejadas de rápidos e turbilhões, que tiram ao navio toda a estabilidade de rumo e tornam ineficaz a acção
do leme no momento mais crítico.
Não espanta pois que os naufrágios sejam frequentes e as vítimas numerosas. Mas, depois da organização
do serviço dos barcos de salvamento, que é de criação bastante recente, há que reconhecer que a quantidade de
vidas humanas salvas é considerável. Antes do estabelecimento deste serviço, o salvamento ecra confiado a
barcos de pesca que recebiam para este efeito uma pequena subvenção dos habitantes do distrito. Mas estas
disposições eram insuficientes, pois estes barcos raramente estavam, em tempo devido, no local do acidente.
A nova organização data de 1854 e deve-se a um rico mercador das redondezas do rápido chamado
Xintan (nc 73), palco, outrora como hoje, de numerosos naufrágios, na época de águas baixas. Este filantropo
recebeu subscrições de comerciantes, cujos juncos circulavam no distrito, e mandou construir três barcos
exclusivamente a usar no salvamento. Para os distinguir dos barcos de pesca foram pintados de vermelho
282
COR o e
GRIDI». À WA EE
Estumpa 48 — Barca de Jin Jiang Jia
remo
eixo do Sao pá do Sao
Estampa 49 Barca de Tangmi
(Estampa 52) e denominados Hong Chuan (barco vermelho, ou Jiu Min Chuan) (ne 74) (barco para salvar a
vida). Depois, o número destes barcos foi aumentado e a instituição, cujas despesas são cobertas por donativos
voluntários, passou a ser governamental, sob a direcção de um alto mandarim de Yichang.
O serviço de salvamento está perfeitamente organizado no alto rio, nos locais que oferecem perigos para
a navegação. Este serviço é dirigido (1905) por um general chinês, que afecta 700 a 800 soldados a esta perigosa
empresa, cuja organização e controlo pertencem à corporação dos patrões e mestres de juncos. Como tantos
outros serviços públicos na China, a direcção é deixada à iniciativa dos armadores e proprietários dos juncos, e
o seu fim, além da questão humanitária, é de salvaguardar as mercadorias contra o roubo, a pilhagem ou o
naufrágio. É de certo modo um seguro instituído contra os riscos de navegação, à falta de polícia de rio. e que
é posto indistintamente à disposição dos juncos e de todos os passageiros chineses e estrangeiros.
Estas embarcações. tripuladas por homens vigorosos e hábeis, estão distribuídas ao longo do rio, nas
Passagens perigosas, onde estão sempre prontas a socorrer os juncos em perigo. Os serviços que prestam são
283
Estampa 50 Jangada de bambu do Ya He - Ba Quain Chuan
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Estampa 51 Barca do Tong He
muito prestimosos e salvam diariamente muitas existências no meio dos rápidos.
O rio é dividido em distritos, cada distrito sendo patrulhado por um Xun Chuan (ne 75 ), ou barco de
polícia, cuja missão consiste, em primeiro lugar, em fixar os postos de vigilância dos Hong Chuan próximo dos
rápidos, que variam de posição e de intensidade segundo a altura das águas.
Assegura, além disso, a vigilância do rio, sendo a sua intervenção necessária para moderar o zelo
interesseiro dos salvadores benévolos, sempre muito numerosos, que cobiçam a presa. Estes barcos seguem o
movimento dos juncos na subida dos rápidos e ficam prontos para qualquer acontecimento. Na descida observam
atentamente a manobra, pois é neste momento que há o maior número de acidentes. Logo que um junco parece
desviar-se do meio do canal, vai ter com ele um “barco vermelho”, que lhe mostra o caminho a seguir. Quando
284
Estampa 52º Barcos de salvamento Hong Chuan
há um naufrágio, é disparado um tiro de canhão, para que todos os outros barcos se dirijam para o local do
sinistro. Por cada vida salva, a tripulação do Hong Chuan recebe 1.200 sapecas e por um corpo que encontre.
400 sapecas. Houve tempos em que, para agir em conformidade com as tradições milenárias do culto dos
antepassados, testemunhando o lugar que os ausentes têm no coração da família, à recompensa atribuída ao
salvador era mais elevada por um corpo inanimado, do que por uma vida salva. O apetite do ganho levava
naturalmente o salvador a contemplar a situação melhor remunerada. isto é. a salvar em primeiro lugar o afogado,
enquanto que o vivo só poderia esperar salvação se consentisse, depois de um regatear macabro, a pagar ao seu
benévolo salvador um prémio muitas vezes bastante elevado. Estes abusos foram reprimidos e a sociedade de
salvamento ganhou um rápido desenvolvimento graças aos serviços prestados e à sua maravilhosa organização
que a coloca na primeira linha das obras humanitárias da China.
BARCOS DE SALVAMENTO DO BAIXO YANGZI JIANG
Nas outras regiões do Yangzi Jiang, compreendidas entre Shanghai e Yichang, os perigos da navegação
são bem menores e os acidentes bastante raros. Existem, no entanto, várias estações de salvamento, constituídas
e mantidas por diversas corporações de mercadores que têm interesses no rio, nomeadamente em Shanghai (nc
76), Zhenjiang (ne 77), Nanjing (ne 78 ), Wuhu (ne 79), Jiujiang (nc 80), Hankou (ne 81) e algumas outras
cidades menos importantes.
Estes barcos. ( Estampas 53, 54, 55, 56 ) são construídos ao estilo local com madeira de cipreste (Bai
Shu) (nc 82), mas com linhas mais finas e um aspecto mais cuidado. O comprimento varia entre 12 a 15 metros.
Têm um ou dois mastros com velas de pendão de cor azul ou vermelho escuro, ornamentadas às vezes com o
símbolo Yin Yang (nc 83). No centro do convés eleva-se um rufo de pouca altura, servindo para abrigar a
tripulação.
Vários destes barcos têm o porão hermeticamente fechado. Não há nenhuma abertura no convés, excepto
na parte central, onde há uma escotilha fechada por uma cobertura estanque, de maneira que se podem considerai
estes navios como insubmersíveis.
285
O nome do barco e o porto onde reside são inscritos numa sequência de círculos pintados à ré, nos dois
lados do costado exterior.
Os Hong Chuan (nc 72) e os Xintan (ne 73), não trazem armamento aparente. a não ser, às vezes, um
velho pequeno canhão de bronze, colocado na plataforma de vante.
No Alto Yangzi Jiang, os homens andam fardados com um uniforme que consta duma calça apertada para
baixo dos joelhos, de um casacão verde à frente e atrás ornamentado com um círculo branco, no qual há uma
inscrição a preto indicando a região à qual pertencem ( Estampa 52 ). Na cabeça usam um turbante como é
costume em Sichuan.
Não há estações de salvamento regularmente organizadas nos portos da costa, excepto em Cantão, onde
as autoridades locais dispõem de pessoal treinado que, logo que se tem conhecimento de um naufrágio, recorre
a barcos de pesca tripulados por marinheiros experimentados que dão assistência no salvamento. Como
recompensa dos seus serviços, estes marinheiros recebem um subsídio por cada pessoa salva e uma percentagem
sobre o valor do navio e da carga.
Estampa 53 Barco de salvamento de Lhengians
286
PESCA COM ALCATRAZ
A pesca com alcatraz era praticada em França e na Inglaterra no século XVII, Na China remonta a uma
epoca mais antiga, visto que já é mencionada por Odorico Matthiuci na sua relação da viagem à China em 1322,
Nos dias de hoje. esta pesca continua a ser muito apreciada, visto ser muito produtiva. Pratica-se na
maior parte dos cursos de água do Sichuan. com jfangadas de bambu, do género catamaran ou com pequenos
barcos. género piroga. tripulados por um ou dois homens ( Estampa 57), Uma dúzia de alcatrazes, previamente
treinados numa longa e paciente aprendizagem, ficam empoleirados lado a lado na borda do barco, imóveis,
com as asas abertas ou pendentes, à espera do sinal do dono para se lançar à água € caçar a presa favorita.
Então. lançam-se todos à uma para fora do navio, mergulham e voltam à superficie sem descanso, até que
apanhem a presa. E verdadeiramente um curioso espectáculo, esta perseguição desenfreada debaixo de água.
onde se vêem desfilar em todos os sentidos estes pássaros de formas pesadas e de aparência tão calma, quando
tora de água,
Cada um deles traz à volta do pescoço um anel de bambu que o impedirá de engolir a presa. Uma
pequena corda, amarrada a uma das patas por um lado e por outro ao anel, permite ao dono, por meio de um
gancho lixo na extremidade de um bambu, trazê-los à borda e tirar-lhes à preciosa colheita que tentam, em vão.
engolir.
Mostram neste jogo de lorpas um ardor extraordinário, pois uma vez a pesca acabada, à equipa retoma
docilmente à sua posição a bordo. os anéis são-lhes tirados e a refeição para que deram todo o estorço, é-lhes
servida,
Quando várias equipas se reúnem habitualmente no mesmo local de pesca, cada uma tem uma marca que
a distingue. como um pequeno feixe de penas levantadas na cabeça, nas asas ou na cauda, e coloridas
diferentemente para permitir ao proprietário reconhecer o que é seu.
Estampa 54 Barco de salvamento de Nanjing
DOCUMENTOS CONSULTADOS
Chinese life boats; Imperial Maritime Customs, 1895.
Decennial Reports, by Stephenson Jellie, 1892-190]
287
NOTAS CHINESAS
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PORTO DE HANKOU
Nenhum porto do Rio Yangzi Jiang (nc |) parece mais conveniente para o estudo dos juncos do que o de
Hankou (nc 2). Pela sua posição incomparável no grande rio, na confluência com o Han Jiang (nc 3), este porto
vê afluir às suas águas mais de 20.000 juncos por ano, trazendo os produtos mais ricos do Império.
Estes juncos comprimem-se em filas compactas nas margens do Yangzi Jiang e na vasta foz do Han
Jiang (nc 3) onde formam uma verdadeira ponte móvel duma margem para a outra, enquanto milhares de
mastros se erguem, quase se tocam e dão a impressão duma floresta impenetrável (Estampas | e 2). Querer
descrever estes vários tipos de juncos seria empresa bem difícil, senão irrealizável, tanto estes barcos diferem
uns dos outros pelas formas e dimensões. É preciso não perder de vista, com efeito, que cada lago, cada curso
de água de pouca importância que seja. possui numerosos tipos apropriados à sua navegação e ao seu emprego
particular, e que estes cursos de água se contam às centenas na bacia do Yangzi Jiang (nc 1).
A nomenclatura por categorias, que facilitaria a descrição, não é sempre possível, e pode dar lugar a erros.
Acontece, com efeito, que o mesmo junco tenha nomes diferentes, segundo a natureza do comércio a que se
dedica, ou ainda que o mesmo junco seja conhecido por um nome diferente em cada um dos portos que frequenta.
Podem assim encontrar-se juncos pertencendo a regiões distantes umas das outras tendo o mesmo nome, apesar
de serem diferentes no tipo e na actividade.
Em Hankou (ne 2), como na maior parte dos outros portos, os juncos são conhecidos muitas vezes,
independentemente da sua denominação local, por um nome genérico lembrando o lugar da sua proveniência.
É assim que os que descem do Alto Yangzi Jiang são chamados Chuan He Chuan (nc 4), “barco de curso de
água de montanha”, os da bacia do lago Dongting, Nan Chuan (nc 6), “ barco do Sul“, os da província de Hubei
(ne 7), Hua Chuan (nc 8), os do lago Poyang (ne 9), Luotan (nc 10) e Cao Zi (nc 11), etc.
“ara evitar qualquer confusão, que não poderia deixar de surgir no imbróglio deste quebra-cabeças
tipicamente chinês, apresentaremos nas descrições que se seguem, os vários tipos de juncos no lugar mesmo em
que foram encontrados, sem ligar maior importância do que a que convém para este estudo, à identificação do
seu nome, assim como ao seu lugar de origem.
293
Estampa | Porto de Hankou
Estampa 2 Porto de Hankou
294
JUNCOS DE COMERCIO
As Estampas 1, 2, 3, 4. representam três espécimes dos mais importantes juncos que se encontram em
Hankou (nc 2).
Em geral de formas quadradas e maciças, os juncos de comércio têm um aspecto que se impõe pelas suas
dimensões. pela sua possante mastreação e pelo brilho faustoso do casco. O junco conhecido por Hong Chuan
(Estampa 3. figura 1) (nc 12), é o mais espaçoso na sua categoria. As suas dimensões atingem trinta e cinco à
quarenta metros de comprimento, seis a sete metros de boca, e um deslocamento de cerca de 400 toneladas.
Transporta para Shanghai (nc 21) chá. papel, porcelana, óleos vegetais, e volta a subir até Jiujtang (nc 13) com
mercadorias europeias ou ainda com grandes carregamentos de sal que toma na estação de Yizheng (nc 14). a
algumas milhas à montante de Zhenjiang (nc 15), na margem esquerda do Yangzi Jiang (nc 1). Esta estação é
um centro importante, colocado sob o controlo do Governo, que monopoliza o comércio do sal.
São às centenas os juncos de todas as dimensões, entre os quais domina a alta silhueta dos Hong Chuan
(inc 12). que se agrupam lado a lado, numa ordem perfeita, ao longo da margem onde se estendem grandes
montões de sal, abrigados debaixo de esteiras. O casco do Hong Chuan (ne 12) é robusto, cuidadosamente
construído e bem conservado com óleo de Tong You (nc 16), que lhe dá aquela cor amarela avermelhada do
“pitchpine”, tão atraente na variedade dos seus efeitos.
A popa ergue-se monumental a sete ou oito metros acima da linha de água. com o seu grande leme de tipo
compensado. cuja madre sobe ao longo de uma almeida aberta no painel de popa, e se eleva por cima do tecto
do rufo onde fica o homem do leme. O convés eleva-se acentuadamente para a popa a fim de dar ao piloto um
horizonte bem livre à sua volta. Uma pequena plataforma, circundada por uma galeria que extravasa para O
exterior, à maneira duma ponte dos nossos navios de alto mar, facilita a vigilância ao longo dos bordos.
A mastreação compreende dois mastros, o do centro é enorme com os seus 25 metros de altura, feito com
duas ou três peças de secção quadrada, unidas por anéis de ferro, ergue-se na parte de vante do grande rufo que
atravessa por uma enora envolvida por uma guarnição estanque em tecido oleado. O mastro de vante, leve e
móvel, ergue-se na parte de vante do convés.
As velas são de tecido de algodão do tipo de pendão: a do mastro grande é muito alta a fim de captar o
vento por cima das arribas; é em duas partes verticais, reforçadas por uma trintena de vergas transversais. Estas
velas. como na maior parte dos grandes juncos do Yangzi Jiang(ne 1), são abrigadas. quando o junco está
fundeado, numa bainha estanque feita de esteiras ondeadas envernizadas. Assentam em cavaletes encostados às
anteparas do grande rufo. O junco fundeia com fateixas de quatro patas que assentam sobre uma ou duas fortes
peças de madeira em forma de turcos, colocadas na borda a vante,
O junco da fig 1, Estampa 3, frequenta o porto de Nanjing. O casco é solidamente construído, o convés
desempachado a fim de facilitar a manobra das duas grandes velas, o rufo central que dá abrigo ao porão das
mercadorias é formado por anteparas móveis. Os aparelhos de manobra são os mesmos que os dos juncos das
Estampas +e 5.
A Estampa + que representa um junco dum tipo análogo ao anterior, mostra a posição das fateixas.
prontas para fundear. Nota-se ainda o passadiço de dois pés de largura permitindo a circulação à volta do rufo
central.
Em geral estes grandes juncos têm o tabuado do costado reforçado com fortes percintas em relevo que
acentuam o adelgaçamento dado aos bordos acima da linha de água.
JIUJIANG
Este junco € Estampa 5 ) é muito comum no Baixo Yangzi Jiang, onde é usado para transporte de
passageiros e carga entre Jiujiang (nc 13)0 lago Poyang (ne 9) e os portos a jusante de Nanjing (ne 17).
1)
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Estampa 3 Hankou - Junco de comércio
A antepara a vante do rufo tem janelas que deixam entrar a luz para uma grande câmara reservada para os
personagens de categoria. Mesmo na popa há dois suportes em ferro em forma de forquilha (Estampa 6) que são
destinados a receber lanternas ornamentadas com grandes caracteres indicando a posição e as funções do viajante.
Um mastro de grande diâmetro ergue-se sobre o rufo central; um segundo, muito leve e móvel está
colocado no convés a vante. Se há visitas oficiais, suprime-se o pequeno mastro de vante. O grande rufo central
é destinado às mercadorias e aos viajantes. As anteparas exteriores são móveis e a ventilação pode fazer-se por
uma larga abertura cortada na cobertura do rufo e coberta por um painel. Uma abertura semelhante foi feita a ré,
na parte do rufo ocupada pelo patrão e família. A popa, há uma plataforma a céu aberto, sobre a qual se abre
uma porta que comunica com o camarote do patrão (Estampa 6).
JIUJIANG
Este junco (Estampa 7) tanto é utilizado para o transporte de passageiros como de mercadorias. O casco
é igual ao do Hong Chuan (nc 12). Um grande rufo vai até ao extremo de ré, cortado por uma passagem que dá
acesso à câmara do patrão (nc 18). É neste rufo (duplo) que fica o homem do leme. Um só mastro, com vela de
pendão, fica no convés, bastante longe do rufo, na parte de vante reservada aos viajantes. No costado à bombordo
a vante está instalada uma pequena plataforma quadrada, circundada por uma balaustrada.
Este pequeno reduto para uso íntimo, sem dúvida, vê-se na maior parte dos juncos do lago Poyang (nc 9).
O junco representado na Estampa 8, pertence à mesma classe do anterior. O grande rufo é construído com
anteparas móveis que se tiram parcialmente para o embarque das mercadorias, Um pequeno guincho está colocado
na cobertura, no pé do mastro grande, para a manobra da vela.
Um segundo mastro basculante de dimensões bastante grandes ergue-se no convés à vante.
Este junco ( Estampa 9 ) é aparelhado como o anterior, excepto à ré onde se sobrepôs uma espécie de
caixa quadrada donde sai um terceiro mastro de pequenas dimensões, munido duma vela, Um rufo com anteparas
móveis ocupa uma grande parte do convés. O grande junco ( Estampa 10), tem várias particularidades que o
296
TE
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Estampa 5 Jiujiang - Junco de comércio e de passageiros
Parte de ré do junco da Estampa 3
Estampu 6
297
distinguem dos anteriores, nomeadamente na disposição dos rufos que são mais baixos, de forma que o convés
de ré onde está o posto do homem do leme está completamente desempachado, assim como a parte de vante
onde se erguem dois mastros sólidos reforçados na base por dois arcobotantes, que se apoiam no convés.
O tabuado do casco adelgaça de forma arredondada acentuada por duas grandes percintas, que têm o
duplo efeito de consolidar o costado e de aguentar o esforço dos choques exteriores. A popa (Estampa |, figura
2) tem um perfil elíptico num plano que curva para baixo para receber a porta do leme compensado. Notar à
ligação do tabuado do casco e dos painéis de vante e de ré, feita por fortes grampos de ferro, visíveis no
contorno de cada uma destas extremidades. No painel de popa há duas âncoras, dispostas como antigamente
nos navios ocidentais, as âncoras chamadas “de estreito ou em galera”. (A expressão equivalente em português
é “ âncora à roça”, âncora que está unicamente aguentada pelas boças, e assim, pronta a ser largada).
Encontramos de novo o mesmo perfil elíptico da popa no junco de Wuhu (nc 19) (Estampa 12) que
apresenta igualmente rufos pouco elevados acima do convés. O de vante é de forma arredondada, com cobertura
parcialmente móvel, por cima do porão das mercadorias. O mastro grande ergue-se por cima desta cobertura,
enquanto que o segundo está colocado no convés, contra a antepara a vante.
O leme é de grandes dimensões, com porta compensada. A sua accão pode ser reforçada pela manobra
dum leme de gingar, colocado no painel da proa, à maneira do Sao (nc 20) dos juncos do Alto Yangzi Jiang.
Com a sua potente mastreação e o belo porte do seu casco, este junco (Estampa 13) tem um aspecto
imponente. Pertence à família dos grandes juncos do Yangzi Jiang(nc |), descrita mais acima, com a diferença
de ser um dos poucos que tem quatro mastros, e os dois do centro com velas de grande envergadura. Por outro
tado, as fortes percintas que cinturam habitualmente o casco, acima da linha de água, não são visíveis senão nos
extremos de vante e de ré, pois na parte central ficam dentro de água. Este dispositivo é característico dos
jJuncos do lago Poyang. Este junco navega entre Hankou (nc 2), Shashi (nc 36) e o lago Dongting (nc 5).
JUNCOS DE CARGA
Apesar duma aparência simples e da sua forma de barcaça, estes juncos, como as balandras holandesas,
são cuidadosamente construídos, e têm o casco muito bem tratado e revestido com um verniz brilhante. São
exclusivamente usados no transporte de mercadorias, muitas vezes bastante pesadas, que aumentam às vezes
perigosamente o seu calado, a ponto de se afundarem. O convés é desempachado em quase todo o comprimento.
Um ou dois rufos, muito baixos, servem de alojamento à tripulação e de abrigo às mercadorias. Há um mastro
ao centro, muitas vezes móvel, para permitir a passagem debaixo das pontes.
JIUJIANG
O junco da Estampa 14, apresenta algumas particularidades. O porão de vante é enquadrado por uma
longarina de convés, com um pé e meio de altura acima do convés. Pode-se, no entanto, circular à volta desta,
graças a um passadiço que sobressai da borda.
As anteparas do rufo, de forma trapezoidal, são constituídas por painéis móveis.
À popa, um guincho colocado na prumada da madre permite içar o leme. Este junco dedica-se
habitualmente ao transporte para Shanghai de grandes jarrões provenientes das fábricas do lago Poyang (ne 9).
Tem um só mastro móvel, com vela rectangular.
JIUJIANG
O junco da Estampa 15, tem igualmente só um mastro móvel, que se abate sobre cavaletes colocados à
popa. A junção do tabuado com os painéis de vante e de ré, é reforçada por ferragens de contornos variáveis,
visíveis nos bordos. Usa um Sao do tipo Alto Yangzi Jiang com a pá esculpida em forma de cimitarra.
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Estampa 7. Jiujiang - Junco de comércio e de passageiros
NANJING
No junco da Estampa l6, a popa é de forma rectangular com um painel perfurado na parte superior, que
prolonga a borda de tempo do convés. O leme é compensado. A sua grande cana em cotovelo permite ao piloto
manobrar O junco por cima da cobertura do rufo. Os dois mastros são móveis. O porão de vante, compreendido
entre estes dois mastros, é fechado por painéis colocados sobre uma alta braçola. O casco é consolidado por
duas fortes percintas, pouco acima da linha de água. O convés é protegido por uma borda de tempo de um pé de
altura a ré, e que vai diminuindo de altura à medida que se aproxima de vante.
HANKOU
O junco da Estampa 17, tem muitos pontos em comum com o anterior. O casco é no entanto ainda mais
robusto, com três ou quatro largas percintas saídas. que são o elemento esssencial do costado. O painel de ré é
também melhor disposto, com uma dupla antepara mais para dentro que abriga a madre e lhe assegura melhor
comportamento.
O porão das mercadorias, com uma alta braçola, ocupa a totalidade do convés. Um rufo de dimensões
reduzidas abriga o homem do leme, na extremidade de ré, uma plataforma com clarabóia prolonga o alcatrate.
O interior do porão está reservado para as mercadorias, pelo que a tripulação dorme no convés debaixo de
esteiras móveis, colocadas a pouca altura acima dos que dormem. Estas esteiras são arrumadas, de dia, sobre a
cobertura do rufo.
Esta regra verifica-se quase sempre nos juncos de carga que por vezes dispõem de alojamentos para a
tripulação.
300
Estampa 8 Jinjiang - Junco de comércio e de passageiros
Estampa 9 Jinjiang - Junco de comércio e de passageiros
HANKOU
Entre os juncos de carga que frequentam o porto de Hankou (nc 2) há um (Estampa 18), cujo casco tem
uma silhueta das mais estranhas. Projectado sobre um plano passando pela flutuação, o contorno do casco
representa exactamente o de dois barcos juntos topo a topo, no ponto mais estreito da largura do junco que,
neste caso particular e contrariamente à regra habitual, se encontra pelo través do mastro grande. Esta deformação
foi feita pelo construtor com o fim de dimiminuir a taxa de tonelagem que a alfândega calcula pela largura do
junco tomada pelo través do mastro grande. Esta forma anómala volta a encontrar-se, com um contorno mais
acentuado, num pequeno junco, representado na Estampa 38, e que também frequenta o porto de Hankou. Foi
com o mesmo propósito de reduzir a taxa aduaneira que os construtores do lago Poyang transferiram o
adelgaçamento do casco para a parte de vante onde se ergue o mastro grande, cuja localização serve de base
para os cálculos da alfândega (Ver Estampas 30, 31).
30!
Estampa 10 Nanjing - Junco de carga
Estampa 11 Nanjing - Junco de carga
302
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Na província de Shandong (nc 22) há um junco da mesma forma que o de Hankou (nc 2), conhecido pelo
nome de Gua Lou (nc 23), ou “* cesto cabaça”. Pondo de parte a forma particular do casco, O junco ( Ver
Estampa 18 ), copia as características gerais do convés, da proa e da popa dos grandes juncos de Nanjing e de
Hankou descritos mais acima. Notar a meio do convés (Estampa 18) uma travessa móvel. a cada bordo e no
alcatrate, para servir de apoio ao leme de gingar lateral.
ZHENJIANG
No convés deste junco (Estampa 19) erguem-se três rufos de pouca altura, o do centro tendo apenas cinco
pés acima do alcatrate. O pequeno rufo de vante é separado do seguinte por uma passagem estreita onde se
eleva o mastro grande, muito alto e móvel como o de vante que é de fracas dimensões.
O casco é consolidado por fortes percintas, na altura do convés, que terminam em arco muito acentuado
para a popa que se prolonga por uma plataforma desapoiada.
ZHENJIANG
Este junco (Ver Estampa 20) tem as mesmas características do anterior, rufos muito baixos, mastro grande
móvel, leme compensado manobrado por uma cana muito comprida que se desloca por cima do rufo de ré.
enquanto o homem do leme fica no convés entre os dois rufos. Estes juncos usam lemes de gingar laterais.
indispensáveis quando se deslocam nos portos atravancados de navios.
HANKOU
Este tipo de junco encontrado em Hankou (nc 2) (Estampa 21) merece uma menção especial por via das
muitas particularidades que apresenta. De construção robusta e cuidada, o casco distingue-se pela finura das
linhas que se elevam nas duas extremidades, para formar a vante uma espécie de roda de proa visível acima da
linha de flutuação, e à popa, um painel muito estreito de forma triangular.
O tabuado do costado é trincado (1), processo de montagem raramente usado na China, mas, contrariamente
à prática europeia, é o tabuado inferior que se sobrepõe ao tabuado superior. Esta técnica da construção chinesa
explica-se pelo facto do tabuado do casco ser colocado sobre as anteparas transversais servindo de balizas.
começando pelo plano superior do alcatrate, enquanto na construção europeia começa pelo tabuado da carena.
O casco, contrariamente ao que existe nos juncos de carga com as mesmas dimensões, não é consolidado por
percintas, salvo na altura do alcatrate, em que se nota uma forte peça de madeira saída estendendo-se somente
ao longo do porão das mercadorias. Sobre este reforço, de forma arredondada, apoia-se a primeira fiada do
convés, ligeiramente inclinada com o fim de que a água se não infiltre no porão. Esta preocupação de assegurar
o conforto no junco constata-se também no conjunto da construção, em que a harmonia de formas se alta a um
asseio meticuloso.
O casco termina a ré por duas alas muito próximas que se levantam bruscamente até atingirem a cobertura
do rufo. Deixa entre elas um intervalo livre, fechado por duas anteparas onde se move a madre do leme
compensado. As estampas 21 e 22, mostram as particularidades principais deste tipo de junco que se encontra
em grande número entre Hankou (nc 2) e Nanjing (ne 17).
1) Ver Tomo H: Construção dum junco, página 1H.
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Estampa 12. Junco de Wuhu
Estampa 13 Hankou, Shashi - Junco de comércio
HANKOU
A Estampa 23, representa um junco do mesmo tipo navegando à vela. O tabuado do casco é também
trincado, com uma forte peça de madeira saída, formando a roda de proa na qual repousa o trincaniz. A vante,
de cada lado da roda de proa, podem ver-se as âncoras de quatro patas em posição de fundear.
HANKOU
As mesmas características de casco voltam a encontrar-se neste junco ( Estampa 24 ) que pertence ao tipo
anterior. A popa ( Estampa 25 ) e a proa têm aspectos análogos, excepto a manobra do leme que se faz por cima
da cobertura do rufo, onde se vêem algumas ripas transversais, com o fim de facilitar o equilíbrio do homem do
leme.
O rufo central é o de maior comprimento, vat até junto do pé do pequeno mastro. A implantação do
mastro grande é inserida neste rufo que é em forma de túnel, e cujas anteparas são parcialmente móveis. As
fateixas ficam suspensas dos extremos de duas peças de madeira saídas, colocadas à um lado e outro da roda de
proa.
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Estampa 15 Jiujiang - Junco de carga
Estampa 14 Jiujiang - Junco de carga
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Estampa 16 — Nanjing - Junco de carga
Estampa 17. Hankou - Junco de carga
306
HANKOU
Ainda que pertencendo à mesma categoria dos precedentes, o casco deste junco (Estampas 26-27) difere
em vários pontos. O costado trincado cedeu o lugar ao costado liso à que se justapõem, por um lado, três fortes
falcas em relevo colocadas por cima da linha de água com curvatura acentuada para cima nos dois extremos e,
por outro, uma quarta falca, igualmente convexa, consolidando o alcatrate. na qual assenta a calha do trincaniz,
inclinada para o exterior, como nos outros juncos. À ligação do tabuado às falcas é feita por meio de fortes
grampos de ferro. Os painéis de proa e de popa diferem sensivelmente dos outros, não deixando de mostrar a
mesma finura de linhas. Assim o maciço de madeira em que acabava a roda de proa é substituído por um plano
da mesma largura, enquanto que a popa é fechada a toda a altura, por um painel completo, dominado pelo ruto.
onde fica o homem do leme. O rufo central é em forma de abóboda, cuidadosamente construído e com aberturas
para os bordos. A cobertura é móvel e composta por painéis que podem deslizar horizontalmente em ranhuras
praticadas nos lados da ossada do rufo.
HANKOU
A configuração bem característica da roda de proa dos três juncos descritos acima ( Estampas 22, 23,24)
encontra-se na maior parte dos grandes juncos que frequentam o porto de Hankou. À Estampa 28, representa
um outro tipo de junco de comércio, tendo a mesma disposição que aquele descrito páginas atrás. O porão das
mercadorias é abrigado por um comprido rufo central, de forma trapezoidal com seis pés de altura, cujas anteparas
laterais são formadas por painéis móveis. O rufo de ré serve de alojamento ao patrão e de posto ao homem do
leme. À mastreação consiste em dois mastros, o do centro de grande diâmetro com implantação numa abertura
estanque aberta no rufo. Notar a inscrição pintada no maciço de madeira da roda de proa, representando o
caracter “ fou “, que significa “ felicidade ”.
LAGO POYANG
A bacia do lago Poyang (ne 9) é um centro comercial muito importante sulcado por milhares de juncos
carregados com produtos locais: papel, arroz, chá, tabaco, que se trocam nos portos do Yangzi Jiang (nc 1) por
outros produtos tais como tecidos de algodão e artigos europeus. A cidade de Jiujiang (nc 13), situada não
longe da entrada do lago, é o porto principal destas trocas: 20 a 30.000 juncos visitam anualmente este porto.
provindo a maior parte do lago e da província do Jiangxi (ne 27).
GUA LOU (nc 23)
A maior parte destes últimos apresentam uma particularidade bem estranha, a de ter um casco em forma
de abóbora alongada, o que lhes valeu o nome de Gua Luo, “ cesto cabaça ”. O junco apresentado pela Estampa
29, é um dos de maiores dimensões, podendo a sua capacidade atingir cem toneladas, o seu comprimento vinte
e cinco metros e ter na sua casa mestra cinco metros de boca.
A baliza mestra, como mostra a Estampa 30, fica a dois terços do comprimento na linha de flutuação. a
contar da proa. A partir deste ponto a boca diminui regularmente até ao través do mastro grande, onde tem
menos de dois metros. Este estreitamento do casco não resulta de qualquer necessidade de construção ou de
navegação; não é mais do que um subterfúgio imaginado pelos comerciantes para não pagarem uma parte
importante das taxas de navegação que têm por base, segundo leis antigas e imutáveis como o são as tradições
chinesas, a boca, medida pelo través do mastro grande. Este mastro ergue-se, contrariamente ao que é uso, a
fraca distância da proa, enquanto noutros juncos é colocado, com mais razão. no centro do navio. O casco
destes juncos é robusto, solidamente reforçado por várias falcas feitas de meios troncos de árvore, quase sem
serem aparelhados e fortemente arqueados, o que assegura uma grande rigidez longitudinal. a qual se junta à
que lhe dá o pronunciado estreitamento do casco na parte mais larga. Sobre a quase totalidade do convés há
307
Estampa 24 Hankou - Junco de carga
Estampa 25 Parte de ré do junco da Estampa 21
vários rufos de madeira de formas e dimensões várias. O mais importante, o de vante, é destinado aos passageiros
e às mercadorias. Três escadas de cada bordo, encostadas ao costado em forma de abóbada, permitem o acesso
à cobertura deste rufo, onde se amontoam toda a espécie de objectos: espias, croques e varas de bambu, junto
das duas velas, cuidadosamente enfiadas, quando o navio está fundeado, em sacos cilíndricos de tecido preto
envernizado. Uma larga prancha suspensa à cada bordo por meio de cabos amarrados no pé das escadas, permite
circular em volta do junco. Serve também de caminho de alagem aos homens que empurram o junco com
compridos bambus, que enterram no fundo. O segundo rufo, que está ligeiramente retraído em relação ao
costado, é ocupado pela tripulação. Na extrema popa fica o abrigo do homem do leme, ao pé do qual fica a
entrada do alojamento do patrão e família. As mulheres ajudam na manobra e as que têm os pézinhos deformados
não são as menos hábeis a manobrar as velas ou a largar as amarras.
O junco tem dois mastros com velas de pendão de tecido de algodão. O mastro grande, maciço e de
secção quadrada, fica no extremo de vante; o de ré, de pequena altura, implanta-se no rufo da tripulação,
ligeiramente desviado para estibordo da linha mediana do convés. Estes juncos não têm lemes laterais, nem
remos de gingar. A exiguidade do convés não permite o uso de remos aos bordos. Ou andam à vela ou são
308
Estampa 31 Junco do lago Povang
impelidos com varas ao longo das margens pouco profundas do lago Poyang (nc.9) ou dos rios que nele
desaguam.
LAGO POYANG
Como o anterior, este junco ( Estampa 31 ) pertence ao tipo dos Gua Lou (nc 23), “ cesto cabaça “, dada
a forma dada ao seu casco. Com um comprimento duma vintena de metros, os arranjos do convés consistem em
vários rufos de diversas formas que se seguem sem interrupção da popa à proa, onde fica o único mastro.
O rufo central é de forma arredondada; tem duas escadas a cada bordo ligadas por travessas, que vão
servir para suporte da vela, para ter os croques, remos e espias. O leme é de porta compensada. A madre
atravessa o rufo de ré. O homem do leme manobra-o do rufo seguinte.
LAGO POYANG
Este junco ( Estampa 32 ) é do mesmo tipo que o da Estampa 29, diferindo só pelas instalações do convés
que só tem um rufo totalmente de madeira e um compartimento pouco elevado sobre o mesmo convés que serve
de alojamento ao patrão. A disposição do tabuado do casco que é aqui bem aparente, mostra o método seguido
pelo construtor para conseguir, pela simples ordenação destes forros, uma perfeita coesão longitudinal do conjunto.
A ossada do casco é constituída, como nos outros juncos, por cintas muito fortes e em arco que descem abaixo
da linha de água e voltam a elevar-se nos extremos de vante e de ré. A porção do casco compreendida neste
actua como um simples reforço, servindo de apoio às anteparas estanques.
GAN CHUAN (nc 24)
Este junco ( Estampa 33 ) é oriundo das margens do Gan Jiang (nc 25) que se lança no lago Poyang (ne
9), depois de ter passado diante de Nanchang (nc 26), a capital da província do Jiangxi (ne 27).
É conhecido por Gan Chuan. As suas pequenas dimensões permitem-lhe penetrar muito para o interior
até aos confins da província de Guangdong (nc 28).
O casco é bem construído, cuidadosamente mantido com óleo de Tong You (nc 16); as extremidades de
vante e de ré são bem lançadas e elevam-se por uma curva pronunciada como nas gôndolas venezianas. Esta
forma foi-lhe dada para proteger o convés da surriada que o junco está exposto a receber nos violentos rápidos
do Gan Jiang (nc 25) e também para servir de ponto de apoio aos homens que fazem a alagem enterrando a vara
no fundo. Os dois mastros ficam nas extremidades do rufo; o de ré tem a implantação na plataforma em que fica
o homem do leme e que cobre o alojamento do patrão.
309
Estampa 18 Hankou - Junco de carga
Estampa 19 Zhenjiang - Junco de carga
O junco da Estampa 34 pouco difere do anterior. As linhas do casco são igualmente finas e esguias, mas
a curvatura a vante é menos acentuada.
A parte de ré apresenta uma particularidade que, à primeira vista, parece imputável a um acidente. O
costado a ré é recortado à estibordo, na parte não apoiada, deixando a descoberto o leme que pode assim ser
visitado e reparado facilmente. O comprimento deste tipo de junco é de quinze a dezoito metros, a boca dois
metros e cinquenta a três metros, a capacidade de trinta a quarenta toneladas. Um só mastro a vante envergando
uma vela muito alta.
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Estampa 20 Zhenjiang - Junco de carga
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Hankou - Junco de carga
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Estampa 22 Hankou - Junco de carga
Estampa 23. Hankou - Junco de carga
O junco seguinte (Estampa 35), pertence à mesma categoria dos juncos específicos do lago Poyang (ne
9), com formas mais pesadas e os extremos menos elevados. O comprimento é de vinte a vinte e cinco metros.
Um só mastro com vela rectangular de algodão, sem vergas intermédias.
LAGO DONGTING
A vasta bacia do lago Dongting e os seus numerosos afluentes encerram inumeráveis juncos, na sua
maior parte relacionados com os tipos já encontrados no Médio Yangzi Jiang. A Estampa 36 representa um
grande junco de quatro mastros, com vinte a vinte e cinco metros de comprimento, muito comum em Changsha
(nc 29), capital da província do Hunan (nc 30), no Xiang Jiang (nc 31). A disposição do convés difere pouco da
do grande junco do lago Poyang ( Estampa 29 ). Os rufos são construídos e dispostos da mesma maneira. O
casco, sendo reforçado com cintas fortes, não dá no seu conjunto a mesma impressão de solidez, nem de finura
Estampa 35 Junco do lago Poyang
que encontramos no primeiro. A proa é quadrada e pouco se eleva acima da linha de água. A popa é igualmente
pesada e pouco alta. Pelo contrário, a possante mastreação, com as grandes velas, permitem-lhe lutar contra as
violentas correntes do Yangzi Jiang (nc 1) e do lago Dongting (nc 5), onde o nível das águas pode ultrapassar
dez metros acima do nível mais baixo do rio, durante as cheias de Verão.
Este grande junco de quatro mastros ( Estampa 37 ), apresenta um aspecto bastante estranho, com o casco
solidamente cintado em arco, à maneira dos juncos do Poyang, e uma disposição dos rufos que foi buscar ao
junco de Jiujiang (nc 13) (estampa 5 ). Da mesma forma que o anterior, este junco oriundo do lago Dongting
(nc 5), irradia na bacia do Yangzi Jiang (nc 1) e do lago Poyang (ne 9). Os grandes rufos que ocupam grande
parte do convés, podem receber passageiros e mercadorias. As suas anteparas são desmontáveis em todo o
comprimento, excepto à popa, que forma o alojamento do patrão e da família.
A categoria de juncos da Estampa 38 é pouco vulgar em Hankou (nc 2). Pertence ao género Gua Lou (nc
23), “ cesto cabaça “, descrito mais acima cujo casco foi voluntariamente deformado pelo través do mastro
grande, com vista a reduzir as taxas aduaneiras desse porto, baseadas na boca do convés.
De construção ligeira e cuidada, o casco não tem qualquer consolidação aparente. O tabuado do casco é
esquadriado e entalhado com finura, assim como o rufo cuja forma semi-circular como a de um túnel faz realçar
o belo brilho do seu verniz. A vante deste rufo, fica o porão das mercadorias coberto dum pavimento amovível.
Este porão ( Estampa 39 ) é dividido, como é costume, por anteparas transversais (c.c) fazendo efeito de balizas
e, além disso, por duas anteparas longitudinais (d.d) distantes uma da outra duma largura igual à da secção
estreita, pelo través do mastro. O volume do porão é assim equiparado ao correspondente à taxa aduaneira, visto
que é proibido, em princípio, utilizar os dois crescentes a cada bordo como porão de mercadorias.
Estes juncos são utilizados para transportar géneros alimentícios leves, tais como chá e arroz, e também
bambus que se dispõem no sentido do comprimento no convés, depois de se terem tirado os rufos. Para este
efeito colocam-se barras atravessadas e apoiadas na amurada e que saem dois a três metros para o exterior.
O comprimento do junco é de quinze a dezoito metros. Um só mastro ao centro, com uma vela leve em
tecido de algodão. leme compensado. A Estampa 40 mostra um pequeno junco de carga com dez a doze metros
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Estampa 37. Lago Dongting - Junco de comércio
de comprimento, muito comum no distrito de Jiujiang (nc 13). O casco é de construção robusta e cuidada e é
reforçado, por altura da amurada, por duas fortes cintas com um passadiço que sai para fora em todo o
comprimento do convés. O rufo central cobre o porão das mercadorias e todas as suas partes são desmontáveis.
O rufo de ré abriga os quatro a cinco homens da tripulação e serve de posto ao homem do leme. A notar no
convés, entre os dois mastros, a presença de duas travessas horizontais, que saem para o exterior. Servem de
cabeços para amarração. Este dispositivo é pouco usado fora dos Alto Yangzi Jiang.
De dimensões um pouco maiores, o junco da Estampa 41 tem muitos pontos em comum com o anterior.
Mesma construção cuidada, com rufos de forma elíptica de anteparas desmontáveis cobrindo o porão das
mercadorias, e a ré um pequeno rufo que serve de alojamento da tripulação e de posto do homem do leme.
Esteiras móveis colocadas no intervalo livre entre os dois rufos permitem aumentar o abrigo da tripulação.
Um mastro único à vante com uma vela de pendão muito alta. Dois suportes móveis na amurada de vante
servem para lemes de gingar laterais.
À Estampa 42 representa um grande junco de carga com o comprimento de vinte e cinco a trinta metros.
Tem alguns pontos em comum com os juncos de Jiujiang descritos mais atrás. O casco parece menos robusto,
se o julgarmos pelo número e dimensão das cintas. Em compensação é de construção mais cuidada, o aspecto
geral é mais harmonioso, graças à forma e à disposição dos seus rufos, que lhe dão a elegante silhueta dum
“House Boat” . Tem dois mastros com velas de pendão. À escota da vela de ré é armada na extremidade duma
antena que penetra no rufo de ré (Ver Estampa.43). Estes juncos são habitualmente acompanhados duma sampana
com um cabrestante para virar a âncora (Estampa 44). No painel da popa da sampana há uma prancha de deriva,
instalada em permanência. que substitui o leme.
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Estampa 22
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Estampa 28 Hankou - Junco de comércio
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Estampa 29 Junco do lago Povang
Estampa 30 Plano do junco do lago Povang
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Estampa 32 Junco do lago Povang
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Estampa 33 Junco do lago Povang
318
Estampa 34 Junco do lago Poxang
Estampa 36 Junco do lago Dongting
319
Estampa 38 Hankot - Junco tipo Gua Lou
Estampa 39. Plano do junco da Estampa 33
320
Estampa 42 Jinjiang - Grande junco de carga
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Estampa 43 Parte de ré do junco da Estampa 37
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O junco da Estampa 45, é oriundo de Yangzhou (nc 32) que fica no grande canal ao norte do Yangzi
Jiang. Transporta passageiros e carga. Tem cerca de vinte metros de comprimento. O casco é mantido com óleo
de Tong You (nc 16) e adelgaça a meio de forma pronunciada e convexa, por cima do qual vão surgir as
anteparas dum rufo arqueado, coberto de painéis móveis servindo de abrigo aos passageiros.
O convés é protegido com bordas de tempo que prolongam o tabuado do rufo para vante e para ré. Há
duas plataformas que saem do convés nas duas extremidades; a de ré dá passagem à madre do leme de porta
ordinária; a de vante facilita a acostagem à margem. Serve também de apoio ao Sao (nc 20), espécie de grande
leme de gingar, cuja pá está ornamentada com esculturas ( Estampa 56, Ia Parte ), e que em certas circunstâncias,
apoia a acção do leme.
O interior do porão é dividido em dez compartimentos estanques. A mastreacão consta de dois mastros
móveis, colocados por ante a vante do rufo; entre os dois, um cabrestante de puro estilo chinês, serve para a
manobra das velas e das fateixas de ferro. O junco usa dois lemes de gingar laterais, apoiados sobre duas
travessas, colocadas no exterior, pelo través do mastro grande.
Estampa 44 Sampana de junco
JUNCO DE YANG HE
Pequeno junco de carga, robusto e maciço, tem o comprimento de dez metros, a boca de três metros e o
casco é consolidado por duas cintas que acentuam o seu forte adelgaçamento de forma convexa (Estampa 46).
O porão é dividido em três compartimentos, sendo os dois de vante cobertos por painéis móveis colocados
em altas braçolas. É oriundo de Yang He (nc 33), perto de Wuhu.
ZHENJIANG
A Estampa 47 representa um grande junco de carga com vinte metros de comprimento, casco robusto
fortemente arqueado, consolidado por uma espessa cinta à altura do convés. À proa e a popa são de forma
quadrada. A popa termina de forma não apoiada, abrigando o leme de porta ordinária. Um só mastro com uma
vela de algodão curtido. O porão é abrigado por um rufo rectangular.
Os pequenos juncos e sampanas em uso na região de Nanjing (nc 17), Wuhu (nc 19) e de Zhenjiang (nc
15), (Estampas 48,49,50) têm um carácter local que pode ser assim resumido: casco bem construído, pintura
mais frequentemente de cor preta ou envernizados com Tong You(nc 16), terminados à popa por duas asas
324
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Estumpa 46 Yang He - Pequeno junco de carga
desapoiadas, enquadrando o leme. No centro do barco um rufo de madeira, aberto nas duas extremidades,
abriga passageiros e mercadorias. Os bordos prolongam-se, ao longo da amurada, para proteger o convés da
surriada.
À proa há um porão, ao qual se tem acesso por uma escotilha com uma braçola alta, coberta por um
painel. Dois ou três remos ficam nesta parte de vante onde se ergue o mastro; à popa fica o homem do leme que
também tem um remo a bombordo. Nos juncos em que vivem as famílias, esta tarefa compete à mulher do
patrão que pode à vontade vigiar a cozinha que tem diante de si e os filhos deitados nos berços.
A embarcação representada pela Estampa 51 é uma espécie de barcaça utilizada nas cargas e descargas
dos navios que passam por Hankou (nc 2). Não tem rufos, todo o convés servindo de porão de mercadorias. À
popa, um abrigo de esteiras cobre o posto do homem do leme, assim como a cozinha, que fica perto dele, num
recanto do porão.
O casco é reforçado por duas cintas, uma na linha de água, a outra à altura da amurada para servir de
defesa nas atracações. O leme, não compensado, pode ser içado ou arriado por um guincho colocado na prumada
da madre, dispositivo raramente usado nos juncos de rio. Esta barcaça dispõe como meios de propulsão duma
grande vela, dum leme de gingar a cada bordo e de varas.
A barcaça representada na Estampa 52 é do mesmo tipo que a anterior, só diferindo por ter no convés um
grande rufo em forma de dorso de burro que cobre o porão das mercadorias. Este rufo é cuidadosamente
construído, calafetado e passado a óleo de Tong You (nc 16) com uma grande abertura a ambos os bordos
e outra a vante. O mastro fica junto à antepara de vante, e foi ligeiramente desviado do eixo do convés de forma
a deixar livre a entrada para o porão de vante. Um passadiço com a largura de dois pés permite circular ao
longo do rufo. Serve sobretudo para que se possa utilizar a propulsão por vara, única maneira de abrir uma
passagem através dos numerosos juncos que estacionam em Hankou (nc 2).
O junco de carga representado na Estampa 53 é o tipo correntemente usado em Hankou (nc 2) para o
transbordo das mercadorias neste porto. É uma espaçosa embarcação de 20 a 25 metros de comprimento e de
quatro a cinco de boca, em serviço correntemente neste porto.
Casco robusto, fortemente arqueado, consolidado por uma espessa cinta formando amurada. O painel
que dá acesso ao porão das mercadorias assenta numa braçola de pé e meio de altura.
O pequeno porão de ré é destinado à tripulação. Há só um mastro que fica ao centro e que tem uma vela
muito alta de corte rectangular, reforçado por numerosas vergas intermédias.
HAN JIANG
O Han Jiang (nc 3) contribui em grande parte para o movimento do porto de Hankou (nc 2). Circulam aí
muitos juncos que vão até à província do Shanxi (nc 34), a mais de 1.000 quilómetros da foz do Yangzi Jiang
(nc 1). A maior parte deles provêm de Hankou (nc 2) e das regiões vizinhas, do lago Poyang (nc 9) em especial,
325
por isso a construção local muitas vezes se inspirou na estrutura dos juncos da região na apresentação dos seus
vários tipos.
Estes juncos fazem-se notar pelas formas esbeltas, estreitas e baixas e sobretudo pela configuração estranha
da popa que se eleva nas extremidades numa curva muito pronunciada e suficientemente espaçosa para dar
abrigo ao homem do leme ( Estampa 54 ).
A Estampa 55 representa um junco duma vintena de metros de comprimento com rufo arqueado e escadas
aos bordos à maneira dos juncos do lago Poyang (nc 9). À popa sobe em curva, não lhe faltando elegância e
originalidade.
No junco das Estampas 56 e 57 a curvatura da popa é menos acentuada, mas as linhas das extremidades
da proa e da popa conservam a finura. No convés, dois rufos de madeira de construção cuidada, e passados ao
Tong You (ne 16); o do centro em forma de túnel protege as mercadorias, enquanto que o de ré tem o posto do
homem do leme.
Os dois juncos de média tonelagem das Estampas 58 e 59 são oriundos de Shashi (nc 36), grande mercado
de algodão, cujo porto se estende por quatro a cinco quilómetros. Estão em relação com o Han Jiang pela rede
fluvial que reúne estes dois centros comerciais, por uma via mais directa e mais fácil que o Yangzi Jiang (nc |).
A forma do casco deriva da construção praticada nestes dois distritos e nos estaleiros do lago Dongting (nc 5).
LAGO DONGTING
O lago Dongting (nc 5), com os numerosos cursos de água que nele se lançam, é de comércio muito
activo. Milhares de juncos são usados no transporte dos vários produtos da província de Hunan (nc 30): arroz,
madeira, sal, plantas medicinais, etc. No fim do século passado, os Relatórios Decenais das Alfândegas Marítimas
Imperiais registavam, no decurso dum ano, a passagem de mais de 26.000 juncos em Yuezhou (nc 57), à entrada
do lago sobre o Yangzi Jiang (nc |) com uma tonelagem média de 30 toneladas. Por esta mesma época avaliava-
se em cerca de 13.000 o número de barcos ocupados no tráfego da província, independentemente das jangadas,
que às centenas desciam com a corrente, com enorme quantidade de troncos de árvores destinadas ao Baixo
Yangzi Jiang. Todos estes barcos são construídos no Hunan (nc 30) com madeiras da região. Um muito grande
número dos juncos que navegam no Yangzi Jiang, nomeadamente os destinados ao transporte do sal, provêm
dos estaleiros de Xiangtan (nc 67), centro importante de construção no rio Xi Jiang (nc 35).
Já descrevemos vários tipos nas páginas antecedentes. Há, além destes, grande quantidade de pequenos
juncos mais especialmente vocacionados para o serviço local no lago e nos afluentes, que se fazem notar, como
os do Han Jiang (nc 3), pela finura do casco e pela originalidade das formas da popa. As estampas 60 a 67,
representam algumas espécies dessas curiosas construções, de que não se concebe a finalidade. Teremos que
pensar que o construtor se inspirou no desejo de personificar o seu estaleiro para atrair os clientes, ou se
submeteu às normas impostas pelas administrações locais, para facilitar, como acontece em muitos sítios, O
controlo da navegação e assegurar o pagamento dos direitos de portagem. Sendo de formas muito variáveis,
estes juncos apresentam várias características comuns: casco cuidadosamente construído com adelgamento
convexo a que se sobrepõem bordas de tempo verticais, a proa triangular e estreita, a popa, não apoiada, abrigando
parcialmente o leme com porta compensada. A estrutura da parte de ré dá a estes juncos um cunho de originalidade,
que não deixa de intrigar o viajante estrangeiro. Entre os juncos que frequentam o lago Dongting, assinalaremos
o que tem o leme compensado com a porta perfurada ( Estampa 68 ), muito raro exemplo na bacia do Yangzi
Jiang, que lembra pelas suas perfurações em losangos os juncos de mar das costas meridionais do Guangdong
(nc 28), com a diferença que este último não é compensado.
O junco representado na Estampa 69 pertence a um tipo igualmente pouco conhecido no Médio Yang Zi
e no lago Dongting (nc 5), donde seria oriundo segundo certos elementos da população ribeirinha, enquanto
que outros pretendem, com mais verosimilhança se prestarmos atenção às características do seu casco, que vem
326
Estampa 48 — Nanjing - Pequeno junco de passagem
Estampa 49. Nanjing, Wuiu - Pequeno junco de passagem
REGA
Estumpa 50 Zhenjiang - Sampana de passagem
da província do Guangdong (nc 28).
Partindo de Cantão, o seu fraco calado, somente de um pé, permite-lhe subir o Xi Jiang (nc 35) e seguir
o seu afluente o Gui Jiang (nc 68) ou Fu He (nc 69) até ao canal que liga a bacia do Xi Jiang (ne 35) com a do
Yangzi Jiang (nc 1), por intermédio do Xi Jiang (nc 31), afluente do lago Dongting (nc 5). Esta via é pouco
frequentada em virtude dos numerosos obstáculos à navegação.
O aspecto deste junco lembra os “ house-boats “, que se usam em Shanghai (nc 21). O casco e o rufo são
de construção simples e cuidada, a proa e a popa terminam numa superfície plana e quadrada, de pequena
largura e muito inclinada sobre a linha de água. O leme é formado por uma comprida porta compensada. A
madre e a cana ficam a descoberto no convés de ré, onde fica o piloto ao governo. Um mastro de fraca dimensão,
com uma vela de algodão, fica encaixado na parte de vante do rufo. No convés a vante, os remos, os remos de
gingar e as varas, assim como um forte Sao(nc 20).
Estampa 51 Barcaça do porto de Hankou
328
Estampa 52 Barcaça do porto de Hankou
Estampa 54 Junco do rio Han
329
Estampa 55
Junco do rio Han
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Estampa 56
Junco do rio Han
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Vista da popa do junco do rio Han
Estampa 57
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Estampa 58
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Estampa 59
Estampa 60
Junco de Shashi
Junco do lago Dongting
332
Estampa 53. Junco de carga do porto de Hankou
SHASHI
O porto de Shashi (nc 36) retira a sua importância da sua localização. pois está na confluência do rio que
o põe em comunicação com Hankou, por intermédio de lagos e de cursos de água naturais ou artificiais, com
um percurso mais fácil e menos longo que a via do Yangzi Jiang(nc |).
Os juncos que frequentam este porto pertencem a duas regiões bem distintas do ponto de vista da navegação:
os do Baixo Yangzi Jiang, que acabámos de passar em revista, e os do Alto Yangzi Jiang que são especialmente
construídos para navegar nos rápidos. Mas antes de subirmos o rio, passemos uma breve revista às barcas que
praticam a pesca na bacia do Yangzi Jiang (nc |). Estas barcas têm o nome genérico de Yu Hang Zhi Chuan (ne
37), (“barca movida como os peixes”). O seu número é mais considerável ainda do que o dos juncos de comércio.
Seria, assim, ilusório tentar fazer um estudo exaustivo sobre esta imensa flotilha, cujos elementos estão
disseminados nos mais pequenos recantos da vasta bacia do Yangzi Jiang (ne |), que de resto só poderia ter
interesse se acompanhado dos aparelhos e métodos usados na pesca. Tal estudo sai fora do quadro deste trabalho.
BARCOS DE PESCA
A forma destes barcos de pesca inspira-se na construção local, nas suas concepções mais simples e mais
práticas. O comprimento raramente ultrapassa os dez metros. Ao centro, um rufo muito baixo, de forma
arredondada, em madeira ou simplesmente em esteiras, serve de abrigo aos poucos homens da tripulação, ou à
família que a substitui a maior parte das vezes. O convés de ré é mais elevado para permitir ao homem do leme
ver à volta de si e vigiar a marmita de arroz que fica a seus pés. É o posto geralmente ocupado pelas mulheres
a quem cabe, além disso, a manobra do leme de gingar de ré e dos remos dos bordos. No convés a vante ficam
os homens com os aparelhos de pesca (redes, croques, arpões, etc).
A Estampa 70 representa um barco em posição de pesca no Yangzi Jiang. Mantém-se em equilíbrio,
atravessando a forte corrente pelos esforços conjugados do leme de gingar de ré e de duas âncoras flutuantes.
333
Estampa 61 Junco do lago Dongtinp
Estampa 62 Junco do lago Dongting
33d
Estampa 63 Junco do lago Dongting
Estampa 64 Junco do lago Dongting
359:
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Estampa 65 Junco do lavo Donstiny
Estampa 67 Junco do lago Dongting
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o Donging
Junco do lug
Estampa 60
Junco de comercio
sampa 68 Lago Dongiing -
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337
Estampa 69 Lago Dongting - Junco de passageiros
Pata
Estampa 70 Barco de pesca
mantidas a certa distância de bordo por duas amarras de cinco a seis metros de comprimento. As âncoras são
formadas por um painel rectangular de bambu entrançado e lastrado na parte inferior por pedras. O leme lateral
disposto verticalmente contribui igualmente para aumentar o plano de abatimento. Compridas antenas colocadas
para fora do bordo oposto do convés, sustêm as linhas que vão arrastando, enquanto os pescadores utilizam
linhas de mão.
No barco de pesca da Estampa 71, a tripulação reduz-se a dois homens, um à popa impele o barco com
dois remos, o outro à vante pesca por um processo especial que parece um pouco misterioso para os não
iniciados. Tem na mão direita uma linha de pesca, na direita a pá dum pequeno remo que usa constantemente
como se fosse um remo de gingar. O remo é fixo ao painel da proa por um estropo de bambu ou uma amarreta
de ferro que limita o seu curso na água. Este movimento contínuo que o pescador imprime ao remo, não tem
nenhum efeito sobre o barco que é conduzido pelo homem da popa. Se examinarmos os aparelhos expostos no
convés, poderemos supor que estes barcos praticam a pesca à linha de fundo, mas isto não explica o papel deste
pequeno remo manobrado lentamente.
TAIHU (nc 38)
O Taihu (grande lago) fica situado a Oeste de Suzhou Fu (nc 54), não longe de Shanghai (ne 21), e é
muito piscoso. Por isso o número de sampanas que lá encontramos é considerável. Entre estas, há uma que
merece uma menção especial, visto ser única na sua espécie. A forma do casco é a das sampanas da região, mas
no convés tem quatro a cinco mastros de pequenas dimensões que se podem desmontar rapidamente ( ver
Estampa 47, II Parte ). Tem velas ordinárias muito leves e fáceis de manobrar. Esta barca pratica O arrasto,
género de pesca que necessita uma boa velocidade para arrastar a pesada rede pelo fundo. Sem dúvida que tal
velocidade poderia ser conseguida com uma vela única, mas o chinês, sempre prático e prudente, conhecendo
o perigo que poderia correr com uma grande vela alta, perigosa para a estabilidade e difícil de ferrar durante
uma brusca rajada, o que é frequente neste grande lago, achou prudente dividir a mesma superfície por várias
velas de pouca altura. Desta forma mulheres e crianças da sampana pudem manobrá-las sem perigo.
Ao primeiro rebate, basta largar a adriça comum às cinco velas, para se ver livre imediatamente de toda
a superfície num movimento de descida semelhante ao da persiana duma janela.
BARCO DE PESCA (TIAO BAI YU CHUAN)
Com o nome de “Tiao Bai Yu Chuan” (nc 39) os chineses designam um barco especialmente destinado
à pesca no rio, por um processo bem singular que lembra o da caça às cotovias por meio de um espelho.
E um barco leve, ( Estampa 72 ) pouco elevado acima da água, com oito a nove metros de comprimento,
€ apenas com um metro de boca. A um dos bordos, e às vezes nos dois, há uma longa prancha, com a largura
aproximada de três pés, colocada à borda e saindo para o exterior com uma ligeira inclinação em relação à água.
Está pintada de branco muito brilhante.
A pesca faz-se com luar e bom tempo. O barco fica fundeado atravessado à corrente, de tal maneira que
à prancha-espelho fique bem iluminada pelos raios da lua.
O peixe, atraído pelo brilho da prancha, lança-se para ela, salta e cai no porão do barco, onde é capturado.
Uma rede colocada verticalmente no bordo oposto à prancha, impede-o de no seu impulso cair à água.
Em Shantou (nc 40), no Han Jiang (nc 3), na província de Guangdong (nc 28), onde a corrente é muito
forte, a pesca faz-se com dois barcos amarrados lado a lado, de torma que o peixe num salto muito brusco caia
inevitavelmente no segundo barco. Os pescadores tomam a precaução de colocar no fundo do barco uma camada
espessa de relva húmida, na qual o peixe se imobiliza.
A pesca com espelho tem muita aceitação nos canais e rios da bacia do Yangzi Jiang: é simples, fácil e
produtiva. Também a fazem ao longo das costas sul do Yangzi Jiang e na ilha Formosa, mas só nos rios e dentro
da sua foz quando as águas estão calmas (1).
1) International fisheries exhibition, Londres 1883.
La Pisciculture en Chine, por Dabrsy de Thiersant, Paris 1872.
Canserie sur la pêche fluviale en Chine, por P Korrigan, Shanghai 1909.
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Estampa 72 Barco de pesca com espelho - ( Tiao Bai Yu Chuan )
O chinês das sampanas e dos juncos não só está exposto ao perigos da navegação, como também é alvo
de mil enredos da parte da administração das alfândegas locais, chamadas Lijin (nc 41), que tiram a parte mais
substancial dos seus rendimentos na taxa de navegação. Esta taxa é muitas vezes estabelecida da maneira mais
arbitrária pelas autoridades venais, não sendo, por isso surpreendente que o chinês desenvolva toda a astúcia
para as iludir. Temos um exemplo na forma de junco, “cesto cabaça”, que se encontra em muitos lugares da
China. Todavia, preocupada com os seus interesses, a administração não mostra menos habilidade no desmascarar
dos processos ilegais e na sua punição com penas por vezes draconianas. Serve o exemplo deste junco serrado
ao meio e exposto na margem diante do posto do Lijin com a inscrição : “ Aviso aos prevaricadores”.( Estampa
Ros
A Administração vigia com cuidado as idas e vindas de barcos que navegam na circunscrição; estabelece
certificados indicando os sinais de todos os homens que trabalham a bordo e este controlo é obtido pela impressão
das extremidades dos dedos, processo corrente na China, muito tempo antes de o ser na Europa. Em caso de
dissimulação ou de fraude a autuação é imediata, logo seguida ao julgamento que condena o delinquente a
pagar a multa, sob pena de confiscação do barco. Convém acrescentar, para ser exacto, que este processamento
expedito, é a maior parte das vezes usado para mascarar os abusos de poder destinados a obter rendimentos
ilícitos, que são divididos entre os funcionários desonestos.
JUNCOS DESMONTÁVEIS (MAO BAN CHUAN)
Em todas as operacões comerciais que bulem com o seu interesse, o chinês dá prova dum sentido prático
que o conduz às realizações mais inesperadas. É assim, que na província de Hunan (ne 30), os habitantes
constroem juncos desmontáveis destinados ao transporte do carvão entre Baoging Fu (nc 42), situado num
afluente do Yuan Jiang (nc 43) e Hankou (ne 2).
Estes juncos são conhecidos pelo nome de Mao Ban Chuan (nc 44), “barco em pranchas ligeiras”
( Estampa 74 ). São feitos com pranchas de pinheiro (Song Mu) (nc 45), grosseiramente montadas com grampos
de ferro e cabos de bambu e sólidos bastante para efectuar, na boa estação, uma só viagem de descida. Chegados
ao destino são destruídos; as pranchas são vendidas, enquanto que o aparelho, velas e âncora são reenviados
para Boaging Fu (nc 42) para armar um novo junco. Operando assim, o chinês evita os gastos consideráveis que
necessitaria a volta do junco, com corrente contrária, sem que um frete de retorno estivesse assegurado,
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Estampa 73. Estação de Lijin ( Alfândega local )
Estes juncos, duma forma muito simples, têm um tosado acentuado que lhes dá rigidez no sentido longi-
tudinal, a ligação transversal é assegurada por anteparas estanques. Há-os de várias dimensões, podendo os
maiores transportar até cinquenta toneladas de carvão a granel, com uma tripulação de oito a dez homens.
Desde há alguns anos que estes juncos estão a ser suplantados, pouco a pouco, por barcaças rebocadas por
chalupas a motor.
No Jialing He (nc 46). que se lança no Yangzi Jiang em Chongging (ne 47) pode ver-se, em certas
épocas, uma verdadeira flotilha de barcas desmontáveis, carregadas até à borda de ruibarbo e de madeira de
alcaçuz. Estas barcas são feitas de pranchas ligadas entre si por simples cabos de bambu.
São construídas para uma só viagem de descida. Chegadas a Chongging (nc 47), o entreposto principal
das plantas medicinais, são demolidas e as pranchas vendidas para a construção de navios. Outros juncos
igualmente desmontáveis, mas mais solidamente construídos em madeira de cânfora, descem os rápidos e
seguem para Hankou (nc 1) com um carregamento de plantas medicinais, que vendem no local,
O Chinês dá realmente prova de grande negligência, carregando produtos de tanto valor em embarcações
tão frágeis. Só é guiado nesta operação pelo seu desejo de lucro, sem se importar com os riscos que corre.
BARCO-CARTAS (XIN HUA Z1)
O Xin Hua Zi (nc 48) ou “barco-cartas”, usado outrora para o transporte do correio do Alto Yangzi Jiang
para Yichang (nc 49) tinha também uma existência efémera.
Construído em Chongging (nc 47) tinha em vista uma só viagem de descida, sendo vendido à chegada ao
seu destino. À tripulação, composta por quatro ou cinco homens, alojava-se num abrigo de esteiras, enquanto o
correio era guardado num rufo de madeira (Estampa 75).
Antes do estabelecimento das linhas de vapores no Médio Yangzi Ziang os navios correio desciam até
Hankou (nc 2). A duração da viagem era de doze a quinze dias; a subida fazia-se a pé e a cavalo em dezoito a
vinte dias. Nos casos urgentes os portadores andavam dia e noite, revezando-se, e faziam os 1.350 quilómetros
REM)
Estampa 74 Junco desmontável ( Mao Ban Chuan )
que separam Chongging (nc 47) e Hankou (nc 2) em cinco e seis dias. Desde que as linhas de vapor servem o
porto de Chongging (nc 47), os barcos-carta não têm mais razão de existir. O barco da Estampa 75 é o último
deste género e estava ao serviço em 1905.
BARCOS-PATO (YA ZI CHUAN) (nc 50)
Estes barcos ( Estampa 76 ) devem ser colocados entre as concepções mais originais da indústria chinesa.
Encontram-se na maior parte dos rios e ribeiras, ao longo das costas abrigadas, principalmente na província de
Guangdong (nc 28) onde a criação de patos se faz com uma prodigiosa intensidade, com o fim principal de
vender os seus ovos, que a China exporta em quantidades consideráveis para todas as partes do mundo.
São barcos grandes e espaçosos onde os patos ocupam um lugar privilegiado debaixo dum grande abrigo
coberto por esteiras que ocupa a maior parte do convés, enquanto o proprietário e a família vivem a ré, numa
pequena cabana. Uma prancha inclinada, à proa, serve para os patos descerem para a água.
Parece que o chinês, em testemunho de reconhecimento pelos benefícios que tem com a venda dos seus
hóspedes e dos seus produtos, se esforça para lhes dar o maior conforto possível. Independentemente do abrigo
que lhes serve de dormitório, os patos podem espairecer numa vasta gaiola de bambu fixada aos dois bordos do
Junco, donde podem gozar a paisagem que desfila diante deles quando o junco muda de lugar.
Ao romper do dia as portas são abertas, a prancha abaixada e o bando de patos em filas compactas,
precipita-se alegremente na água à procura de algum alimento. Logo que um dos pupilos se afasta um pouco
demais de casa, uma apitadela chama-o à ordem e sem tardar volta a folgar no meio do rebanho, sob o olhar
atento do proprietário. Quando chega a noite ou o momento da partida, toca-se o gongo e os patos acorrem de
todos os lados ao mesmo tempo, atropelam-se para ir ocupar rapidamente o seu canto preferido no abrigo.
O adestramento destes patos pode tornar-se uma outra fonte produtiva para o proprietário pouco
escrupuloso, Este, depois de ter vendido honestamente os seus voadores, continua o seu caminho com a sua
capoeira flutuante mas, chegado a uma certa distância, dá uma grande tangidela no gongo à qual o dócil cativo
responde voltando rapidamente para o junco a não ser que o novo proprietário, pressentindo a manobra, tenha
tomado a precaução de o ter bem guardado.
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Estampa 75 Barco - cartas ( Xin Hua Zi )
JANGADA DO YANGZIJIANG (MU PAI) (nc 51) (Estampa 77)
Verdadeiras aldeias flutuantes com uma população de 100 a 150 pessoas, estas jangadas compostas por
milhares de troncos de árvores deixam-se arrastar pela corrente durante três a quatro meses, antes de atingirem
o destino. Estas imensas jangadas são constituídas pelo conjunto de jangadas secundárias vindo das regiões
vizinhas, as quais por seu turno foram formadas por comboios de madeiras, mais ou menos importantes vindos
de várias regiões, muitas vezes muito distantes, da província do Hunan (nc 30) em especial. Estes comboios de
madeiras, colocados uns atrás dos outros, têm uma certa flexibilidade que lhes permite seguir todas as sinuosidades
dos cursos de água.
Contam-se 10.000 a 15.000 troncos de árvores para formar esta ilha flutuante na qual se erguem inúmeras
casas que servem de alojamento aos seus habitantes (Estampa 77).
Uma vez chegados ao Yangzi Jiang (nc 1), os troncos de árvore são dispostos com cuidado, lado a lado.
e ligados em feixes pouco volumosos. Os feixes superiores, servindo de plataforma para o pessoal, são colocados
perpendicularmente à camada dos feixes imersos e no sentido da largura da jangada.
O comprimento das grandes jangadas pode atingir 200 ou mesmo 300 metros, com uma boca de cerca de
30 metros.
A principal preocupação da tripulação durante a descida é manter a jangada no meio do canal principal e
à boa distância das margens e dos bancos, pois qualquer encalhe é mortal para a jangada. Não haveria força
humana que conseguisse deslocar esta gigantesca massa do fundo lodoso em que se incrustasse lentamente.
Num caso destes, o único caminho a seguir será desmontar a jangada peça por peça e reconstituí-la com
OS Seus numerosos acessórios, em qualquer ponto vizinho ao abrigo da corrente. Operação muito dura que
exige vários meses de trabalho, de tal forma que a duração da viagem que pode normalmente ser fixada em três
a quatro meses, atingiria e ultrapassaria muitas vezes um ano.
É preciso, portanto, evitar a todo o preço o encalhe usando de dois meios poderosos e rápidos de que
dispõe à jangada, as amarras e a âncora flutuante.
A grande largura do rio e a presença de numerosos bancos de arcia que separam o canal das margens,
dificilmente permitem o uso de espias amarradas em terra para fazer desviar a jangada dum rumo perigoso. E
aqui que intervem a âncora flutuante, de manejamento fácil e mais expedito do que mandar para terra uma espia
de bambu pesada e com o comprimento de algumas centenas de metros.
343
Esta âncora (Estampa 81) é feita dum grande quadro em bambu, solidamente armado e coberto por uma
esteira fina e resistente. Um pé de galinha com quatro braços fixa-se a cada lado do quadro. No centro amarra-
-se um forte cabo de bambu, de que o outro chicote se amarra no tambor dum cabrestante situado na parte de
vante da jangada. Uma sampana destinada especialmente a esta manobra, tripulada por uma equipa experimentada,
afasta-se da jangada uns 200 metros e fundeia a âncora na direcção conveniente do cabo que é rapidamente
virado ao som do gongo e do tambor por 100 a 150 homens da tripulação. O sucesso da manobra depende da
rapidez com que se opera a tracção sobre a âncora. Esta manobra, que se efectua continuando a descida ao
sabor da corrente, é repetida, se preciso for, até que a jangada tenha tomado a direcção conveniente. Embora
rudimentares, os aparelhos de manobra instalados na jangada são bem apropriados para as suas funções.
O mais importante de todos estes aparelhos é o grande cabrestante, colocado à vante (Estampa 79)
solidamente escorado por uma reunião de paus de carga e travessas que asseguram a sua rigidez em todas as
direcções.
O tambor em que enrola o cabo da âncora é formado por fortes ripas verticais de três metros de altura,
fixadas no contorno de quadros circulares reunidos por braços ao eixo do cabrestante.
As barras que servem para a manobra do cabrestante são simplesmente introduzidas, sem qualquer ligação,
nos intervalos que ficam livres entre as ripas. São em número de doze a quinze, e a cada uma delas podem correr
oito a dez homens. Esta disposição das barras permite utilizar toda a tripulação qualquer que seja a sua importância,
na manobra do cabrestante.
Os outros aparelhos de manobra consistem num certo número de cabeços verticais e horizontais colocados
nas extremidades da jangada. Estes cabeços são formados por feixes de toros, uns encastrados nos interstícios
da jangada, os outros ligados a troncos de árvores, horizontais e saídos a vante ou a ré da jangada.
Cinco ou seis sampanas equipadas com paus de carga (Estampa 80), são usadas no transporte e manobra
das espias, numa operação consertada com a sampana encarregada de fundear a âncora flutuante. Esta última,
tem um grande quadro (Estampa 81) que assenta na falca da sampana e fica saliente a vante e a ré. A âncora é
colocada no centro deste quadro, enquanto que em cada uma das extremidades, quatro lemes de gingar permitem
fazer avançar a sampana alternativamente num sentido ou noutro, sem que seja necessário fazê-la evoluir de
cada vez.
O pessoal aloja-se em casas de pranchas de madeira cobertas de palha e alinhadas dos dois lados duma
rua central.
Durante os momentos de repouso que lhes deixa a navegação em águas tranquilas, a maior parte dos
homens ocupa-se em trabalhos domésticos: uns cozinham, outros lavam a roupa, há mesmo os que cultivam um
cantinho de jardim onde crescem algumas hortaliças em terra vegetal calcada entre os toros.
Não é a China o único país a construir estas gigantescas jangadas de madeira. “ Na Idade Média, escreve
A. du Sein (1) havia-as no Reno, feitas com madeira de pinheiro, de castanheiro e outros variedades de árvores,
e que tinham numerosas casas com um milhar de remadores. Tinham 70 pés de boca, 900 pés de comprimento
e 8 pés de calado. Eram difíceis de conduzir através dos cotovelos e dos turbilhões do Reno e por isso os
naufrágios eram frequentes “.
1) Histoire de la Marine de tous les peuples - 1879 - Tomo |. pg. 8. por A. du Sein.
344
JUNCO DE POLÍCIA. (PAO CHUAN) (ne 52)
Como já dissemos na Parte II, este junco conhecido pelo nome de Pao Chuan - “barco canhão” - lembra
duma maneira impressionante a subtil galera do século XV representada nos Souvenirs de Marine do Almirante
?àris (2). Tem formas finas e elegantes (Estampa 82) de boas qualidades de manobra e, graças ao seu fraco
calado, pode ir muito acima nos cursos de água acessíveis aos pequenos juncos.
A vela única é muito alta de forma a poder apanhar o vento quando navega muito perto das margens. Esta
vela é de forma rectangular, formada por panos de algodão alternadamente azuis e brancos. À tarde, ao chegar
ao fundeadouro, é arriada e disposta no convés em forma de tenda para servir de abrigo à tripulação.
Os mandarins usam estes juncos para as suas visitas oficiais. São então ornamentados a vante e a ré com
grandes bandeiras e flâmulas vermelhas. Uma comprida bandeirola amarela com inscrições pretas é içada no
tope do mastro. O rufo destinado ao mandarim leva por cima da entrada duas grandes lanternas redondas e aos
lados placas indicando em caracteres dourados, os títulos e diplomas do funcionário.
A tripulação compreende doze a quinze homens, vestidos com casacões vermelhos, calça azul e o turbante
do Sichuan (nc 53).
O armamento consiste simplesmente num canhão de carregar pela boca, colocado a vante numa plataforma
de madeira. Este tipo de junco de polícia é sobretudo comum na bacia do Médio Yangzi Jiang (nc 1), no lago
Poyang (nc 9) e no Alto Yangzi Jiang (nc | ) até Chongging (nc 47).
a
Estampa 82 Junco de policia ( Pao Chuan )
2) Ver Parte V. Estampa 286, figura 22 - Souvenirs de Marine.
345
Estampa 71
Estampa 76
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Barco de pesca
Barcos - pato ( Ya Zi Chuan )
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Estampa 77 Plano duma grande jangada ( Mu Pui)
Estampa 78 Jangada, comboio de madeiras ( Mu Pai )
347
Estampa 79 Parte de
Estampa SU
vante de um comboio de madeiras
Cheta com pau de
corpe ( dcessório du jangada )
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Estampa 81
Estampa 85
Lançamento à água duma âncora flutuante ( acessório da jangada )
Zhenjiang, Wu - Junco de passageiros
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Vista de popa de junco
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Estampa 86
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Estampa 87 Jitjiang, lago Denting - Junco de comercio e de passageiros
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Estumpa 89 Shanghai, Han Jiang - Junco de passageiros e de comércio
351
JUNCOS PARA PASSAGEIROS
Na China as estradas são más em todas as estações e impraticáveis em tempo de chuva; a sua pequena
largura dificulta à circulação. Por isso se dá preferência ao transporte por via marítima sempre que as
circunstâncias o permitem. Na bacia do Yangzi Jiang em especial, o movimento de passageiros é muito importante.
São aos milhares os juncos de todas as categorias que circulam, carregados de passageiros, em todos os
cursos de água e até ao extremo limite das águas navegáveis. A maioria destes juncos navega na região do
Baixo Yangzi Jiang, entre o lago Dongting (nc 5), Hankou (ne 2), Shanghai (nc 21) e Suzhou Fu (ne 54). São
construídos e preparados especialmente para o transporte dos viajantes, e navegam a maior parte das vezes
agrupados em comboios de quatro ou cinco, rebocados por uma possante chalupa a vapor. O comboio compreende
um ou dois grandes juncos destinados aos passageiros de qualidade (Estampas 83, 84), que ocupam espaçosas
câmaras artisticamente decoradas e duma limpeza minuciosa que contrasta com o desleixo habitual dos interiores
chineses.
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Estampa 83 Suzhotw - Junco de passageiros ( Gong Si Chuan ]
GONG SI CHUAN (nc 55)
Estes juncos são conhecidos pelo nome de Gong Si Chuan e o seu comprimento atinge vinte a vinte e
cinco metros. Os destinados ao público não ultrapassam quinze a dezoito metros.
Não têm mastros. O casco é o de uma barcaça com o costado vertical e com a proa e a popa quadradas. O
convés tem uma boca uniforme duma ponta à outra, apenas estreitando nas extremidades. Espaçosos rufos
ocupam a totalidade do convés, excepto a vante e a ré onde estão dispostos os aparelhos de manobra: âncoras,
cabos de reboque, croques.
As anteparas dos rufos são erguidas a prumo sobre o costado, pelo que a circulação à sua volta só se pode
fazer por uma plataforma saída de um metro de largo, que serve também de defensa contra os choques exteriores
Mara ELLIS
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Estampa 84 Suzhou- Junco de passageiros ( Gong Si Cluan )
352
nas atracações. Os alojamentos dos passageiros são cortados por numerosas janelas finamente perfuradas e
guarnecidas, à falta de vidros, por conchas de ostra transparentes, papéis envernizados ou gazes pintadas com
motivos coloridos.
A afluência dos passageiros é por vezes tão considerável que os mínimos recantos do convés são ocupados,
assim como a cobertura dos rufos, onde se amontoa ao abrigo de esteiras móveis, uma multidão compacta de
passageiros. É um espectáculo bem pitoresco, o destes comboios cheios de viajantes acocorados em todas as
posições, jogando às cartas, bebendo chá ou fumando ópio, sem contudo perderem de vista a sua tralha, que
poderia atrair os olhares de algum passageiro mal intencionado.
Há avisos em grandes letras, em que se lê: Cuidado com as bolsas”. que alertam os viajantes contra os
ladrões, sempre numerosos nestes casos.
A montante de Shanghai (nc 21), os juncos para passageiros apresentam numerosas variedades que se
inspiram na construção local. Mas ao contrário dos juncos de Suzhou Fu (nc 54) e Shanghai (nc 21), navegam
isoladamente à vela ou a reboque duma chalupa a vapor.
A Estampa 85 representa um tipo muito vulgar em Wuhu (nc 19) e em Zhenjiang (nc 15). Assegura O
serviço de passageiros nas regiões vizinhas do Yangzi Jiang (nc 1) onde convergem numerosos cursos de água
navegáveis.
O rufo ocupado pelos viajantes estende-se por dois terços do convés, ficando o último terço livre para a
manobra dos remos e da vela que se iça num mastro encostado à antepara de vante do rufo. O mastro é móvel
e pode ser abatido sobre o convés a vante.
O homem do leme fica por cima do rufo de ré que serve de alojamento para a tripulação e de cozinha para
os passageiros. O homem do leme é protegido por um resguardo, à altura de meio corpo, com três faces, e
domina a multidão dos passageiros amontoados na cobertura do rufo principal. O casco tem as mesmas
características que o dos juncos anteriores com a proa e a popa terminadas por uma plataforma saliente (Estampa
86) e um passadiço também saliente, que é utilizado para a manobra, quando, por falta de vento, o junco é
impelido por varas.
O rufo central é ocupado pelo conjunto dos passageiros sem distinção de classes, mas na maior parte dos
casos o interior desse vasto compartimento é dividido, por anteparas móveis, em camarotes particulares destinados
aos passageiros de categoria.
O junco da Estampa 87, que serve para o transporte de passageiros e de mercadorias, tem à mesma forma
de casco que o anterior. Difere no arranjo do convés e na disposição dos rufos destinados mais particularmente
a proteger a carga. Tem um comprido Sao utilizado na navegação de rio, nos afluentes dos lagos Poyang (nc 9)
e Dongting (nc 5).
LAGO DONGTING (MAYANG ZI) (ne 56)
O junco da Estampa 88 tomou o seu nome duma sub-prefeitura do Hunan (nc 30) onde se recrutam a
maior parte das tripulações que navegam no Yuan Jiang (nc 43) e no lago Dongting (ne 5).
É destinado ao transporte dos viajantes e mais especialmente daqueles que o alugam para uso pessoal. É
um “ house-boat “ provido dum certo conforto à chinesa, com um grande rufo contendo três espaçosas câmaras
transformadas em cabine para dormir, com um ou dois beliches, em casa de jantar e em salão de recepção, com
o mobiliário em pinho revestido desse maravilhoso verniz chamado Tong You (nc 16). que dá à madeira o belo
aspecto do “pitchpine”. A cobertura deste rufo é atravessada por uma grande abertura, com um painel móvel
que permite o arejamento das cabines. Há um dispositivo de ventilação igual no rufo da tripulação. O leme com
porta compensada, e de grandes dimensões, atravessa a madre, o rufo de ré e vai acima da cobertura. O homem
do leme fica neste rufo; habitualmente está acordado para poder observar a rota por baixo da vela desfraldada.
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Estampa 88 — Hunan - Junco de passageiros ( Maxang Zi )
Há um mastro móvel encostado à antepara de vante do rufo; pode ser içado ou arriado por meio de um
pau de carga que o faz bascular para ré. À postura do mastro é reforçada por um arco-botante que se apoia no
convés, ao pé do cabrestante. Pode assim resistir melhor aos esforços de tracção da alagem e da vela. A cada
bordo há dois lemes laterais no extremo dos passadiços que permitem a circulação em volta dos rufos. Sob a
aparência pacífica dum “ house-boat “,o Mayang Zi (nc 56) é por vezes sujeito a rudes provas no decurso da
navegação no Yuan Jiang (nc 43). Tripulado por uma tripulação de élite, como devem ser todos os que são
chamados a afrontar os obstáculos das regiões montanhosas, desce com facilidade e uma certa segurança os
mais perigosos rápidos, graças aos dispositivos instalados no seu arranjo, dispositivos bem singulares, como
vamos ver, e que parecem apropriados para a navegação neste rio.
Eis em que consistem: antes de se empreender a descida, a grande cabine que sobe além do leme é
desmontada, bem como o leme. Tendo esta parte do convés desempachada, um comprido Sao (nc 20) destinado,
na ausência do leme, a fazer evoluir o junco nas torrentes, é disposto no meio da travessa de ré, enquanto se
instalam no convés, no lugar habitual, remos de gingar laterais e remos. Contrariamente à prática corrente, estes
aparelhos de propulsão estão colocados para andar à ré, pois o junco, na descida dos rápidos, desloca-se com a
parte de ré para vante.
Esta singular manobra não é fácil de explicar. Mesmo os pilotos, que tem enfrentado rápidos não menos
violentos, noutros cursos de água, não podem dar-nos as razões. Não se deve, no entanto, duvidar da sua
eficácia, visto que nos assuntos que dizem respeito à prática da navegação, pode-se ter a certeza, que só a
experiência levou o marinheiro do Yuan Jiang (nc 43) a adoptar esta estranha solução.
JUNCOS DE PASSAGEIROS E DE COMÉRCIO
As Estampas 89, 90,91 e 92 representam vários juncos que fazem o transporte misto de passageiros e de
mercadorias. São tipos muito vulgares no Baixo Yangzi Jiang (nc 1) e nos lagos e canais vizinhos. A presença
dum mastro móvel, susceptível de ser arriado ou içado por um pau de carga colocado permanentemente na parte
de vante do rufo, é indicação que o junco é muitas vezes chamado à passar debaixo de pontes.
Os lemes laterais junto ao casco são necessários quando o junco navega em vastos lençóis de água, como
35d
os lagos e o Yangzi Jiang (nc 1), cuja largura atinge vários quilómetros no curso inferior. O comprido leme de
gingar Sao (nc 20 ) colocado na travessa de vante é para navegação em águas tumultuosas.
Este conjunto de meios deixa entrever a natureza das dificuldades que este junco deve ultrapassar nos
seus deslocamentos.
Cuidadosamente construído, com linhas bem lançadas, o casco destes juncos mostra as mesmas
características descritas acima, com a diferença do rufo ser pouco elevado acima do convés e de forma
arredondada, a fim de dar ao casco a rigidez longitudinal que se oporá à flexão produzida pelas pesadas cargas
contidas no porão situado por baixo.
A actividade comercial no Han Jiang (nc 3) ocasiona um movimento muito importante de passageiros,
que têm à sua disposição grandes juncos tão confortáveis como os do Yangzi Jiang.
MAYANG ZlI (nc 56)
A Estampa 93 representa um dos tipos de junco de maiores dimensões. Os passageiros ocupam um rufo
em que se abriram numerosas janelas, rufo esse que ocupa quase a totalidade do convés. O junco tem um mastro
com uma grande vela. Desloca-se tanto à sirga como a remos. Este junco é conhecido pelo nome de Mayang Zi
(nc 56).
O junco representado na Estampa 94 é igualmente de grandes dimensões com instalações apropriadas no
convés para os numerosos viajantes que circulam entre Hankou (nc 2) e Shashi (nc 36). passando por Yuezhou
(nc 57), à entrada do lago Dongting (nc 5). Para as viagens por via do Yangzi Jiang (nc 1), dispõe este junco de
duas grandes velas que lhe permitem fazer este longo percurso num tempo relativamente mais curto do que pela
rede fluvial, de menor comprimento, que liga Hankou (nc 2) a Shashi (nc 36), mas pouco praticável para
grandes veleiros.
JUNCOS DE MANDARIM
O junco da Estampa 95 é mais conhecido pelo nome de junco de Mandarim, porque é mais frequentemente
usado para o transporte de passageiros de categoria, funcionários em particular. O comprimento é de vinte e
cinco metros; o convés tem dois grandes rufos, sendo o do centro reservado ao viajante, que encontra nas suas
instalações todas as comodidades desejáveis para as recepções. O pessoal do seu séquito fica alojado com a
tripulação na cabine de ré. O homem do leme também aí fica. Um só mastro muito alto com uma vela de
algodão fica no centro do convés a vante do rufo do mandarim.
O convés é livre desde o pé do mastro até a vante; estende-se por fora dos rufos por um passadiço,
saliente ao longo do casco até à plataforma de ré. Segundo a importância da personalidade transportada, são
tomadas medidas para receber os visitantes oficiais com as cerimónias da praxe. Tapeçarias vermelhas guarnecem
o acesso ao salão, flâmulas e bandeiras nas quais estão inscritos os nomes e a categoria do funcionário tremulam
ao vento no mastro e nos quatro cantos dos rufos, enquanto que o tradicional guarda-chuva vermelho, emblema
da autoridade do mandarim, fica por cima do rufo, enguadrado pelas lanternas oficiais, decoradas de inscrições
multicores exprimindo desejos : “ bom vento, boa sorte *.
Os juncos de mandarim eram antigamente muito numerosos nas províncias do centro e do sul da China,
mas depois do desenvolvimento da navegação a vapor, desapareceram pouco a pouco, excepto os que fazem
percursos curtos ou que navegam em regiões inacessíveis às chalupas a vapor.
BARCO-PEDAL ou BARCO-CORREIO (JIÃO DA CHUAN) (nc 59)
Este barco é um dos tipos mais curiosos da China. Encontramo-lo nos pequenos cursos de água da bacia
do Yangzi Jiang (nc 1) e do Bei He (nc 58) onde é utilizado para percursos curtos e em especial para o serviço
do correio nos rios e canais (Estampas 96, 97).
355
Este barco é conhecido pelo nome de Jiao Da Chuan (nc 59), “barco pé”, devido ao processo usado para à
sua propulsão. É muito estreito, pouco alteroso, de forma esguia, a proa e a popa levantadas e o casco pintado
de vermelho vivo.
Há dois tipos, cujo comprimento varia de oito a doze metros. Uma cobertura de esteiras abriga os sacos
postais ou outros objectos transportados. Na popa, um homem, que constitui toda a tripulação, impele a
embarcação com um remo que põe em movimento com os pés, enquanto governa com uma espécie de pangaia
que tem debaixo do braço direito. Rema assim durante um dia inteiro, às vezes durante dezoito e mesmo vinte
e quatro horas duma só tirada, preparando à comida num pequeno forno que tem na sua frente. Estas barcas
podem andar 200 a 230 Li (nc 60), por dia, ou seja 80 a 90 quilómetros. O peso é de cerca de 150 quilos para os
modelos pequenos.
Os grandes barcos-correio têm um mastro a vante com uma vela de espicha que é içada logo que há vento
de popa (Estampa 98). Têm um leme, manobrado pelo homem que vai à popa, enquanto que a vante um segundo
homem rema com um remo à um bordo.
SHANGHAI (XIAO SAN BAN DA KE) (nc 61)
A sampana, literalmente “três pranchas”, é uma embarcação muito leve usada para pequenos percursos e
o transporte de passageiros. É conhecida pelo nome de Xiao San Ban Da Ke (nc 61), “pequeno, três pranchas
transporte passageiros”.
Há duas espécies em Shanghai (nc 21): 1º a sampana, tipo Ningbo (nc 62), que pode levar um ou dois
passageiros num abrigo de esteiras. 2º, a sampana tipo Shanghai (nc 21), de maiores dimensões, servindo para
o transporte de passageiros e mercadorias.
O tipo Ningbo (nc 62) (estampas 99,100) é oriundo desta cidade, como o seu proprietário. Não é raro que
este hábil marinheiro de profissão conduza o seu barco de Ningbo (nc 62) a Shanghai (nc 21), por mar, numa
distância de 140 quilómetros.
É uma embarcação solidamente construída, com quatro a cinco metros de comprimento, conduzida por
um só homem que a impele e a governa por meio dum leme de gingar apoiado no painel da popa, a bombordo.
Graças à curvatura muito acentuada do tabuado de fundo, as evoluções são muito rápidas, e fazem-se no mesmo
lugar, mas a estabilidade deixa a desejar, pelo que é raro que se use uma vela. No fundeadouro, quando a
corrente provoca fortes guinadas, o patrão da sampana deixa flutuar à alguns metros da popa um cesto, que pela
resistência oferecida à água, mantém a sampana quase imóvel.
O casco é bem mantido, garridamente pintado e ornamentado com desenhos de diversas cores, com o
olho tradicional a vante. O passageiro senta-se de frente para a proa, debaixo duma cobertura de esteira oleadas.
A sampana tipo Shanghai (nc 21) apresenta-se em várias variedades que são usadas mais frequentemente
no transporte de passageiros e de mercadorias. O comprimento é de seis a oito metros. O casco é robusto, bem
assente na água, e consolidado por uma forte cinta protegida por numerosas defensas de cabo. Estas embarcações
não têm formas especiais. São normalmente conduzidas por uma mulher que fica de pé à popa, virada para a
proa, e que manobra dois remos. Nos grandes modelos, os remos são substituídos por um forte leme de gingar
manobrado por duas pessoas.
Entre as grandes sampanas de Shanghai (nc 21), há um certo número habitado por famílias inteiras que se
ocupam em procurar destroços à volta dos navios fundeados e sobretudo à pilhagem ao longo das margens. Êo
que se chama nos nossos portos : “rapadores”*. A indústria, as mais das vezes ilícita, é bastante próspera, pois
que se exerce habilmente graças a cumplicidades difíceis de desmascarar.
*) Em francês : “ ravageurs CNT
356
sócio
" eo te iv imensa o
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en dean dape
ota ova
Estampa 90 Zhenjiang - Junco de passageiros € de comercio
rata SR
Estampa 91 Lhenjtang - Junco de passageiros e de comercio
357
Br; AVA
Estampa 92 Zhenjiang - Junco de passageiros e de comércio
Estampa 93 Han Jiang - Junco de passageiros ( Mavang Zi )
358
Estampa 94 Hankou, Shashi - Junco de passageiros
LA]
Estampa 95 Junco de mandarim ( Gua ( “Nuan )
CHAR +E ma)
Estampa 96 Barco - pedal ( dido Da chuan )
360
pr im mia
Estampa 97 Barco pedal visto da popa
Estumpa 98 Barco - correio
361
Mi
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EST
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Estumpa 99 Shanghai - Sampana para passageiros ( Xiao Sun Ban Da Ke )
362
Estampa 100 Shanghai - Sampana para passageiros ( Xido San Ban Da Ke )
363
É conduzida da seguinte maneira: quando um navio embarca carvão, é acostado por várias barcaças
tripuladas por numerosas equipas que despejam o conteúdo dos seus cestos nas aberturas do casco que comunicam
com os paióis de carvão.
Muitas vezes o cesto vai cair desajeitadamente ao lado da abertura do paiol de carvão e a carga cai dentro
de água. Este acidente nada tem de surpreendente, passa despercebido, e repete-se várias vezes. Mas, logo que
o navio parte, os “rapadores”, bem informados pelos seus cúmplices, acorrem munidos das suas dragas e apressam-
se a fazer a colheita, que é às vezes abundante, sobretudo quando o embarque se fez durante a noite.
As maiores sampanas ( Estampas 101, 102, 103, 104 ), dum comprimento de oito a doze metros, têm no
centro um rufo inteiramente de madeira que serve de alojamento à família. À volta dele espalham-se, numa
dessordem e numa porcaria indescritíveis bambus e croques, redes e dragas, sacos velhos e uma quantidade de
objectos heteróclitos e mal cheirosos apanhados aqui e além das águas. À popa, as mulheres das sampanas
póem a secar os seus farrapos, junto dum cesto que serve de capoeira às últimas vítimas das suas pilhagens.
A paixão da pilhagem leva os “rapadores” a actos de selvajaria inauditos; o autor destas linhas foi disso
testemunha impotente aquando dum naufrágio duma sampana habitada por uma família inteira.
Aos gritos das vítimas, os salvadores benévolos, sempre numerosos nestes casos, faziam força de remos
para se apropriarem dos miseráveis destroços que iam à deriva, sem nenhuma preocupação de socorrer os
infelizes náufragos. Pior do que isso, uma mulher da sampana teve mesmo a barbaridade de afastar com o seu
croque um pobre pequenino que lhe estendia os braços e desapareceu pouco depois enquanto tirava da água
uma velha caixa, objecto da sua cobiça !
SHANGHAI. JUNCO DE ARROZ (MI BAO Z1)
Especialmente destinado ao transporte do arroz, este junco ( Estampa 105 ), distingue-se pelo acabamento
da sua construção, os cuidados tidos na manutenção do casco, e sobretudo pela ordem e limpeza que reina em
geral a bordo. Frequenta o porto de Shanghai (nc 21), bem como os lagos e cursos de água do Yangzi Jiang (nc
1). Comprimento: quinze a vinte metros, pouca elevação acima da água, o tabuado do fundo sobe à proa, em
toda a sua largura, com um perfil arredondado, enquanto que à popa o costado lateral se prolonga sem apoio
para enquadrar o leme. No centro do convés há um rufo de madeira de forma arredondada, cuja parte de vante
está a céu aberto, mas pode ser fechada com esteiras móveis. Esta forma de rufo encontra-se de novo na grande
sampana de Shanghai (nc 21) (Estampa 101).
Uma braçola suplementar por cima da amurada protege o convés de ré onde manobra a tripulação de
quatro a cinco homens. Um mastro leve fica a vante do rufo, com uma vela rectangular ou de espicha. O
carregamento de arroz fica no porão de vante ou debaixo do rufo.
SHANGHAI - JUNCOS DE CARGA
Este tipo de junco (Estampa 106) é usado na carga e descarga dos navios de comércio, ou no transporte
de materiais pesados nos distritos circunvizinhos. E uma espécie de barcaça, de formas maciças com os extremos
quadrados, que está afectada à navegação nos lagos e nos cursos de água nos arredores de Shanghai (nc 21),
Suzhou Fu (nc 54), Hangzhou (ne 63) e Ningbo (nc 62). Existem vários tipos de várias dimensões. de quinze a
vinte e cinco metros de comprimento. O convés é horizontal, bem desempachado a todo o comprimento e sem
tosado. É envolvido por uma borda de tempo de um pé de altura, em volta da qual sobressai uma cinta, servindo
de passadiço aos homens quando empurram o junco com as varas.
O casco é consolidado, nos bordos, por dois ou três grandes pranchões saídos. À parte de vante e de ré
(Estampas 107, 108, 109) tem uma forma bem característica dos barcos de Ningbo (ne 62), donde este tipo é
oriundo. O leme pode ser içado; a madre passa num orifício evidentemente preparado no painel de ré, com uma
364
pequena fenda que permite travar a porta, quando o leme é içado acima da posição normal. À madre é então
imobilizada com um calço de madeira. Estes juncos eram destinados a passar debaixo das pontes pelo que têm
um mastro móvel, às vezes mesmo um segundo mais pequeno, com vela de espicha. O mastro grande iça ou
arria por meio dum pau de carga, que também abate para ré. A vela é em pano de algodão, do tipo de pendão,
reforçada por imensas varas intermédias.
Nos grandes juncos a tripulação compreende uma dúzia de homens que acciona dois fortes lemes de
gingar, um apoiado no painel de popa, o outro num suporte que sai duma cinta, a estibordo a ré. Nos fundos
pequenos a propulsão é feita com as varas que os homens enfiam no fundo e empurram, deslocando-se para ré
do barco.
Os aparelhos de manobra, cabrestante, cabeços e âncoras são a maior parte das vezes de modelo europeu.
As âncoras de ferro são todas com cepo de madeira, com grande comprimento, e colocado no cruzamento das
patas e da haste, segundo o método chinês. Pode fundear por meio duma estaca que os homens enterram
verticalmente no fundo do rio, depois de ter passado numa abertura no painel de vante (Estampa 107).
A carga vai no convés e no porão, que é fechado por painéis móveis. Se for de grandes dimensões,
dispõe-se em dois juncos amarrados um ao outro.
A tripulação tem a ré um rufo de madeira. ou um simples abrigo formado por esteiras. O casco é pintado
de preto ou passado a óleo de Tong You (nc 16), com o olho pintado de cada bordo à proa, bem como um signo
distintivo consistindo num triângulo colorido de várias formas.
Alguns destes juncos de carga têm o casco pintado de vermelho vivo a vante e a ré, os costados são por
vezes ornamentados com desenhos simbólicos representando um dos “oito objectos preciosos"(1). Este último
tipo pertence ao porto de Ningbo (nc 62).
O junco da Estampa 10 pertence a esta mesma categoria de barcaças, mas é diferente em alguns pontos:
as linhas da proa são elevadas e esguias (Estampa 111) e juntam-se de um e doutro bordo, numa espécie de roda
de proa constituída por três peças de madeira que prolongam o tabuado do fundo. A popa é igualmente mais
esguia e O painel é triangular.
A mastreação compreende geralmente dois mastros: o grande, que pode ser içado ou rebatido para vante
por um pau de carga, o pequeno a vante, é manobrado à mão. As velas são do tipo ordinário ou então de
pendão. Este junco de carga presta-se melhor do que o anterior para a navegação costeira, por força das suas
formas esguias e pela maior superfície de velame que lhe permite evoluir com facilidade. Por outro lado, o
junco da Estampa 112, com a proa maciça, da mesma forma que o junco de carga (Estampa 106) deve limitar
o seu campo de acção, como este último, à navegação nos lagos e nos rios.
Ainda que pertença à mesma categoria dos juncos de carga, o junco da Estampa 113, difere em vários
pontos dos barcos anteriores. É um tipo muito comum em Shanghai (nc 21) e no Baixo Yangzi Jiang. Com
dezoito metros de comprimento de construção cuidada, o casco envernizado, o convés protegido por altas
bordas de tempo que se reunem num quebra-mar na parte de vante. A ré do mastro grande, ergue-se um rufo,
coberto por esteiras móveis, enceradas e impermeabilizadas. O homem do leme fica num abrigo, igualmente
móvel, formado com esteiras seguras por quatro montantes.
1H) Ver Cap. HH ornamentos dos juncos.
365
O velame consiste em duas velas rectangulares, reforçadas por numerosas vergas intermédias: à vela
grande não tem menos de 23. Esta última tem uma escota na extremidade da plataforma perfurada que prolonga
as duas falcas desapoiadas da popa.
O junco de carga (Estampa 114) apresenta numerosas variedades em Shanghai. onde serve normalmente
para o transbordo de mercadorias dos navios de comércio. O casco é robusto, bem construído e conservado com
óleo de Tong You (ne 16) ou com verniz. O convés é em geral livre, sem rufo nem abrigos, sem tosado, envolvido
por uma larga borda de tempo que abrange todo o comprimento dos painéis dos porões, assim como
transversalmente, a vante, em forma de quebra-mar. O tabuado superior prolonga-se dos dois bordos até à popa
onde fica desapoiado, mas as barras transversais servem de ponto de apoio ao leme de gingar e às bolinas da
vela. Um pequeno guincho colocado na prumada do leme permite içá-lo ou arriá-lo.
Um mastro alto e sólido ergue-se a meio do convés, com uma vela rectangular com um grande número de
varas transversais. Um mastro suplementar, de pequenas dimensões, é às vezes instalado no convés a vante.
Estes mastros são móveis para permitir a passagem debaixo das pontes.
A maior parte dos juncos que fazem comércio com Suzhou Fu (nc 54) são equipados com velas de
espicha, envergadas em mastros de bambu de grande diâmetro.
JUNCO DE CARGA. BAIXO YANGZI JIANG
Este junco, representado na Estampa 115, merece uma menção especial, dada a finura das suas linhas de
água que raramente se vê nos juncos de rio.
Graças ao requinte das suas formas e à curvatura do tabuado do fundo, possui excelentes qualidades
evolutivas e é muito rápido. A proa e a popa são muito elevadas em relação ao tabuado de fundo que atinge e
ultrapassa a linha de água sob um ângulo muito agudo, de maneira que na sua marcha o junco parece deslocar-
-Se não como de ordinário, cortando as águas, mas por movimento deslizante à superfície. O comprimento varia
de quinze a vinte metros. O convés é desimpedido em toda a sua extensão e envolvido por uma borda de tempo
de dois pés de altura, por cima da qual fica uma forte cinta que segue à curva muito acentuada das partes de
vante e de ré. Dois mastros com velas de algodão; a vela grande é de duas partes reforçadas com numerosas
varas intermédias, a de vante é de pequenas dimensões, e o mastro inclina-se fortemente para a proa. Um par de
turcos colocados a ré permitem içar uma sampana; é um dispositivo muito pouco comum nos juncos de rio. A
Estampa 116 mostra o arranjo desta parte de ré.
Os juncos das estampas 117 e 118 têm muitas analogias com o junco anterior. Estão muito generalizados
em Shanghai (nc 21) e no estuário do Yangzi Jiang (ne 1), onde são usados para o transporte de mercadorias e
passageiros, De construção sólida e cuidada, este tipo de junco possui formas esguias com um forte tosado, um
rufo central. A ré do qual se ergue um grande mastro com vela rectangular de tecido de algodão. E uma boa
embarcação para o mar, evoluindo com facilidade e bastante competitivo em velocidade.
JUNCOS DE CHONGMING (nc 64)
Os juncos das Estampas 119 e 120 frequentam em grande número o porto de Shanghai (nc 21), para onde
transportam fardos de algodão da ilha Chongming (nc 64). As dimensões variam de dez a vinte, ou vinte e cinco
metros de comprimento, e a boca de dois metros e cinquenta a cinco metros.
Construídos em madeira de pinho leve, as suas formas e as suas características apresentam muitas analogias
com os juncos de cinco mastros de Bei Zhili (nc 65), conhecidos pelo nome de Sha Chuan (ne 66) que são como
estes construídos em Shanghai (nc 21) e nas vizinhanças. O convés é bem desimpedido e protegido por uma
simples borda de tempo de dois pés de altura, desde vante até ré, onde se ergue um rufo, por cima do qual fica
o homem do leme.
366
Estampa 101 Grande sampana de Shanghai
E DANESE
E Nas TS
Estampa 102 Sampana de Shanghai
Uma plataforma triangular vai além do painel da popa para facilitar ao pessoal a manobra da vela, bem
como a fixação do seu ponto de escota.
Têm dois ou três mastros; o do centro, de grande diâmetro, é formado por duas peças gémeas e cercadas
de ferro. É muito alto de forma a que a vela possa receber o vento das margens do rio. As velas são de algodão
e reforçadas por um grande número de varas.
O casco é pintado de preto. Adelgaça fortemente e é reforçado por cintas formadas de meios troncos de
árvores. Os barrotes, sobre os quais assenta o tabuado do convés, saem fora do casco.
Estes juncos têm dois lemes laterais, duas âncoras de ferro de tipo europeu, ou então fateixas de quatro
patas com o cepo também de ferro.
Com tempo grosso, os lemes laterais não são suficientes para atenuar o abatimento, que é considerável
nestes barcos de fundo chato, sem quilha e com pouco calado. Como os Sha Chuan (nc 66) também estes juncos
usam, neste caso, uma âncora flutuante em verga, em forma de cesto, de três metros de lado e cinquenta
centímetros de profundidade. ligada ao navio por uma forte amarra de bambu.
367
Estampa 103 Sampana de “ rapadores ”
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Estampa 104 Sampana de * rapadores
368
Estampa 105 Junco para transporte de arroz ( Mi Bao Zi)
Estampa 106 Shanghai - Junco de carga
369
Estampa 107 Shanghai - Junco de carga - Parte de vante
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Estampa 108 Shanghai - Junco de carga - Parte de ré
370
Estampa 109 Shanghai - Junco de carga - Parte de ré
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Estampa HO Shanghai - Junco de carga
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Estampa HH Shanghai - Junco de carga
Estampa 12. Shanghai - Junco de carga
372
Estampa 113 Shanghai - Junco de carga
Estampa HA Shanghai - Junco de carga
373
Estampa 15 Junco de cargu
Estampa 16 — Popa do junco da Estampa 107
37d
Estampa HT Shanghai - Junco de carga
Estumpa 118
Shanghai - Junco de carga e de passageiros
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Estampa 120. Junco de mar da ilha Chongming
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VII
COSTAS NORTE DA CHINA
COSTAS NORTE DA CHINA
Os juncos que navegam nas costas norte da China, os do golfo de Bei Zhili (nc 3) em particular, são de
puro estilo chinês primitivo.
Este tipo de construção, tal como assinalámos no Tomo II, a respeito da construção do junco, foi em certa
medida influenciado pelos Éditos Imperiais de dinastias muito antigas que interditavam o uso de navios de alto
mar susceptíveis de manter relações com países estrangeiros. Com o correr do tempo, quando estes Éditos
caíram em desuso, os chineses, sempre fiéis às suas tradições ancestrais, continuaram ainda assim a construir Os
navios de rio com formas maciças de barcaça, que utilizam para as relações externas. Esta prática perpetuou-se
até aos nossos dias, nomeadamente nas regiões do Norte pouco acessíveis à navegação e onde os construtores.
entregues aos métodos rotineiros, não puderam, como nas províncias meridionais, inspirar-se nos modelos dos
navios de alto mar que de há séculos a esta parte frequentam os seus portos. As raras influências que aqueles
sofreram, tiveram como efeito, no entanto, dar a estes juncos de modelo arcaico as linhas finas e a silhueta
esbelta dos veleiros ocidentais, conservando ao mesmo tempo o carácter original da construção chinesa. Como
veremos mais adiante, os juncos de Zhejiang (nc 1) e de Fujian (nc 2) em particular, oferecem os mais curiosos
exemplos desta evolução.
SHA CHUAN
Os juncos do golfo de Bei Zhili, se bem que apresentem numerosas variedades, têm características
comuns que os distinguem nitidamente dos barcos que navegam noutras regiões da China.
O casco é de fundo chato, com o costado direito e os extremos quadrados, formando um conjunto maciço
e desprovido de elegância. Entre estes juncos há um, no entanto, que é uma excepção à regra.
É o Sha Chuan ou “*barco-areia”” (Estampa 1), que foi buscar o nome aos inumeráveis bancos da costa
Norte do Jiangsu (nc 5), que tem que transpor nas viagens para as províncias do Shandong (nc 6) e do Bei Zhili
(nc 3) (1). As dimensões imponentes, a forte estrutura e a potente mastreação classificam-no, apesar do seu
aspecto arcaico, entre os mais belos e mais puros espécimes da construção chinesa. Há vários modelos,
sensivelmente com as mesmas características, mas de dimensões diferentes. Os maiores são oriundos de Shanghai
(nc 7) e dos portos da foz do Yangzi Jiang (ne 8). Têm 40 a 50 metros de comprimento, com uma tonelagem de
200 a 350 toneladas e uma tripulação de 25 a 30 homens. Os pequenos juncos são construídos em Haizhou (nc
9), no Norte da província do Jiangsu (nc 5), donde irradiam para o Yangzi Jiang e o golfo de Bei Zhili. Têm 12
a 15 metros de comprido, com uma tonelagem e um calado bastante pequenos, para lhes permitir penetrar
bastante longe no interior das terras.
DO tenente DW Waters, RN. publicou numa revista editada em Londres, “The Mariner 's Mirror”, dois artigos de grande interesse
sobre os juncos do Norte da China. O primeiro com data do mês de Janeiro de 1938 diz respeito do junco de Andong (ne 10), pequeno
porto da província da Manchúria, na foz do Yalu (ne 1); o segundo artigo, de Janeiro de 1939, sobre o junco de Bei Zhili, que aqui é
mencionado. Estas descrições, feitas com muita minúcia, trazem do estudo da arquitectura naval chinesa uma contribuição tanto mais
preciosa, quanto estes juncos representam, no mais alto grau e em todos os pormenores, a construção-tipo duma marinha muito antiga,
em via de desaparecimento,
381
Estampa | Sha Chuan
O Sha Chuan representa verosimilmente o mais antigo tipo de navios de alto mar chineses. Esta opinião
parece ser corroborada pela comparação que foi feita entre este junco, de forma primitiva, e Os navios
representados, por um lado num baixo relevo do século IX do velho templo de Borobodur, em Java, e por outro
lado, nos desenhos revelados na gruta de Ajanta, na Índia (1). Apesar das suas grandes dimensões e do seu
potente velame, o Sha Chuan de grande modelo parece pouco próprio para afrontar o alto mar. No entanto, no
fim do século passado, frequentava os mares do Sul até ao estreito de Malaca, aproveitando a mudança da
monção para navegar de vento em popa tanto à ida como na volta. No momento actual, as suas transacções são
só entre 0 Yangzi Jiang e o golfo de Bei Zhili.
O casco é solidamente construído, com fundo chato, sem quilha, o que obriga como correctivo do abatimento,
ao uso de lemes laterais. É caracterizado por um muito acentuado adelgaçamento de forma arredondada,
sublinhado por duas ou três cintas em relevo que asseguram uma grande rigidez longitudinal (estampa 2). O
perfil dado ao casco e que contribui em grande parte para a solidez do conjunto, encontra-se na maior parte dos
juncos do interior, o que permite atribuir aos construtores chineses a iniciativa desta engenhosa realização. Mas
a característica mais impressionante desta construção é a forma em dorso de baleia dada ao tabuado superior
que reúne os dois costados laterais e completa assim a ligação da ossada. O tabuado é aberto em vários pontos
para dar acesso ao porão que é compartimentado com numerosas anteparas estanques. Em volta destes painéis
do porão erguem-se fortes braçolas sobre as quais assentam os vaus ou barrotes, que aguentam o tabuado do
convés. Daqui se conclui que o convés é sobreposto ao dorso de baleia até à borda falsa, sem ligação directa
com o casco, pelo que pouco contribui para a rigidez da ossada.
1). “The Mariner's Mirror” Janeiro de 1939, pg.62 Chinese Junks”,
por YA, Donelly, pag. 29.
382
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Estampa 2. Sha Chuan navegando à vela
Os vaus saem para fora da borda falsa e são fixados por meio de cavilhas de madeira muito à vista. O
convés tem um ligeiro tosado e está à descoberto numa grande parte do comprimento. Por ante a ré do mastro
grande há um rufo destinado ao alojamento da tripulação.
Uma das particularidades deste tipo de junco consiste na disposição da mastreação. que compreende
cinco mastros, três dos quais móveis. No centro do convés fica o mastro grande muito ligeiramente inclinado
para ré e formado de 2 ou três peças gémeas de grande diâmetro ligadas por anéis de ferro. Depois há um
segundo grande mastro, um pouco menos alto que o anterior, mas igualmente reforçado por ferragens e de
grande diâmetro, que fica colocado a meia distância entre este e o mastro de vante. A carlinga destes dois
mastros fica no porão. O mastro de vante é de fraco diâmetro, pouco alto e inclinado para vante como o anterior.
A carlinga fica no convés contra o costado de bombordo ou mesmo no exterior. O quarto mastro, 0 mais
pequeno de todos, fica instalado não longe da popa, de fora e contra o costado de bombordo e é inclinado para
vante. O quinto mastro ergue-se verticalmente na prumada do cadaste. numa carlinga exterior colocada um
pouco a bombordo do eixo do convés. Esta disposição dos mastros, ao centro e a um bordo com a possibilidade
-
A
destes últimos serem suprimidos, continua a ser enigmática para nós; é a resposta a objectivos sobre os quais
nos faltam dados. O marinheiro que manobra o junco ignora também as razões deste dispositivo do qual
certamente tira vantagens. Somos portanto levados a pôr hipóteses e a primeira que nos vem ao espírito, conduz-
-nos às épocas muito distantes em que os Imperadores, preocupados em evitar o contacto marítimo com o
estrangeiro, promulgaram Éditos fixando as características dos navios costeiros a fim de os tornar impróprios
para a navegação no alto mar. É assim que as formas planas da carena com extremidades quadradas dos navios
de rio foram impostas e os mastros reduzidos a dois. Mas o gosto do lucro e a necessidade de expansão comercial,
incitaram os chineses a infringir os Éditos por um processo bem simples: usar mastros móveis suplementares,
embarcados como mastros sobressalentes, que se colocavam depois da partida e que se suprimiam antes da
volta ao porto, de maneira que os juncos podiam dispor de um grande número de velas para empreender longas
travessias para o Golfo Pérsico e a costa de África.
No entanto, as formas chatas da carena não deixam de apresentar sérios obstáculos para a navegação em
alto mar, por provocarem abatimento. Assim, para remediar este inconveniente, os juncos cingiam-se, como
ainda o fazem hoje, a navegar sempre com vento de popa, utilizando tanto à ida como à volta os ventos periódicos
das monções.
A instalação dos dois mastros móveis ao longo da borda contra o costado e do último mastro a ré, tem por
fim desempachar o convés de manobra que sem isso estaria atravancado com cinco mastros, enquanto que
assim só aí ficam dois. O de vante deixa livre a parte do convés destinada à manobra das âncoras; o segundo,
colocado pelo través da cana do leme, não estorva em nada o movimento desta; quanto ao terceiro mastro, que
se ergue no extremo de ré do convés, a manobra da vela opera-se por cima da galeria exterior do convés. Em
suma, o Sha Chuan apresenta esta particularidade única entre os juncos: dispor de cinco mastros e, não obstante,
de um convés tão livre como o de um brigue, além de poder ter ainda um grande número de velas.
Estes mastros não têm aparelho fixo, estais ou ovéns. Os dois mastros principais têm no tope um mastro
ligeiro de três a quatro metros de altura destinado a envergar uma pequena vela redonda como se fosse uma vela
de gávea. Cunhos em bisel são fixados ao longo deste mastro e servem de degraus para chegar ao tope. Não nos
alargaremos mais a descrever a mastreação e os outros dispositivos que já foram objecto duma descrição
pormenorizada, com um esboço, no Tomo II. No capítulo relativo aos mastros e na Estampa 43, encontra-se
uma instalação tipo de um mastro grande, a dos mastros móveis, acessórios de manobra, etc, etc.
As velas principais são tipo velas de pendão em tecido de algodão curtido com casca de carvalho, reforçadas
por um grande número de vergas intermédias. Na vela grande existem vinte e cinco a trinta. Substituíram desde
há cerca de meio século as pesadas velas em esteira, difíceis de manobrar e cujo rápido desgaste obrigava a
substituí-las ao fim de um ano de uso.
Estas velas modernas são, no entanto, muito pesadas e é necessário fazê-las assentar pelas vergas inferiores
em cavaletes colocados atravessados no convés, com vista a aliviar o esforço sobre as adriças e os amantilhos
( Ver Tomo II, Estampa 43, figuras | e 2). O corte das velas difere pouco do dos juncos de rio cujas tralhas são
sensivelmente paralelas sem curva aparente no topo da vela. Esta curva, que se encontra raramente nas velas
dos juncos do Norte, acentua-se à medida que se desce para o Sul, onde atinge o seu máximo nas costas de
Guangdong (nc 12).
Com vento bonançoso e de popa, o Sha Chuan (nc 4) iça as velas suplementares em forma de velas de
cutelo, de estai ou de gávea. Estas velas são envergadas nos mastros grandes e por cima das velas principais. A
descrição destas velas é dada no capítulo “Velas,” , com o seu aparelho e os acessórios de manobra ( Estampa
47, figura |). Há uma questão de menor importância, que ainda não foi examinada: à colocação dos dois
mastros móveis. Podemos perguntar-nos se a escolha de bombordo responde melhor que estibordo a uma
necessidade de navegação, ou se esta escolha não tem propósito. Sabemos que todos os juncos aproveitaram os
ventos favoráveis da monção para fazerem as grandes travessias, nomeadamente entre Shanghai (ne 7) e o
384
Golfo de Bei Zhili e vice-versa. São obrigados, por causa das formas chatas da carena e também para diminuir
o abatimento, a navegar com vento de popa ou a um largo. De Março a Agosto, sobem com à monção de
Sudoeste e voltam com a monção de Nordeste de Setembro a Fevereiro. Numa das duas orientações de pano
que podem adoptar, a de bombordo apresenta sérios inconvenientes. No último caso, com efeito, as velas dos
dois mastros móveis ficam atravessadas em relação ao convés, a bombordo, enquanto as dos dois grandes
mastros bloqueiam o lado de estibordo.
A conclusão a tirar desta alternativa é que os juncos se devem cingir a navegar com amuras a estibordo
tanto à ida como na volta, ou seja, se esta amura for desfavorável podem desembaraçar-se das velas que são
inconvenientes, em especial a do quarto mastro que entravaria a manobra do homem do leme.
Não entraremos em pormenores quanto à instalação do leme que já constam do Tomo IT. Este leme é de
tipo ordinário, com porta de grandes dimensões, consolidada por numerosas ferragens (Ver Tomo II, Estampa
38, figura 2). A altura da porta é de cerca de três metros, a largura de quase dois metros, a espessura de 0,15
metros, A madre tem 0, 30 metros de diâmetro e o seu comprimento total até à base da porta não atinge menos
de sete metros. Estas dimensões mostram a potência que se pode esperar deste aparelho, cujo papel neste navio
de fundo chato, é dos mais importantes. Pode, independentemente do seu uso normal, ser susceptível de ir
abaixo do tabuado do fundo para aumentar o poder evolutivo e também para atenuar o abatimento, graças à
grande superfície da porta.
É ainda com o fim de combater o abatimento e de diminuir o perigo de mar grosso, que o Sha Chuan usa
uma âncora flutuante, formada por uma espécie de cesto quadrangular de vime com a dimensão de três a quatro
metros. com um pé de galinha de quatro ramos fixados aos ângulos do flutuador (Ver Tomo II, Estampa 53.
figura 4). Utiliza ainda, com bom tempo, o leme lateral (Ver figura 8), uso que é excepcional nos barcos de mar.
O junco fundeia com fateixas de ferro de quatro patas com amarras de bambu entrançado. A espia passa
no anete, corre ao longo da haste e, depois, envolve sucessivamente cada um dos braços e acaba por ser amarrada
a um deles ( Ver figura 8 ). A espia é amarrada ao anete solidamente e à haste em todo o comprimento. O Sha
Chuan (ne 4) não tem turco do ferro; as fateixas de ferro que servem mais frequentemente em lugar das âncoras,
assentam no convés avante ao lado das espias. Estas são largadas à mão durante a operação de fundear, passando
sob volta por cunhos de madeira com roldana fixos por cima da travessa do painel de vante. O suspender é
geralmente feito por uma ou duas sampanas especiais munidas de guinchos. Estas sampanas vão no convés
durante a travessia. A espia é depois virada por um guincho ou um cabrestante de tipo ocidental (Ver Tomo Il.
Estampa 54. figura 4). À meio convés e na sua parte de vante há vários aparelhos para a manobra das velas que
atingem um peso considerável, guinchos ou cabrestantes desmontáveis, instalados no convés perto dos mastros
principais. um ou dois cabrestantes junto do mastro grande, cabeços, moitões, andorinhos e outros acessórios,
cuja descrição foi dada no Tomo II.
Os juncos de grandes dimensões tem o casco dividido numa vintena de compartimentos estanques, de
que dois terços formam o porão das mercadorias. Os restantes que se seguem para ré, assim como o rufo que
fica por cima, são destinados à tripulação. Compreendem camarotes com beliches sobrepostos, uma cozinha,
paióis de mantimentos e de material. Uma pequena câmara convenientemente mantida e decorada com motivos
esculpidos em madeira dourada é consagrada a Guan Tin, a divindade protectora dos marinheiros, diante da
qual se queimam em permanência pauzinhos de incenso.
O patrão (ne 13) do junco, ocupa a parte de vante do rufo que comunica com o convés por uma porta
formada por painéis móveis em que foram abertas janelas. Duas caixas para água ficam a um lado e outro dessa
porta. Para ré desse alojamento abre-se na cobertura uma escotilha mediana a céu aberto que vai até ao poço do
leme: é aí que fica o piloto, de pé num banco de onde manobra a comprida cana do leme, colocada tanto acima
como abaixo da cobertura, conforme o leme está na posição normal ou arriado. No fundeadouro esta escotilha
fica tapada por painéis móveis.
A estrutura da parte de ré do Sha Chuan (ne 4) é representada nas estampas 2 e 3, esta última mostrando
várias formas de proa e de popa deste tipo de junco. Vê-se que as extremidades do tabuado do casco abaixo das
cintas se prolongam em forma de abóbada para além do tabuado de fundo, sobre o qual se apoia a madre do
leme. Esta disposição da qual não se vê a razão de ser. a menos que se destine à pôr a porta do leme ao abrigo
dos choques do mar, encontra-se em vários juncos do Baixo Yangzi Jiang (ne 8), (Ver Tomo VI, Estampa 6 ).0
que não justificaria esta hipótese. Estas duas asas saindo fora do casco são consolidadas por escoras que se
apoiam a 45º sobre o tabuado do fundo. Por cima da abóbada, a ossada termina por um painel rectangular onde
foram feitas uma ou duas aberturas numa das quais aparece o cano dum velho canhão destinado à manter em
respeito os piratas e os larápios que infestam a costa.
Este painel tem escrito, em grandes caracteres pretos, num rectângulo pintado de branco. votos de felicidade
ou de prosperidade. Mas à parte característica do casco do Sha Chuan (ne 4), aquela que lhe dá a silhueta
pitoresca dum navio dos tempos passados é a galeria em forma de trapézio alongado colocada à saída do painel
da popa. O chão é constituído por um xadrez, donde se faz a manobra da vela de ré. Uma lanterna em madeira,
de forma quadrada ( Ver Tomo II, Estampa 67 ), é colocada no rufo junto do homem do leme para assinalar
Estampa 3 Diversas formas de proa e de popa
com a sua luz a presença do junco. Em tempo calmo ou nos portos o junco utiliza, para se mover, remos leves
dispostos no convés central.
O casco não leva nem pintura nem decoração. É passado com óleo de Tong You (ne 14), espécie de verniz
brilhante e resistente que os chineses usam, com sucesso, na manutenção do casco. As bordas de tempo de vante
são ornamentadas com uma bandeirola esculpida em forma de voluta. Nas de ré notam-se, às vezes, círculos
vermelhos com inscrições destinadas a informar o controlo alfandegário da origem e natureza da carga.
Antes da introdução dos navios a vapor, que absorveram a pouco € pouco o comércio costeiro, este junco
fazia um serviço muito activo entre o Yangzi Jiang (nc 8) e a costa de Bei Zhili (nc 3), mais especialmente o
transporte do tributo imperial. desde que o assoreamento do Grande Canal provocou o abandono parcial desta
via.
386
Convém, por fim, assinalar, para não esquecer nenhuma das comodidades oferecidas por este junco, as
duas aberturas feitas no convés de ré, uma destinada a deitar o lixo para o exterior, outra a tirar a água salgada
para as necessidades domésticas. Tais são as características principais deste junco, único no seu género e último
vestígio da mais antiga construção marítima que vai rapidamente a caminho do desaparecimento definitivo.
JUNCO DE BEI ZHILI ( ne 3 )( Estampa 4)
Na falta de documentação precisa que as circunstâncias nos não permitiram obter no local, faremos. sob
o nome de junco do Bei Zhili (nc 3), a descrição de um navio de mar apresentando as características comuns à
maior parte dos juncos de cabotagem no golfo de Bei Zhili e que se pode considerar como protótipo da construção
da China do Norte. Assim como o Sha Chuan, o junco de Bei Zhili é construído no estilo primitivo do junco de
rio, com fundo chato e os extremos quadrados. O casco é maciço, com o costado direito consolidado por
espessas cintas que fazem sobressair o forte tosado do convés. A proa e à popa elevam-se, enquanto que o
convés a meio navio está acima da linha de água. um metro para os maiores juncos medindo trinta metros de
comprido. No centro do convés e em dois terços do comprimento, abre-se uma escotilha de um metro e cinquenta
de largo envolvida por uma espessa braçola dum metro à um metro e vinte de altura que contribui para reforçar
a ligação longitudinal do casco. O convés é a descoberto. sem bordas de tempo para o proteger do mar. A
montagem do tabuado é feita com grampos de ferro e não por pregos. processo mais eficaz usado normalmente
na construção dos juncos de mar. A mastreação compõe-se de três ou quatro mastros: ao centro, o mastro
grande, mastro formado a maior parte das vezes de duas peças de madeira gémeas e envolvidas por ferro: a
ante, um mastro de menor dimensão inclinado para a proa; no extremo de ré um ou dois mastros muito leves
colocados dum e doutro lado do painel da popa. As velas do tipo de pendão, são de tecido de algodão curtido;
a de vante é às vezes feita de esteiras.
Com bom tempo os juncos de Bei Zhili utilizam velas suplementares de diversos cortes, cujo conjunto
não deixa de ser pitoresco. No tope do mastro grande uma vela redonda, montada à maneira duma vela de
gávea, com os seus pontos de escota tesados sobre a verga superior da vela grande: entre os dois mastros
principais um cutelo rectangular, aguentado apenas por quatro cabos volantes; enfim, uma vela de estai triangu-
lar içada à popa do mastro grande ou no extremo de vante à laia de bujarrona ou de vela de palanque. O junco
fundeta com uma âncora ou com uma fateixa ou mesmo com uma âncora de madeira de grande volume. A
manobra faz-se com um turco que assenta na travessa do painel de vante, um pouco à direita do eixo do convés
e saindo para fora cerca de dois metros. A extremidade da antena tem um andorinho no qual passa a espia da
âncora que vira num guincho que está perto do mastro. O leme é solidamente construído e consolidado por
ferragens. Pode içar-se para fora de água por meio dum guincho colocado na prumada do seu alojamento. ou
arriado à baixo do tabuado do fundo cerca de um metro. A tripulação é de quinze a vinte homens, alojados num
rufo de madeira elevado sobre o convés a ré e preparado, como o do Sha Chuan (nc 4), com beliches, cozinha,
paióis de mantimentos, caixa de água, e o pequeno pagode consagrado à divindade protectora do junco.
A cobertura é igualmente atravessada por uma escotilha mediana permitindo içar ou arrtar 0 leme sem ter
de se desmontar a cana. Entre a antepara de ré do rufo e o painel da popa, há um pequeno reduto a céu aberto
onde está o guincho do leme e as comodidades habituais. O casco não tem ornamentação nem pintura. E
passado, assim como a mastreação, com um óleo protector que lhe dá o aspecto brilhante de verniz.
JUNCO DE PESCA
Os pescadores do Golfo de Bei Zhili e, em particular, os do porto de Tagu (nc 15), servem-se de
embarcações de pequenas dimensões construídas no estilo do junco local que faz cabotagem nos portos do
Norte. Estes barcos de pesca ( Estampa 5 ) têm um comprimento de dez a quinze metros. O casco é robusto e de
387
Estampa 4 Junco de Bei Zhili
fundo chato, duas condições necessárias para a navegação nestas paragens varridas por frequentes e violentos
golpes de vento e com mar pouco profundo e semeado de vastas extensões de bancos de areia.
Os extremos de vante e de ré são elevados e de forma rectangular. O convés apresenta um tosado acentuado,
sobretudo a vante. Não há borda de tempo que o proteja contra o mar. mas, pelo contrário, o porão destinado a
guardar os produtos da pesca é defendido por uma braçola de dois pés de altura, coberta por um painel estanque.
O mastro grande fica no centro deste porão, cuja escotilha ocupa três quartos do comprimento do convés
e metade da largura. Um segundo mastro de muito pequenas dimensões é às vezes colocado no centro da
braçola de vante. À vela grande é do tipo vulgar de pendão em tecido de algodão, enquanto a de vante é de
forma rectangular ou mais frequentemente triangular, disposta como uma bujarrona, cuja amura é feita no
extremo do turco da âncora, que faz de gurupés. Este turco é formado por uma sólida antena que sai da travessa
de proa; na extremidade tem um gorne onde passa a espia da âncora. Este dispositivo é próprio dos juncos do
Golfo de Bei Zhili.
A tripulação é de cinco a seis homens que se abrigam no porão de ré ou debaixo de esteiras. O casco é
mantido com óleo de Tong You e não há pintura nem ornamentação.
JUNCO DE JINZHOU ( Golfo de Liaodong ) (nc 16)
HONG TOU CHUAN (nc 18)
O porto de Jinzhou Fu (nc 17), situado no Golfo de Liaodong (nc 16), província de Bei Zhili, oferece-nos
um tipo de junco que se distingue nitidamente pela decoração do casco de todos aqueles que se constroem nos
vários portos do Golfo de Bei Zhili ( Estampas 6 e 7). A maior parte das vezes, com efeito, os juncos destas
regiões setentrionais da China têm o casco pintado de preto ou passado com óleo de Tong, You, que lhes dá um
aspecto limpo e brilhante.
É preciso descer para Sul, para as costas do Zhejiang (nc |), do Fujian (ne 2), para ver os magníficos
juncos de mar pintados com cores brilhantes, o casco decorado com motivos de efeito bizarro, as mais das
vezes inspirados pela tradição e a observância dos ritos aos quais os chineses e os marinheiros em especial
continuam sempre fiéis. Pelo contrário, nas províncias do Norte, Jiangsu (nc 5), Shandong (ne 6), Bei Zluli (nc
3) e na Manchúria, os motivos de decoração são praticamente inexistentes e as poucas pinturas que ornamentam
O casco e mais especialmente o painel da popa são de uma cor uniforme em que o azul e o vermelho são em
geral dominantes.
388
Estampa 5 Barcos de pesca de Tugu
Estampa 6 Junco de Jinchou - Hong Tou Chuan
389
O junco do Liaodong (nc 16) escapa a esta regra. As ornamentações que se vêem pintadas no casco têm
uma grande analogia com as dos juncos de Fujian (ne 2). Encontram-se os mesmos motivos decorativos nos
painéis de proa e de popa, os quadrados brancos e vermelhos a imitar as portas de bateria no costado, e também
o olho tradicional em fundo verde a vante, que é muito raro figurar nos juncos do Norte.
Tudo leva a crer que esta semelhança de decorações não é uma questão de acaso, mas resulta dum
contacto directo entre os construtores de Fujian (nc 2) e os de Jinzhou Fu (nc 17). Este contacto constata-se em
certos pormenores da própria construção.
O casco dos juncos do Liaodong (nc 16) é robusto, consolidado por cima da linha de água por fortes
cintas formadas de meios troncos de árvores não aparelhados e eleva-se a vante e a ré a fim de assegurar, pelo
seu perfil em arco, uma maior rigidez longitudinal.
A proa, como a da maior parte dos juncos de Fujian (nc 2) e do Zhejiang (ne 1) é maciça, quase quadrada,
pouco própria para assegurar 0 avanço contra um mar, por pouco agitado que seja. Quanto à popa de forma
oval, com o leme deslizando numa larga ranhura praticada na parte superior do painel da popa, é a reprodução
exacta da dos juncos das províncias meridionais.
Uma das particularidades deste junco, comum à maior parte dos juncos de Bei Zhili, (nc 3) é a instalação
no castelo duma enorme antena colocada no sentido longitudinal, saída para servir de guia à espia de fundear
que aguenta uma volumosa âncora de madeira.
A mastreação consiste num mastro grande colocado ao centro com vela de pendão em tecido de algodão
curtido, reforçada por numerosas varas transversais. A vante há um segundo mastro, de menor importância, que
se inclina para a proa, junto do costado de bombordo, um outro mastro mais leve ainda, equipado como o
anterior com uma vela geralmente feita dum tecido de palha ou de cana. Por ante a ré do mastro grande há um
rufo, formado por duas partes separadas por um intervalo a céu aberto, onde fica o homem do leme. A parte de
vante é arqueada e coberta com esteiras; serve de abrigo às mercadorias. A parte de ré, com cobertura de
madeira, serve de alojamento à tripulação. Compreende a cozinha, o paiol dos mantimentos e o altar consagrado
à divindade tutelar do junco.
Este junco é conhecido pelo nome de Hong Tou Chuan (nc 18) “ barco de cabeça vermelha “. O
comprimento pode ir até trinta metros e a capacidade a perto de cem toneladas. Ocupa-se na cabotagem no
Golfo de Bei Zhili, até Dalian (nc 19) e Weihaiwei (nc 20).
Quando se passa a fronteira do Jiangsu (nc 5) para se entrar no Golfo de Bei Zhili (nc 3) seguindo as
margens do Shandong (nc 6), constata-se uma mudança no tipo de construção dos juncos. Esta mudança acentua-
-se à medida que vamos subindo para o Norte, e atinge completa expressão no junco que descrevemos com 0
nome Junco de Bei Zhili.
Depois de ter feito esta constatação, os “ Relatórios Decenais de 1892-1901 “ dão as seguintes descrições
de dois tipos de juncos locais, reunindo as características da construção das províncias do Sul, bem como
também as de Bei Zhili. O primeiro chama-se Xiao Zi ou Xiao Wu Zi (nc 21). E um barco de pequenas dimensões
que faz comércio entre o Norte do Jiangsu (nc 5) e a costa Sul do Shandong (nc 6). Desloca quinze à vinte
toneladas. As formas são esguias na parte de vante e largas na parte de ré. Está aparelhado com dois ou três
mastros e tem uma tripulação de cinco a seis homens.
Uma das particularidades deste barco de mar, provavelmente oriunda de Ningbo (nc 22) ou de Fujian (nc
2) consiste no olho pintado nas duas amuras que não se encontra nos juncos do Norte, excepto no Jinzhou Fu
que acabámos de descrever.
GUA LOU JU (ne 23)
O segundo tipo é chamado Gua Lu ou Gua Lu Ju - cesto, cabaça, melão - nome que vem da forma do
casco, mais estreito no meio do que nas extremidades. Esta propriedade é comum a vários juncos do Yangzi
Jiang (nc 8). Foi imaginada com o fim de reduzir os direitos de tonelagem que a Alfândega calcula pela largura
390
a Pd
pin
E sa
pi,
E) A),
O mesmo junco da Estampa 6, visto de popa
Estampa 7
391
do junco a partir do través do mastro grande. Estes juncos têm um aspecto rústico, com um pequeno bordo livre.
O convés é cortado por uma comprida escotilha dando acesso ao porão, e envolvida por uma braçola com um
metro à um metro e vinte e cinco centímetros. Esta instalação caracteriza bem a construção de Bei Zhilt (nc 3).
Há várias variedades de Gua Lou, as maiores tendo um comprimento de trinta e cinco metros, com uma tonelagem
de duzentas toneladas e uma tripulação de vinte e cinco homens.
JUNCO DO BELHE ( nc 25 )
O porto de Tianjin (nc 24) é um centro comercial dos mais importantes da China do Norte, para onde
convergem inumeráveis flotilhas de juncos de mar e de rio. Estes juncos utilizam a via do Bei He (nc 25) e dos
seus numerosos tributários, assim como o canal imperial, hoje bem longe da importância que teve em séculos
passados e que devia ao transporte do tributo em espécie que as províncias do Império enviavam todos os anos
à corte de Beijing * (nc 26 ).
No caminho para Tianjin (nc 24), os juncos de mar deviam passar a perigosa barra de Tagu (ne 15), subir
depois o curso sinuoso do rio, cheio de bancos de areia e de lodaçais que se atravessam sem dificuldade espe-
cial, graças ao fundo chato do barco.
A Estampa 8 representa um junco de quatro mastros navegando na bacia de Bei He (nc 25) e nas imediações.
E um tipo híbrido tão apto a aguentar o mar como os juncos do golfo de Bei Zhili (nc 3), ainda que construído
para à navegação interior. O casco é robusto com as formas habituais levantadas nas extremidades de vante e de
ré. Uma comprida escotilha envolvida por uma espessa braçola e coberta por painéis móveis cobre o porão
desde o mastro de vante até ao pé dum rufo de madeira onde é o alojamento da guarnição. O convés é descoberto,
sem bordas de tempo, nem borda. O rufo e a braçola do porão ficam ligeiramente recuadas em relação aos
bordos para permitir a circulação em volta do convés, nomeadamente quando o navio se desloca com o auxílio
do impulso de varas que se apoiam no fundo.
Contrariamente ao que se poderia supor, o equipamento de um junco com quatro mastros não é típico dos
navios de mar. Encontraremos vários exemplos entre os juncos do Yangzi Jiang (nc 8), dos lagos Poyang (ne
27) e Dongting (nc 28), que utilizam uma grande superfície vélica para vencer a corrente. A posição dos mastros
é análoga à dos juncos do golfo de Bei Zhili (nc 3). O mastro grande, colocado no centro do convés, apoia-se no
porão, o de vante, de menores dimensões, ergue-se por ante a vante da braçola.
Os dois mastros de ré estão colocados o mais pequeno a bombordo, junto à antepara de ré do rufo, de
forma a deixar livre o campo de acção da cana do leme. O último mastro fica no eixo do convés sobre o painel
da popa. O leme é de tipo ordinário, pode deslocar-se como na maior parte dos juncos de rio, em altura, mas não
em profundidade.
Os grandes juncos atinjem vinte e cinco metros de comprimento, uma capacidade de cem toneladas e
uma tripulação de doze a quinze homens. Não têm ornamentos nem pinturas; O casco é mantido com óleo de
Tong You (nc 14).
JUNCOS DE RIO
Ainda que a China do Norte seja considerada como a região dos transportes por estrada, o comércio pela
via marítima não tem menos importância do que nas regiões meridionais. A estrada chinesa, deixada como em
qualquer outro lugar ao abandono, é geralmente impraticável, sobretudo na época das inundações que são
frequentes no Verão, quando fundem as neves nos planaltos da Mongólia: pelo contrário, a navegação fluvial e
mesmo marítima pára durante três a quatro meses de Inverno, quando os rios e as costas marítimas gelam.
Apesar disso o tráfego é sempre considerável entre a bacia do Huang He (nc 29) e o do Yangzi Jiang (nc8).
* Ver tomo HI, os artigos relativos dos Juncos Imperiais e Canal Imperial,
Estampa 8 Junco de rio
Os juncos dos rios setentrionais da China não oferecem a diversidade de estrutura e as curiosas silhuetas
que abundam na bacia do Yangzi Jiang (nc 8). Mais ainda que os juncos de mar, têm a forma maciça de fundo
chato. com as extremidades largas e quadradas. O casco é robusto, consolidado por espessas cintas formadas
com meios troncos de árvores apenas desbastados. A Estampa 9 representa um dos juncos que se encontra em
muito grande número em rios e canais que sulcam a província de Bei Zhili (nc 3). Serve para transporte de
mercadorias e de passageiros, que devem ser pouco exigentes no que diz respeito ao conforto. Os mandarins e
pessoas de marca utillizam em geral os juncos do Yangzi Jiang (nc 8), arranjados com um certo luxo. O convés
dos juncos do Bei Zhili (nc 3) é pouco elevado sobre a água, sem bordas de tempo e completamente desempachado
na parte de vante onde se fazem as manobras dos remos de gingar, das varas ou de alagem. Um só mastro de
grandes dimensões, com vela de pendão, fica no meio do barco, enquanto que o rufo servindo de alojamento
aos passageiros e, eventualmente, à mercadoria, ocupa a parte de ré até ao posto reservado para a manobra do
leme. Como todos os navios chineses duma certa tonelagem, tem o interior do casco dividido em compartimentos
estanques. com anteparas que asseguram a dupla ligação transversal e longitudinal da estrutura. O acesso ao
interior do rufo é feito por duas portas abertas na parte de vante das paredes laterais. Estas paredes elevam-se
pouco acima do convés e deixam de cada bordo uma passagem ou passadiço para a circulação do pessoal,
nomeadamente quando a propulsão do junco é feita com as varas.
O leme é de porta ordinária, pode ser içado com um guincho colocado na prumada da madre. O
comprimento deste tipo de junco varia entre seis a vinte metros, com um calado que não ultrapassa um metro.
O casco não tem ornamentos. E pintado de preto ou recebe uma camada de óleo preservante brilhante.
BARCOS DE PELE
No decurso deste estudo sobre os processos de navegação usados pelos chineses numa grande parte do
Império, não podemos deixar de falar no meio de transporte usado no rio Xining (nc 30). afluente do Huang He
(nc 29), na região da província do Gansu (nc 31), vizinha de Kukuruoer (nc 32). Esta região produz cereais em
abundância, mas o transporte por terra é demorado e caro. Por via marítima oferece grandes perigos para as
embarcações do tipo ordinário, dada a natureza torrencial do rio que corre num canal tortuoso e estreito, e cheio
198
de rochedos. Estas dificuldades puderam ser ultrapassadas, graças ao uso de jangadas feitas de peles de boi,
análogas às que navegam no Eufrates, as mesmas de que os Caldeus se serviam no Tigre, nos tempos dos
Gregos e dos Romanos.
Estas jangadas são formadas por uma vintena de peles agrupadas em duas filas paralelas, ligadas bordo a
bordo, as patas terminadas por aberturas dirigidas para cima. A carga de sementes, cerca de 400 a 500 quilos é
introduzida por uma destas aberturas, que é fechada hermeticamente em seguida. As três outras são também
fechadas, depois de se ter insuflado ar na última e esticado a pele até não poder mais, à fim de garantir à
flutuabilidade. A jangada é assim constituída por elementos flexíveis, que apresentam no seu conjunto uma
flexibilidade de movimentos comparável à dum comprido réptil que descesse com a corrente, contornando à
vontade os mil obstáculos do caminho.
Alguns bambus fixados por cima uns dos outros servem de plataforma a uma equipa muito reduzida,
cujo papel se limita a guiar a proa da jangada com remos de gingar. Chegados a Lanzhou (nc 33), seu destino
habitual, a jangada é desmontada, as peles esvaziadas do seu conteúdo e em seguida expedidas para o ponto de
partida por via terrestre, a maior parte das vezes às costas de carregadores. Não se poderia imaginar um processo
de transporte mais engenhoso, reunindo ao mesmo tempo as condições de simplicidade, segurança e economia,
nesta perigosa navegação.
poe e E
Estampa 9 Junco de passageiros no Bei He
394
VII
COSTAS SUL DA CHINA
(PROVÍNCIA DO GUANGDONG)
PORTO DE CANTÃO
De todos os portos da costa meridional da China é o de Cantão que dá ao viajante estrangeiro a impressão
mais viva do extraordinário movimento de embarcações no Império Chinês. Esta cidade, capital da província
do Guangdong (ne 12), fica situada sobre o Zhu Jiang (nc 34), rio das Pérolas, perto do ponto de convergência
de três importantes cursos de água. Com efeito o Xi Jiang (nc 35), 0 rio do Oeste, o Bei Jiang (nc 36) rio do
Norte, e o Dong Jiang (nc 37), rio de Leste, põem Cantão em comunicação com várias ricas províncias e mesmo
até ao vale do Yangzi Jiang(ne 8). O delta formado por estes rios é recortado por um enorme número de cursos
de água que se cruzam em todas as direcções e transformam esta imensa planície num verdadeiro arquipélago
de terras baixas duma fertilidade prodigiosa. A abundância e a variedade dos produtos junto à própria natureza
desta região atraem uma população marítima muito importante, alojada em centenas e centenas de barcos que
fazem comércio diário com Cantão. É a este movimento incessante de navios ao qual há que juntar o dos
juncos, igualmente muito numeroso, que navegam nas costas ou para o interior das terras, que Cantão deve a
sua reputação de “cidade única do mundo”. A singularidade desta aglomeração marítima não reside somente
no número e na variedade dos navios que atravancam o porto, mas sobretudo na originalidade, no pitoresco das
suas actividades quotidianas de que nenhuma descrição poderá dar ideia.
Esta cidade flutuante compõe-se duma multidão de navios de todas as tonelagens, de todas as formas,
alinhados e imóveis em vários pontos do rio, como casas duma rua cruzada inimterruptamente por uma chusma
de sampanas. Se esta circulação, na aparência embaraçada, se opera com uma certa facilidade, faz-se, pelo
contrário, com uma algazarra ensurdecedora, no meio de clamores e discussões que não deixam de inquietar o
turista aventuroso. Depois de vencida a primeira emoção, o viajante encontra-se em presença dum espectáculo
não menos impressionante e duma novidade sem nada de semelhante em nenhum outro país do mundo. A maior
parte destes barcos são tripulados por lojistas à procura de clientes na cidade aquática; cada um deles lança o
seu pregão especial e mostra com grande barulho o seu fornecimento de vitualhas, peixes, criação, hortaliças,
bolos, frutas, e refeições feitas, de forma que todos encontram no rio o que precisam para a sua subsistência. E,
em suma, como um mercado ambulante que se renova sempre com a mesma agitação febril. Mas o que aumenta
ainda o seu aspecto pitoresco são os vários grupos de profissões que apresentam os seus mostruários profissionais
à maneira dos charlatães das feiras. Eis o farmacêutico no meio dos seus frascos e das plantas medicinais de que
gaba as virtudes com a arenga da praxe. A sua sampana está rodeada de muita gente, assim como a do médico
que exibe numa tela pintada um manequim formado por linhas, nas quais um considerável número de círculos
correspondem aos pontos de punção onde bastará tocar com uma agulha para que a saúde volte ao paciente.
Depois são os vendedores de fatos mais ou menos usados, os sapateiros que expõem toda a espécie de calçado
entre os quais os minúsculos sapatos para as mulheres de pés deformados, os barbeiros, cujos serviços têm
menos saída desde a abolição do rabicho. Neste desfile original metem-se as sampanas dos mendigos, até
mesmo as dos leprosos que impõem a sua presença e as suas lúgubres lamentações, até que o óbulo lhes seja
deitado num cesto que estendem na extremidade dum comprido bambu. E ainda os que lêem a sina. que têm
sempre muitos clientes, da mesma forma que os bonzos, nas suas sampanas especiais ornamentadas com
divindades, aos pés das quais ardem varinhas de incenso. Um dos bonzos. com uma veste amarela salmodia as
397
rezas. enquanto outro bate com um macete numa peça de madeira oca para chamar à atenção dos génios do mar
e também a do cliente que deseje expulsar os espíritos malignos que assombrem o seu barco. De tempos a
tempos, um pesado junco larga com a vela meio içada, ou com a ajuda dos lemes de gingar laterais, enquanto à
proa tripulantes queimam papéis emblemáticos e sacrificam o galo que vai aplacar as divindades e fazer depois
as delícias da tripulação. Mas de repente, lançando a confusão na chusma das sampanas, surge um grande junco
de pequeno bordo livre, cheio de passageiros; avança sem querer saber dos obstáculos. E um navio de rodas
movido por uma vintena de desgraçados, de torso nu, que se afadigam como demónios, num pequeno reduto do
porão.
A esta agitação febril do dia, sucede à calma da noite, pois cada sampana volta ao seu refúgio preferido
numa das incontáveis angras do delta. É então que muito próximo da cidade, no bairro dos Hua Chuan (ne 38),
ou“ barcos de flores “,a vida renasce com uma animação discreta, a bordo de juncos com uma forma especial,
com um ou dois andares brilhantemente iluminados servindo de restaurante ou de teatro, que estão amarrados
permanentemente e que os ricos podem alugar à vontade para se passear e se distraírem no rio. Os papalvos
acorrem à volta destes barcos colocados lado a lado e com as proas reunidas à dos vizinhos por uma plataforma
móvel permitindo a circulação dum extremo ao outro da cidade aquática. Deste resumo da actividade interior
pode-se imaginar à importância do movimento do porto de Cantão, o número e a variedade dos barcos que o
frequentam. A população flutuante foi estimada no fim do século passado em 300.000 habitantes, homens,
mulheres e crianças, e o número de barcos em mais de 80.000, em grande parte sampanas (1).
Destes barcos, os mais importantes fazem comércio com Hong Kong (nc 39): Macau (nc 40) e a costa
oeste. A capacidade média é de 300 toneladas. O número dos que se ocupam na cabotagem varia segundo as
circustâncias e muitos dedicam-se à pesca quando o frete baixa. Mas esta flotilha de juncos declina rapidamente,
por efeito da concorrência dos barcos a vapor e da insegurança das rotas fluviais e marítimas, onde a pirataria se
exerce com uma audácia incrível.
JUNCOS DE MAR E DE RIO
Os barcos da província de Guangdong (nc 12) podem agrupar-se em várias categorias de que a mais
importante é a das sampanas que estacionam em grande número em Cantão e Hong Kong, assim como no delta
e nos numerosos cursos de água que nele se lançam. Os juncos de mar que se dedicam à cabotagem e à pesca
são relativamente pouco numerosos pelas razões dadas atrás. Pelo contrário as barcaças, batelões e reboques de
todas as dimensões, pululam literalmente nestes dois grandes portos onde o comércio com portos estrangeiros
é considerável. Além destes barcos de carga vêem-se nos rios muitos juncos de formas diversas destinados ao
transporte do arroz, sal, artigos alimentares, madeiras, pedras, etc, assim como juncos para passageiros, sempre
muito numerosos e a maior parte das vezes rebocados por chalupas a motor, ou então accionados por uma roda
à popa com motor humano. A esta enumeração muito incompleta há que acrescentar barcos especialmente
construídos, arranjados e decorados com um certo luxo para os passeios e diversões, os barcos-flor e de cantoras,
os barcos-teatro, etc, etc, que são próprios da cidade de Cantão. Esta flotilha, tão variada, quanto a formas,
dimensões e utilização, que era muito importante ainda há poucos anos, decresce rapidamente como já o fizemos
notar mais acima, depois do aparecimento dos barcos a motor. Assim temos que lamentar que as circunstâncias
não nos tenham permitido recolher no local uma documentação mais completa sobre os seus tipos, tão diferentes
dos que se encontram nas outras regiões da China.
1) Um recenseamento feito em Cantão, cerca de 1912, elevava a 350.000 0 mimero da populacão flutuante e a 84.000 6 dos barcos.
Mas. pouco depois, um terrível maremoto destruiu milhares de barcos e muitos foram sorvidos no mar, de forma que a população
flutuante não deve ultrapassar hoje 200.000 habitantes. (The National Geographic Magazine, June 1927),
398
Pudemos pelo menos parcialmente preencher esta lacuna referindo-nos a um artigo de uma publicação
inglesa de Xangai, Notes and Queries. Vol.l, Nº 6, página 74. assinado pelo Senhor W. F. Mayers. de que se dá
a seguir um resumo; responde no que diz respeito aos juncos de Cantão, à pergunta feita por uma pessoa
desejosa de ser informada sobre os diversos tipos de navios chineses, suas dimensões, deslocamento, processos
de navegação, etc. O Sr. Mayers começa por nos fazer observar que a descrição completa de cada tipo de juncos
e navios da China pediria um tão grande número de volumes das Notes and Queries. que não é surpreendente
que este pedido tivesse ficado até agora sem resposta.
“ Não se pode perder de vista, diz ele. que cada rio da China possui os seus tipos próprios de barcos, e
que juncos frequentando portos de mar diferem nas suas características dos dos outros portos. No que diz
respeito ao aparelho, só uma aproximação permite constatar a existência de uniformidade. A título de breve
contribuição, acrescenta o Sr. Mayers, a presente lista é dada sobre os navios chineses vistos no rio de Cantão.”
CONSTRUÇÃO
Em Cantão e nas vizinhanças onde se constroem navios. a madeira de pinho da China é a matéria mais
empregada, enquanto que a madeira dura, como a da teca é raramente utilizada a não ser na construção dos
vaus, das curvas e dos arcobotantes. Os pregos são invariavelmente de ferro, c metidos na madeira a uma
profundidade suficiente para receber o calafeto de Chuan (nc 41) espécie de cimento feito de conchas pulverizadas
e de óleo de Tong You (ne |4) que se insere entre a cabeça do prego e a superfície da madeira. As costuras das
pranchas são igualmente calafetadas com Chuan. Os mastros são de pinho, consolidados quando é necessário.
por estais de fibra de coco. As vergas são de ordinário formadas por um simples bambu sólido ao qual se fixam
em permanência as largas asas de borboleta da vela.
As velas são feitas com largas bandas de esteira reforçadas com bambus espaçados de seis a oito pés.
Pode ser- lhes reduzida instantaneamente à superfície, pelo simples abaixamento da verga, ou então ferradas do
convés, na medida que se pretende. A duração das velas é de cerca de seis meses de uso.
Uma notável característica da arquitectura dos juncos é o enorme leme projectando-se bastante para ré da
perpendicular da extremidade do convés e perfurado com numerosos furos a fim de se mover mais facilmente
contra a pressão da água. Quando não está em uso, pode ser facilmente içado como um hélice de um navio à
vapor (1). E igualmente notável o potente leme de gingar que constitui o meio de propulsão universalmente
utilizado pelos barcos de rio. Este leme de gingar assenta livremente num pivot de ferro colocado no painel da
popa. A propulsão dos grandes navios faz-se por dois enormes lemes de gingar, colocados a um e outro bordo.
Além do leme de gingar, os barcos de rio usam, conforme as circunstâncias, os remos, as varas de bambu e o
cabo de alagem. Este fica amarrado ao tope do mastro sendo feito de lamelas de bambu entrançadas. Grupos de
seis a oito vigorosos barqueiros fazem a alagem, durante dias consecutivos. de barcos pesadamente carregados.
ÂNCORAS
As âncoras são feitas grosseiramente de um agregado de madeira com a forma duma lança. As patas são
ligadas ao cepo por uma cinta de ferro. As espias são pesados cabos de bambu entrançado muito resistentes,
cuja duração é assegurada pela cobertura silicosa que as protege. A manobra das âncoras faz-se com um guincho
a braço, que é substituído cada vez mais pelo cabrestante em uso nos navios estrangeiros.
Existem nos Livros dos Estatutos Provinciais regulamentos pormenorizados sobre a construção dos navios,
as suas dimensões e aparelho: mas estas regras, será preciso dizê-lo, são ignoradas na prática. Os únicos navios
1) Cerca de 1870, nos navios mistos de madeira. à vela e a vapor. o encastramento do hélice em lugar de ser fechado em cima como é
hoje, penetrava, pelo contrário, na estrutura de ré, alargando-se de forma a formar um poço no qual se içava o hélice quando se andava
a vela. Este hélice não tinha sendo duas pás ou duas pás duplas no mesmo plano.
149
submetidos ao controlo do Governo são os barcos de passageiros que são licenciados pelas autoridades de
Cantão.
Depois desta curta exposição das principais características do junco chinês, o Sr. Mayers dá a lista seguinte,
que compreende quase todos os barcos que se vêem no rio de Cantão.
BARCOS DE MAR
IE Cao Chuan (nc 42). Junco de comércio.
2 Toumeng (nc 43). Um dos mais pequenos juncos de comércio, reconhecível pela particularidade de a sua
proa quadrada e aberta ser reforçada por um corrimão transversal.
3. —Kou Chuan (nc 44) ou Da Yu Chuan (nc 45). Junco de pesca de um só mastro.
4. Yan Chuan (nc 46). Barco de sal, junco usado no transporte do sal da costa para Cantão.
5. —Hua Chuan (nc 47) ou Lorcha. Esta palavra aplica-se sobretudo aos navios chineses aparelhados parcial
ou totalmente ao estilo europeu. e manobrados ou comandados por europeus.
O nome chinês Hua Chuan significa um navio de transporte de carga, enquanto que a palavra Lorcha
parece ter sido importada da América do Sul pelos portugueses.
6. XiaJu Ting (nc 48). Navio rápido ou navio camarão. Estes barcos com os mastros inclinados c grandes
velas de pendão, são muito empregados nas proximidades de Hong Kong pelos pilotos, comerciantes, etc. São
além disso largamente utilizados pelos piratas para o tráfego dos cules na costa perto de Macau.
7. Zhan Chuan (nc 49). Junco de guerra. Este termo era antigamente aplicado aos grandes navios armados
com quinze a trinta canhões. Foram substituídos pelos navios da classe seguinte,quando as esquadras foram
constituídas nestes últimos anos.
BARCOS DE RIO
8. Tuo Chuan (nc 50). Estes barcos, outrora usados para a pesca no alto mar, são agora principalmente
destinados ao transporte de passageiros; são conhecidos em Hong Kong com o nome de barcos de passagem. O
governo chinês utiliza-os muitas vezes como cruzadores armados. Quarenta destes barcos asseguram o serviço
de passageiros entre Cantão e Hong Kong, fazendo a viagem em 30 a 70 horas. As dimensões ordinárias são:
comprimento 100 pés, boca 24 pés com plataforma exterior de 5 pés de largura, profundidade do porão 9 a 10
pés, calado leve 5 pés, carregado 10 pés. Têm dois mastros e uma tripulação de 28 homens.
A Guo Ting (nc 51). Barco de frutos, usado como barco de passagem entre Cantão, Macau e Hiang Chan.
O nome vem-lhes da grande quantidade de frutos que levam para o mercado de Cantão.
10. Du Chuan (ne 52). Barco de passagem local. Este barco, com um rufo abobadado ou quadrado, parece
ter a forma duma caixa. Vê-se a toda a hora do dia circulando no rio de Cantão para ir em seguida às numerosas
localidades das vizinhanças onde fazem ligação com outros barcos do mesmo tipo que asseguram o serviço
através de toda a província. O interior do rufo compreende um grande compartimento com camarotes individuais
para as famílias e as mulheres. As dimensões destes barcos são as seguintes: comprimento setenta pés, boca
catorze pés com passadiço de quatro pés, profundidade do porão sete a dez pés, calado quatro a seis pés: um
mastro único. À tripulação é de quinze à vinte homens, dos quais um artilheiro que vigia de cinco a dez
canhões para protecção contra Os piratas.
13. He Tou Chuan (nc 53). Barco para passageiros e mercadorias muitas vezes chamado barco-chá pelos
europeus. Estes barcos têm cerca de oitenta pés de comprimento; treze pés de boca. O porão é dividido em doze
compartimentos de três pés e meio de profundidade para o armazenamento da carga, enquanto que a parte
compreendida entre o convés e o rufo pode ser dividida por anteparas móveis, em quatro ou cinco camarotes
espaçosos. O rufo é de pranchas arqueadas, calafetado e coberto de panos alcatroados, por cima do qual há uma
plataforma horizontal de pranchas móveis onde assentam as velas, mastros, cabos, varas, etc. Estes barcos
400
distinguem-se por três ou quatro portas encarnadas, a cada bordo. A tripulação compõe-se de oito a doze homens.
12. Laolong Chuan (nc 54). Semelhante ao anterior mas de maiores dimensões e de capacidade de transporte
mais reduzida.
13. Zidong Chuan (nc 55). Barco de passageiros de menor tonelagem que os dois anteriores, e muito mais
cuidadosamente construído com janelas com vidros e lanternas decoradas. Muitos são utilizados pelas personagens
oficiais nas suas viagens.
14. Kuai Ting (nc 56). Barco rápido chamado às vezes Hong Chuan (ne 57). Comprimento de vinte cinco à
cinquenta pés. parece-se muito como construção a uma gôndola. O rufo quadrado que ocupa o centro do barco
é normalmente dividido em dois camarotes, enquanto na plataforma aberta a vante, podem tomar lugar seis
remadores. A popa eleva-se bastante em relação à linha de água e tem uma câmara para a tripulação e um posto
para o homem que manobra o remo de gingar. Estes barcos são usados para viagens rápidas e também pelos
agentes da polícia e das alfândegas. Têm um só mastro a vante do rufo.
15. Si Cang Chuan (nc 58). Barco de comércio do rio do Norte.
16. Sha Pian (nc 59). Parece-se, em mais pequeno, ao He Tou Chuan. Os números 11, 12, 13 e muitos outros
barcos adoptam o nome das localidades de que são oriundos e pertencem actualmente à naturais doutras regiões.
que os tripulam.
I7. Xi Gua Pian (nc 60). Barco de carga de Cantão e de Huangpu chamado talhada de melancia por causa da
forma semi-cilíndrica do seu rufo. É usado como barcaça para transporte de mercadorias estrangeiras.
[8. Cha Ting (nc 61). Batelão para o transporte do chá. Grande barco parecido com o Nº 27 mas podendo
levar quatro a cinco toneladas de carga.
19. Huo Chan Tou (nc 62)- chamado : “cabeça em forma de pá”, por causa da forma aguçada da proa. É um
barco de carga preparado para subir os rápidos, pouco violentos, dos rios do Norte e do Leste. Independentemente
do remo de gingar de ré, estes barcos têm muitas vezes um enorme remo que se projecta para vante do painel da
proa, a fim de manter o rumo.
20. Man Chuan (nc 63). Barco de comércio traficando nos distritos do Sudoeste.
21. Ban Mi Ting (nc 64). Barco para o transporte de arroz; trata de uma lancha estreita, sobre a qual o arroz
é empilhado em pirâmides invertidas entre os bordos de cada um dos lados.
22. Mayang Chuan (nc 65). Barco para transporte do sal, fazendo viagem para o interior pelo rio do oeste.
Parece. em maior, o Laolong (nc 66) (Nº 12) e é quase exclusivamente usado no transporte do sal. Comprimento
120 pés, boca vinte pés; profundidade do porão oito a nove pés, dividido em uma trintena de compartimentos;
altura do rufo acima do convés sete a oito pés. O rufo, cuja cobertura em forma de abóbada é fixa, enquanto que
o convés é formado por pranchas móveis e pode ser desmontado para o embarque da carga. Uma particularidade
destes barcos que chama a atenção, assim como também os He Tou Chuan (nc 53) e os Laolong (ne 66), é o
mastro triangular que pode ser içado ou arriado, conforme se deseje. É formado por duas cábreas colocadas
dum lado e do outro do convés e inclinadas para dentro. O vértice do triângulo assim formado sustenta o
cadernal da adriça do mastro. Uma plataforma, formando defensa, estende-se pelos dois bordos, a todo o
comprimento do convés e constitui um passadiço para os homens que manobram as varas de alagem. Calado de
cinco a sete pés, quando carregado. Contrariamente ao que acontece com os He Tou e os Laolong, estes barcos
têm normalmente a bordo as famílias dos capitães.
BARCOS DO GOVERNO
23. Xun Chuan (nc 67). Cruzadores de várias tonelagens. Comprimento de sessenta a cem pés. Armados com
sets a vinte canhões. São usados para cobrar os impostos, fazer polícia, transportar dinheiro, etc. São
ordinariamente comandados por um mandarim pouco graduado.
401
24. BaChuan (nc 68) ou Ba Long (nc 69). Barco de combate; é uma canhoneira ligeira, mais pequena que o
barco anterior.
25. Wen Shu Chuan (nc 70). Barco correio.
PEQUENOS BARCOS DE RIO
26. Heng Shui Du (nc 71). Ferry-boat; pequeno barco parcialmente coberto por um rufo arqueado, feito de
esteiras. A propulsão é feita por um único leme de gingar. Os passageiros atravessam o rio em Cantão nos
pontos autorizados pelo governo.
27. ShaTing (nc 72) ou Si Ting (nc 73). Pequeno barco chamado vulgarmente sampana de Cantão. Vêem-se
aos milhares no rio, passando e voltando a passar, como os táxis nas ruas de Londres. Comprimento vinte e
quatro pés, boca seis pés. No centro há um rufo quadrado coberto de esteiras de bambu arqueadas. Três lados do
interior são ocupados por caixas que podem servir de assento para cinco ou seis pessoas. Painéis de correr ou
persianas venezianas substituem as janelas. A ré, num espaço de cinco pés por quatro, reúnem-se as mulheres
da família que manobram o barco enquanto que os maridos e os rapazes estão empregados noutros barcos,
A proprietária, duma certa idade, manobra o leme de gingar, dá de comer ao bébé, vigia o lume da
cozinha, tira o morrão à candeia que arde permanentemente diante do pequeno altar doméstico, enquanto que
uma ou duas raparigas manobram os remos sentadas na plataforma de vante. O interior do rufo de madeira é
usualmente decorado com uma profusão de ornamentações realçadas por pinturas berrantes.
28. Ma Ling Ting (nc 74). Chamado barco-pantufa; género de sampana mais pequeno às vezes que o ante-
rior. Distingue-se pela proa cónica, pelo tabuado do casco e pelas esteiras do rufo dispostas em ponta; é conduzido
por dois a cinco remadores que ficam de pé olhando para a proa. Os passageiros vão deitados numa tenda baixa
do rufo. Esta sampana é muito empregada para percursos rápidos.
29. Sampana (nc 75), três pranchas; barco chato, leve, propulsão por pangaia ou remo; podem levar duas à
vinte pessoas. As mais pequenas são impelidas por dois remos de pangaiar. Os europeus chamam-nas “barber
boat”, “ barco de barbeiro”.
BARCOS DIVERSOS
Long Chuan (nc 76), barco dragão. Comprimento setenta a cem pés, boca três pés. Propulsão com remos
de pangaiar por cinquenta a oitenta homens, por ocasião da festa do dragão (1). No resto do ano estes barcos são
enterrados no lodo para não apodrecerem.
31. Chang Long (nc 77), vulgarmente chamado pelos europeus barco serpente, devido à sua forma alongada.
É muito empregado pelos piratas do rio.
Za Huo Ting (nc 78). barco de vendedores ambulantes.
30.
Nan Wu Ting(ne 79), barco dos bonzos, assim chamado pela invocação que os bonzos fazem à sua
divindade : “nan wo o mi te fou”. São grandes sampanas construídas como se fossem confortáveis habitações.
A parte de vante é consagrada ao culto onde os ritos budistas e tauistas são executados em presença da população
crente dos barcos.
34. ZhuJia Ting (nc 80). Barco servindo de habitação. São em geral grandes embarcações do tipo sampana
de Cantão, onde famílias, nem sempre das mais respeitáveis, habitam em permanência.
35. Hua Chuan (nc 38). Barco - flor. (2). Enormes barcos brilhantemente ornamentados, com salões luxuosos,
madeiras esculpidas, vidros coloridos, construídos para serem usados em festas requintadas, jantares, ceias e
distrações de toda a ordem. No Verão, quando estão brilhantemente iluminados e cheios de festões e de grinaldas
e cestos de flores, estes barcos são uma grande atracção para os visitantes estrangeiros. Não são, a bem dizer,
1) Ver no Tomo HI, Superstições, Ritos e Cerimónias, a descrição do barco dragão.
2) Ver página 399, descrição dum barco de flores
402
Estampa 10 Sampana Danka ( ou Dan Ke )
Estampa 17. Cantão - Navio de roda ( Lun Chuan )
03
lugares públicos, sendo alugados regularmente para jantares privados ou festas “
A descrição destes barcos do porto de Cantão é acompanhada por oito desenhos dos principais tipos de
juncos que foram executados, acrescenta o Sr. Mayers, pelo pincel dum artista chinês, que inspira toda a confiança
na precisão do seu trabalho. Estes desenhos à linha têm os caracteres comuns às estampas chinesas, do género
convencional e simbólico, em que a preocupação da exactidão, incide menos sobre o conjunto do assunto. que
sobre pormenores secundários a maior parte das vezes sem interesse, no ponto de vista da documentação que é
o objecto das nossas pesquisas. É por isso que não julgámos útil fazê-los reproduzir, reservando o seu lugar para
desenhos ordinários, mais apropriados ao fim que prosseguimos.
SAMPANA DAN KE (nc 81)
É o mais pequeno modelo, e ao mesmo tempo o que mais se encontra no litoral de Cantão e de Hong
Kong e nas vizinhanças. Com seis a oito metros de comprido, o casco é arredondado, de madeira clara ou
escurecida. O abrigo abaulado que fica por cima do convés, dá-lhe o aspecto duma casca de ovo, donde lhe vem
o nome de Dan Ke ou Danka ( estampa 10 ). É tripulado por famílias inteiras que erram ao longo das margens
à procura da sua subsistência.
Esta população de barqueiros forma uma casta especial mantida à distância e desprezada pelos chineses.
À sampana é geralmente conduzida por mulheres, enquanto os maridos estão empregados nos juncos de comércio.
Uma delas, a mais velha, manobra à popa o leme de gingar que serve para o governo (Estampa [1), uma outra,
sentada no convés, acciona o remo de vante, e a terceira segura o croque encastrado numa comprida vara de
bambu, que desempenha um papel importante no rio, para prevenir os choques ou para apanhar os destroços
flutuantes.
A parte de vante tem um convés pouco elevado acima da água, a borda levanta-se para ré c acaba num
painel em forma de U. Uma forte cinta, saída ao longo da borda é guarnecida em todo o seu contorno por uma
grinalda feita de um cabo grosso, que serve de salvaguarda às pessoas que caem à água. O interior é dividido em
duas partes: a de vante reservada aos passageiros que se abrigam numa cabine geralmente muito limpa e
ornamentada com imagens e flores; a de ré, ocupada pela família que compreende a maior parte das vezes
muitas crianças. Esta sampana não tem mastro nem leme. As suas bordas de tempo estão cheias de objectos de
toda a espécie, de cestos, gaiolas com galinhas, redes, ganchos, e uma data de trapada em farrapos flutuando à
popa. Esta sampana, como tantas outras de maiores dimensões, dedica-se à pilhagem em volta dos navios
fundeados, sobretudo durante o embarque do carvão. O produto da sua dragagem seria insignificante sem a
cumplicidade dos cules do carvão que, de vez em quando, deixam cair pela borda, para as tancareiras, alguns
cestos de carvão, que elas se apressarão a dragar, logo que o navio parta. Esta população dos Dan Ke está
confinada por lei dentro das suas casas flutuantes. Não está submetida a nenhum imposto. Em compensação
não podem ter a pretensão de exercer alguma função em terra. O culto dos antepassados é religiosamente
observado por esta curiosa casta, cujas origens continuam obscuras.
Um canto do quarto familiar é reservado para a divindade tutelar e para as tabuinhas dos antepassados,
junto das quais se queimam em permanência os pauzinhos de incenso. São estes barcos que pagam o maior
tributo aos tufões que caem bruscamente, com um força aterradora, durante os meses de Julho, A gosto e Setembro.
SAMPANA PARA PASSAGEIROS
De estrutura fina e elegante lembrando a de um “yawl”, com uma roda de proa bem lançada e uma popa
arredondada em forma de “cu de galinha” esta sampana é sobretudo utilizada para as comunicações entre os
navios e a terra (Estampa 12). Tem um comprimento de oito à dez metros. O casco é cuidadosamente envernizado,
tem um convés até a ré do mastro, onde há um abrigo arqueado para os passageiros. A câmara fica no porão com
dois bancos, mas por vezes o chão é ao mesmo nível do convés. Nesse caso os passageiros ficam acocorados
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Estampa 1 Tripulantes de sampanas de Cantão
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Estampa 12 Sampana de passagem - Hong Kong
debaixo da cobertura de esteira.
O convés é furado na parte de vante por uma escotilha que dá acesso a um reduto servindo de cozinha. Há
só um mastro no centro da sampana, e como na maior parte das embarcações locais, o aparelho e os acessórios
de manobra são do modelo ocidental, enquanto que as velas em tecido de algodão conservam o corte chinês,
com vergas intermédias. O convés é defendido contra a surriada por uma pequena borda de tempo que sobe
para formar os lados da câmara. A propulsão faz-se com dois remos a vante e com um leme de gingar à popa que
serve também para 0 governo. A tripulação é de três homens. mas a maior parte das vezes é a família que vive
a bordo que faz de tripulação.
dos
Os homens das sampanas não têm boa reputação em toda a parte. São famosos. com justa razão, pela
habilidade com que manobram e também pela destreza com que roubam os estrangeiros, o que os conduz até ao
crime quando o passageiro isolado protesta e ameaça fazer queixa. Por isso, a polícia dos cais de Hong Kong,
em especial, exerce um controlo severo sobre as idas e vindas das sampanas que transportam passageiros para
bordo dos navios que estão no porto.
PLANO DUMA SAMPANA PARA PASSAGEIROS (Estampa 13)
Hong Kong - Plano duma sumpana de passagem.
Cabeço de amarração.
Cunhos horizontais para viragem.
Toletes de remo.
Apoio do leme de gingar.
Painel do porão de vante.
Cozinha com caixa de água.
Mastro.
Painel do porão que serve de câmara de dormir.
Câmara dos passageiros com três ou quatro bancos, sendo um móvel a vante.
Resguardos de madeira protegendo a câmara da surriada. A câmara é coberta
com um tecto fixo de pranchas sobre o qual assentam duas palhotas móveis permitindo montar
um abrigo a vante e a ré da câmara.
Convés de manobra do remo de gingar.
Madre do leme. Atravessa o compartimento de ré que é fechado por uma antepara estanque.
Fig. 3
406
Fig 2 Astormas de ré são de inspiração ocidental. O leme gira no convés por intermédio de um colar fixado na madre ou simplesmente
por uma simples cavilha que a atravessa à altura do convés. É geralmente manobrado com o pé pela pessoa que comanda o leme de
gingar. A porta tem um orifício destinado eventualmente à passagem de um vergueiro de protecção.
Fig 3 Croque encastrado em bambu com o ferro em forma de bico de pássaro
Fig 4 Esta figura mostra os pormenores de um dispositivo comum às sampanas e à maioria das embarcações chinesas para assegurar
))
de
SS
1 Zi
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Fig. 4
o escoamento das águas do convés e evitar as infiltrações nos fundos do navio. Para este efeito os painéis do porão ( P ) assentam num
enquadramento rectangular no qual se abre uma caleira (r) que recolhe as águas que caem sobre o painel e as despeja num ponto (s) no
convés. Há o mesmo dispositivo nos navios ocidentais,
Nesta mesma figura nota-se a inclinação dada à última prancha lateral do convés, com vista a canalizar as águas e conduzi-las
aos embornais (d), donde correm para o mar.
GRANDE JUNCO DE CARGA
Este junco, ( Estampa [4), é especialmente destinado ao transporte de mercadorias e do carvão ao longo
do bordo dos navios a vapor de passagem em Hong Kong. De construção sólida mas pouco aptos para a navegação
em alto mar, estes barcos atingem vinte e cinco a trinta metros de comprimento; seis a oito metros de boca, com
uma capacidade de cem a cento e cinquenta toneladas. O porão de mercadorias ocupa metade do comprimento
do barco com uma profundidade de três a quatro metros. Pode ser coberto por um feixe de esteiras móveis ou
por um toldo de tecido verde em quadros móveis. O convés é plano, pouco elevado sobre a linha de água na
parte de vante e do centro, e eleva-se de seguida acentuadamente até às galerias de ré, onde se encontram os
alojamentos. Um mastro único colocado a vante do porão, com a altura duma vintena de metros, de grande
diâmetro, ligeiramente inclinado para a proa, enverga uma grande vela de tipo local.
Uma segunda vela de fraca envergadura é às vezes içada num mastro de contra mezena na galeria de ré.
Nas manobras no porto e com calma, estes juncos recorrem a um ou dois grandes lemes de gingar dispostos a
um bordo, em aberturas feitas no painel da popa. Este painel é plano, de perfil rectangular com um leme
perfurado, cuja madre sai por fora do tabuado. O conjunto destes dispositivos do convés está representado em
perspectiva na Estampa 14.
407
Estampa 14. Hong Kong - Grande junco de carga
A. Mastro grande mantido entre duas falcas que servem de apoio
aos guinchos B. B, que servem para a manobra da vela.
C. Guincho móvel para a manobra das âncoras. Coloca-se,
conforme necessário, a um bordo ou outro.
D. Cabeços para amarração. Cinco no convés a vante, dois no
convés a ré.
N. Leme de gingar de ré. Os homens que o manobram colocam-
-se em duas filas, uma no convés, a outra numa prancha no
exterior do costado, aguentada por dois cabos.
P. Apoio da vela grande
Q. Apoio da vela da contra mezena.
R. Bomba do porão
E. Painel de correr do porão de vante.
G. Cunho para espertar os ovéns. Fica entre a borda e a cinta.
H. Condutas para passagem da amarra da âncora. A extremidade
S. Portas de correr dando acesso aos alojamentos; no andar su-
perior alojamento do patrão a estibordo, cozinha à bombordo;
no andar inferior alojamento da tripulação. O acesso a estes
de fora tem uma roldana sobre a qual a âncora que não está em andares é feito por escadas colocadas aos bordos.
uso fica suspensa. T. Passagem para o leme de gingar.
F. Porão das mercadorias. V. Painel do porão de ré
L. Abertura para a passagem da madre.
M. Plataforma móvel onde fica o homem do leme.
A plataforma superior por cima da cozinha e do alojamento do patrão tem um comprimento de dois a três
metros; a segunda, três a quatro metros; o convés que cobre o porão de ré tem cinco metros de comprido. A
Estampa 15 mostra a instalação do convés de ré de um junco de carga de quinze a vinte metros de comprimento.
Os dispositivos são análogos aos do grande junco anterior mas o convés só tem um rufo com cerca de um metro
e meio de altura, que serve de alojamento ao patrão a estibordo e de cozinha a bombordo. À tripulação ocupa o
compartimento por baixo, cujo acesso se faz por um painel aberto no convés.
BARCAÇA
Há no fundeadouro de Hong Kong enormes barcaças ( Estampa 16 ), de construção rústica e de modelo
idêntico aos dos juncos de carga salvo na parte de vante que é quadrada e não tem plataforma. Comprimento
vinte e cinco metros, boca seis metros a vante e oito a ré. Tem dois mastros de carga de oito a dez metros de
408
o,
UMA agia
Estampa 15 Hong Kong - Pequeno junco de carga, convés a ré
A. Alojamento do patrão H. Apoio da vela
B: Painel de acesso ao alojamento da tripulação ES Porão das mercadorias
Ge Cozinha M. Abertura praticada no painel de ré para a passagem do
D. Abertura para à cabeça da madre do leme leme de gingar
E Guincho do leme N. Latrina
E Cabeço para amarração ig Farol
(p Cana do Leme R. Caixas de água
altura que se apoiam cada um num quadro de madeira de seis à oito metros de altura destinado a reforçar os
mastros na manobra de grandes pesos. O mastro de vante é o único que tem vela. O painel de popa é quadrado,
com abertura para a manobra do leme de gingar. O leme perfurado do tipo comum pode ser içado ou arriado por
meio de um guincho. A propulsão é dada por dois lemes de gingar colocados à vante, um à cada bordo e
manobrados cada por dois homens que ficam de pé numa prancha móvel saída para fora.
NAVIO DE RODA ( LUN CHUAN ) ( nc 82)
O navio de roda utilizado pelos chineses é certamente uma das mais curiosas aplicações da força humana
à locomoção de um navio (Estampa 17).
Pode-se ver ainda hoje no rio de Cantão, nomeadamente entre Longzhou (nc 83) e Nanning (nc 84),
alguns espécimes destes singulares navios, evoluindo com perfeita facilidade no meio dos juncos e dos barcos
a vapor, aos quais foram buscar o carácter arcaico e os processos modernos.
Será de ver nestas curiosas construções uma origem estrangeira inspirada nos antigos barcos de rodas
que frequentaram as costas da China por volta de 18407
Este pensamento vem naturalmente ao nosso espírito e é com convicção que viajantes europeus julgaram
ver nestes barcos chineses o primórdio da evolução da marinha de vela depois do seu contacto com à marinha
de vapor dos Ocidentais.
409
< as
Estampa 16 Hong Kong - Barcaça
Na realidade o navio de rodas é uma invenção muito antiga: o lugar onde teve origem é tão impreciso
como a época da sua primeira aplicação, de forma que não é possível dar a prioridade a uma ou outra das nações
do Oriente ou do Ocidente.
Não há dúvida que muito antes da aplicação do vapor à navegação, houve a ideia de fazer mover os
navios por meio de rodas postas em acção pelo efeito da força muscular dos homens e mesmo dos animais.
As rodas de pás contam-se no número das máquinas muito antigas que Vitrúvio, que viveu alguns anos
antes de Jesus Cristo, diz não saber quem fora o inventor.
Os anais chineses fazem menção de navios a rodas que foram usados como engenhos de guerra nos
primeiros séculos da nossa era.
Durante o reinado de Gaozong (nc 85) (1127 a 1163 depois de Cristo ), da dinastia dos Song meridionais
houve uma rebelião perto do lago Taihu(nc 86), chefiada por um tal Yangyao (nc 87).
O Imperador enviou contra ele tropas comandadas por Yue Fei (nc 88)
vitória final, dá uma explicação a que não falta originalidade: “ os navios de Yue Fei fendendo a água com as
suas rodas avançaram como se voassem, levavam aos bordos varas para bater e aniquilar os navios sobre que
corriam. Yue Fei espalhou na água palha e madeira podre a fim de obstruir as rodas e impedir que se movessem.
Obteve uma vitória total e Yangyao achando que a sua manobra era inoperante deitou-se à água desesperado e
afogou-se (1)”. Na colecção dos Livros Antigos e Modernos aprovados pelo Imperador no fim do século XVI,
encontra-se a descrição seguinte, acompanhada da gravura de um junco com rodas que existia nessa época:
“Este navio tem o comprimento de quarenta e dois pés e uma boca de treze pés. Uma prancha de um pé
de largura está fixada horizontalmente acima e fora do casco. Por baixo desta prancha e mesmo junto ao casco
há duas rodas de cada bordo.
co historiador, ao descrever a
Estas rodas mergulham na água à profundidade de um pé, e são movidas pela força humana. À velocidade
do navio é muito grande. O porão de vante tem oito pés de comprimento, o do centro vinte e sete pés. o de ré
sete pés. Este porão tem por cima uma cabine donde se manobra o leme. Por cima do porão central há um abrigo
DZ. Volpicelli. Ancient use of wheels for the propulsion of vessels by the Chinese” Journal of the China Branch of the Roval Asiatic
Society. T XXVI. 1891-92."
AO
feito com pranchas protectoras com janelas móveis ornamentadas com cabeças de tigre. Estas janelas, em
número de seis, têm o comprimento de cinco pés e a altura de dois.
Em presença do inimigo, os soldados atiram primeiro do interior, flechas, projécteis de fogo, sem serem
vistos. Se as forças inimigas são inferiores às nossas, os nossos homens abatem então as pranchas móveis e
ficam fora do navio.
O barco é coberto com peles de boi, de maneira que se podem lançar do interior, com toda a segurança,
bolas de fogo, lanças e flechas até que o inimigo tenha sido vencido ou queimado *,
O Padre Amiot nas “Memórias sobre a China” faz a seguir à descrição do navio de rodas, tirada sem
dúvida da mesma fonte a reflexão seguinte : “ Este aparelho poderia provocar qualquer invenção útil para fazer
andar os nossos navios em tempo calmo, se os fizesse andar uma légua, isso seria suficiente talvez, para os tirar
de um mau passo ”,
O aparelho propulsor do navio chinês, que remonta com certeza à Alta Antiguidade, não sofreu nenhuma
modificação com o correr dos séculos, e, tal como o vemos hoje. tal era ele, sem dúvida, quando começou.
Estes navios, movidos como os seus antecessores pela força humana, distinguem-se dos primeiros navios
europeus, por só terem uma roda a ré, em lugar de duas colocadas nos bordos. Este dispositivo tem a vantagem
de permitir a estes navios circular com mais facilidade entre as centenas de juncos e de sampanas que atravancam
os rios chineses. Pelo contrário, a sua realização necessita de um mecanismo mais complicado, visto que o
movimento da roda não pode fazer-se senão por meio de bielas e manivelas, enquanto que para as rodas de lado
o movimento se transmite directamente ao eixo dessas mesmas rodas. Nos seus princípios o navio de rodas foi
utilizado como rebocador, amarrado de braço dado com o navio que levava os passageiros e as mercadorias.
Depois veio o barco de rodas levando ele mesmo os passageiros, como existe nos nossos dias.
Os navios com roda à popa são compridos e baixos, e duma capacidade que não vai além das cem
toneladas. O interior é dividido em dois compartimentos, sendo o de vante o maior, destinado aos passageiros
que devem estar sentados ou deitados, porque a câmara tem pouca altura. O compartimento de ré, mais alto.
contém a maquinaria accionada por uma vintena de homens. O rufo dos passageiros é coberto de um tejadilho
plano, onde fica grande número de passageiros igualmente sentados ou deitados, abrigados pelas esteiras de
bambu.
O homem do leme ocupa um posto no extremo de ré por cima da maquinaria que comanda.
Se penetrarmos neste pequeno reduto, veremos uma maquinaria rudimentar composta de eixos, bielas e
manivelas, todos eles feitos de ferro e madeira pouco aparelhados. Em três ou quatro eixos de madeira paralelos,
de diâmetro bastante grande, colocados horizontalmente de um bordo ao outro do navio, estão dispostos
perpendicularmente quatro ou cinco grupos de três pedais sobre os quais actuam os homens para accionar a
roda de pás.
O movimento de rotação dos pedais é transmitido a esta roda por intermédio de bielas e manivelas de
terro, colocadas a cada bordo, no exterior do casco. Como é de pensar, esta mecânica tão primitiva está longe de
funcionar com a precisão e a flexibilidade duma máquina a vapor. Anda, contudo, menos mal, umas vezes a
direito, outras vezes de esguelha, mas deste movimento, ainda que imperfeito, resulta um efeito de propulsão
que, pouco a pouco, toma um andamento regular e pode atingir três a cinco quilómetros por hora.
A equipa motora compõe-se duma vintena de chineses, de cara macilenta, escorrendo suor, tricotando
com as suas pernas esqueléticas uma sarabanda desenfreada, tendo por fundo a barulheira das peças da máquina
mal regulada. E uma visão dos forçados de outrora, condenados a fazer andar à roda sem parar a gaiola do
esquilo. Mas na China, espectáculos deste género são frequentes e não despertam nada a compaixão do público
indígena. É verdade que estas equipas são a maior parte das vezes compostas de voluntários que oferecem
gratuitamente os seus serviços em troca da viagem.
Os chineses para exprimirem na sua língua a palavra “barco de rodas” escrevem Lun Chuan, o que
+tl
Estampa 18 Cantão - Barco de flores ( Hua Chuan )
Estampa 19 Cantão - Pequeno barco de flores (
Faviro chinesa )
dIZ
significa “roda-barco”, o mesmo barco com propulsão a vapor, escrever-se-á Huo Lun Chuan, fogo, roda.
barco, ou ainda Ming Lun Chuan, vapor, roda, barco.
No entanto, a palavra Lun Chuan não se aplica sempre ao barco de rodas, pode designar, segundo certos
autores um barco qualquer que faz um serviço periódico, levando-o depois de um certo tempo, ao ponto de
partida. Neste caso a palavra ” roda” não deve ser interpretada como um aparelho de propulsão, mas como a
expressão de um serviço circular,
Vê-se por isto, como a língua chinesa se pode prestar a interpretações inesperadas e mesmo à uma certa
confusão em traduções de aparência muito simples.
BARCOS DE FLORES
Cantão é bem conhecido dos estrangeiros pelos seus “barcos de flores”, em Chinês * Hua Chuan” (ne 38)
( Estampa |8 ), construídos especialmente para festas finas, jantares, ceias e distrações de toda a ordem. São
barcos enormes amarrados de braço dado. em várias filas ligadas por passagens e formando na água uma
pequena cidade com ruas muito animadas, mal chega a noite.
O barco de flores não é um lugar público, mas antes um salão elegante flutuante que os chineses ricos
alugam para receber os amigos e para festas de prazer, seja fundeados, seja subindo ou descendo o rio durante
os calores de Verão. O casco é quadrado e maciço e não se presta para navegar; não têm, nem mastros nem
velas, e o único meio de locomoção consiste no uso de alguns remos instalados na plataforma de vante, e de
varas de oito a dez metros que os homens enterram no fundo lodoso e que empurram com toda a força que têm.
A manobra é árdua, o andamento muito lento, os homens parecem andar no estreito passadiço colocado nos
dois bordos ao longo dos alojamentos, mas é o solo que se desloca sob os seus passos e não o seu corpo, que não
avança.
A forma geral é de um batelão, com vinte e cinco metros de comprido, com uma boca de cerca de cinco
metros, a proa plana e pouco elevada sobre a água. A popa apresenta, pelo contrário, uma curvatura muito
acentuada cujo cume atinge a plataforma que serve de cobertura aos apartamentos construídos sobre o convés.
Estes apartamentos constam de um ou dois salões magnificamente decorados de painéis esculpidos e
dourados, de inscrições e de desenhos variados; o mobiliário é particularmente elegante com sofás em madeira
de Cantão, mesas e canapés guarnecidos de placas de mármore onde está todo o arsenal de que precisa o
fumador de tabaco ou de ópio. No tecto, lanternas multicores de formas variadas, ligadas por grinaldas de
flores, completam a decoração, do mais puro estilo chinês. A parte de ré do barco é reservado para o serviço e
o pessoal.
Por cima destes alojamentos, salões de menor importância estão igualmente disponíveis para os clientes
que podem tomar chá e respirar o fresco da tarde num terraço guarnecido de flores e de lanternas multicores,
ouvindo ao mesmo tempo as melodias de elegantes cantoras de voz estridente.
Durante as noites de Verão estes barcos, brilhantemente iluminados e com grinaldas e cestos de flores,
são uma visão de um encanto incomparável, mas desde que chegam as primeiras claridades do dia, este belo
cenário muda de aspecto, e estes brilhantes pirilampos, não mostram mais que a pobre e triste vestimenta de um
junco abandonado.
Marco Polo na descrição que faz da “muito nobre e magnífica cidade de Qin Sai”, hoje Hangzhou (ne
89), faz alusão aos “ barcos de prazer” que existem em grande número no lago Taihu. Esta descrição lembra a
dos barcos de flores de Cantão, e também de Suzhou (ne 90) que possui um grande número no seu magnífico
lago.
“Estas barcas, diz Marco Polo, têm quinze a vinte passos de comprido. Qualquer pessoa que deseje
divertir-se na companhia da mulher ou dos amigos aluga um destes barcos que estão sempre em perfeito estado,
com mesas e cadeiras, e tudo o que é necessário para uma boa recepção. O rufo é encimado por uma plataforma
413
onde os marinheiros se colocam para empurrar a barca com compridas varas que apoiam no fundo do lago que
é pouco profundo. Os salões são pintados, no exterior, de diversas cores com ornamentações várias, e todas as
outras partes do barco são igualmente decoradas com pinturas. De cada bordo há janelas que se podem abrir à
vontade dos convidados que podem assim, continuando sentados à mesa, olhar para todas as direcções e gozar
as admiráveis paisagens que desfilam diante dos seus olhos.
Estes navios, diz por sua vez o Padre Martini (1), que se poderiam chamar com propriedade palácios
dourados, por que estão pintados de várias cores, e porque tudo ali brilha como o mais fino e puro ouro, pois é
ali que a magnificência e à pompa dos festins, dos espectáculos e dos olhos brilham todos os dias. Os chineses
de Hangzhou, que são igualmente escravos da volúpia, encontram aí tudo o que possam desejar *.
Vê-se que a voga dos barcos de flores e das suas brilhantes decorações não data de ontem. As descrições
de Marco Polo e do Padre Martini, concordam em todos os pontos com as de hoje, e sem dúvida que o mesmo
acontecerá para outros assuntos que se apresentam diante dos nossos olhos.
PEQUENO BARCO DE FLORES
Xiao Hua Chuan (nc 91). Para as suas deslocações nos múltiplos cursos de água que regam o vasto delta
do Xi Jiang (ne 35), os chineses de Cantão servem-se de um junco de pequenas dimensões especialmente
destinado a passeios e festas de prazer. Estes juncos conhecidos com o nome de Xiao Hua Chuan - pequeno
barco de flores - são decorados com um certo luxo que está longe de igualar o dos grandes barcos que estão
tundeados nas margens de Cantão. Os ocupantes dispõem do rufo central ( Ver Estampa 19 ) confortavelmente
instalado como sala de recepção guarnecido com grandes divãs. que estão preparados com todo o arsenal do
fumador de tabaco ou de ópio. Quando a noite chega, anteparas móveis são colocadas no interior do rufo para
transformar o local em quartos de dormir. A antepara de vante do rufo dá acesso a uma varanda aberta para três
lados onde se vem tomar o fresco. A antepara de ré comunica com a cozinha e o alojamento dos criados.
BARCO DE MANDARIM
Guan Chuan (nc 92). O barco representado pela Estampa 20, segundo uma estampa chinesa a cores do
século passado, é especialmente destinado ao serviço dos mandarins para as suas recepções e passeios recreativos
no rio de Cantão e nas suas vizinhanças. Há muitas analogias com o barco de flores que acabámos de descrever,
mas além disso é equipado com um mastro bipode de abater, permitindo-lhe navegar à vela e passar debaixo das
numerosas pontes do delta do Xi Jiang. Como este último, está preparado unicamente para a navegação em rio,
com um convés plano pouco elevado acima da linha de água, elevando-se na parte de ré para formar uma larga
galeria saída como as dos juncos de mar.
A equipa de alagem, munida de grandes varas, pode circular facilmente por fora do convés ao longo dos
sumptuosos apartamentos ocupados pelo mandarim. Na fachada de vante abre-se o salão de recepção encimado
pelo guarda sol com duplo folho vermelho, distintivo dos funcionários chineses. Na parte de ré do convés,
muitas bandeiras, flâmulas e lanternas completam a decoração exterior deste luxuoso barco cujo número e
elegância diminuem de dia para dia para dar lugar à inconfortável e vulgar chalupa a vapor.
Vários viajantes do século passado descreveram sob o nome de barco-mandarim uma canhonceira finamente
construída com vista à corrida e equipada por numerosos soldados, empregados principalmente na manobra dos
remos. Estes barcos são armados com dois ou três velhos canhões montados em reparos de madeira. O seu
papel consiste em policiar o rio, cobrar os impostos e dar caça aos piratas e aos contrabandistas que dispõem
também de barcos rápidos. O barco mandarim, escreve Murphy Dermont (2), é uma obra prima de arquitectura
1) Histoire de la Chine, pelo Padre Martini, 1658.
2) La Chine Ouverte, por Old Nick- Paris 1845
Ver sobre este mesmo assunto a descrição dada em The Fan Qui ou Foreigner in China, por CT. Downing. Londres [840 onde
fomos buscar alguns pormenores sobre o barco mandarim.
414
o DE E
neste país, e, talvez, pelo menos no que diz respeito à elegância, nunca fosse ultrapassado em qualquer outra
parte. De longe, visto na água, dir-se-ia um insecto brilhante. A parte de baixo do casco é pintada de branco,
enquanto a parte superior é de um azul pálido, ao qual se dão os tons delicados do azul ultramarino. Nesta parte
do barco abrem-se a cada bordo uma trintena de aberturas ovais cercadas de vermelho vivo, dando passagem ao
mesmo número de compridos remos pintados de branco, que nunca são metidos dentro. mesmo que não estejam
em serviço, mas simplesmente sobrepostos uns sobre os outros contra os flancos do navio. como se fossem as
barbatanas de um peixe cansado.
No convés, em madeira dura, polida e reluzente, os marinheiros indolentes acocoram-se, enquanto o
mandarim, deitado numa esteira à popa, aspira deliciado o fumo de um charuto. A sua posição indolente e os
ricos fatos de seda bordada e ondeados, não dão uma grande ideia do seu valor como guerreiro. Os soldados nus
até à cintura durante os grandes calores identificam-se pelos bonés de palha entrançada ornamentados com
flores pintadas e de forma parecida com um pequeno passador. Ocupam com o chefe um abrigo formado duma
cobertura ligeiramente inclinada dos dois lados e sustentada por dois prumos. É uma espécie de chapéu de sol
de madeira, que tem festões desenhados a ouro e vermelhão, O interior do tecto é ormnamentado com desenhos
fantasistas.
Quando o calor ou o frio excessivos tornam este abrigo insuficiente, sobrepõem-se-lhe grandes esteiras
de palha de arroz, dispostas de maneira a dar a aparência de um tecto de colmo duma casa de campo. As velas
são de esteira fina, cuidadosamente cosidas, instaladas em dois mastros, cujos topes são prolongados por varas
delgadas onde se penduram alternadamente bolas douradas ou pequenas bandeiras multicores. No extremo de
ré ergue-se um pequeno mastro que serve de pau de bandeira a uma grande bandeira branca, no centro da qual
há uma inscrição em caracteres de um vermelho berrante. As partes essenciais desta embarcação militar não
foram ainda mencionadas. Constituem o armamento principal do barco mandarim. Os canhões são fundidos.
bastante grosseiramente manufacturados, mas tão bem dissimulados e envolvidos por franjas e ornamentos de
toda a espécie, que é dificil descobrir de que metal são feitos. Pequenas bandeiras em seda de cores vivas estão
sempre perto da boca dos canhões. Um grande número de lanças de bambu estão dispostas ao longo dos
bordos, na proximidade de escudos ornamentados com pinturas, que estão suspensos ao longo dos lugares dos
remadores. É assim o barco mandarim. Vendo-o deslizar na água com os seus remos brancos, as suas bandeirolas
flutuantes, O tecto sarapintado reflectindo o sol, não se lhe atribuiria outro emprego possível que o de tomar
parte numa regata ou num pacífico passeio por mar. É no entanto o senhor, ou melhor, o polícia do rio.
Quando se vê o barco dos contrabandistas, cujo número de remos fez com que os europeus o conheçam
por “ centopeia)” ou se esconde, ou foge, a não ser que ouse arriscar-se a combater, Este barco não traz ornamentos
nem pinturas; o casco é de cor castanha, e as velas de esteira de um tom amarelado içam-se em dois grandes
mastros. Os topes destes contrabandistas são visíveis através das filas de lanças e de escudos que estão ao longo
dos pavezes. Em suma, este barco tem muitas semelhança com à forma do casco, a mastreação, o aparelho. do
barco mandarim, mas este difere da “centopeia” pelas pinturas brilhantes e pela profusão dos seus ornamentos
que lhe valeram ser comparado à um brilhante insecto.
As obras citadas acima, nas quais colhemos estas informações, não têm desenhos destes dois barcos. No
entanto, a de Old Nick, La Chine Ouverte apresenta como barco-mandarim uma espécie de barco de flores
ornamentado de bandeiras e de distintivos dos mandarins, gravura que não julgámos dever reproduzir, porque
não corresponde à descrição dada nesta obra. Pelo contrário, o junco de guerra de Cantão, reproduzido na
Estampa 21, segundo uma antiga estampa chinesa em papel de arroz, pareceu-nos ser ilustrativa, muito
especialmente em relação ao barco dos contrabandistas.
+15
a
Estampa 20 Cantão - Barco de mandarim ( gravura chinesa )
Estampa 21 Cantão - Antigo junco de guerra ( gravura chinesa )
KUALTING (ne 56)
O Almirante Pâris, de quem se conhece a obra admirável, destinada a salvar do esquecimento as construções
marítimas de todos os países e de todas as épocas, deu-nos nos seus “ Souvenirs de Marine Conservés"() a
descrição de um junco das províncias meridionais da China acompanhada de várias figuras com as dimensões
dos seus diversos elementos. As considerações que faz acerca deste junco, chamado pelos chineses Kuai Ting e
pelos ingleses “fast boat”, são de grande interesse. Assim, o melhor que podemos fazer é reproduzi-las
integralmente ( Ver Estampa 22 ).
1). Collection de Plans ou dessins de Navires et de Bateaux anciens ou modernes existants ou disparus - 2eme Partie. Planche nº 80,
Gauthier-Villars, Quui des Grands-Augustins, Paris.
46
Estampa 22. Kuai Ting ( barco rápido )
“Os chineses, com tão má reputação marítima, não merecem o nosso desdém no que diz respeito à grande
navegação, pois têm para a cabotagem, e sobretudo para a pesca. barcos muito notáveis e superiores à maior
parte dos das nossas costas. Estes barcos comportam-se muito bem em mar agitado, com ventos violentos. Os
seus princípios considerados absurdos durante muito tempo. ou pelo menos bizarros, foram adoptados nos
barcos rápidos da América; assim, a sua boca máxima é à popa, imitando os pássaros palmípedes, para os quais
esta conformação deve ser importante para a natação, visto que dela resulta uma dificuldade para andar em
terra. Pelo contrário, os peixes, inteiramente imersos e de que os mais rápidos nos serviram de modelo. são mais
largos para o lado da cabeça. Esta diferença tão característica levou a copiar exactamente as formas de um bom
modelo chinês do género de barco que os europeus chamaram “fast boat”, e a sua linha de água traçada na parte
inferior da Estampa 22, mostra uma curiosa parecença com a de dois iates célebres. Resulta do isolamento do
leme e das formas da popa que disso são consequência, que depois de ter cortado a água lateralmente com as
formas finas da proa, os chineses enchem o vácuo a ré, elevando-a para a superfície, em lugar de se concentrarem
contra o cadaste. Terão achado assim o mínimo de resistência tanto à saída como à entrada ? A sua marcha
rápida para um transporte moderado pareceria fazê-lo crer e as imitações recentes dos Ocidentais confirmá-lo-
“tam.
Quanto ao modo de construção, só difere do nosso pela ligação directa das pranchas entre elas com
pregos compridos introduzidos numa pequena cavidade em forma de nicho, de forma a penetrar em duas
pranchas (1). Esta ligação, que falta aos nossos construtores é usada na costa de Malabar, na Arábia. e encontra-
-se de novo no Mar Negro. À quilha é apenas uma peça adicional, cuja perda não provocaria água aberta: é
muitas vezes perfurada com furos em forma de losango, como o leme, cuja superfície é sempre muito grande.
Este género de barco é o mais comum na China; é a expressão do tipo local, anda bem e comporta-se
perfeitamente com mar grosso.
Por vezes não têm maiores dimensões que as de uma canoa grande, sem mudar de natureza. Há-os com
linhas de água notavelmente mais finas e que têm mais velame. São em geral cobertas com galipote. As marcas
triangulares nas pranchas são cavidades para pregos que se pregaram nesses planos e que se enchem de betume.
1. Ver no Tomo HH. Construção de um junco, à descrição deste processo de ligação.
417
Comprimento máximo BRR
Comprimento na linha de água +
Boca por fora da borda 6 és
Pontal 260 -
Superfície da porta do leme 6 m
Altura do mastro grande sobre o convés 16,30
Diâmetro da enora 0,34
Diâmetro na romã 0,28 “
Altura do mastro de vante [820%
Comprimento da verga superior mi LO a
Comprimento da verga inferior +
Superfície da vela grande 41 m
Superfície da vela do mastro de vante Br é
JUNCOS DE COMÉRCIO
A forma do casco é caracterizada por uma proa baixa e afilada, com plataforma trasbordando os bordos
e servindo de apoio às âncoras. À linha do convés sobe regularmente, sem tosado, para ré, onde se vai expandir.
para três lados e sobressai com uma grande galeria ( Estampa 23 ). A parte de ré do casco tem formas arredondadas
de inspiração ocidental; não há cadaste. O leme, segundo o método chinês, não tem ferragens nem está ligado
rigidamente ao casco. É suspenso por uma talha de um guincho que permite arriá-lo à profundidade desejada, às
vezes abaixo do tabuado do fundo, ou retirá-lo da água. Nesta última posição a porta encaixa-se num corte do
cusco cuidadosamente protegido com anteparas ( Ver Fig. | da Estampa 38, II Cap.).
Este dispositivo de casco é próprio dos juncos de Guangdong, ao mesmo tempo que a porta de leme de
grandes dimensões é perfurada com numerosos orifícios com o fim de aliviar o esforço sobre a cana, sem por
isso diminuir a eficácia do leme. O homem do leme fica, como no junco de pesca de Hainan (nc 94), sobre uma
parte elevada do convés servindo de alojamento ao capitão e família e onde estão reunidos a cozinha, o paiol de
mantimentos, as caixas de água, e a pequena capela consagrada às divindades do mar. Fica ainda na popa o
potente leme de gingar que constitui o meio de propulsão mais prático em rio e nas grandes aglomerações de
navios. Os grandes juncos servem-se muito de lemes de gingar laterais, colocados pelo través do mastro grande,
e manobrados à maneira dos do Alto Yangzi Jiang por quatro homens alinhados numa plataforma exterior. Os
juncos de rio têm esta plataforma que serve à tripulação para navegar à vara nos fundos baixos. A alagem faz-
-se habitualmente com um cabo amarrado ao tope do mastro, e manobrado por seis a oito vigorosos barqueiros.
Este cabo é feito, como o que se usa no Alto Yangzi Jiang, de lamelas de bambu entrançadas.
A mastreação compõe-se de dois ou três mastros dispostos e aparelhados ao modo habitual; as velas são
do tipo de pendão, com um corte arredondado na parte superior e consolidadas geralmente por quatro ou cinco
vergas intermédias. No princípio do século eram ainda feitas todas de grandes tiras de esteira finamente
entrelaçadas, mas a duração não ultrapassava um ano, se bem que fossem reforçadas por redes de rota nos
pontos sujeitos a atrito. Hoje, as velas são em tecido de algodão, por vezes compostas de duas ou três partes
ligadas por ilhozes às vergas intermédias ( Estampa 24).
A bujarrona é de uso muito espalhado nos juncos de Hong Kong e de Cantão. Mas o marinheiro chinês,
como observador prático, compreendeu os inconvenientes da vela dos Ocidentais. Verificou que correndo com
vento de popa a bujarrona impelia mal ou não impelia mesmo e que os seus balanços de um bordo à outro
ocasionavam estragos. Suprimiu portanto o gurupés fixo, que lhe causava problemas e substitutu-o por uma
Estampa 23
Estampa 24
Hong Kong - Junco de comércio
Hong Kong - Junco de comércio
49
RastaSesa apo cegrao sao .
poa SETE. amp
antena móvel, que orienta à sua vontade a fim de levar a vela ao vento. É o dispositivo que usam os iates de
corrida para cambar a vela chamada de palanque (spinnaker).
A bujarrona é aparelhada à maneira ocidental, a sua tralha inferior é fixada por olhais num bambu e no
terço superior da vela há um bambu de reforço. Uma bolina em pé de galinha fixada ao extremo dos bambus
serve de escota à vela (Ver Tomo II, Estampa 44, figura 3 ).
Os juncos usados nos cursos de água com margens altas usam, como os do Yangzi Jiang, velas triangulares
muito altas. As âncoras de hoje, a maior parte das vezes em ferro, são do tipo ocidental. São ainda numerosos os
juncos de pesca que usam a volumosa e grosseira âncora de madeira, com uma ou duas patas com unhas
ferradas, e a extremidade da verga usando como lastro uma grande pedra. O guincho para levantar a âncora é
um aparelho cada vez mais abandonado a favor do cabrestante de tipo ocidental accionado por barras.
Os juncos de pesca e bom número de juncos de comércio de Guangzhou e Hong Kong não usam
ornamentações, nem pinturas; nem mesmo o olho tradicional aparece nas amuras. O casco é pintado de preto.
mas a maior parte das vezes fica com a cor natural da madeira e recebe uma camada de verniz. Vê-se, no
entanto, em alguns grandes juncos a galeria de ré pintada com cores rutilantes e ornamentada com personagens,
bandeiras e animais fantasistas ( Ver Estampa 23).
Quando se percorrem as costas meridionais do Guangdong (nc 12) fica-se surpreendido ao encontrar
juncos de aspecto bem diferente daqueles que estamos habituados a ver nas costas Norte da China, e mesmo na
província vizinha de Fujian (nc 2). Do que nos apercebemos primeiro é do corte das velas que, já indicámos
anteriormente, se incurvam mais € mais na parte alta, à medida que se avança para o sul. O casco também
apresenta algumas particularidades na sua forma geral que lembram em muitos pontos as dos navios ocidentais,
entre outras as extremidades de vante e de ré, e a ausência quase completa de cores e ornamentações do casco,
incluindo o olho tradicional que figura raramente nos juncos de mar de Cantão e de Hong Kong. Aqui, mais do
que em qualquer outro lado, constata-se a influência ocidental na construção local, a tal ponto que nos poderíamos
sentir bem longe da província, bem próxima no entanto, que concebeu o belo junco de Fuzhou (nc 93),0“ Rei
dos Mares” dos tempos modernos. Mas os navios de Guangdong não mostram menos uma marca original
própria do seu país e sobretudo preciosas qualidades de bons barcos para o mar, indispensáveis nestas costas
tantas vezes devastadas por tufões.
Há, contudo, na costa ocidental do Guangdong próximo do Tonquim e nas de Hainan (nc 94), vários
juncos de mar cujas formas se inspiram na construção puramente chinesa de Fujian e de Zhejiang (nc |).
Durante muito tempo estes juncos, sob pretexto de fazer cabotagem ao longo das costas do Tonquim e do
Hainan, dedicaram-se a actos de pirataria que não acabaram senão pouco depois da chegada dos navios de
guerra franceses à baía de Along, centro de operações desses corsários de mar e de terra.
Notas pessoais recolhidas durante um cruzeiro nessas costas, permitem-nos descrever um desses juncos
piratas da ilha de Hainan, capturado em 1885 com a tripulação de trinta e dois homens, ao largo de TPhuan-An,
o porto de Hue, a capital do Annam.
JUNCO DA ILHA DE HAINAN
Este junco ( Estampa 25 ) dedica-se à cabotagem e à pesca na costa oeste do Guangdong e à volta da ilha de
Hainan. A estas duas ocupações havia que acrescentar, outrora, a da pirataria que era mais arriscada, mas
também mais lucrativa. Hoje o principal recurso é a pesca, sendo a cabotagem feita quase exclusivamente por
navios a vapor. É um belo barco para o mar, fortemente construído com madeira de pinho, enquanto que o
cavername, o tabuado do fundo e o leme são feitos em madeira dura, teca ou cânfora.
O comprimento é de vinte e três metros tomado no convés e reduz-se a vinte metros e meio tomado na
Jinha de água. A proa é afilada em forma de beque, protegido por uma forte peça de madeira enquadrada de dois
montantes laterais e de barras transversais servindo de apoio à âncora de madeira e, por outro lado, a dois
guinchos para a sua manobra. Estas âncoras são lastradas com uma grande pedra ligada ao arganéu. O convés
420
apresenta um tosado acentuado; é protegido por altas bordas de tempo que terminam na parte de ré por uma
larga galeria que sobressai sobre três lados e que fica a três metros acima da linha de água. Turcos para sampanas
ficam a ré. Há três mastros no convés, com velame de esteira ou de pano de algodão local, o de vante inclinado
para a proa, ficando o de ré, pequeno, na plataforma da galeria, a bombordo. As formas de ré são chamadas “ em
cu de galinha “ com uma fenda para a passagem do leme,
A porta do leme é de grandes dimensões, dois metros e oitenta de altura por dois metros de largura e
desce até um metro e cinquenta abaixo do tabuado do fundo e é furado com dezasseis orifícios em forma de
losango (1). A cana é formada por duas peças de madeira ligadas por costuras nas extremidades. O homem que
a manobra fica numa parte elevada do convés debaixo da qual estão o alojamento do capitão e da família, a
cozinha, o paiol de mantimentos, a latrina, e por fim a pequena capela com as tábuas dos antepassados com a
divindade tutelar. Por cima do alojamento do capitão há, em alguns destes juncos, uma pequena cabana que
domina o convés e serve de posto de vigia durante a noite nas paragens em que há piratas. Muito perto dela está
um velho pequeno canhão com a boca carregada de ferralha ou mesmo de pedras, pronto a repelir um ataque
imprevisto. Mais dois canhões de maior calibre, num reparo de madeira com cabo de recuo ficam aos bordos
entre os dois mastros. (2). O casco é pintado de preto com o olho a vante. Os painéis da galeria de ré são
pintados de vermelho vivo ou verde com enquadramentos em preto. São às vezes decorados com assuntos
fantasistas, sem valor artístico.
JUNCO DE BALANCEIRO
Ao largo de Beihai (nc 95), não longe da fronteira com o Tonquim, a maior parte dos juncos locais, os dos
pescadores em particular, apresentam nas formas e no aparelho vários dispositivos que testemunham a influência
da construção indochinesa. Entre estes últimos citaremos o junco com balanceiro ( Estampa 26 ), destinado a
assegurar a estabilidade quando anda com velas, e cujo uso é inexistente nas outras partes da China que
percorremos. Este aparelho que descreveremos mais adiante é comummente empregado nas pirogas da Malásia
e na costa da Indochina. Mas o que aumenta a originalidade deste junco é o seu sistema de velas, do tipo
indochinês, bem diferente do velame clássico chinês. A vela é de forma triangular, dita de baioneta, as mais das
vezes em esteira mas também em pano de algodão, reforçada por ripas divergentes de bambu. E envergada
numa comprida antena com um anel que corre ao longo do mastro. O ponto de amura fica no eixo do convés. a
uma certa distância do pé do mastro. A escota fica, segundo o método chinês, na junção das bolinas que partem
das extremidades das varas de bambu. Estas varas reúnem-se por grupos de quatro em diferentes pontos da
verga e estendem-se para a tralha do gurutil, o que dá à vela o aspecto duma asa de morcego aberta, enquanto a
vela chinesa tem o aspecto duma persiana.
O casco é construído no estilo dos juncos do Guangdong, com uma proa elevada e afiada, uma popa
arredondada em “cu de galinha” em que se abriu uma passagem para a madre do leme.
O leme assenta em ferragens de ferro; a porta é perfurada como a dos juncos de Cantão. À mastreação
consta em dois mastros principais colocados no eixo do convés: o maior, ao centro, com uma ligeira inclinação
para ré. Um terceiro mastro de fraca dimensão é às vezes colocado no painel da popa, com uma vela de pendão
que se manobra do exterior por uma vara que assenta na galeria de ré. Estes juncos são, regra geral, compridos
e estreitos. Possuem um velame de superfície relativamente grande, que não deixa de fazer perigar a estabilidade
quando arrastam a rede. Assim, para contrabalançar o efeito do vento tendendo a provocar uma inclinação, se
não perigosa, exagerada, empurram para o exterior, no bordo do vento, uma comprida antena na qual se colocam
dois homens a uma distância tal, que o seu peso mantém o junco num equilíbrio normal. Nos juncos pequenos
!) Ver no Tomo HH, a descrição deste leme e na Estampa 38, figura 2.4 sua instalação.
2) NE O autor diz ainda que este reparo é do tipo” à échatignole”, para que não encontrámos equivalente em portugues.
421
o equilíbrio é obtido por meio de grandes pedras amarradas à antena que se faz sair mais ou menos para o
exterior. Os mastros são suportados por dois ovéns feitos com lianas, que mal são torcidas. O fundear faz-se
com âncoras de madeira, como na maior parte dos juncos desta região que são duma grande simplicidade de
instalações e na construção muitas vezes rudimentar.
SAMPANA PIRATA
Apesar da vigilância organizada por um serviço especial de canhoneiras, a pirataria pôde exercer-se
durante muito tempo na costa oeste do Guangdong, devido à proximidade da baía de Along onde os piratas
podiam ficar impunes em refúgios ainda inexplorados.
Esta imensa baía, uma das maravilhas do mundo, contendo centenas de ilhas e de rochas com as formas
mais extraordinárias, é um labirinto inextricável admiravelmente apropriado para saídas dos piratas. Estes não
tinham nenhum receio de se mostrar, pois no caso de um alerta encontravam rapidamente um refúgio, para eles
e para a sampana, numa gruta, por trás de um rochedo ou entre a folhagem do mangal que cresce na água do
mar. A aparição duma sampana pirata aterrorizava os habitantes que abandonavam as casas a toda a pressa para
se refugiar nas colinas vizinhas donde assistiam, impotentes, à pilhagem das suas colheitas e das suas capoeiras.
Consideravam-se com sorte se podiam pôr as mulheres e os filhos ao abrigo destes perigosos bandidos, que
faziam grandes lucros com a venda aos chineses, destes infelizes seres.
As suas embarcações não têm nada que impressione (Estampa 27). Eram vulgares sampanas com um
comprimento duma quinzena de metros, construídas sobre o modelo das do rio de Cantão, com a proa esguia,
pouco elevados acima da água, armados de um velho canhão colocado num reparo do mesmo modelo do do
junco de Hainan. À parte de ré eleva-se e ao mesmo tempo alarga para cima em forma de plataforma na qual
vigiava o piloto armado de um remo e ao pé dele o homem do leme.
Não tem mastros, e a propulsão faz-se unicamente com remos. No meio do convés ergue-se um pequeno
rufo coberto de esteiras servindo de abrigo à tripulação. Mas esta instalava-se de preferência na margem onde
podia, mais à vontade, descansar, preparar a comida, jogar às cartas e fumar ópio, o seu passatempo favorito.
Durante a navegação a tripulação ficava de vigia no convés, rendendo-se de tempos a tempos aos remos. Cada
homem tinha à mão grande quantidade de armas heteróclitas, para manter a distância, se fosse preciso, os
agressores sempre numerosos à procura de um saque feito por um rival com sorte. As armas eram uma
reminiscência do antigo armamento chinês: alabardas, tridentes, croques, lanças com compridas lâminas e
sabres encabados. No momento do ataque, eram exibidos no convés grandes bandeiras, e a sua vista chegava as
mais das vezes para pôr em fuga o inimigo. Hoje a baía de Along está expurgada destes terríveis bandidos.
422
ar
a
E
[3/
1) ==
a anã
Hlha de Hainan - Junco de pesca
Estampa 25
ES
Si
Estampa 26 — Golfo do Tonquim - Junco de balanceiro
+23
SE EE = queda) mic ===
Sa ES E SE
= == SS ==
Estampa 27 Baia de Along - Sampana pirata chinesa
24
ARMAS É ENGENHOS DIVERSOS DUMA SAMPANA PIRATA
Representadas na Estampa 28, podem ver-se algumas armas, bandeiras e objectos encontrados em
sampanas de piratas capturadas na baía de Along em 1885, alguns anos depois da conquista do Tonquim.
Fig. 1 Bandeira quadrada em etamina vermelha. com o carácter
Ling símbolo de comando e obediência
Fig. 2 Bandeira vermelha hordada de preto ornamentada com
o mesmo símbolo representado duma forma diferente.
Fig. 3
orlas denteadas.
Fig. 4 Chapeu de palha entrançada usado pelos soldados
chineses da facção Bandeiras Negras, que em grande número
fizeram pirataria na terra e no mar depois de terem chegado ao
Tonquim, cerca de 1865.
Fig. 5 Chapéu de palha do Tonquim
Big. 6 Lança.
Bandeira em forma de cauda de peixe triangular, com
Fig. 7 Sabre usado para à execução dos condenados à morte
chamado “ corta. corta ” pelos europeus,
Fig. 8 Lança com gancho.
Fig. 9 Lança com lâmina flamejante.
Hg. 10 Alfange encabado
Fig. | Alabarda em meia lua
Fig. 12 Lança com lâmina plana comprida cortando de um só
lado.
Fig. 13 Punhal com bainha de madeira
Fig. 14 Espingarda de percussão que se segura com o braço
estendido
Estampa 28
425
Armas e engenhos diversos duma sampana pirata
Da
JUNCO DE MANHAO ( nc 99 )
Antes da abertura do caminho de ferro ligando Yunnan (nc 96) a Henei (nc 97) em 1910,as comunicações
entre o Tonquim e a província do Yunnan eram dificilmente conseguidas pela via terrestre, alternando com a via
fluvial do Hong Jiang (ne 98). Na maior parte do curso superior, esta longa artéria, conhecida pelo nome de
Song Koi ou Rio Vermelho, é uma verdadeira torrente encerrada em gargantas profundas, entre duas margens
cheias de rápidos, de bancos de calhaus rolados e de rochedos que tornam a navegação muito penosa, por vezes
mesmo impossível durante o período das aguas baixas. É a partir de Manhao (nc 99), a uma centena de quilómetros
para além da fronteira do Tonquim, que circulam para jusante juncos especialmente construídos para esta
navegação. Há duas espécies tendo muitos pontos em comum: o junco do tipo anamita e o de tipo chinês. E este
último que vamos descrever ( Estampa 29 ),
Feitos com pranchas flexíveis mas muito resistentes, com fundo chato e ligeiramente encurvado à vante
e a ré, os maiores juncos medem vinte a vinte e cinco metros de comprimento e só três de boca, com um calado
carregado que não ultrapassa meio metro. Na viagem de descida podem trazer até doze toneladas, mas sobem
normalmente vazios ou com um carregamento reduzido que desembarcam à entrada dos rápidos para depois o
retomarem a montante às costas de homens. A maior parte do junco é revestido duma cobertura arqueada de
esteiras de bambu debaixo das quais tomam lugar os passageiros, com os seis a oito homens de tripulação e as
mercadorias. A altura deste abrigo chega apenas para que um homem se possa ter de pé, se puser os pés no
fundo do porão.
Estes juncos têm um mastro bípode em forma de V invertido, no meio do qual fica a cobertura, e que tem
os pés na borda. O mastro é formado por duas antenas, a maior parte das vezes dois fortes bambus, ligados um
À
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Estampa 29. Junco chinês de Manhao
426
ao outro por travessas e reunidos no tope por uma sólida amarração. Enverga uma grande vela rectangular que
só se iça na subida. Na descida o mastro é rebatido sobre a cobertura, Este processo de navegação é utilizado,
como já vimos atrás, no Alto Yangzi Jiang. Na região dos rápidos deste rio todo o junco duma certa tonelagem
faz-se acompanhar, na subida, por uma espécie de embarcação chamada Wu Ban (nc 100), literalmente “* cinco
pranchas”, de um modelo análogo ao junco de Manhao. Tem, como o junco, um mastro bípode, com o fim de
manter o convés livre para a manobra de pesadas e atravancantes espias destinadas à alagem do grande junco,
e, por outro lado, permitir desembaraçar-se rapidamente de um mastro inutilizado na descida, o que, no caso do
junco de Manhao, devido às suas formas e fraco calado, é indispensável para não comprometer a estabilidade.
Sob vela, a única postura aceitável é com vento de ré. Quando o vento vem do través o junco inclina-se
perigosamente, sobretudo se o vento é fraco. O equilíbrio é então restabelecido, fazendo contrapeso com os
homens que se agarram à verga inferior do lado do vento. As tripulações destes juncos mostram nas suas tarefas
as mesmas qualidades de bravura e de resistência das do Alto Yangzi Jiang. Estão sujeitos à provas não menos
difíceis e dispõem de meios de acção mais diminutos.
A passagem dos rápidos é particularmente laboriosa à subida; faz-se a cabo e nela só participa a tripulação.
Em casos muito difíceis os juncos são obrigados a esperar até que se juntem cinco a seis, para unirem os
esforços das suas equipas na alagem sucessiva dos juncos.
Na navegação corrente, a embarcação desloca-se a remo ou ainda com varas que os homens, divididos
pelos dois bordos, empurram no fundo, apoiando-se na borda. É o método usado em fundos baixos, em especial
nos bancos de calhau rolado.
JUNCO DE MANGJIE
Ainda que Mangjie (nc 101) seja em território tonquinês, a sua situação no rio, servindo de fronteira,
autoriza-nos a fazer figurar Os seus juncos entre os da China. A Estampa 30, mostra um dos numerosos juncos
de pesca que têm características comuns às construções dos dois países. Em primeiro lugar o casco baixo a
meio esguio e elevando-se nos dois extremos, acusa nitidamente as linhas finas da construção indochinesa.
Depois o velame reforçado por varas, o aparelho apropriado a este género de velas e enfim os dois mastros
inclinados para vante denotam bem a origem chinesa. À parte de ré do casco prolonga-se por uma plataforma
saída, destinada à proteger o leme e a afastar o mais longe possível o ponto de volta das escotas da vela.
JUNCOS CHINESES NO ESTRANGEIRO
O viajante que navegue nas costas da Malásia ou no estreito de Malaca, depois de ter percorrido o mar da
China, onde a todo o momento se pôde familiarizar com a silhueta clássica do junco de mar, não deixa de ficar
espantado com o grande número de barcos de vela, de cabotagem ou de pesca, que encontra com as características
da construção naval chinesa. Estes barcos, ainda que de origem estrangeira e sem nenhuma ligação directa com
a China, são tripulados por chineses, antigamente reconhecíveis pelo uso do rabicho que foi suprimido depois
da Proclamação da República, em 1912.
É só nas aproximações do estreito de Malaca que a influência chinesa se manifesta de novo depois duma
longa interrupção, ao longo de toda a costa indochinesa, onde os navios se apresentam, salvo em pontos raros,
com formas muto diferentes dos da China, no casco e no velame.
O porto de Singapura foi desde sempre, até à chegada dos navios a vapor, o traço de união entre os países
ocidentais e a China. As transacções faziam-se por intermédio de comerciantes chineses que formavam, como
ainda agora, uma colónia importante oriunda do Guangdong e de Fujian. As trocas faziam-se com juncos
destas províncias € é por isso que estes últimos tipos estão muito espalhados na região de Malaca, assim como
na Malásia, onde as colónias chinesas são igualmente muito numerosas.
O contacto permanente das duas marinhas do Guangdong e do Fujian, cujos navios apresentam
características tão diferentes uns dos outros, deu lugar ao nascimento de tipos híbridos que conservam no
427
Estampa 30. Mangjie - Junco de mar
entanto o cunho original. O caso das construções locais executadas pelos chineses sob inspiração dos modelos
ocidentais, que tinham sob os olhos é totalmente diferente.
A europeização, se assim se pode dizer, dos seus navios nem sempre foi feliz, sobretudo no campo do
velame, onde a técnica chinesa do Guangdong tão bem apropriada à navegação no alto mar, foi substituída, por
um aparelho muitas vezes pouco elegante e de género pouco prático. No que diz respeito às formas da carena,
muito diferentes nas duas províncias, os construtores locais adoptaram geralmente o tipo de Hong Kong com a
proa afilada e a secção de ré plana, ou arredondada em “cu de galinha” de inspiração ocidental. Esta forma de
carena convém melhor à navegação em águas profundas, que a carena chata dos juncos de Fujian com as
extremidades quadradas, com duas asas proeminentes a vante.
JUNCO DE SINGAPURA
A Estampa 31, representa um junco de Singapura armado em palhabote com velas de algodão curtidas,
envergadas numa retranca à maneira ocidental. A vela grande consta de duas partes; é reforçada por tralhas de
linha cosida no pano, em lugar das vergas intermédias das velas chinesas. Um terceiro mastro de pequenas
dimensões ergue-se por vezes na plataforma de ré a bombordo.
Duas ou três velas amuradas num gurupés colocado por cima duma roda de proa lançada como a da
Lorcha. Este gurupés, feito duma só peça de madeira, não tem cabresto nem ovéns, serve de apoio a um estrado
triangular que serve de plataforma para a manobra das velas. Este dispositivo não é mais que uma grosseira
imitação da rede de cevadeira dos navios ocidentais.
Os arranjos da parte de ré são representados na Estampa 32, e mostram as comodidades para uso da
família que vive a bordo permanentemente, como acontece na China.
Em cima do pavês está pendurado um comprido cesto de verga que serve de galinheiro. Uma escada à
popa permite comunicar do interior da habitação com o mar para todas as necessidades caseiras e acesso ao
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Estampa 31 Junco chinês de Singapura
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Estampa 32
Junco chinês de Singapura
429
tonel de água doce ao abrigo do sol. À Estampa 32 mostra igualmente o leme com ferragens com a sua grande
porta perfurada.
JUNCO DO ESTREITO DE MALACA
A Estampa 33 representa um junco do mesmo tipo com aparelho estritamente chinês navegando no
Estreito de Malaca.O casco é robusto, a roda de proa afilada, a popa de secção plana tem uma plataforma
sobreposta prolongada para os bordos por bordas móveis que protegem o convés até ao través do mastro grande.
Os mastros são dispostos à maneira chinesa, o de vante inclinado para a proa de forma a que a sua vela faça o
papel de bujarrona, que não existe. Dois lemes de gingar assentando sobre uma base móvel ficam na borda a
vante. Uma das particularidades deste junco e de que há poucos exemplos, é a maneira de secagem do porão por
meio de um balde suspenso duma alavanca lastrada com uma grande pedra na outra extremidade e sobre o qual
se actua por um movimento de báscula. Este aparelho é utilizado correntemente, na Índia, na Indochina e na
China meridional para tirar água dos rios. Alguns juncos da Malásia utilizam com o mesmo fim um pequeno
moinho de vento, com quatro asas verticais, colocado no convés a ré.
Estes dois juncos de mar ( Estampas 31, 33 ) têm o casco uniformemente preto, sem ornamentação, nem
o olho tradicional à proa, o qual de resto é raramente desenhado nos juncos oriundos do Guangdong. Há, no
entanto, uma categoria de juncos, que pratica a cabotagem na costa leste de Samatra e no Estreito de Malaca,
cujo casco é ornamentado com diversas cores, com um olho pintado num entalhe verde ou vermelho a imitar os
juncos de Xiamen. Estes ornamentos têm alguma analogia na sua disposição e cores com os que se notam
nestes últimos juncos. Isto levaria a supor que os construtores ou os proprietários seriam oriundos de Fujian,
mas nenhum desses tipos de juncos apresenta as características próprias desta região. As Estampas 34 e 35,
representam alguns espécimes destes juncos, tripulados por chineses. Encontrar-se-ão neles as linhas esguias
da proa do junco de Singapura, enquanto que as formas da popa são de inspiração ocidental e lembram as dos
nossos mais graciosos palhabotes com o painel de popa oval. Mas fora destes ornamentos do casco, o cunho
chinês revela-se em vários pontos, na disposição da mastreação, com as velas reforçadas por varas, nos vários
aparelhos de manobra, nos arranjos do convés e nos originais cata-ventos.
A figura 3 da Estampa 36 dá uma vista em perspectiva do convés a ré, enquadrado em três dos seus lados
por uma balaustrada; dois rufos sobrepostos prolongam o convés de manobra até ao painel da popa, servindo o
rufo inferior de alojamento da tripulação e o pequeno rufo de ré para a cana do leme. Na cobertura deste último,
há um guincho para deslocar o leme ao longo das ferragens. Alguns destes juncos têm na roda de proa, a rasar a
linha de água ( Ver Estampas) uma forte peça de madeira com um orifício aberto destinado à receber da margem
a espia de alagem sem se molhar. A Estampa 34, representa um junco de mar da mesma categoria com algumas
variantes nos seus dispositivos; assim, a parte de ré prolonga-se por uma plataforma que sai para fora e tem uma
balaustrada e não tem senão um rufo no qual fica o homem do leme ao tempo. O painel da popa é mais volumoso
que o do junco anterior (Estampa 35 ). A figura | da Estampa 36 mostra um junco que difere essencialmente de
todos os tipos encontrados nos mares do Sul e mesmo nas costas da China. E preciso subir até ao Yangzi Jiang
até Hangzhou, para encontrar estas formas maciças de carena de fundo chato, com a popa quadrada e sobre-
elevada, que não é própria para os navios de mar.
Vimos mais atrás que os juncos do Guangdong não têm ornamentação nem pinturas no casco, à não ser
acor preta ou o verniz Tong You (nc 14); pelo contrário os de Fujian e do Zhejiang fazem-se notar, em geral, por
uma profusão de decorações permitindo identificá-los à distância. Estes mesmos motivos decorativos
apresentados a maior parte das vezes sob a forma dos que ornamentam os juncos de Xiamen, vamos encontrá-
-los nos juncos que acabámos de descrever ( Estampas 34, 35 e 36 ). É assim que o olho é pintado a vante num
entalhe igualmente de cor verde, com a diferença de a pupila ser aqui vermelha, enquanto é preta nos juncos da
China. Mas a característica mais surpreendente é dada pelos três ou quatro painéis rectangulares de cor verde,
430
vermelha ou branca pintados de cada lado da borda a ré.
NAVIO DE CABOTAGEM MALAIO
Como podemos verificar pela Estampa 37, este barco não tem nada em comum com a construção chinesa:
a sua tripulação é unicamente formada por malaios. No entanto. pareceu-nos interessante apresentar a sua
silhueta, pelo facto da raridade deste tipo, a originalidade das suas formas e sobretudo à decoração do casco que
nada tem de comum com os outros barcos que se encontram nestes mares. E uma espécie de grande chalupa
com convés, com um comprimento duma vintena de metros, provida com dois mastros, de que um é de grandes
dimensões e fica a vante com uma bermuda modificada, envergada numa carangueja aparelhada como uma
vela de palhabote ocidental. O segundo mastro, colocado a ré, é de fracas dimensões e não tem aparelho. Este
barco faz à pequena cabotagem no estreito de Malaca. Distingue-se dos outros navios da região pela proa
arredondada, em forma de voluta invertida, saindo sobre a roda de proa: mas. o que aumenta ainda a originalidade
deste perfil singular é a decoração desta parte de vante que lembra, pelos seus contornos e o seu colorido a das
barcas funerárias egípcias da época dos Faraós, barcas que serviam para o transporte das múmias e do seu
séquito para os hipogeus, e cujas pinturas nos foram transmitidas pelos frescos que decoravam os muros interiores
desses túmulos.
Dever-se-á concluir desta comparação, uma origem egípcia desta decoração, ou então uma simples
coincidência devida à fantasia do decorador? Não podemos emitir nenhuma opinião sobre este assunto, a nossa
tarefa limitou-se, pela falta de tempo, a desenhar o barco no momento da largada de Selangor na costa Sul da
península de Malaca.
Um outro ponto que fica por elucidar, embora de importância secundária, é a representação da bandeira
turca com dois crescentes, enquanto à bandeira desse país não tem senão um. Faltam-nos igualmente informações
sobre este ponto, mas podemos admitir, com alguma razão, que este emblema que é o da religião muçulmana,
religião que é praticada por um grande número de malaios, se destina como tantos outros desenhados no casco
de vários barcos de carga da região, a precisar o seu emprego ou a sua proveniência.
BARCAÇA MALAIA
A Estampa 38 representa uma barcaça navegando no Estreito, mas que é usada principalmente nos portos
frequentados por navios estrangeiros. Este tipo é de construção local, tripulado, como o navio de cabotagem.
por uma tripulação malaia. O casco é robusto com as extremidades de vante e de ré com uma elevação pouco
acentuada. Tem um só mastro na parte de vante, com vela redonda que não é utilizada senão com vento de popa.
No casco, pintado de preto, estão desenhados nos dois bordos três losangos, nos quais se destacam em fundo
branco, as bandeiras coloridas das companhias de navegação que usam a barcaça para o transbordo das suas
mercadorias. Na parte de vante do casco, figura a bandeira vermelha com crescente e estrela que simboliza,
como dissemos mais acima, a religião muçulmana.
BARCAÇA CHINESA
Além dos juncos de cabotagem que se podem ver em Singapura, pesados batelões, de quinze a vinte
metros de comprido, servem para a a descarga dos navios, Uns são de construção malaia ( ver mais acima ). Os
outros, cm maior número, pertencem a chineses. Estes últimos ( Ver Estampa 39 ), têm as suas extremidades
com painéis cortados de forma rectangular, sendo o de ré mais elevado que o de vante com um leme, sem
ferragens, instalado à moda chinesa. Há um único mastro com vela de algodão curtido, envergada em anéis de
bambu. A decoração do casco define com precisão donde veio a inspiração para esta construção, que é a de
Xiamen.
431
JUNCO DE SANDOKAN - ILHA DE BORNÉU
Os chineses foram, em todos os tempos, muito numerosos nas ilhas da Malásia onde desempenham um
papel importante nas transacções comerciais, como colonos e como navegadores. Por isso não devemos
surpreender-nos ao encontrar nestes mares equatoriais grande número de navios de cabotagem tripulados
exclusivamente por chineses e, da mesma forma que no estreito de Malaca, estes navios pertencem aos tipos do
Guangdong e de Fujian, donde os seus marinheiros são oriundos. Mas além destes juncos, formou-se um tipo
local, um género híbrido que não pode ser ligado completamente à nenhum dos que descrevemos mais acima
ao percorrer as costas chinesas e o estreito de Malaca. Estes juncos ( Estampa 40 ), a maior parte das vezes só
têm uma vela de forma trapezoidal arredondada como é característico do Guangdong. Uma bujarrona de grande
envergadura de tipo ocidental é amurada ao maciço da roda de proa e içada no tope do mastro. O casco é
robusto, cuidadosamente construído, reforçado por duas fortes cintas, uma na linha de água, outra debaixo da
borda. As formas da proa são esguias com uma plataforma que sobressai, à maneira dos juncos de Hong Kong
(figuras 1,2). O painel da popa é plano, de forma quadrada ou oval e sobrepõe-se-lhe uma plataforma, cujas
asas laterais fazem, a maior parte das vezes, corpo com a ossada (figuras 3,4). O porão das mercadorias é a céu
aberto coberto por um chão móvel que assenta numa braçola de um pé de altura. Nestas braçolas foram abertos
embornais e também nos barrotes transversais assegurando o escoamento das águas para os embornais do
costado abertos por baixo da cinta da borda. Uma borda móvel ( E,E) protege o porão da surriada. Estes juncos
têm na parte de ré dois grandes lemes de gingar, colocados fora do costado, num pivot de ferro fixo por um
apoio transversal (D,D figura 6). A tripulação de quatro a cinco homens aloja-se num compartimento a ré, onde
Formas de vante
Formas de ré
Leme
Vista de ré do convés
Porão das mercadorias
Painel do alojamento da tripulação /
Caixa de água
Apoios dos lemes de gingar
Borda móvel
Estampa 40 Junco de Sandokan - Ilha de Bornéu
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Estampa 33 Estreito de Malaca - Junco chinês
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Estampa 34 Estreito de Malaca - Navio de cabotagem chinês
Estampa 35 Costas de Samatra - Navio de cabotagem chinês
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Estampa 36 — Estreito de Malaca - Navio de
cabotagem chinês
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Estampa 37. Navio de cabotagem malaio
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se tem acesso por um painel (B). O comprimento destes juncos vai de doze a dezoito metros; o casco é de cor
preta, sem nenhum enfeite.
SAMPANAS DE PENANG
Como em toda a aglomeração chinesa as sampanas desempenham um papel importante na actividade
marítima, mas contrariamente ao que acontece na China, bem raras são as que servem de habitação às famílias.
As sampanas dividem-se em duas categorias; as mais pequenas fazem o vai-vem de passageiros. as maiores de
sete a oito metros de comprido, cooperam no transbordo das mercadorias ou são usadas na pesca. Entre as
últimas assinalaremos, em especial, uma grande e sólida embarcação que os indígenas empregam como barcaça
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Estampa AL Plano duma sampana de carga de Penang
no porto de Georgetown na ilha de Penang. Faz-se notar ( Estampa 41) pelas proporções pouco usuais: sete
metros de comprido por quatro de boca, pela construção robusta compreendendo balizas e anteparas de grandes
dimensões, com a proa feita também por uma montagem de peças de madeira maciças que o construtor fixa em
último lugar, ao fechar o tabuado do casco. Ainda que tripulada por malaios esta embarcação é decorada à
maneira das sampanas de Xiamen, às quais foi buscar a forma geral.
A sampana destinada mais especialmente ao transporte de passageiros que faz escala em Georgetown.
pertence como a anterior, ao tipo chinês de Fujian ( Estampa 42). O painel de vante tem forma oval alongada.
ligeiramente bojudo na mediania. Estas, com o comprimentos de quatro a cinco metros, são manobradas só por
um homem que actua sobre os dois lemes colocados na câmara de ré. O remo de estibordo fica um pouco para
vante do de bombordo, de maneira que o homem rema de pé virado para vante sem se atrapalhar com o cruzamento
dos punhos. As decorações do casco, pintadas nas extremidades e nos painéis de vante e de ré ( Estampa 43),
são oriundas da costa oeste da China, com algumas variantes nas cores e nos desenhos. A bandeira pintada a
vante representa a companhia a que pertence a sampana. Outras bandeiras e emblemas figuram em losangos
pintados num longo painel aplicado nos dois bordos, com o fim de atrair a clientela das ditas companhias. Este
mesmo processo é usado nas sampanas de Shanghai que inscrevem no painel da popa em letras maiúsculas
mais ou menos fantasiadas, os nomes dos navio de passagem que as utilizam.
437
A Estampa 44 apresenta uma sampana chinesa, de oito a dez metros de comprido, com um mastro com
vela de algodão, que pesca à volta da ilha de Penang.
Depois de ter visto em acção numerosos tipos de embarcações, que passámos em revista tanto na China
como no estrangeiro, é-nos permitido afirmar que a sampana chinesa reúne no mais alto grau as qualidades
exigidas no seu emprego. A estrutura é robusta, as formas elegantes, com linhas de água que asseguram evoluções
rápidas, tanto à vela como a remos. A posição do leme de gingar no painel da popa permite-lhe abrir uma
passagem nos portos mais congestionados, ao mesmo tempo que facilita a manobra que pode ser confiada a
mãos inexperientes e mesmo às duma criança.
Estampa 42 Penang - Sampana para passageiros
Estampa 43
Ornamentos do casco das sampanas de Penang
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NOTAS CHINESAS
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IX
COSTAS LESTE
JUNCOS DAS COSTAS DO ZHEJIANG E DO FUJIAN
Se pela sua situação privilegiada no Baixo Yangzi Jiang (ne 2), 0 Hankou é especialmente conveniente
para o estudo de um grande número de juncos de rio, de todas as formas e dimensões, parece incontestável.
dentro da mesma ordem de ideias, que as costas do Zhejiang (nc 3) e do Fujian (ne 4) oferecem um terreno
incomparável para o estudo de todos os tipos possíveis de juncos de mar.
Ningbo (nc 5), Fuzhou (nc 6) e Xiamen (ne 7) são os principais portos destas costas. nos quais se pode
observar o mais vasto conjunto de barcos usados na grande cabotagem. Quando comparados com os barcos de
pesca, o seu número é relativamente insignificante. Com efeito, aqueles contam-se aos milhares, enquantos que
estes não ultrapassam algumas centenas. Por volta de 1880, cada um destes portos contava com cerca de 700 ou
800 juncos a praticar à cabotagem no litoral das duas províncias. Uns subiam o Yangzi Jiang até Zhenjiang (ne
8). à entrada do Grande Canal Imperial. Outros, os de maior envergadura, navegavam no golfo de Bei Zhili (nc
9). indo até Niuzhuang (nc 10) na Manchúria.
Desde há vários anos, esta frota de cabotagem tem vindo a decrescer, dando lugar aos navios a vapor, que
transportam em dois ou três dias. ininterruptamente ao longo do ano, a mesma carga que os juncos transportam
vagarosamente, à razão de uma ou duas viagens anuais, com a ajuda dos ventos periódicos da monção.
As descrições que se seguem, e que fazem parte do tomo COSTAS LESTE da China, concernem aos
juncos de mar que navegam nas costas do Zhejiang e do Fujian, desde a embocadura do Yangzi Jiang até à
fronteira do Shandong (nc 11). Estas descrições dizem ainda respeito a alguns juncos de rio dos principais
portos destas duas províncias.
LORCHA (Hua Ting, nc 12)
A Lorcha (Estampas | e 2) é um barco de mar de origem portuguesa, que foi introduzido na China por
finais do século XVIII. É o único exemplo que se conhece de adaptação pelos chineses de dispositivos europeus.
conquanto estes sejam também, em grande medida, fruto de influência indígena.
O casco lembra o dos nossos navios de cabotagem, de formas fugidias e arredondadas a ré e esguias à
proa, com beque que serve de apoio ao gurupés.
A lorcha é aparelhada com três mastros chineses, com velas de pendão e varas intermédias. Com bom
tempo, o velame é completado com uma bujarrona tesada numa antena estendida por cima do gurupés, com
uma vela de gávea volante no tope do mastro grande e uma vela de estaí entre os dois mastros de vante. O
convés comporta arranjos à europeia, um castelo de proa aberto, um tombadilho a ré onde fica a roda do leme,
enfim, entre os dois mastros de ré, um rufo para alojamento do pessoal.
O casco é pintado de vermelho tijolo com listões amarelos. Há várias variedades de lorcha. inspirando-se
as formas no estilo do lugar em que são construídas.
As que são construídas em Ningbo ( Estampas 3,4,5 ) têm nitidamente as características dos juncos
locais: a popa oval sobrelevada e plana, o leme suspenso à chinesa, as cintas salientes assim como pelo velame
e aparelho. Pelo contrário, a parte de vante acaba num beque muito comprido que parece ter sido acrescentado
às formas de um junco ordinário para lhe dar o aspecto duma lorcha. O nome do barco é inscrito em caracteres
europeus, numa prancha fixada no painel de popa.
A lorcha é em geral de grandes dimensões. O comprimento vai de vinte a trinta metros e a capacidade
pode chegar à 500 toneladas.
Pouco depois de terem chegado à China, os comandantes portugueses obtiveram licença das autoridades
chinesas para fazerem cabotagem, por insptrarem confiança às populações marítimas expostas às incursões dos
piratas. Foram mesmo solicitados para velar pela segurança das vias marítimas. Os juncos reuniam-se em
comboios e, mediante uma bastante pequena prestação, obtinham a escolta das lorchas, que se encarregavam de
guardar bem o rebanho e de atacar os piratas, se eles aparecessem. À acção deste policiamento português trazia
443
Estampa | Lorcha ( Hua Ting )
Estampa 2 Lorcha ( Hua Ting )
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Lorcha, tipo de Ningbo
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de certo alguns abusos, mas desagradava menos aos mandarins que a intervenção dos navios de guerra
estrangeiros.
No entanto, estes excessos tornaram-se intoleráveis com a continuação e os chineses, não resistindo às
exigências, desistiram de se fazer escoltar por estes piratas encartados. As lorchas foram, desde então, substituídas
por juncos da polícia, tripulados por chineses, que, por sua vez, inspirando-se na atitude dos seus antecessores,
lhes cobraram com não menos cinismo do que aqueles.
O nome “Lorcha” é igualmente de origem portuguesa: os chineses chamam-lhe Hua Ting (ne 12), barco
para o transporte de mercadorias (Cargo-boat em inglês). Estes navios ocupam-se, de facto, na cabotagem na
costa Sul, de Cantão até à foz do Yangzi Jiang. e para além, até Zhejiang e Hankou.
No fim do século passado, havia uma quarentena de lorchas no Yangzi Jiang, navegando sob bandeira de
várias nações, americanas, inglesas, espanholas e alemãs.
Lorcha, tipo de Ningho
Actualmente, este número diminuiu bastante e todos estes navios pertencem a comerciantes chineses *,
*) Documento consultado: Vovage en Chine por Jurien de la Graviêre- 1847-1850,
445
Estampa 5 Lorcha, tipo de Ningbo
JUNCO DE POLÍCIA DO BAIXO YANGZI JIANG
Este junco ( Estampa 6 ) opera geralmente nas proximidades da foz do Yangzi Jiang: estaciona em
Wucong (nc 13), perto de Shanghai (nc 14).
O casco arredondado ( Estampa 6 ) lembra o dos juncos do Guangdong (nc 15), com a popa arredondada
e elevada em forma de “ cu de galinha” na qual há uma vasta plataforma que extravasa para ré e sobre os bordos
do costado, com vista a alargar o tombadilho de comando (Estampa 6). Têm cerca de trinta metros de comprimento
e um deslocamento de 290 a 300 toneladas.
O leme com porta perfurada está alojado num encastramento estanque existente no casco, onde pode ser
içado ou arriado por meio de um guincho colocado no convés na prumada da madre.
À proa, como a da “ Lorcha ”, tem a forma duma roda de proa bem lançada, mas é Mlanqueada por duas
asas proeminentes que a tornam pesada e fazem com que o junco seja pouco próprio para aguentar os embates
do mar.
A mastreação consiste em três mastros dispostos como na maior parte dos juncos de mar: o de vante
ligeiramente inclinado para a proa; o mastro grande, ao centro, de grandes dimensões; à popa um mastro ligeiro,
colocado na prumada do painel da popa, no centro do convés ou às vezes a bombordo.
As velas são de pendão, com o mesmo corte das dos juncos de Guandong, assentando no fundeadouro em
altos cavaletes colocados no convés.
O armamento consta de alguns velhos canhões de fraco calibre, colocados num parapeito entre os dois
mastros de vante. O casco é pintado de vermelho tijolo, assim como as amuradas interiores e os acessórios do
convés. O painel da popa é decorado com motivos vários: personagens, uma fénix com asas abertas e de cores
berrantes, etc.
Em certas circunstâncias estes juncos reuniam-se, ainda há bem pouco tempo, ao largo da foz do Yangzi
Jiang e faziam exercícios militares, navegando à vela. A parada cra o que era mais apreciado. As suas evoluções,
lentas e graciosas, desenrolavam-se com a facilidade dos jogos de crianças. Depois num combate simulado,
avançavam em dois grupos, ao som dos gongos e dos panchões, o convés cheio de estandartes, e no topo do
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mastro as flâmulas. Desapareciam, depois voltavam a aparecer, por entre o fumo dos canhões, e este espectáculo
estranho dava a impressão de se tratar de um combate de galeras, travado pelos últimos sobreviventes duma
marinha condenada à morte pelo progresso!
Estampa 6 Junco de polícia do Baixo Yangat Jiang
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Estampa 7 Hhas Zhoushan - Junco de polícia ( Ban Shang )
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JUNCO DE POLÍCIA DAS ILHAS ZHOUSHAN (nc 16) (BAN SHANG)
Este junco (Estampa 7) é conhecido pelo nome de Ban Shang (ne 17) e deriva da lorcha pelo aspecto
geral do casco, salvo na parte de vante, de forma triangular com plataforma trasbordante, que foi buscar ao
junco de Guangdong. A popa é arredondada e subida em “cu de galinha” e deixa aparecer, como nos juncos de
Hong Kong (nc 18), uma fenda estreita e comprida para a passagem do leme, o qual pode ser assim içado e
travado ao nível da linha de água. A parte de ré da grinalda é prolongada, nos dois bordos, por um arredondamento
saído para além da amurada. Isto permite aumentar a largura do convés e portanto o campo visual dos homens
de serviço, e dar mais espalho às bolinas da vela grande que se vão assim apoiar no exterior da borda.
O casco é cuidadosamente construído com linhas de água bem lançadas, mas a parte de vante maciça e
baixa faz deste junco um mau navio para o mar. É reforçado na altura do convés por uma larga cinta, pouco
saliente, com cerca de dois pés de altura.
A mastreação consiste em três mastros com velas de pendão de algodão, o do centro de grandes dimensões,
o de vante mais leve e inclinado para a proa.
O mastro de ré, de fracas dimensões, é implantado a bombordo, na prumada da grinalda. Grandes cavaletes
assentes no convés a ré dos dois mastros principais, servem de apoio às pesadas velas, quando no fundeadouro.
Os interiores das amuradas, os pés dos mastros, os cavaletes c outros aparelhos do convés são pintados de
vermelho.
Estes juncos não têm escovéns. Têm na plataforma de vante, como os juncos de Hong kong e do Bei
Zhili, uma forte peça de madeira, saída e solidamente ligada à ossada, na qual há uma ranhura pouco profunda
servindo de guia ao cabo da âncora que é virado por um cabrestante.
O armamento consiste em quatro peças de artilharia colocadas num parapeito entre os dois mastros de
vante,
JUNCOS DE POLÍCIA DAS ILHAS ZHOUSHAN (PAO CHUAN, nc 19)
Este tipo de junco ( Estampa 8 ) é uma adaptação do modelo local ao papel de vigilância e de repressão
que lhe cabe no distrito das ilhas Zhoushan. A única particularidade que o distingue dos juncos de comércio
desta região é a presença, como no anterior, de um arredomdamento dos dois bordos, destinado a aumentar o
campo de visão do pessoal de serviço e a permitir dar mais espalho às bolinas da vela grande que amarram e são
espertadas à borda. Estes arredondamentos saem das amuradas de ré, como antigamente os ornatos da alheta
dos navios de vela.
Em certos juncos de polícia, o arredondamento engloba toda a parte de ré, por altura do convés; em
outros limita-se aos dois lados do painel.
A mastreação consta de um mastro grande fixado no centro do convés e a vante de um rufo reservado ao
mandarim, de um segundo mastro inclinado para a proa, e a ré de um mastro ligeiro cuja implantação é junto da
amurada de estibordo. Este mastro é aparelhado para içar uma vela, mas a maior parte das vezes serve de mastro
de sinais.
Estes juncos reconhecem-se pelas numerosas bandeiras e pendões que hasteiam no tope dos mastros e no
tombadilho, e pelos dois canhões num parapeito a vante.
O velame e os outros aparelhos de manobra são idênticos aos dos juncos locais.
Os juncos de polícia distinguem-se em geral destes últimos pelo bom aspecto e pela pintura impecável.
JUNCOS DE HANGZHOU
Os juncos de Hangzhou (nc 20) fazem-se notar pelas suas formas e a diversidade da sua decoração
(Estampas 9, 10, 11). Encontram-se nos portos da baía de Hangzhou até à foz do Yangzi Jiang e mesmo em
Shanghai, onde vão raramente. Dedicam-se à pesca ou ao transporte de mercadorias leves como o algodão,
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plantas medicinais, carvão de madetra, etc.
São grandes barcos, de estrutura maciça. com a proa e a popa planas, de forma trapezoidal e elevadas
acima da linha de água nos pontos extremos do tabuado de fundo.
Estes juncos parecem pouco próprios para a navegação costeira. Têm no entanto uma grande superfície
vélica com dois ou três mastros. dois lemes laterais, um leme que se pode içar e um sólido leme de gingar à
popa.
O comprimento vai de vinte à trinta metros.
A decoração exterior merece uma descrição pormenorizada, de tão original e variada que é. Mas as
pinturas expostas às intempéries estão a maior parte das vezes em mau estado e perdem rapidamente a cor pela
acção do mar.
O painel de vante é ornamentado com a figura de um animal fantástico de olhos em relevo, bem abertos,
a boca com longos dentes ameaçadores (Estampa LI). Este mesmo tema é várias vezes reproduzido com algumas
variantes no painel da popa (Estampa 10). Aos bordos, a vante, está pintada a figura simbólica do “Ba Gua” (ne
21 envolvido numa grinalda multicor, enquanto que à popa, uma fénix com as asas abertas, mostra a plumagem
de cores berrantes. Outros ornamentos de natureza alegórica, onde o vermelho e o verde dominam, decoram as
bandas verticais de cada bordo do casco a vante e a ré. assim como a cinta sobreposta que protege o convés.
Estes motivos decorativos variam com a fantasia do proprietário. E assim que a fénix é muitas vezes
substituída por um dos “oito objectos preciosos”, e que as faixas verticais são ornamentadas com motivos
animados (personagens, animais, etc). Nas bordas pintadas em verde figuram iqualmente desenhos rectangulares
dispostos em intervalos regulares imitando portinholas ( Estampa 9 ).
Os pequenos juncos de Hangzhou são em geral mais sóbrios na decoração. O casco é uniformemente de
cor preta, Os painéis de proa e de popa são vermelhos sem nenhum ornamento, salvo às vezes um círculo branco
liso ou então decorado com o símbolo “Yin Yang” (ne 22). O olho tradicional é também representado aos dois
bordos a vante, enquanto que não figura nos grandes juncos.
Todos estes barcos têm uma ou duas coberturas móveis, formadas por grandes esteiras pretas que cobrem
o convés a ré do mastro grande, e caem sobre os bordos por fora das bordas. Servem para abrigar a tripulação.
Alguns juncos têm por altura do convés uma larga cinta que permite ao pessoal circular de vante para ré
sem passar pelas coberturas móveis.
Vários têm os barrotes do convés fortemente salientes para fora do casco, dispositivo que se vê também
nos juncos de Shandong conhecidos pelo nome de “Sha Chuan” (nc 23), descritos mais acima (Costa Norte,
Tomo VIID.
JUNCO DE DINGHAI (DAN CHUAN, nc 25)
A cidade de Zhenhai (ne 24), que é preciso não confundir com a sua vizinha de Dinghai (nc 26), capital
da Grande Zhoushan (nc 16), fica situada na foz do rio Yong (nc 27), na margem do qual se ergue a uma dúzia
de milhas a montante da cidade de Ningbo (nc 5). É um importante centro de comércio de peixe. possuindo
vastas pescarias e muitos depósitos de gelo nas duas margens. O porto pode receber centenas de juncos. que
encontram neste fundeadouro abrigado pelas ilhas Zhoushan uma excelente protecção contra o mar grosso do
largo. Entre as inumeráveis variedades de juncos que frequentam este porto, há um que se distingue facilmente
dos outros pela forma do casco e pela sua decoração. É o Dan Chuan, construído nos arredores de Ningho
(Estampas 12-13).
De aspecto pesado e rústico com uma proa baixa e quadrada, imagina-se dificilmente que este junco
possa fazer face ao alto mar, em paragens tão tormentosas como as da costa Norte e do Golfo de Bei Zhili, onde,
segundo se diz, navega regularmente. À ossada é robusta, consolidada por espessas cintas em relevo que pôem
em evidência um forte adelgaçamento arredondado sobre a linha de água. Distingue-se do Sha Chuan pela
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variedade e pitoresco da decoração. Com um comprimento duma trintena de metros, o casco é pintado de preto
até à parte inferior das bordas que têm a cor da madeira natural, e têm numerosos círculos pintados alternadamente
de azul e branco envolvidos por uma orla vermelha ou branca.
Na parte de vante da borda, três círculos brancos com inscrições pretas precedem o olho simbólico que
tem uma forma especial. À popa eleva-se cinco a seis metros acima da linha de água, e é fechada por um painel
quadrado que repousa sobre o tabuado do fundo o qual fica acima da linha de água.
A maior parte das vezes este painel é pintado duma cor azul clara, de efeito atraente nas águas calmas do
fundeadouro. Tiras verticais vermelhas ornamentadas cada uma com uma roseta em forma de borboleta ou de
coração enquadram o entalhe onde fica o leme, com um grande círculo branco por cima desse entalhe. Esta
bizarra e complexa ornamentação que se encontra na maior parte dos juncos deste tipo não é só devida à
fantasia do decorador ou do proprietário.
Decerto, a tradição perpetuou desde há longos anos o uso da maior parte destes emblemas, na origem
protectores contra os génios malignos; mas outros há, como os círculos pintados de enfiada nas bordas, cujo
razão de ser, nos escapa hoje. Se acreditarmos nas explicações obtidas no local, as inscrições que figuravam
outrora nesses círculos indicavam o uso de cada compartimento do porão ou a natureza da carga que continha.
Os círculos desenhados a vante indicavam o nome do porto de embarque. O conjunto destas inscrições
representava em suma, o conhecimento de carga usado pelos navios modernos.
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Estampa 13 Dan Chuan - Motivos de decoração
O convés destes juncos é protegido por altas bordas que se reúnem a pouca distância da proa por uma
antepara transversal que forma barragem diante das braçolas do porão. A mastreação consta de três mastros
com velas de pendão de algodão curtido com casca de mangueira. No fundeadouro as velas assentam num alto
cavalete colocado entre os dois grandes mastros. Estes juncos usam âncoras de ferro seguras por amarras que
450
passam por pequenos escovéns abertos no painel de vante, e também no de ré para quando for preciso fundear
no rio. Têm um comprimento de vinte e cinco a trinta metros, sendo à tripulação de vinte a vinte e cinco
homens.
GRANDE JUNCO DE COMÉRCIO DE FUJIAN (ne 4)
Este junco (Estampa [4, 15) representa sob todos os pontos de vista o mais belo tipo de navio de mar da
costa da China. Construído, como os outros, com os princípios imutáveis do barco de rio, quer dizer com fundo
chato, sem quilha, a ossada reunindo-se nos extremos não sobre um bloco formando roda de proa ou cadaste,
como nos nossos navios de mar, mas acabando em simples anteparas planas, este junco apresenta uma estrutura
robusta, elegante, um velame perfeitamente equilibrado. que lhe permite aguentar o mar nas mais duras
circunstâncias de tempo e vento. As suas qualidades de barco oceânico foram muitas vezes postas à prova pelos
europeus, nomeadamente na memorável travessia empreendida no século passado pelo Qiying que foi, em
1846, de Hong Kong a Londres, passando pelo Cabo da Boa Esperança, Santa Helena e Nova lorque.
A descrição que foi feita no Tomo III, poderia aplicar-se, com pequenas correcções de pormenor, ao
junco de hoje. As diferenças resultam de certos dispositivos devidos ao ambiente estrangeiro, que os construtores
de Fujian souberam usar em seu proveito para simplificar, em especial, os apêndices do casco. Assim as âncoras
de madeira grosseiras e atravancantes, a do Qiying não tinha menos de dez metros de comprimento, foram
substituídas por âncoras de ferro fáceis de manobrar. As pesadas velas de esteira, de que a principal pesava nove
toneladas, e obrigava a ter uns quarenta homens para a içar, deram lugar às velas leves em pano de algodão.
O leme que atingia o peso incrível de sete toneladas, muito superior ao dos nossos maiores navios à vela
de outrora, foi trazido para proporções mais modestas. Estes juncos podem atingir cinquenta metros de comprido,
oito metros de boca, com uma capacidade de 300 a 400 toneladas. A forma das suas linhas, baixas no centro,
encurvadas nas duas extremidades. dão-lhe uma silhueta elegante ao mesmo tempo que asseguram ao casco
resistência contra as deformações longitudinais. Esta resistência aumenta pelo facto do navio chinês não ter
roda de proa nem cadaste, nem pesadas ligações com o tabuado do casco. Graças à leveza das suas extremidades
levanta-se facilmente com a vaga e não cai pesadamente na cava como os nossos navios de vela que, arrastados
pelo peso considerável das balizas terminais, sofriam forte arfagem e choques violentos tão sensíveis para a
estrutura como para a velocidade. As qualidades bem conhecidas deste junco de mar são devidas à harmonia
das suas proporções, ao equilíbrio bem pensado do velame e à judiciosa repartição do peso do casco. Por isso,
não é de admirar que a sua construção se tornasse clássica em todo o litoral da China. São numerosos, com
efeito, os juncos de comércio e de pesca que adoptaram dos navios do século XV esta estrutura estranha com a
popa elevada e saliente. A silhueta de vante não é menos singular, com os seus altos bordos a destacarem-se na
extremidade numa curva graciosa, como duas asas de borboleta, deixando entre elas uma larga abertura por
cima do painel, para a manobra das âncoras. À cada um dos bordos, um par de turcos, de género europeu,
sustêm uma âncora de ferro, cujas amarras são viradas por um cabrestante modernizado. Dois outros turcos,
saídos do painel da popa, servem para içar uma chata, em lugar de a trazer, como é costume, no convés. Um
primeiro rufo pouco alto é construído no convés pouco a ré do mastro grande; um segundo, de menor
comprimento, eleva-se sobre este, circundado por uma galeria que domina de muito alto todo o conjunto do
convés e envolve por três dos seus lados, o posto do homem do leme. O painel de popa que fecha o casco pela
parte de ré é a marca mais característica e chama a atenção pela originalidade da estrutura e beleza dos ornamentos.
De forma elíptica e inclinado de 60º sobre a água tem a parte superior plana. enquanto à parte de baixo é
formada por dois planos justapostos em forma de diedro, cujo ângulo é ocupado pelo eixo do leme. Por cima
deste diedro, o painel é atravessado por um entalhe estreito e profundo onde se pode travar o leme depois de ter
sido içado e depois inclinado numa posição tal que a madre fique totalmente fora de água (Ver Estampa 21).
Este dispositivo, bem especial da China, permite, se for caso disso, reparar o leme enquanto se navega.
451
Mas a sua verdadeira vantagem é de livrar a popa do navio da incessante trepidação produzida pelo marulho do
fundeadouro, pelo leme que é simplesmente sustentado por cabos sem qualquer ligação rígida com o casco. Os
mastros, em número de três, são em pau-ferro. O de vante, fortemente inclinado para a proa; o mastro grande
central, o mastro de ré muito leve e um pouco fora do eixo do convés. As velas são tipo de pendão normal e em
pano de algodão. A tralha do gurutil arredonda para cima. É de notar que esta curvatura se acentua mais e mais.
à medida que os juncos pertencem a regiões mais meridionais.
A decoração do grande junco de Fujian foi descrita anteriormente no capítulo respeitante à ornamentação
(ver Tomo II). Não voltaremos a isso. Bastará lembrar que é uma das mais curiosas e das mais artísticas que se
encontra ainda nas costas da China. É única pela beleza e pela profusão dos desenhos. que são tão variados na
forma como no colorido.
JUNCOS PARA O TRANSPORTE DE MADEIRA
Entre as muitas variedades que apresenta o grande junco de Fujian, não se poderá passar em claro aquela
conhecida entre os ingleses como “Fujian Pole” (Estampa 16) pelo facto de se destinar ao transporte de troncos
de árvore, que são estivados duma forma muito especial no exterior do navio. O comércio das madeiras é uma
das fontes de riqueza mais importantes de Fujian. Estas madeiras são enviadas principalmente para Shanghai e
para o vale do Yangzi Jiang . regiões formadas por planícies baixas bem cultivadas, onde a madeira de construção
não existe. À estiva da carga é feita em Fujian por especialistas. Uma pequena parte do carregamento fica nos
porões, a mais importante é empilhada no convés. O resto, que representa mais de metade do total, é colocada
aos bordos, pelo exterior do junco. Os troncos de árvore são agrupados horizontalmente no sentido do
comprimento do navio, seguros de distância a distância com barrotes de madeira verticais e fortes amarrações
de bambu que envolvem a carga de um bordo a outro, passando pelo convés e pelo fundo do navio. Chegado ao
destino, a descarga dos bordos faz-se de certo modo instantancamente, largando simultaneamente todos os
cabos aguentando a carga. Nada de mais estranho do que ver no mar estes juncos pesadamente carregados,
avançando lentamente, o casco tapado por uma enorme massa de madeira que triplica a sua boca e lhes dá a
aparência duma casa flutuante à deriva. Só fazem quatro a cinco viagens por ano entre Fujian co Yangzi Jiang.
na época da monção do sudoeste, de Junho a Setembro, que lhes facilita a subida para o Norte.
Os juncos para transporte de madeiras, assim como os que fazem cabotagem, não pertencem todos ao
tipo de Fuzhou.O porto de Ningbo constrói-os de várias maneiras, tendo algumas analogias com o tipo de
Fuzhou. Diferem no arranjo do convés e sobretudo pela forma da parte de ré, que é em geral uma estrutura mais
simples e de mais sóbria decoração. O casco apresenta as mesmas proporções, as mesmas linhas, que asseguram
uma boa postura no mar. À parte de ré apresenta a forma de um “U” que caracteriza à construção local. O painel
é também de forma diédrica em baixo e plana em cima, com um entalhe permitindo receber o leme depois de se
ter posto fora de água. A galeria superior, que dá um cunho tão especial ao junco de Fujian, não existe muitas
vezes no tipo de Ningbo. O painel é ordinariamente pintado duma cor única, azul verde ou branco, enquadrado
por tiras vermelhas. Encontra-se este mesmo tipo de junco, com algumas variantes, no arquipélago de Zhoushan,
onde é geralmente conhecido pelo nome de Wu Cao “casco negro” e onde se dedica à cabotagem ou à pesca
( Estampas 17,18 ). O processo descrito mais acima para o transporte da madeira a bordo dos juncos usava-se
igualmente, de diversas formas, na época em que as florestas de Fujian forneciam em abundância estes preciosos
materiais utilizados na construção naval chinesa.
Encontramos a prova na seguinte descrição, extraída da Viagem à China * e da embaixada de Lord
Macartney, que concentrou em 1793, uma frota de navios carregados de madetra nas costas de Fujian. “Vimos
* Voyage en Chine, por John Barrow, Paris, 1805, página 58.
452
Estampa [7 Ningbo - Junco de transporte
Estumpa 18 Ninghbo - Junco de transporte
453
uma cnorme quantidade de navios chineses, diferentes na forma e no aparelho, de trinta a duzentos toneis de
porte, que singravam ao longo da grande terra. À maior parte estava carregada com pequenas madeiras de
construção, que atingiam no convés tal altura que o mais fraco golpe de vento os podia virar. As vigas e outras
peças de madeira, compridas demais para serem postas só num barco, eram colocadas no convés de dois navios
amarrados um ao outro. Havia pelo menos duzentos pares juntos desta forma que formava uma só frota.
Mantinham-se o mais perto que podiam da costa, a fim de estarem prontos em caso de mau tempo, a entrar no
porto mais próximo, pois não estavam em estado de aguentar o mar durante uma tempestade”.
Esta obra não dá pormenores sobre os navios, mas o relato continua com a descrição seguinte de um
junco de alto mar.
“Os navios que os chineses usam nas suas maiores viagens são tão singularmente construídos, que parecem
pouco próprios para resistir às tempestades dos mares que circundam o seu Império. Em geral, à parte do corpo
de um navio chinês que aparece fora de água, parece-se com a forma da lua no seu quarto dia. A proa ou a parte
de vante do navio não é arredondada como nos navios europeus. É quadrada e plana, assim como a popa. e não
tem esta peça de madeira saliente que se chama talha-mar ou begue, o navio não tem mesmo quilha. De cada
lado da proa, vê-se pintado um grande olho redondo, a imitar, julgo eu, os olhos dos peixes. Os extremos destes
navios são extremamente altos. Uns têm três mastros, outros quatro; cada mastro é duma só peça de madeira e
consequentemente não se pode, em caso de necessidade, arriar uma parte, como praticamos nos nossos navios.
O mastro grande destes navios chineses, como os que fazem com regularidade a viagem para Batávia, não tem
menor diâmetro que o de um navio inglês de sessenta e quatro canhões. Está fixo num caixilho espesso que
atravessa o convés. Cada mastro tem só uma vela, e esta vela é uma esteira tecida com fibras de bambu.
Enforma-se por meio de paus da mesma espécie de cana, colocados atravessados e à distância de cerca de dois
pés uns dos outros. As velas são feitas muitas vezes de maneira a poder-se abrir e fechar como um leque.
Quando estão bem içadas e braceadas, quase da proa à popa, os navios podem singrar com três ou quatro
pontos de vento, mas perdem esta vantagem sobre os navios da Europa, porque a forma redonda e grosseira da
arena e a falta de quilha, causam um grande abatimento com o vento. O leme é colocado numa grande abertura
à popa, e pode tirar-se quando se quer, o que ordinariamente acontece quando se aproxima algum banco de
areia ou um baixo.” :
MAO LAN (nc 29)
Os Mao Lan pertencem ao grupo bem conhecido dos juncos de alto mar, construídos em Fuzhou, e que se
dedicam à cabotagem entre os portos do Sul do Mar da China, Shantou (nc 30), Xiamen, a ilha Formosa, €
sobem até Ningbo e à foz do Yangzi Jiang. São bons barcos para o mar, solidamente construídos, mas cujas
formas maciças os tornam impróprios para um andamento rápido, por pouco que o seja. À proa apresenta várias
formas que estão representadas nas Estampas 19, 20 e 26. Acaba a maior parte das vezes num painel plano e
quadrado, ligeiramente encurvado para a linha de água. No bordo superior deste painel assenta uma enorme
âncora de madeira, com sete ou oito metros de comprimento, cujas patas, com as unhas ferradas, sobressaem no
exterior da proa.
A parte de ré do junco tem a forma e os arranjos habituais adoptados de longa data pelos construtores de
Fujtan: popa elevada com uma galeria à volta, casco talhado em forma oval, fechado por um painel em ângulo
reentrante, servindo de alojamento ao leme que pode ser içado ou arriado, por meio de um guincho colocado
por cima da madre. A mastreação consiste em três mastros dispostos, como as velas, do mesmo modo que no
grande junco de Fujian, descrito mais acima.
Há vários tipos de Mao Lan. Na Estampa 26 a âncora assenta num painel muito elevado entre duas asas
em que termina a borda e aguentam um possante guincho encastrado entre duas falcas que prolongam as asas.
A ornamentação do casco é geralmente abundante nos Mao Lan. As bordas são pintadas com painéis de
454
Estampa 8 Ilhas Zhoushan - Junco de polícia ( Pao Chuan )
Estampa 9 Hangzhou - Junco de comércio
455
Estampa 10 Hangzhou - Junco de comércio
Estampa 1 Juncos de Hangchou - diversas formas de popas e proas
|56
Estampa 12. Junco de Dinghai ( Dan Chuan )
Estampa 14 Junco de Eujian
457
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Estampa 15 Junco de Fujian
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Estampa 16 Fujian - Junco de tranporte de madeira
458
Estampa 19 Junco de Fujian (Mao Lan )
cor verde ou vermelha separados por faixas vermelhas. Nos flancos de ré, figura um grande peixe de linhas
onduladas, enquanto que o painel de vante se faz notar a distância pela cor rutilante e o símbolo Yin Yang em
fundo branco ( Estampa 26). O painel da popa é decorado com o mesmo cuidado e os mesmos motivos que
figuram no grande junco de Fujian.
SHANDONG CHUAN, BEI CHUAN, BEI BO
O Shandong Chuan (ne 11) (Estampa 21) é oriundo de Fujian. Este junco foi buscar o nome à província
com a qual faz comércio regularmente: também é conhecido com o nome de Bei Chuan (ne 31) ou Bei Bo (nc
32). barco do Norte (Estampa 23).
Existe em várias variedades, de grandes dimensões, tendo sensivelmente as mesmas características que o
grande junco de Fuzhou. A mesma forma de casco com tosado do convés muito acentuado, a popa levantada
dominada por uma estreita galeria, à proa solidamente estruturada com as duas asas abertas sobre o convés e
reunidas por um potente guincho. E de notar nos dois lados da amurada de ré. por altura do convés. uma
plataforma saída, permitindo à vigilância exterior e destinada também à evacuação da latrina. A decoração do
casco é do mesmo estilo que a do Mao Lan (ne 29): distingue-se desta última pela pintura das asas de verde
claro e posição do olho tradicional, A popa oferece as mesmas características e decorações que o grande junco
de comércio de Fuzhou, o painel de vante lembra o do Mao Lan nas ornamentações. mas as formas dilatadas da
carena dão um aspecto mais bem lançado, Os grandes juncos atingem quarenta a cinquenta metros de
comprimento, a capacidade 300 a 400 toneladas. São sólidos barcos para o mar. bons manobreiros. embora
pesadamente construídos. No princípio do século existia ainda uma cinquentena comerciando com o Norte,
mas esse número diminui muito com à concorrência dos navios de vapor.
SHANDONG CHUAN - DESCRIÇÃO DO CONVÉS (Estampa 22)
O convés apresenta em metade do comprimento do junco, à partir do centro, três níveis de vante para ré.
459
CCTAP
Estampa 22 Shandong Chuan - Plano
O terceiro é mais difícil de identificar. As suas formas maciças com fundo chato, a sua proa quadrada de
batelão. dão a impressão de se tratar de um junco de rio. Temos todas as razões para julgar, no entanto, que se
trata, neste caso, de um barco de mar oriundo do Golfo de Bei Zhili, região que a Embaixada transpos no fim do
mês de Julho de 1793, para seguir para Dagu (nc 37).
Este barco apresenta alguns dispositivos análogos aos do junco de Jinzhou (nc 38) (Ver Tomo VII, costas
Norte, Estampa 6), em especial na estrutura do casco, consolidado por fortes cintas em arco e no painel de proa
no qual assenta uma enorme antena saída, que serve de guia à espia de fundear. A descrição deste barco não
figura na descrição do Sr. Holmes, a quem fomos buscar as dos dois juncos anteriores, sob o título de Navio
Mercante (Estampa 27) e Navio à Vela. Seguem as duas descrições: *.
NAVIO MERCANTE
Estes navios aventuram-se em viagens longínquas, como Manila, Japão e Batávia, que é o porto mais
distante que frequentam. Vários deles têm 900 a 1.000 tonéis. Para empreender tais viagens, os pilotos esperam
pela estação mais calma do ano e, apesar de bem conhecedores do uso da bússola, afastam-se raramente das
costas.
De há vários séculos a esta parte, os chineses não introduziram a mínima mudança à sua arquitectura
naval. Este povo é tão inimigo da inovação e tão apegado aos seus antigos preconceitos que, apesar do grande
número de navios europeus que tocam todos os anos em Cantão, e da construção de que devem reconhecer a
superioridade, não admitem nenhuma espécie de mudança nem de melhoramento, na maneira de construir Os
seus.
A popa deste navio forma um ângulo côncavo; em outros navios, escava-se uma cavidade na qual o leme
fica abrigado da violência do mar, e, no entanto, este método expõe certamente o navio a muito grandes perigos.
quando com mar grosso andar contra o vento.
De cada lado da proa está pintado um olho com a pupila dirigida para vante com a intenção de lhe dar
parecenças com um peixe, ou com a ideia supersticiosa de que o navio possa assim ver diante dele e evitar os
perigos.
Muitas vezes as portinholas servem de janelas nestes navios, que geralmente pecam por falta de elegância
e comodidade.
*) Voyage en Chine eten Tartarie à la suite de 1º Ambassade de Lord Macartney - por M Holmes, Paris-1805 pags. 15 e 39.
462
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Estampa 23 Bei Bo
NAVIO À VELA
Os navios desta construção são usados pelos comerciantes para transportar os produtos de algumas
províncias nos diversos portos do Império.
O fundo do porão, para maior comodidade, é dividido em vários compartimentos. que são tão bem
calafetados com um composto chamado You Shi Hui (nc 39). ficando à prova de água. que no caso de vir à
haver água aberta, a maior parte da carga fica ao abrigo de qualquer dano, e O próprio navio fica menos sujeito
a afundar-se.
A vela grande e a do mastro de vante são de esteira, de um tecido muito espesso, e estendidas em canas
de bambu que se colocam horizontalmente por trás delas. A vela da mezena e a dos joanetes são de nanquim e
esta última (por um método contrário ao dos europeus), nunca é içada mais alto do que representa a gravura, Às
velas são braceadas ou largadas por meio de cabos ligados às extremidades das canas que as atravessam e que
são chamadas aranhas; desta maneira, a manobra do barco faz-se sem a mínima dificuldade. A proa, como é de
uso em todos os navios chineses, não tem roda de proa. Também não têm quilha, o que os sujeita a um abatimento
considerável. As duas âncoras são feitas duma madeira muito pesada, chamada Tie Mu (ne 40) pau-ferro. As
diferentes peças que as compõem são unidas fortemente e cavilhadas e armadas com pontas de ferro. apesar de
trazerem às vezes grandes fateixas de quatro braços. A cobertura de esteiras arqueadas é à câmara onde os
marinheiros dormem e as canas de bambu, que se vêem no través do navio, estão aí colocadas convenientemente
para as suas necessidades. As várias bandeiras e insígnias dão uma ideia do gosto dos chineses neste campo.
Estampa 25 Proa e popa de um Yan Chuan
+03
ESTAMPA CHINESA
Completaremos esta revista retrospectiva dos juncos de comércio de Fujian pela reprodução duma estampa
a cores desse mesmo tipo de barco, devida, desta vez, ao pincel de um artista chinês. Esta pintura (Estampa 27),
de um género especial, é feita em Cantão, onde encontra muitos apreciadores, tanto estrangeiros como chineses,
à procura do pitoresco. Pareceu-nos interessante apresentar aos nossos leitores um espécime da produção indígena
dos tempos modernos como complemento das estampas apresentadas no Tomo [, sob o título “Marinha de
guerra antiga”, extraídas duma obra do século XVIII. Estas estampas representam, como dissemos, navios de
combate desenhados com muita minúcia, mas cuja precisão de pormenores responde insuficientemente às
necessidades das nossas pesquisas. E mais duma natureza simbólica, portanto sem interesse documental.
Pelo contrário, a gravura a cores do Fujian exprime com a nitidez tradicional da gravura chinesa, mas
também com o exagero do colorido como da ornamentação, a visão evocada pela curvatura do casco deste
barco e pelo conjunto do seu aspecto.
A sua execução é relativamente recente, como indica a bandeira nacional à popa. Já o mesmo não acontece
com o assunto que representa, que a bem dizer não pertence a nenhuma época. sendo obra de um artista, feita no
estúdio, que deu liberdade à fantasia do seu pincel para satisfazer a sua clientela. O chinês pinta raramente à
vista; dispõe para o seu trabalho de cópia de um número muito grande de trabalhos antigos e modernos
profusamente ilustrados, onde encontra todo o género de assuntos para tratar.
Este método de trabalho pode conduzir o artista a iniciativas lamentáveis na representação de barcos, e
induzir em erro o amador de estampas, em especial o arqueólogo naval à procura de documentos inéditos. Mas
tranquilize-se este; a sua tarefa será tornada mais fácil e mais segura se limitar as pesquisas ao estudo da
marinha actual que desde longos séculos está parada, com algumas excepções muito raras, na sua tradicional
imutabilidade.
JUNCOS DE PESCA DAS COSTAS DO ZHEJIANG
Não há viajante que tenha percorrido a costa da China que não tenha ficado impressionado ao avistar as
inumeráveis flotilhas de barcos de pesca que aparecem de repente no horizonte em filas serradas, velas ao
vento, e depois desaparecem à procura duma presa invisível. Durante o dia, este espectáculo não deixa de ser
pitoresco e ter encanto para os passageiros dos navios a vapor. De noite não é a mesma coisa, pois estes encontros
inopinados são um perigo para os navegadores, sobretudo para os juncos que esperam pelo inevitável
abalroamento para revelar a sua presença com luzes e panchões. É principalmente no estreito da Formosa e nas
aproximações das ilhas Zhoushan que se produzem estes encontros.
Segundo as estimativas feitas no fim do século pelos “Imperial Maritime Customs”, o número de juncos
usados na pesca no arquipélago das Zhoushan elevava-se a 20.000 e a população costeira que vivia da pesca a
um milhão de habitantes. Este importante arquipélago, composto por uma centena de ilhas, cuja existência mal
era conhecida dos marinheiros estrangeiros antes da ocupação de Dinghai (nc 26), a sua cidade capital, pela
marinha inglesa durante a Guerra do Ópio em 1840, estende-se ao Sul da foz do Yangzi Jiang, por fora da baía
de Hangzhou (nc 20). Nesta região a navegação é muito difícil, devido às fortes correntes que contornam estas
ilhas com velocidades de sete a oito nós e provocam violentas ressacas e perigosos remoinhos. A estas dificuldades
juntam-se as ocasionadas pelos nevoeiros frequentes da primavera tão temidos dos navegantes, e sobretudo os
terríveis tufões que aparecem inopinadamente e destroem, por vezes num abrir e fechar de olhos, um grande
número destas frágeis embarcações que se ocupam da pesca. Sujeito a estas rudes provas, o marinheiro das
ilhas Zhoushan, assim como o das costas do Zhejiang e do Fujian, adquire qualidades de tal ordem, que nada
ficam a dever às dos melhores marinheiros do Alto Yangzi Jiang, de que já pusemos em evidência, mais atrás,
os feitos. A Sul deste arquipélago, a costa recorta-se numa grande quantidade de aberturas, formando baías
protegidas por ilhas e pontas que servem de abrigo a incontáveis flotilhas de pescadores. Descendentes dos
464
Estampa 24 Fujian - Junco de mar ( Yan Chuan )
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Piadas. 2
Estampa 260 Partes de vante de juncos de mar
+05
Estampa 27 Junco de mar do Fujian ( Estampa chinesa )
Estampa 28 Barco de pesca ( Ningbo Chuan )
+66
Estampa 34 Hhas Zhoushan (Mo Yu Chuan )
Estampa 39 has £houshan - Junco de pesca de Haimen
+67
Estampa 43 Sampana de pesca
e
Estampa 40 Junco de pesca ( Da Bu Chuan )
468
piratas que infestavam o litoral há poucos anos ainda, conservaram durante muito tempo um espírito de
independência em relação às autoridades locais e também aos seus vizinhos próximos que, vivendo dos produtos
da terra, estavam sujeitos às suas depradações.
A cidade de Ningbo (nc 5) foi, desde sempre, um centro muito importante de produção e exportação de
peixe. Numerosos juncos de pesca trazem ali continuamente os seus produtos que são expedidos para o interior
em barcos especiais preparados para o transporte do peixe com gelo. É preciso constatar, uma vez mais. que o
chinês se adiantou a nós, há muito tempo. no emprego do gelo como meio de conservação, enquanto que essa
prática se generaliza apenas de há poucos anos para cá, nos nossos portos de pesca. Esta indústria adquire um
grande desenvolvimento em Ningbo, onde mais de 300 depósitos de gelo estão instalados na planície baixa e
pantanosa da foz do rio Yong (nc 27) que banha esta cidade. Há depósitos semelhantes próximo de Tinghai, na
ilha de Zhoushan. Estes depósitos são formados por quatro muros de pedra de quinze metros de comprimento
por cinco a seis de altura, revestidos por dentro e por fora duma camada de lodo argiloso que assegura à
conservação do gelo. Um grande tecto de colmo, em forma de tenda, cobre o depósito no qual o gelo é disposto
em filas horizontais separadas por camadas de palha. Durante a estação fria o gelo é recolhido todas as manhãs
numa camada muito pouco espessa, da superfície de tanques artificiais, e colocado em seguida nos depósitos.
Os juncos de pesca vêm abastecer-se no local, mas a maior parte das vezes barcos especialmente preparados
para o transporte de gelo asseguram este serviço, tanto na costa como nos cursos de água do interior.
BARCOS DE PESCA (NINGBO CHUAN ne 5)
O upo mais corrente dos grandes barcos de pesca do arquipélago das Zhoushan é o que designaremos
pelo nome genérico de Ningbo Chuan (nc 5), por não podermos atribuir aos numerosos modelos que existem os
nomes particulares sob os quais são conhecidos na região. Os cascos destes diversos juncos ( Estampas 28 a 32)
não diferem as mais das vezes uns dos outros, senão por pormenores secundários que são mais de ordem
decorativa, a marcar o lugar de origem. E assim que se encontram nas águas do arquipélago juncos cujo casco
é inteiramente pintado de preto acima da linha de água, outros pintados da mesma cor ou com a madeira natural.
mas enfeitados com quadrados brancos e vermelhos lembrando pela forma e pela localização as portnholas dos
nossos navios antigos, enfim, juncos que, com ou sem desenhos de portinholas, têm o casco parcialmente
branco acima da linha de água.
Todos estes juncos têm à vante o olho tradicional pintado sobre o casco preto. ou num rectângulo verde.
donde lhes vem o nome de Wu Cao (ne 28) (estampas 17. 18), “casco preto”, ou de Lu Tou (nc 4) (Estampa
33), “casco verde”, nomes pelos quais são designados. A decoração do painel de vante apresenta numerosas
variedades que não deixam de ter significado do ponto de vista da identificação dos juncos, mas parece que sem
relação com a cor do casco. Vêem-se painéis pintados de branco ou de vermelho. Os primeiros são enfeitados
muitas vezes com um círculo pintado de vermelho, e dentro desse círculo há. às vezes, dois crescentes vermelhos,
colocados lado à lado. Os segundos têm quase sempre um círculo branco. O grande peixe vermelho com forma
ondulada, característico dos navios de pesca das costas meridionais aparece aos dois bordos do casco, a ré da
maior parte dos juncos de cabotagem. A esta multiplicidade de decorações, juntam-se numerosas combinações
de painéis com diversos enfeites que ornamentam os cascos, as bordas e o painel da popa. Este simples apanhado
sobre a ornamentação dos juncos de mar, mostra o quão fastidiosa e complexa serta a descrição destas inumeráveis
Hotilhas, tão interessantes no entanto pela sua actividade e o pitoresco das suas cores. Limitar-nos-emos. portanto,
nas páginas seguintes, a descrever as particularidades que mais nos impressionaram.
469
Estampa 29. Barco de pesca ( Ningbo Chuan )
Estampa 30 Barco de pesca ( Ningbo Chuan )
470
Estampa 31 Barco de pesca ( Ningbo Chuan )
Estampa 32. Barco de pesca ( Ningbo Chuan )
471
Estumpa 33 Diversas formas de proas de juncos de pesca (Lu Tou )
MO YU CHUAN (ne 42, Estampa 34)
E um dos tipos mais correntes no arquipélago das Zhoushan. Excelente barco de mar, evoluindo com
facilidade, não cede a palma em nada aos nossos melhores barcos da costa bretã. O comprimento é de quinze a
vinte metros. O casco, ainda que de aparência grosseira, é cuidadosamente construído. O convés é protegido em
todo o seu comprimento por altas bordas de tempo, terminando a parte de vante por duas asas proeminentes
ligadas pelo eixo de um guincho, O painel de ré é elíptico, também enfeitado com decorações pitorescas e
brilhantes. A parte de vante, pesadamente estruturada, ergue-se da água com o painel recortado em agradáveis
contornos, pintado de vermelho vivo com um círculo branco no centro. A mastreação conta com dois ou três
mastros; O do centro, muito alto e robusto, enverga uma vela de pendão de pano de algodão curtido com casca
de mangueira. Esta grande vela é formada, a maior parte das vezes, por duas partes desiguais reunidas por cabos
de bambu. O mastro de vante, ligeiramente inclinado para a proa, é de fraca dimensão, assim como o de ré. A
sua vela é geralmente feita duma esteira fina, reforçada por numerosas varas transversais, bem como a vela de
ré. O convés e os bordos do barco estão atravancados com a aparelhagem habitual da pesca: redes, croques,
arpões, e por vezes uma âncora flutuante em forma de cesto ou de painel de largas malhas que os pescadores
utilizam, com mau tempo, como freio do abatimento ou ainda para reduzir a velocidade em relação ao fundo,
quando arrastam as redes (Ver Tomo II). Com tempo de calma, a propulsão faz-se com dois ou quatro remos
manobrados a meio do convés, enquanto que a direcção é dada por um grande leme de gingar que passa numa
abertura quadrada praticada à altura do convés, no lado de bombordo do painel da popa. A tripulação composta
por cinco a seis homens, abriga-se num rufo colocado a ré à frente do posto do homem do leme. Ainda que
desempenhando uma tarefa que sempre suja, os pescadores das ilhas Zhoushan têm o gosto de enfeitar os seus
barcos de desenhos e cores atraentes, mas que infelizmente não podem resistir muito tempo às arremetidas do
mar e aos seus duros trabalhos. Como a maior parte dos barcos de pesca, este junco é provido com uma dupla
quilha para facilitar o encalhe nos abrigos costeiros.
472
O Mo Yu Chuan (Estampa 34) - literalmente “tinta-peixe-barco”, dedica-se durante o Verão à captura dos
chocos. dos quais se extrai a substância necessária para o fabrico da tinta da China. Esta pesca faz-se à volta das
ilhas, enquanto que a pesca de peixe se faz normalmente ao largo da costa. Para esta última os juncos acendem
no convés, em noites escuras, uma grande luz, cujo brilho atrai o peixe, ao mesmo tempo que chama a atenção
dos navios a vapor. que podem assim evitar os numerosos abalroamentos, sempre desastrosos para Os marinheiros
chineses, porque estes. no seu descuido habitual. desleixam ou ignoram o uso de luzes para assinalar a sua
presença.
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7. 4.
Estampa 35 Junco de pesca das Ilhas Zhoushan
ILHAS ZHOUSHAN
Os pescadores das ilhas Zhoushan utilizam um tipo de junco que lhes é próprio (Estampa 35). Com
quinze a dezoito metros de comprimento, de construção robusta e rústica, difere dos outros pela simplicidade
do painel de popa em forma de “U" e por não ter, em geral, qualquer ornamentação (Estampa 36). Este painel
é fechado por uma única placa, furada na altura do convés, por uma abertura vertical para a passagem do leme,
e duas outras para 0 leme de gingar e a latrina. A estampa 36 mostra várias formas de popa. A proa é do tipo
ordinário, salvo nos pequenos juncos em que é afilada em forma de roda de proa na linha de água e alarga para
cima, para terminar num espesso alcatrate que serve de apoio à âncora de madeira. Os grandes juncos de pesca
fazem-se acompanhar duma robusta sampana (Estampa 37), que se pode içar em dois turcos a ré. Esta sampana
tem à proa um pequeno cunho de amarração e, a 60 centímetros dele. uma antepara estanque.
+78
Estampa 36 — Diversas formas de proas
Estampa 37 Sampana dum junco de pesca
47d
Estampa 38
Sampana - pormenor de apoio
JUNCOS DE PESCA DE HAIMEN (nc 43) (Estampa 39)
É um dos maiores e mais curiosos juncos de pesca que se encontra no arquipélago das Zhoushan. Oriundos
de Haimen, na baía de Taizhou (ne 44), na costa sul do Zhejiang, operam nestes mares piscosos de Abril a
Outubro. O produto da pesca é vendido no local, em Shenjia Men (ne 45), 0 seu porto de base temporário na
grande Zhoushan, ou é expedido para Fuzhou em gelo, por juncos especiais. A Estampa 39 mostra este junco no
fundeadouro fazendo secar o peixe num estendal à borda. À popa duas ou três bandeiras içadas por cima duma
vara com um tufo de folhagem têm por fim atrair os favores da divindade do mar. O peixe desenhado nestas
bandeiras precisa o objecto do pedido.
DA BU CHUAN (nc 46)
O Da Bu Chuan (Estampa 40), literalmente, “junco que anda só”, por oposição ao Dui Chuan (ne 47),
que anda em parelha, é também conhecido sob o nome genérico de Yu Chuan (nc 48), “peixe-barco”. Pouco se
eleva sobre a água, solidamente estruturado, com linhas que se elevam e adelgaçam para vante em forma de
roda de proa. O painel é reforçado por uma forte peça de madeira que é aparente na sua parte mediana. E um
excelente barco de mar que se encontra com todo o tempo no arquipélago, com suas duas velas de espicha,
manobradas a maior parte das vezes por um só homem que toma o leme numa mão e as escotas na outra. À popa
em forma de“ U" fechada por um painel até à altura do convés. O leme com porta muito estreita, vai bem abaixo
da quilha a fim de diminuir o abatimento e dar melhor estabilidade de rumo.
A mastreação consta de duas antenas flexíveis ao longo das quais correm anéis fixados às velas, e da
mesma forma que nas nossas velas de espicha a extremidade livre do convés superior é suportada por uma outra
antena dirigida segundo uma diagonal da vela e cujo pé se apoia contra o mastro vertical. Com bom tempo, uma
bujarrona volante é içada entre os dois mastros; o seu ponto de adriça passa numa polé no tope do mastro
grande, sendo o ponto de amura fixado na extremidade duma antena que dobra o mastro de vante. Este último
dispositivo tem por objectivo evitar a tracção da bujarrona sobre o tope do mastro que é muito frágil. Quando se
vai ao largo ou com vento à popa esta antena da bujarrona é levada para à direcção do vento para o utilizar
melhor. Estes juncos têm uma quinzena de metros de comprimento, as bordas são pintadas de vermelho nas
extremidades e guarnecidas a vante com o olho enquadrado por nove círculos brancos, como nos juncos de
Sandu Ao (ne 49) (Estampas 88 e 89). Entre as duas asas de vante ficam as patas duma volumosa âncora de
madeira,
DUI CHUAN (nc 47)
O Dui Chuan, ou “junco que anda aos pares” (Estampas 41, 42) tem muita analogia com o Da Bao Chuan
que opera nas paragens da grande ilha de Zhoushan. O mesmo casco robusto e afilado, tosado acentuado do
convés sublinhado por espessas cintas; a parte de ré protegida por bordas de mau tempo sobrelevadas, de
formas arredondadas. É um excelente barco de mar, evoluindo com à vontade sob o efeito do velame que
consiste numa grande vela de espicha ou de pendão, e duma segunda, mais pequena. a vante e do mesmo tipo,
sendo esta última, reforçada muitas vezes, com bom tempo, por uma bujarrona fixada na extremidade da antena
em que é envergada (Estampa 42). Às vezes, esta bujarrona é amurada na mesma antena colocada horizontalmente
e que se leva a boa posição para receber o vento à maneira da vela chamada “spinnaker”. usada nos iates de
corrida. Em grande número de barcos de pesca a vela grande é geralmente feita de duas partes e mesmo de três,
tanto na vela de espicha como na de pendão. A parte inferior, cuja superfície representa um terço da da vela, é
unida por simples ligações de bambu à parte superior. Em caso de mau tempo em perspectiva os pescadores têm
assim a possibilidade de se livrarem, antes da largada, duma fracção do velame que lhes dificultaria a manobra
no convés. Estes juncos usam um grande leme de gingar a ré e por vezes um segundo a bombordo, assentando
num “pivot” fixado no exterior da borda.
+75
Estampa 41
Estampa 42
Dui Chuan
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Dui Chuan
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SAMPANAS DE PESCA
As pequenas embarcações chamadas Sampanas ou “San Pan”, “três pranchas”. pululam literalmente nas
costas e em todos os cursos de água da China. No arquipélago das Zhoushan vêem-se de todas as dimensões,
transportando mercadorias e passageiros e grande número pescando. Em geral as suas formas derivam do tipo
Da Pu Chuan, assim como o seu velame. Entre as sampanas de pesca há-as com casco branco, com as formas
finas duma baleeira que não deixam de chamar à atenção pela harmonia das proporções (Estampa 43). Este tipo
está muito espalhado em toda a costa de Xiamen. O comprimento é duma dezena de metros, têm um convés
duma ponta à outra, sem rufo nem abrigo, a não ser uma esteira móvel que os pescadores colocam diante deles
como resguardo para se proteger do vento e da surriada.
SAMPANA DA ILHA DE PUTOU (ne 51)
A pequena ilha de Putou é a mais curiosa do arquipélago das Zhoushan. A população atinge 2.000
habitantes, e é exclusivamente composta de monges budistas. cujos mosteiros e pagodes cobrem literalmete a
ha inteira. As mulheres não são admitidas na ilha. No entanto, são autorizadas a embarcar nas sampanas que
levam mercadorias aos habitantes. A Estampa 44 representa uma das sampanas que circulam em grande número
entre Putou e Dinghai, capital da grande Zhoushan.
JUNCOS DE CARGA
Este junco (Estampa 45) tem alguma analogia com o de Shanghai que foi objecto duma descrição no
Tomo V, Baixo Yangzi Jiang. E, contudo, menos cuidado que este último. O casco é formado por pranchas não
aparelhadas, consolidadas por uma só cinta ao nível do convés. Este convés é plano. mal se notando o tosado,
e à popa eleva-se um abrigo com esteiras para a tripulação e perto do centro há um mastro móvel que se abaixa
para passar as pontes, muito numerosas nesta região do Zhejiang, contígua à bacia do Yangzi Jiang.
A proa é quadrada, formada pelo tabuado de fundo de linhas inclinadas que vai acabar na travessa do
convés. A parte de ré do junco diminui progressivamente de largura até terminar num painel rectangular que
serve de apoio ao leme. À propulsão faz-se por remos de gingar, quando a direcção do vento não permite a
utilização da vela. A amarração ao longo das margens é feita por meio de um forte bambu que se enterra no
tundo do rio depois de ter penetrado num orifício aberto no painel de vante. Nas duas extremidades de ré do
casco são pintadas as marcas distintivas destes juncos de que uma tem a forma de um crescente pintado de
vermelho.
Estampa 4 Sampana de passagem da Hha de Putou
477
RIO DE NINGBO. JUNCOS DE PASSAGEIROS (ne 5)
Este junco (Estampa 46) em forma de batelão e com o comprimento duma quinzena de metros, é utilizado
para O transporte de passageiros nos arredores de Ningbo. O convés é coberto em quase toda a totalidade do
comprimento por uma superstrutura arredondada em que se abriram painéis e janelas e uma larga abertura
transversal para a passagem do mastro. Anda à vela ou à sirga, mas a maior parte das vezes à reboque duma
chalupa a motor. É o “barco de passageiros” usado em Ningbo principalmente em cerimónias de casamento,
enterros e transporte dos caixões que desembarcam em Ningbo vindos do estrangeiro, onde os chineses do
Zhejiang como os do Fujian se expatriam em grande número, sob condição de, em caso de morte, serem
repatriados para o seu país. O casco destes barcos é pintado de vermelho tijolo, realçado por ornamentos muito
simples ou floreados multicores sem significado aparente. A toda a volta do rufo, a borda alarga em forma de
passadiço para a circulação do pessoal e a alagem com vara. O junco fundeia com um simples prumo que
atravessa a ossada a vante e é enterrado no fundo.
PAI GUAN CHUAN (nc 52)
Esta grande sampana (Estampa 47), com um comprimento de oito a dez metros, transporta viajantes e
mercadorias nos canais e rios, € nas baías circundantes. As formas finais e elevadas das extremidades permitem-
-lhe afrontar a navegação costeira. Como o junco anterior, (Estampa 42), tem o convés coberto por um rufo
arredondado, deixando a vante e a ré um pequeno espaço livre para a manobra da vela e dos remos. O mastro
tem uma vela de espicha e entra no porão por uma abertura feita na cobertura do ruto. O casco é pintado de
vermelho tijolo, com o olho a vante e duas faixas arqueadas, em azul, verde e branco junto dos extremos. Estas
embarcações têm a vante das falcas, como a maior parte dos juncos de Ning bo. uma marca distintiva em forma
de triângulo colorido de várias maneiras. No seu conjunto esta embarcação lembra. em maior, o “barco-pedal”
(ver Tomo V, Estampa 96, Baixo Yangzi Jiang).
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Estampa 45 Junco de carga do rio de Ningbo
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Estampa 47 Poi Guan Chuan
NEMO (nc 53)
Não deixaremos as costas das ilhas Zhoushan sem assinalar, a título de curiosidade. o processo usado
pelas gentes ribeirinhas do estuário de Hangzhou para percorrer os lodaçais à procura de conchas. O aparelho
de que se servem para este fim lembra o “pousse-pied” (“percebe”), usado nas costas lodosas do Pertuis Breton,
na Charente Maritime. É uma tina de madeira, chamada Ni Mo, “lama-resguardo”, (Estampa 48) na qual o
homem enfia uma perna. enquanto com à outra empurra com o pé calçado com uma espécie de patim feito de
tabuinhas. No lodo plano, estas tnas adquirem um andamento muito rápido, sem o perigo de se enterrarem.
Este meio de locomoção é usado para o transporte de passageiros na maré baixa. Neste caso, o passageiro senta-
se numa espécie de meia barrica que dois Ni Mo levam a reboque. As gentes ribeirinhas do Yangzi Jiang
utilizam igualmente este aparelho para a pesca.
COSTAS DO FUJIAN. JUNCOS DE PESCA
O litoral do Fujian é recortado por uma infinidade de baías. ilhotas e pontas dando abrigo a uma estranha
população marítima que contrasta, pela mentalidade e pela língua, com os outros habitantes da China. Mantidos
à margem pelas populações ribeirinhas, por causa da tendência que têm para a pilhagem, estes indígenas são
forçados a viver no seu barco, à procura de comida e dos objectos necessários à sua existência de nómadas. São
excelentes marinheiros e também incomparáveis piratas. A bafa de Xinghua Wan (nc 54), com as suas numerosas
angras, dificilmente acessíveis aos estrangeiros, foi considerada ao longo dos tempos como o mais perigoso
valhacoito destes “irmãos da costa”.
Assim, os juncos de comércio, principal objecto da sua cobiça, deviam tomar a precaução de navegar em
grupo. protegidos às vezes por barcos de escolta armados com velhos canhões que chegam para os manter em
respeito. Esta insegurança traz um grave prejuízo aos comerciantes chineses. os quais. não encontrando
seguradores para os garantir contra riscos de pilhagem. passaram para os barcos a vapor, anda que mais onerosos.
E uma das causas da decadência dos juncos de comércio, que vem juntar-se à que resulta do recurso cada vez
mator dos barcos a motor, tanto para a cabotagem como para a pesca.
A província de Fujian não tem outras saídas, senão à costa. Uma grande parte da população vive da
indústria do mar; assim, barcos de pesca e de cabotagem são infinitamente numerosos no litoral e nos cursos de
água. Esta indústria da pesca arrasta consigo a não menos importante indústria de construção naval, O porto de
+79
Estampa 51 Yuan Di - Junco de pesca
Estampa 52
Fuzhou - Junco de pesca
482
Estampa 46 — Ningbo - Junco de passageiros
Estampa 49 Fuzhou - Junco de pesca ( Yuan Di)
|83
Estumpa 53 Fuzhou - Junco de comércio
Estampa 5d Po Chuan
484
condições de fazer a cabotagem no litoral. As falcas protectoras do convés são altas € furadas com numerosos
embornuais que são enquadrados pela mesma pintura vermelha que tem o tabuado da linha de água. O painel de
vante tem um signo distintivo circular branco e vermelho sobre fundo amarelo, e por baixo, o olho branco sobre
fundo vermelho, Entre os dois mastros fica um guincho para a manobra das âncoras.
JUNCO DE COMÉRCIO (PO CHUAN) (nc 58)
Como o seu nome indica, “barco de transporte"co Bo Chuan (Estampa 54) faz transporte de mercadorias
e de passageiros no rio Min (nc 56) e nas baías adjacentes. Há um grande número de tipos de um comprimento
de quinze à vinte e cinco metros. De construção maciça pouco cuidada, as linhas de água são finas na parte de
vante que termina num painel curvado sobre o fundo do casco. Um rufo, ligeiramente arqueado, ergue-se a
meio do convés, para uso dos passageiros, enquanto à ré, simples esteiras postas em arcos servem de protecção
para os três ou quatro homens da tripulação, Uma falca. muito alta, protege este abrigo contra à surriada,
A popa é do tipo ordinário de forma elíptica, com leme podendo ser içado ou arriado por meio de um
guincho que se pode ver por cima do painel da popa. Um só mastro móvel com uma vela reforçada com varas
intermédias e pequenos cabos cosidos em diagonal. O junco tem quatro remos e um remo de gingar lateral à
cada bordo, apoiados numa antena saída. Um dos homens que as manobra, fica em cima duma prancha saída
para O exterior como nos juncos do Alto Yangzi Jiang. O casco é envernizado com “Tong You” (nc 59.) que
conserva a cor natural da madeira. As costuras do costado e as cavidades dos pregos e dos grampos são calafetados
com um betume branco bem à vista.
O olho e o peixe vermelho, símbolos dos barcos de pesca. figuram a cada bordo. Os enquadramentos do
rufo e dos guinchos são igualmente pintados de vermelho.
JUNCOS PARA VIAJANTES (PAI ZD (nc 60)
Este género de juncos é muito frequente no fundeadouro de Pagoda, para serviço dos viajantes do rio
Mine das baias circundantes. O casco e os dispositivos têm alguns pontos em comum com o junco de mandarim
que iremos descrever: construção cuidada, à mesma finura de formas, grande rufo central para passageiros em
que se rasgaram numerosas janelas. A proa triangular, em forma de roda de proa, tem uma plataforma sobreposta
saída, formando passadiço ao longo do ruto. A ré, um pequeno rufo arredondado para a tripulação. prolongado
por uma protecção de esteiras móveis onde fica o homem do leme.
Dois mastros de abater com velas de pendão; o de vante; muito inclinado para a roda de proa. implanta-
-se no painel do porão. Uma âncora de ferro suspensa da roda de proa. O casco é pintado uniformemente de
branco, preto ou amarelo, às vezes fica mesmo na cor natural da madeira. Neste caso, o calafeto da borda e dos
pregos faz-se com um betume branco, que se vê bem do exterior. As obras vivas são pintadas de preto até à linha
de água. À popa é, como de ordinário, de corte oval, desapoiada, com o leme encostado ao painel. Uma abertura
quadrada foi feita para o leme de gingar, e uma segunda abertura, tapada por um painel em forma de quebra-luz
serve de latrina.
No dialecto local, esta categoria de juncos para passageiros. chama-se Pai Zi. Os indígenas preferem este
modo de transporte, às chalupas à vapor, mais rápido mas mais caro, que não obstante aumentam em número
todos os anos.
JUNCO DE MANDARIM (GUAN ZUO CHUAN) (nc 61)
Este junco (Estampa 56) serve na vigilância aduaneira do rio no fundeadouro de Pagoda e servia
antigamente como transporte dos mandarins. O casco é cuidadosamente construído com linhas bem lançadas,
acabando à proa num painel triangular que se curva e aperta em direcção à linha de água. Este painel é decorado
com uma cabeça de animal fantástico, com grandes olhos encolerizados e boca ameaçadora. símbolo protector
+85
contra Os génios malignos.
A popa de corte oval, como se usa na construção local. No convés uma vasta e garrida cabine com
cobertura arredondada rasgada com múltiplas janelas artisticamente esculpidas, era reservada para o mandarim.
Na fachada de vante ergue-se um pórtico pintado de vermelho dominado por um grande mastro semelhante aos
que marcam a entrada de Yamen, em que flutua uma comprida flâmula amarela com grandes inscrições pretas
indicando a presença do funcionário. O casco é pintado de azul claro, pintura realçada por alguns ornamentos
delicadamente coloridos nos painéis da borda. Este junco de mandarim é conhecido pelo nome de Guan Zuo
Chuan, “barco para funcionários”.
Estampa 56 Junco de Mandarim ( Guan Zuo Chuan )
SAMPANA (DAO ZEI CHUAN) (nc 62)
Como em todas as aglomerações marítimas e fluviais, há, em Fuzhou e nos arredores, centenas de sampanas
que se ocupam nas mais variadas actividades, a maior parte das vezes ilícitas. O nome vulgar é - Dao Zei Chuan
- literalmente, “barco de ladrões” (Estampa 60). São em geral tripulados por mulheres que o fazem enquanto os
maridos saem para a pesca. Mostram nas manobras uma habilidade que nada fica a dever à dos melhores
marinheiros. Uma delas, a ré, governa à sampana com o leme de gingar na mão esquerda e o remo na mão
direita, ao mesmo tempo que vigia a comida que se prepara à sua frente. O remo de vante é manobrado pela
mais nova das mulheres, rodeada por uma chusma de crianças, todas bem comportadas e ocupadas em várias
tarefas; uma delas, de tenra idade, empurra com as duas mãos, e muito convencida, 0 remo da mãe: uma outra,
uma rapariguita, lava os seus andrajos à borda, enquanto que os irmãos mais velhos ajudam a velha avó nos
trabalhos domésticos dentro do abrigo de esteira. Por precaução, todo este mundo pequeno tem cabaças ou
pequenas pranchas nas costas e nos ombros para prevenir o perigo de se afogarem, enquanto a mãe traz 0 mais
pequeno às costas. Estas mulheres não desdenham em geral uma certa garridice : trazem pulseiras de prata,
+86
grandes brincos nas orelhas, grandes travessões direitos nos cabelos muito pretos e lisos, constelados de flores
naturais.
Mal chega um navio a vapor, as sampanas acorrem de todos os lados, agarrando-se ao longo do costado
com as suas compridas varas guarnecidas com croques. semelhantes à piratas que temessem que uma presa lhes
escapasse. Tudo isto se passa com uma vozeria indescritível que só acaba quando embarcam o primeiro passageiro.
FUZHOU
SAMPANA PARA PASSAGEIROS
Esta sampana (Estampa 58) representa o modelo mais vulgar em Fuzhou. Assegura as comunicações
duma margem para à outra, assim como com os navios no porto de Pagoda. E uma excelente embarcação
perfeitamente adequada ao fim a que se destina. E limpa, elegante, cuidadosamente construída com linhas
adelgaçando nos extremos. O comprimento é de seis à oito metros. À proa levantada é bem defendida contra o
marulho das ondas, assim como os bordos que são protegidos por falcas. O casco é consolidado por várias
anteparas estanques que delimitam os vários compartimentos destinados aos passageiros, ao homem do leme, à
cozinha. e à manobra dos remos. a vante. Um pequeno mastro ergue-se por ante a vante da câmara dos passageiros;
passa numa abertura praticada num banco e assenta numa implantação quadrada praticada num munhão móvel
colocado entre duas balizas do fundo. A vela é de tecido de algodão. muito leve, mantida por sete varas
intermédias. ligadas umas às outras por merlim ou outro cabo de pequena bitola, que reforçam a vela e aguentam
o peso das varas de bambu. Este dispositivo é usado em Fuzhou, Esta sampana é geralmente conduzida por
duas mulheres (Estampa 59): uma à vante manobra um remo, outra, a ré, segura na mão esquerda um leme de
gingar de governo, e na mão direita um remo de bordo assente num tolete fixo na falca de bombordo. Esta
tancareira pode abrigar-se numa esteira móvel colocada ligeiramente afastada da dos passageiros. o que lhe
permite ver o que se passa diante dela e aos bordos. O casco é pintado com cuidado em várias cores tanto no
interior como no exterior.
A sampana da Estampa 58 pertence ao mesmo tipo que a de Fuzhou, mas é menos cuidada. Há muitas no
rio Min (nc 56) onde é usada no transporte de passageiros e de mercadorias.
Estampa 58 Sampana para passageiros
487
SS
Estampa 59 Fuzhou - tancareiras
JUNCOS DE RIO (SAN SEU PA) (nc 63)
Estes diferentes tipos (Estampa 60) encontram-se no Min Jiang (nc 56) e nos seus afluentes a montante
de Fuzhou; têm vários pontos comuns com os juncos destinados à transposição dos rápidos e que descreveremos
mais adiante. A mesma construção ligeira, pouco cuidada, o convés coberto por esteiras móveis, a ré um leme
de gingar servindo de “Sao“ (nc 64), mas servindo mais frequentemente para a propulsão. A popa é de tipo
local, de forma oval fechada por um painel inclinado ao qual encosta o leme de grande porta. O leme de gingar
passa numa abertura quadrada a bombordo, enquanto o Sao é colocado no eixo do barco. O junco da figura |
não tem leme, o painel de vante (figura 2) é de forma triangular extravasando para os bordos; é decorado com o
símbolo Yin Yang (nc 22) circundado pelo Ba Gua (nc 21) em fundo branco.
Este junco é conhecido no dialecto local com o nome de San Seu Pa. É utilizado no transporte de
madeira para Fuzhou. Outros tipos de construção mais robusta, com falcas altas, pintados de preto, vermelho e
verde, são especialmente destinados ao transporte de pedra (Estampa 61). Estes juncos são às vezes carregados
até a borda ficar a rasar a água. A presença do olho desenhado aos dois bordos e a vante, e o peixe vermelho nas
alhetas indicam que se utilizam na navegação costeira. Têm de resto pontos de semelhança com o Yuan Di que
já vimos mais atrás. É um bom barco de pesca.
JUNCOS DOS RÁPIDOS
A montante de Fuzhou, o rio Min recebe um afluente, o Wulong Jiang (nc 65), rio do “dragão negro”,
cujo curso é cortado por violentos rápidos, inacessíveis aos juncos normais. Esta navegação exige barcos de
formas especiais, com pequeno calado, tripulados por grupos de élite tão bem treinados como os do Alto Yangzi
Jiang. Estes juncos (Estampa 62) apresentam vários tipos de formas e dimensões diferentes. Os maiores chegam
a ter vinte e cinco metros de comprimento mas levam pouca carga, (1.000 quilos mais ou menos) de chá, papel
e rebentos de bambu. São de construção ligeira e rústica; as bordas não são sequer aparelhadas e as falcas
conservam os veios naturais da madeira. Um calafeto grosseiro com betume branco aplica-se nas juntas irregulares
do tabuado do casco e na junção deste com as anteparas.
O casco não é pintado, a não ser na linha de água a ré, onde o tabuado do fundo é pintado de vermelho
numa pequena superfície por onde passa a madre do leme. Esta abertura circular é prolongada por uma fenda
longitudinal destinada a dar passagem à porta do leme, quando se arria para a sua posição normal, ou quando iça.
188
Estunpa 60 Juncos de rio
Estampa 61 Junco para transporte de pedra
A proa é elevada com linhas afiladas. A popa é mais elevada ainda e tem duas falcas. que, ao juntarem-
se na parte mais alta, deixam um espaço triangular no qual assenta o enorme leme de gingar de ré. de um
comprimento igual ao do barco. Estes juncos têm um fraco calado, a baliza mestra alarga rapidamente acima da
linha de água. de maneira que um aumento da carga não influi sensivelmente no calado. É um ponto de primor-
dial importância na navegação em rápidos. O convés é parcialmente coberto com esteiras móveis assentando
em montantes de corno de veado que permitem deslocar as esteiras segundo a importância da carga. Não há
mastreação nem nenhuma instalação visível para a alagem por cabo. Estes juncos usam remos assentando em
estropos ou em toletes de madeira, fixados nas falcas. O grande leme de gingar à maneira do Sao dos juncos do
Yangzi Jiang, substitui o leme nas passagens com corrente. Não é utilizado para a propulsão; no fundeadouro
a pá é levantada tão alto quanto possível.
JUNCOS DE XIAMEN
A cidade de Xiamen (ne 7) fica a sul de Fuzhou (nc 6). na parte meridional da província de Fujian (ne d).
O seu porto é um dos mais belos de todas as costas chinesas; é de acesso fácil e o fundeadouro oferece completa
segurança para navios de todas as tonelagens, nomeadamente para as numerosas flotilhas de juncos que se
dedicam à pesca e à cabotagem. Estes barcos encontram além disso bons abrigos nos numerosos e profundos
recortes escalonados ao longo de toda a costa. Como de resto em toda a parte na China, esses juncos apresentam
489
Estampa 62 Juncos dos rápidos
uma grande variedade de tipos, mas o que distingue mais especialmente os de Xiamen é a finura das formas e
a beleza do colorido do casco, que contrastam duma maneira gritante com a falta de graça e a sobriedade das
ornamentações dos juncos vizinhos do Guangdong. Para quem navegue pela primeira vez no estreito da For-
mosa, onde as flotilhas de pesca se acumulam por vezes em filas cerradas, o espectáculo é verdadeiramente
surpreendente e dá ao viajante uma impressão viva desta marinha chinesa de que ignorava mesmo, até aí, a
existência.
JUNCOS DE COMÉRCIO
Os juncos que fazem cabotagem nas vizinhanças de Xiamen (Estampas 63, 64, 65) são de pequenas
dimensões, quinze a vinte metros de comprimento com uma capacidade de vinte e cinco a quarenta toneladas.
São solidamente construídos e protegidos por falcas altas. Um pequeno rufo de madeira, formado simplesmente
com esteiras móveis, fica a ré do mastro grande. A proa é triangular e encurva em direcção à linha de água; dois
montantes erguidos sobre as bordas, aguentam o guincho da amarra, [im 50 acima do convés. À popa é de
forma elíptica com leme amovível por meio de um guincho encastrado entre os dois arcos botantes saídos da
popa.
Têm dois mastros; o do meio de grandes dimensões, com vela de pendão em tecido de algodão, o de
vante inclinado para a proa com uma pequena vela rectangular de esteira.
O mastro grande é travado na base, por um arco botante no convés. À vela assenta, quando no fundeadouro,
num cavalete montado no convés a bombordo. Manobra-se com um guincho colocado do mesmo bordo, a
vante do mastro. A tripulação abriga-se, a maior parte das vezes, debaixo de esteiras móveis, apoiadas em arcos
no convés a ré. Estes juncos de comércio, como a maior parte dos outros, grandes € pequenos, têm o casco
pintado de cores muito diversas, casco preto, vermelho ou branco, falcas pretas, verdes, vermelhas, ou azuis
+90)
h
Toto] IR
a
Estampa 63 Xiamen - Juncos de comércio
com faixas vermelhas verticais e ornamentados a vante com o olho tradicional em fundo verde. No tope do
mastro há um pequeno cata-vento, muito original, com a forma de um pássaro enfeitado com pequenas bandeiras
espetadas nas costas.
A Estampa 66 representa um junco de carga especialmente destinado à navegação costeira. Não tem
senão um grande mastro com uma pesada vela em esteira. É um dos raros vestígios das velas de outrora. que
tendem a desaparecer.
JUNCO DE PESCA (BAI DI CHUAN) (nc 66)
Este junco consegue reunir as melhores qualidades de um barco de mar com dimensões reduzidas. Se
fosse preciso prová-lo, bastaria recorrer às famosas viagens efectuadas pelo Comandante Waard, da Marinha
Inglesa, que foi a Vancouver, há alguns anos, atravessando todo o Pacífico num junco deste tipo: mais
recentemente, os nossos compatriotas, Senhor Eric de Bisschop e seu companheiro Tatibouet, sendo os dois a
tripulação, fizeram belas viagens no mesmo oceano. É um tipo muito comum no litoral do Zhejiang e do Fujian.
onde é conhecido pelo nome genérico de Bai Di Chuan, literalmente, “junco de carena branca” (Estampas 67,
68, 69). As formas são esbeltas e salientes nos extremos, de tal forma que se o comprimento do convés de
manobra for, por exemplo, de dezoito metros, reduz-se a cerca de doze metros na linha de água. Esta finura do
casco junta à grande mobilidade e à brancura ofuscante da pintura, dá a este junco, no fundeadouro, o aspecto
duma bonita gaivota graciosamente embalada pelas águas.
Na maior parte destes juncos de pesca, o aparelho apresenta particularidades curiosas: o mastro de vante
é uma pequena antena, às vezes um simples bambu, de dois a três metros de altura com uma vela minúscula em
esteira; o mastro grande é curto e atarracado, com uma vela de forma rectangular, feita de palha delicadamente
491
ENA
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Estampa 64 Xiamen - Junco de comércio
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Estampa 65 Xiamen - Junco de comércio
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Estampa 55 Junco para viajantes ( Pai Zi)
Estampa 57 Junco de Puchou
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Estampa 66 Xiamen - Junco de comércio
Estumpa 68 Xiumen - Junco de pesca
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Estampa 67 Junco de pesca ( Bai Di Chuan )
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Estumpa 70 Junco de mar
495
Estumpa 69 Xiamen - Junco de pesca
Estampa 72. Junco de pesca ( Bai Di Chuan )
496
Estampa 73 Junco de comércio
Estampa 74 Juncos de comercio
+97
Estampa 75 Junco de rio
Estampa 77 Sampana de pesca
498
Estampa 78. Jangada de pescadores ( Zhu Pai Weng )
499
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Estampa 71 Junco de pesca ( Bai Di Chuan )
entrançada, consolidada por uma quinzena de varas do lado do vento e por sete ou oito do outro. Este conjunto
dá uma grande rigidez à vela, mas aumenta-lhe bastante o peso. Para contrabalançar esta sobrecarga e facilitar
a manobra, o aparelho foi reforçado por um patarraz duplo encapelado no tope do mastro e que aguenta a vela
no seu ponto de escota (Estampa 68). As bolinas são muito numerosas e de grande calibre, juntas duas a duas.
em pé de galinha, acabando num bloco de madeira com vários furos e ligado a uma espia servindo de escota e
com retorno ao painel da popa.
Uma segunda escota, de maior calibre, é fixada ao ponto inferior c mais a ré da vela: separa-se em dois
ramos, de que um é tesado no extremo de vante, e outro no extremo de ré.
Estes juncos tem duas quilhas falsas que permitem ao casco, de forma arredondada em baixo, manter-se
direito em caso de encalhe.
O leme tem a particularidade comum a tantos outros pequenos juncos de mar, de ter uma porta muito
alongada que desce dois a três metros abaixo da quilha (Ver Estampa 70). A sua acção é tanto mais eficaz,
quanto é relativamente largo em relação ao seu comprimento imerso. Roda sobre si com uma rapidez
extraordinária. Um guincho colocado a ré permite içar a porta para à sua posição normal quando há pouco
fundo. No painel de vante assenta uma grande âncora de madeira, com uma ou duas patas, saindo para O
exterior. Vê-se por esta descrição como o marinheiro chinês se aplicou em aperfeiçoar nos mínimos detalhes o
seu instrumento de trabalho. Graças às formas especiais do casco e à disposição do aparelho obtém duma só
vez, velocidade, estabilidade de rumo, rapidez de evolução. com um barco sólido, bem manobrável, capaz de
enfrentar os piores tempos, apesar das suas pequenas dimensões.
O Bai Di Chuan apresenta numerosas variedades que diferem menos pelas formas do casco do que pelo
aparelho e ornamentação das falcas. A mastreação comporta muitas vezes um terceiro mastro colocado no
extremo de ré com vela de pendão, que se arma numa retranca saída da popa (Estampa 71). Com bom tempo.
içam uma vela de estai triangular entre o mastro grande e o mastro de vante. Graças à sua inclinação sobre a
roda de proa, O pequeno mastro resiste melhor à tracção desta vela que tem o seu ponto de amura no tope do
mastro e o seu ponto de adriça na encapeladura do mastro grande. Esta amura é às vezes feita no extremo duma
500
antena móvel, fazendo arcobotante sobre o convés e apoiando-se por outro lado no meio do mastro (Ver Estampa
BApE
O corte das velas varia consoante a importância do barco. À maior parte das vezes é do tipo de pendão.
com a particularidade da tralha de sotavento ter na parte alta uma curva tanto mais arredondada quanto mais se
desce a costa para o sul. Esta curva atinge toda a amplitude nas velas de Hong kong e de Cantão. Os ornamentos
pintados no casco variam duma região para a outra. Dão um aspecto mais ou menos artístico ào junco, ao
mesmo tempo que possuem um significado para os pescadores e para as autoridades locais, que podem assim
identificar à distância o distrito do barco. Estas marcas distintivas reconhecem-se pela variedade e disposição
das cores pintadas nas falcas e no painel de vante. À falca é normalmente da cor natural da madeira enquadrada
por faixas vermelhas com o olho tradicional à vante num rectângulo verde e o peixe vermelho desenhado na
alheta. O painel de vante tem no centro um círculo em fundo branco ou vermelho.
Podem ver-se no porto de Xiamen e nas suas imediações barcos de pesca de um tipo especial. que
classificaremos na categoria dos Bai Di Chuan não somente pela cor do casco, mas também pela finura das
tormas (Estampa 72) e pelas suas qualidades náuticas. A parte de ré eleva-se numa oval muito alongada,
desapoiada e coroada por uma pequena galeria semelhante à dos grandes juncos de Fuzhou. O guincho da
âncora fica saído da borda de vante bem acima do convés. Quando estes juncos pescam com rede à deriva,
lazem-se acompanhar por uma pequena jangada de bambu, tripulada por um homem (Estampa 78) e destinada
a suster uma das extremidades da rede ou da linha flutuante. O painel de ré é decorado com desenhos simbólicos
realçados com cores berrantes. Estas últimas conservam mais tempo o brilho do que as das bordas, varridas
pelo mar e deterioradas pelas redes, o que as faz perder rapidamente a frescura. No fundeadouro, a maior parte
dos juncos suspendem por baixo da galeria uma esteira (Estampa 99, figura 4) destinada a esconder a abertura
da latrina que todos os juncos desta categoria mostram ostensivamente ao nível do convés, ao lado da passagem
preparada para o leme de pingar.
JUNCO DE COMÉRCIO
O tipo mais característico dos juncos de Xiamen, e ao mesmo tempo o mais comum nesse porto, é uma
espécie de batelão de quinze a vinte metros de comprimento de aspecto pesado. mas de construção cuidada e
decorado com arte (Estampa 73). O porão das mercadorias. que ocupa três quartos do convés. é coberto por um
grande painel assentando numa braçola com a altura de um metro, de secção trapezoidal protegida por uma
pequena falca. Na parte de ré do convés há um abrigo de esteira para a tripulação anqueado nos bordos por um
alto pavêz que passa por cima das falcas. A proa é do tipo ordinário, quadrada ou ligeiramente triangular
inflectindo para baixo. O painel da popa (Estampa 74) lembra como arranjo o do Sha Chuan (ne 23), com o
grande leme inclinado protegido pelas duas asas salientes do casco. Este leme pode ser içado ou arriado por
meio de um guincho colocado no exterior do painel, no qual foi aberta uma fenda dando passagem à madre. Um
único mastro com vela triangular em esteira consolidada por numerosas varas transversais.
Fundeado, esta pesada vela assenta num cavalete, cujos suportes servem de apoio a um guincho utilizado
para a manobra da âncora e da vela. Encostado à amurada de bombordo a ré ergue-se um mastaréu de quatro a
cinco metros de altura. Não têm vela. mas é pintado de várias cores escalonadas em todo o seu comprimento, A
decoração do casco merece uma menção especial, pois não existe nada parecido noutro local,
O casco é pintado de branco com o olho tradicional dos juncos da costa, a vante, e um triângulo vermelho
em cada extremidade superior. O painel de vante tem a mesma decoração dos juncos de mar: círculo branco em
fundo vermelho ou. inversamente, círculo vermelho em fundo branco sob um duplo crescente branco.
A braçola é pintada de azul, debruada de vermelho nos ângulos. A originalidade da decoração observa-se
sobretudo no pavêz que envolve o abrigo de esteiras da tripulação. A superfície é dividida em cinco ou seis
painéis pintados de cores diferentes, os três primeiros geralmente de preto, vermelho e verde com um quadrado
so!
vermelho no centro, os outros de azul, branco ou amarelo, ornamentados cada um com um emblema
personificando a felicidade, a riqueza e a longevidade.
No painel de popa, de cor azul, vê-se às vezes em dois grandes círculos colocados de um lado e outro da
passagem do leme, o Tai Ji (nc 67), simbolizando as duas forças da natureza, o Yine o Yang (ne 22). 0 cata-
-vento do mastro grande, de forma especial, contribui igualmente para dar originalidade à este junco.
Independentemente do velame, usa dois fortes lemes de gingar laterais, apoiados numa plataforma saída
em cada bordo, bem como dois remos. Há várias qualidades destes juncos que diferem sobretudo pelo colorido
e pela disposição dos ornamentos (Ver Estampa 74).
JUNCOS DE RIO
De construção rústica, este junco de rio (Estampa 75) tem a forma de um batelão de igual boca de um
extremo ao outro. O convés é pouco elevado acima da água: é protegido por altas falcas que, na parte central,
formam os lados de um rufo abaulado, protegido por altas falcas coberto de esteiras móveis mantidas a um
bordo e outro por suportes com entalhes.
Barras transversais reúnem o topo desses suportes de um bordo ao outro e servem de cavaletes de apoio para
colocar a vela. De cada lado do rufo, consolas colocadas no exterior da falca aguentam um passadiço móvel que
permite a circulação de vante para ré.
SAMPANA PARA PASSAGEIROS
Um certo número de sampanas (Estampa 76) asseguram as comunicações entre Xiamen e a ilha de
Gulang Sui (nc 68), residência concedida aos estrangeiros. Com um comprimento de seis a sete metros, com
uma boca de dois, solidamente construído, mas duma estabilidade duvidosa, esta sampana tem muita analogia
com a de Xangai. É conservada muito limpa, pintada com cuidado tanto por fora como por dentro. O casco
apresenta um forte adelgaçamento convexo, de linhas elegantes, isto é, realçado com cores e motivos diversos,
segundo a fantasia do dono. Não há nenhum abrigo no convés, excepto uma pequena tenda móvel que se pode
colocar por cima da câmara dos passageiros.
Estampa 76. Sampana para passageiros
502
A ausência de qualquer construção no convés é uma medida de segurança contra as trombas e borrascas que
caem com uma rapidez surpreendente nesta rada. Apesar desta precaução, não é raro, nestas circunstâncias, ver
estas pequenas sampanas virarem-se umas após outras no percurso da tormenta.
O painel de vante tem linhas finas e elevadas, enguanto que a popa é muito larga, com asas proeminentes
que enquadram o leme e o pivot do remo de gingar. À sampana é conduzida só por um homem, com um remo
de gingar ou dois remos colocados na câmara de ré, ou por meio duma vela rectangular içada num mastro muito
leve. Esta vela não deixa de ser original. quando é feita de velhos sacos de farinha ou doutros produtos estrangeiros,
cosidos com cuidado e tendo bem à vista os nomes e as marcas de fabrico, o que é bastante frequente, sem que
haja da parte do proprietário qualquer intenção de fazer reclamo.
O homem da sampana manobra-a com muita habilidade. É nas circunstâncias difíceis que mostra as suas
grandes qualidades de decisão e de resistência. Sozinho na sampana, surpreendido por uma dessas rajadas que
luzem terríveis estragos na terra e no mar, conserva a vela içada até ao extremo limite da prudência. Com uma
mão manobra o leme de gingar de ré ou a cana do leme, com a outra pega na escota da vela e com o pé mantém
a adriça pronta a ser arriada. Por vezes, aperta nos dentes este cabinho cuja manobra tem que ser instantânea.
Este instinto profissional dos marinheiros chineses é a melhor garantia da segurança dos passageiros.
BARCAÇA DE RIO
A forma desta barcaça, ao que parece pouco vulgar na China (Estampa 76), consiste na disposição do
casco composto de duas ou três secções independentes, fechadas por anteparas estanques e ligadas entre si por
um sistema de amarração. que dá a este conjunto de flutuadores a rigidez suficiente para poder ser governado na
navegação de rio. O convés é completamente desempachado, excepto na secção de vante onde se iça o mastro
único com uma vela triangular reforçada por numerosas varas. No convés a ré, na última secção, é o posto de
manobra do patrão que governa por meio duma comprida cana um leme com uma grande porta compensada.
Esta barcaça navega no Long Jiang (ne 69) entre Xiaman e Changzhou (ne 70) a 25 milhas da foz e para além,
nos afluentes. Não temos nenhuma informação sobre a natureza das suas operações comerciais.
SAMPANA DE PESCA
A forma do casco desta sampana (Estampa 77) tem muitas analogias com a da sampana para passageiros
que apresenta as características do tipo local, Mesma proa afilada, popa em forma de “* U “ com um leme e um
remo. Dois mastros, o de vante fortemente inclinado, com uma pequena vela de palha; o mastro grande, muito
pesado. igualmente com vela de palha reforçada por numerosas vergas intermédias. E manobrada por uma forte
escota e bolinas múltiplas. E uma boa e sólida embarcação de mar, com uma dúzia de metros de comprimento,
tripulada por três ou quatro homens que não temem aventurar-se a mais de cinquenta milhas da costa.
JANGADA DE PESCADOR (ZHU PAI WENG (nc 71 Xbambu-dispor-redes)
Esta jangada de pescador (Estampa 78) é chamada Zhu Pai Weng. Encontra-se no mar ao largo de X tamen.
E formada por cinco ou seis grossos bambus de uns dois metros de comprimento, ligados lado a lado, por
cordas de fibras de bambu,
Nos lados há dois apoios em forquilha, onde se apotam os remos. E guarnecida por um só homem que
fica de pé, com uma perna de cada lado da travessa que liga os dois apoios.
Esta jangada é usada para aguentar à extremidade duma rede à deriva ou duma linha flutuante, ficando o
outro chicote a bordo duma sampana tripulada por dois ou três homens.
Vistos a alguma distância, estes homens em cima da jangada parecem andar sobre à água e manter-se aí
com facilidade, apesar da vaga que lhes imprime um contínuo movimento de subida e de descida. E um
espectáculo verdadeiramente curioso que não deixa de intrigar o viajante estrangeiro.
503
CATAMARAN (ZHU PAD (nc 72)
O catamaran (Estampa 79) é uma espécie de jangada utilizada na pesca de rio e ao longo das costas. É
composta por peças de bambu ligadas em forma de rectângulo, de que uma das extremidades é por vezes
recurvada em forma de roda de proa.
As dimensões dependem do uso a que se destina. É assim que os catamarans utilizados na costa da
Formosa, batida por violentas ressacas, atingem oito a dez metros de comprimento por dois a três de boca,
enquanto que, nas baías e rios, o comprimento se reduz a dois ou três metros.
Num maciço de madeira, fixado no centro da plataforma, é implantado um mastro de bambu com uma
vela de esteira. Os grandes catamarans têm dois lemes laterais sem os quais lhes seria impossível cingir-se ao
vento ou rumar contra a vaga do largo. Estes lemes laterais ficam encastrados verticalmente entre dois fortes
bambus no centro da jangada. A tripulação são três homens; dois deles remam de pé virados para a proa com um
remo em cada mão, passados num anel de rota. Não há abrigo para estes homens, a não ser um painel de esteira
colocado verticalmente que os protege do vento e da surriada.
Estampa 79. Catamaran
Quando se utiliza o catamaran para transporte de passageiros, estes ficam numa espécie de selha
solidamente amarrada à plataforma. Quando o catamaran anda à pesca, a selha é substituída por cestos para
guardar o peixe.
O catamaran aguenta bem o mar, é raro vê-lo virar-se em águas profundas, mesmo com muito mar. Pode
acontecer um acidente nas circunstâncias seguintes, quando atravessa uma barra para regressar ao porto:se duas
ou três vagas sucessivas batem na parte de ré do catamaran, isto faz com que ele se empine tão alto que a parte
de vante toque e se enterre no fundo; sobrevém então uma nova vaga que acelera o movimento e vira o frágil
esquife. Apesar deste perigo que expõe os homens a um banho desagrádavel, o catamaran é ainda dos barcos
504
mais seguros de que nos podemos servir para afrontar as ressacas da costa pouco hospitaleira da Formosa. A sua
leveza protege-o dos acidentes. muitas vezes funestos para os grandes navios que enfrentam os golpes de mar.
Estando sempre submerso. é insubmersível. O único perigo que há à recear é o virar-se, ao qual se junta. para os
homens que o tripulam, o de ser devorado pelos tubarões.
O catamaran é igualmente utilizado na costa meridional da China, em especial em Shantou (nc 30), onde
os pescadores se servem dele. como os vizinhos da ilha Formosa, para arrastar no mar uma rede suspensa de
dois catamarans.
No rio de Ningbo (nc 5), os catamarans. ou melhor a jangada de bambu, é usada, como no Ya He (nc 73),
na província de Sichuan (ne 74) para o transporte de mercadorias nos cursos de água pouco profundos. E
formado por uma vintena de bambus, duma dezena de metros de comprimento, solidamente ligados. No centro,
há uma pequena cabana de bambu coberta de palha grosseira, que é ocupada por uma família que passa à
existência inteira nesta miserável palhota desprovida de qualquer conforto.
Nas páginas precedentes fizemos a descrição dos juncos encontrados nos principais portos do Zhejiang e
do Fujian: Ningbo . Fuzhou e Xiamen. As informações recolhidas nas Administrações das Alfândegas Marítimas
Chinesas. facilitaram muito a nossa documentação sobre os juncos de toda a natureza que frequentam estes três
portos abertos ao comércio estrangeiro.
Independentemente das sampanas e outras embarcações locais utilizadas para o serviço e comércio dos
habitantes destas cidades. estes juncos usam-se, se de grande tonelagem, na grande cabotagem nos mares da
China e no Baixo Yangzi Jiang. e são os menos numerosos. Os de tonelagem média fazem a pequena cabotagem
e eventualmente pesca, se à pesca der maior benefício ao proprietário. Fora destes três grandes portos, o litoral
das duas províncias. Zhejiang e Fujian, é recortado numa sequência de baías, mais ou menos profundas, que
abrigam sempre uma enorme quantidade de barcos de pesca e de cabotagem de tipos muito variados. As
circunstâncias permitiram-nos visitar algumas dessas baías, na época em que a pesca está no auge, pelo que
faremos uma breve descrição dos barcos encontrados nestes vários fundeadouros e nas suas redondezas. Não
tendo conseguido obter informações junto dos indígenas, cuja desconfiança em relação aos estrangeiros aumenta
nestes lugares afastados e povoados de temíveis piratas, nem sempre nos foi possível precisar a origem e uso
destes juncos. Contudo, pertencendo estes barcos, com poucas excepções, aos tipos que temos vindo a descrever,
asua identificação poderá deduzir-se. as mais das vezes, das formas e da decoração do casco, já nossas conhecidas.
BAÍA DE NIMROD
A bata de Nimrod fica nas proximidades da foz do rio de Ningbo, no sudoeste das ilhas Zhoushan
(ne 16) que abrigam do mar grosso do largo. Entra mais de cinquenta quilómetros para o interior das terras, com
uma largura de oito à dez. É um abrigo seguro para juncos de pesca, mas de acesso difícil pela presença de
numerosos ilhéus. Mais acima descrevemos os barcos que frequentam esta baía e irradiam para o arquipélago
das Zhoushan e vizinhanças. A Estampa 80 representa uma grande sampana de pesca própria da baía de Nim-
rod. Pertence à categoria dos Da Bu Chuan (nc 46) (Estampa 40), pela forma do casco e os dispositivos do
convés. E um bom pequeno barco de mar. que se aventura longe das costas, apesar da sua parte de vante não ser
protegida contra o mar. Tem o comprimento de cerca de dez metros e uma tripulação de só três ou quatro
homens. O casco é de cor preta com falcas vermelhas, como de resto o painel da popa. Não há, nestas sampanas,
o olho de vante.
BAÍA DE SANMEN (nc 75)
À baia de Sanmen segue-se para sul à de Nimrod, está dela separada por um aresta montanhosa que
descreve nas duas margens linhas sinuosas e recortadas. Muito exposta aos ventos do largo, bem como aos
tufões. é pouco frequentada pelos juncos de pesca que temem, além disso, à presença dos piratas que a infestam.
505
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Estampa 80
Grande sumpana de pesca da baia de Nimrod
O esboço do junco de pesca (Estampa 81) foi feito no momento de chegada, à vela, ao fundeadouro de Shi Pu
(nc 76), numa das três barras que conduzem à vasta baía de Samoun ou Sanmen, literalmente: “três portas”.
Como a sampana de Nimrod, este junco pertence aos tipos Dui Chuan (nc 47) e Da Bu Chuan (nc 46),
principalmente pela forma das suas extremidades de vante e de ré. Além das grandes dimensões difere deles
pelo rufo que se prolonga para os bordos por dois painéis, protegendo da surriada a entrada do alojamento, a
vante, e o posto do homem do leme a ré. A vante do rufo (b) (Estampa 82) o convés é cortado por um comprido
painel envolvido por altas braçolas dando acesso a quatro compartimentos (a, a, a, a). Além do olho tradicional
no casco pintado de preto, não tem qualquer outra decoração. O painel de vante, como o de ré, são pintados de
vermelho. Neste mesmo plano do junco de pesca, (g), representa a cana do leme, (c), o mastro grande, (d), O
pequeno mastro de vante.
BAÍA DE TAIZHOU (nc 44)
Entre a baía de Sanmen e a de Wenzhou (nc 77), no Sul, a costa encurva ligeiramente para formar a baía
de Taizhou, larga e profunda, de acesso tornado difícil pela presença duma barra produzida pelas águas de dois
rios que desaguam em Haimen (ne 43). É deste porto que provém o junco de pesca (Estampa 39) encontrado no
fundeadouro de Shenjia Men (nc 45), porto da grande Zhoushan. A sua descrição foi feita mais acima.
BAÍA DE WENZHOU (nc 77)
Esta baía é formada pelo profundo estuário de um rio, o Wou Jiang (ne 78), que oferece aos juncos um
bom abrigo, protegido do mar do largo por numerosos ilhéus. A Estampa 83 representa um grande junco de
pesca, tendo a cada bordo uma rede envergada numa antena transversal. Está fundeado com uma ou duas
âncoras, na forte corrente das proximidades da margem.
Este tipo de junco apresenta várias categorias, distinguindo-se pela cor do casco e pelo arranjo da decoração.
Com um comprimento de quinze a vinte metros, as duas extremidades levantam e dão ao convés um forte
tosado. O painel de vante, de forma triangular e plana, é elevado por duas falcas em asas de borboleta que
acabam nas amuradas. Estas duas asas são ligadas pelo eixo do guincho que serve para a manobra das âncoras.
O painel de ré tem a forma duma oval muito alongada com um ângulo côncavo para 0 alojamento da madre do
leme. No convés a ré, a vante do posto do homem do leme, ergue-se um rufo de madeira para a tripulação. Este
tipo de junco dedica-se geralmente a pescar no Arquipélago das Zhoushan.
506
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Estampa 81 Baia de Sanmen - Junco de pesca
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Estampa 82 Plano dum junco de pesca da baia de Sanmen
BAÍA DE NANGUAN (nc 79)
Pouco depois de ter passado a fronteira do Zhejiang para entrar no Fujian, vemos abrir-se a baía de
Nanguan que penetra profundamente para o interior das terras. É um fundeadouro muito frequentado pelas
flotilhas de pesca.
O junco de pesca (Estampa 87) pertence à categoria dos Bai Di Chuan (nc 66), de carena branca, descritos
atrás. É um tipo local muito frequente nestas costas. É um excelente barco de mar, sólido e bom manobreiro,
que enfrenta mar grosso apesar das suas pequenas dimensões. Ao invés, o junco da Estampa 85, com a sua proa
larga e quadrada, mal defendido do mar, deve limitar as suas operações de pesca ou de comércio às sinuosidades
da baía. O casco é robusto e pesado, as bordas quase não aparelhadas, são defendidas por uma cinta semi-
circular à altura do convés. Tem dois mastros, sendo o de vante um simples bambu. O casco é pintado de preto
com faixas vermelhas, por cima do reforço, e da cor natural daí para baixo. O painel de ré. de forma oval, é
pintado de verde, com duas faixas verticais vermelhas e círculos brancos enquadrando o alojamento da madre
do leme. O contorno da oval é pintado de branco.
Encontraremos este mesmo tipo de barco (Estampa 98), na baía de Sansha (nc 80), que se segue a esta.
O junco da Estampa 86 tem as mesmas dimensões que os dois anteriores, quinze metros de comprimento,
mais ou menos. De construção cuidada, com o casco limpo e bem mantido, este junco, dedicar-se-á, segundo se
diz, à vigilância da costa que está infestada de piratas. Pertence ao tipo local. Além do seu bom aspecto, distingue-
-se pelo rufo de madeira e pelo encapelamento dos mastros pintados de vermelho vivo.
507
Estampa 83 Baía de Wenzhou - Junco de pesca
A baía é sulcada, como de resto em qualquer outro ponto da China, por numerosas sampanas de todas as
dimensões, de construção geralmente cuidada e robusta (Estampa 87). O casco é reforçado, à altura de borda
por uma cinta arredondada; as grandes sampanas têm duas. O painel de vante, de forma triangular, prolonga-se
acima da borda por uma falca com uma travessa que sobressai dela. A ré, a falca endireita-se para acentuar a
oval do painel e proteger o abrigo de esteiras móveis instaladas em dois arcos. O interior da sampana é dividido
em vários compartimentos separados por anteparas estanques. Ao centro, os dois bordos são unidos, nas sampanas
de pesca, por uma prancha larga e espessa que repousa nas bordas. O casco, de cor branca, é decorado com o
olho tradicional; tem, além disso, a vante e a ré, um desenho pintado em vermelho com a forma duma vírgula
com um buraco no centro, pelo qual passa um cabo, cujo uso nos escapa. Círculos pintados igualmente de
vermelho decoram o painel da popa, por baixo da travessa, que é furada para receber a madre do leme.
O número destes círculos e a sua disposição são verosimilmente signos distintivos que variam de um
barco para outro. A extremidade da quilha é visível debaixo da roda de proa um pouco acima da linha de água.
Estampa 84 Baiu de Nanguan - Junco de pesca
508
Estampa 85 Baia de Nanguan - Junco de pesca
Estampa 86 Baia de Nanguan - Junco de pesca
509
Estampa 87 Sampana de pesca de Nanguan
Estampa 88 Junco do porto de
Sandu Ao ( Wu Cao )
510
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a
Estampa 89 Junco do porto de Sandu Ao ( Wu Cao )
Junco de Sandu Ao ( Wu Cao )
Estampa 90
DRA
BAÍAS DE SANSHA (nc 80) e de SANDU AO (nc 49)
Estas duas baías são contíguas e comunicam com o mar por um único canal perfeitamente abrigado das
tempestades do largo por uma ilha bastante alongada.
É um verdadeiro mar interior semeado de ilhotas que se pode comparar, em escala mais reduzida, ao mar
interior do Japão. É o melhor e o mais seguro porto de toda a costa chinesa e frequentado por numerosos navios
de cabotagem e barcos de pesca.
Entre a grande variedade de juncos utilizados na cabotagem, mencionaremos em primeiro lugar dois
dentre eles, que se distinguem de todos os outros pela decoração das falcas (Estampas 88, 89). Este tipo é pouco
comum na costa e estaria, diz-se, em via de extinção
Estes juncos são da categoria dos Wu Cao (nc 28),"casco negro”. A parte de vante apresenta formas finas
e robustas, como as do pequeno junco de pesca conhecido por Da Bu Chuan (nc 46), descrito mais acima.
O comprimento não ultrapassa vinte metros. As falcas são abertas a vante em forma de asa de borboleta
para deixar assentar a enorme âncora de madeira, com uma ou duas patas, na travessa do painel.
Estas falcas são ligeiramente chegadas para dentro do tabuado do costado (ver Estampa 90), a fim de
permitir que se passe por fora do rufo e se ergue a ré do mastro grande. O casco é pintado de preto, o painel de
vante de vermelho, bem como o enquadramento do painel de ré. Os ornamentos desenhados nas falcas são
específicos do distrito de Sandu Ao (nc 49). O olho simbólico desenhado a cada bordo a vante tem aqui a forma
duma vírgula pintada de branco com um ponto negro ao centro *.
Em cima das falcas, quatro quadrados brancos com motivos azuis e vermelhos, decoram a parte do meio,
em lugar das portinholas, que aparecem em vários juncos do Zhejiang e do Fujian; de seguida nove rodelas
formadas por círculos concêntricos em vermelho, azul, branco, vermelho, sucedem-se, diminuindo de diâmetro
até à extremidade de vante. Um pequeno peixe verde é, às vezes, desenhado na cauda destas nove rodelas. O
grande peixe simbólico dos juncos de pesca figura nas alhetas, em fundo preto ou verde.
A Estampa 91 representa um desses juncos de comércio usado no transporte do chá e conhecido pelo
nome de Anan Soun no dialecto local. Tem três mastros com velas de pendão e, com bom tempo uma vela
triangular, cujo ponto de adriça é fixado no tope do mastro grande, sendo o ponto de amura feito na extremidade
duma antena, em arco botante no convés, e apoiando-se, por outro lado, no meio do mastro de vante para resistir
ao esforço da vela sobre esse mastro. Pertence à categoria dos Bai Di Chuan (nc 66). O casco é branco em
baixo, da cor da madeira acima da cinta, com quadrados brancos e vermelhos a imitar portinholas. Em geral, os
juncos de cabotagem trazem a vante uma grande âncora de madeira com uma ou duas patas.
Nesta mesma categoria dos Bai Di Chuan, “casco branco”, mencionaremos os juncos das Estampas 92,
93,94, que se dedicam, à cabotagem ou à pesca, e frequentam a baía de Santou Ao (nc 49) e os portos de Fuzhou
e de Xiamen. Estes juncos não oferecem na sua forma nenhuma particularidade digna de ser assinalada;
distinguem-se uns dos outros apenas pela disposição das cores no casco. Acontece o mesmo com o junco da
Estampa 95, igualmente de tipo local, com casco preto, que já apresentam algumas particularidades; O primeiro
com um rufo de madeira de cor vermelha protegido por falcas móveis, o segundo (Estampa 96) com o guincho
da âncora colocado em dois suportes elevados ultrapassando o painel de vante; disposição comum a vários
juncos de carga de Xiamen.
*) Esta forma de olho encontra-se pintada igualmente a vante em algumas barcas do Canal de Suez ( 1915)
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As Estampas 97 e 98, pertencem ao tipo Yuan Di (nc 55XEstampa 49), de que têm a mesma forma de
casco, pouco própria para a navegacão ao largo das costas. Uma grande parte do convés é coberta com um feixe
de esteiras móveis, servindo de abrigo à carga e à tripulação. Os juncos de fracas dimensões são ocupados, as
mais das vezes, por famílias inteiras, onde mulheres e crianças de todas as idades. conduzidas por um ou dois
homens, se ocupam do velame e dos trabalhos domésticos. O aparelho do junco da Estampa 97 consiste num
mastro grande, colocado a vante de um abrigo de esteiras, com uma vela triangular envergada numa comprida
antena ao extremo da qual se fixa, do lado do vento, um braço que permite orientar a vela.
O junco da Estampa 98 é do mesmo tipo e de maiores dimensões; tem três mastros aparelhados todos
com três velas de espicha e uma bujarrona volante entre os dois mastros de vante. Este género de velame é de
todo excepcional na costa.
Antes de deixar as costas de Fujian, tão ricas na variedade das formas como na ornamentação dos seus
juncos, daremos (Estampa 99), um resumo dos painéis de popa dos juncos de Xiamen. Estes painéis apresentam,
na mator parte dos casos, coloridos vivos e assuntos tão variados, como os do grande junco de comércio de
Fuzhou (Estampa 14).
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Estampa 97 Baia de Sansha - Junco de pesca
516
Estampa 98 Baía de Sansha - Junco de pesca
Estampa 99. Diversas formas de popas de juncos de Xiamen
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NOTAS CHINESAS
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INDOCHINA
BARCOS DA INDOCHINA
Ao empreender o estudo da Marinha Chinesa bem sabíamos a amplitude desta tarefa, mesmo que
limitada à descrição dos juncos que navegam nas costas da China. Teria sido. porém, lamentável, desde que as
circunstâncias O permitissem. não penetrar no interior deste imenso Império, onde milhares de navios nos
ofereciam os mais curiosos e mais interessantes espécimes da construção naval, Este mesmo pensamento se
pôs ao nosso espírito, quando, tendo percorrido as costas da China e assistido aos desfiles intermináveis dos
seus barcos de pesca e de cabotagem, e nos encontrámos a alguma distância dali, no Golfo do Tonquim, em
presença duma nova fotilha de barcos à vela dos tipos mais estranhos, que não tinha nenhuma relação com os
seus vizinhos próximos. O acesso a este novo campo de estudos foi-nos facilitado pelo Comandante Hennique*,
que teve a amabilidade de pôr à nossa disposição os seus desenhos pessoais, destinados a ilustrar uma obra que
se propunha fazer sobre a Marinha do Extremo-Oriente. o que o seu estado de saúde já não lhe permitia
realizar.
O Comandante não ignorava o interesse que dedicávamos ao estudo desta marinha depois da nossa
primeira comissão no Tonquim, a bordo duma canhoneira que ele acabara de comandar, e onde nós tivemos
ocasião de aumentar a nossa documentação. Esforçámo-nos por realizar o seu voto, juntando este novo capítulo,
no qual são reproduzidos os vários tipos de barcos que ele próprio desenhou cuidadosamente, à vista, durante Os
unos 1884-1885.
Fizemos notar, nas páginas anteriores, como foram poucos os viajantes estrangeiros que se interessaram,
nos nossos dias, pelos navios do Extremo-Oriente. As pessoas mais qualificadas para dar uma opinião com
valor técnico, os marinheiros em particular, abstiveram-se a maior parte das vezes e, nas raras ocasiões em que
o assunto foi tratado, foi-o geralmente duma forma superficial, com o togue da ironia, em que dominava o
ridículo c o grotesco, em que se envolvem os homens chineses.
Eis, por exemplo a descrição de um junco chinês visto por um oficial de Marinha, em 1852, em
Singapura(l):
“Passámos por numerosos juncos chineses contemporâneos da Arca de Noé. E preciso renunciar a descrever
este género de arquitectura naval. Isto lembra, bastante em miniatura, uma catedral da Idade Média, flanqueada
por cachos de cabanas trepando umas sobre as outras, tudo à escala duma aldeia de castores. Vêem-se no
interior, para ré, casinhas microscópicas com os minúsculos telhados arrebitados, depois uma confusão de
cabines e de compartimentos para serem usados por estropiados. Por fora tudo isto é sarapintado, enfeitado com
bandeirolas, e pelo som repetido dos gongos e dos tantãs”.
É O Capitão de mar e guerra Hennique foi um precioso colaborador do Almirante Pâris no seu grande trabalho “Souvenirs de Marine
Conserves Fez publicar, por várias vezes, nesta publicação artigos muito bem documentados, acompanhados de numerosos desenhos
sobre os navios de cabotagem tunisinos, italianos e gregos, os barcos de pesca americanos e os juncos de Ainão (Colecção de planos ou
desenhos de navios e de barcos antigos ou modernos existentes ou desaparecidos com os elementos munéricos necessários à sua
construção, pelo Vice-almirante Páris, 360 estampas em 6 volumes 55x45. Impressos por Gauthier-Villars. 55 Quai des Grands Augustins,
Paris). Às estampas A e B. reproduzem duas águas-fortes gravadas pelo Comandante Hennique, extraídas da sua colecção dos juncos
do Tonquim.
Estes desenhos executados com a minúcia e a finura que lhe são familiares, têm bem o cunho do carácter do artista preocupado,
antes de tudo, em dar à sua obra o valor documental que se constutará nas páginas seguintes.
52!
É esta a descrição do junco conhecido por Sha Chuan, o que apresentámos no Tomo VII, na descrição dos
juncos das costas do norte, como um dos mais belos e puros espécimes da construção chinesa.
Uma outra descrição, não menos pitoresca, é-nos dada igualmente por um oficial de marinha, escritor
bem conhecido dos marinheiros e fino observador (2), que acabara de passar vários anos nos mares da China:
“Os navios de Nearca deviam ser máquinas menos primitivas. Estas compridas caixas rectangulares, no
meio das quais três antenas, quase por aparelhar, se parecem menos com mastros que com árvores mortas,
fariam sorrir as múmias que dormem na pirâmide de Chéops. A popa em andares como se fosse um castelo de
cartas, tem como escudo o dragão imperial com contorsões esverdeadas e de goela sangrenta. A proa está
ornamentada de pavezes escarlate e de dois olhos esgazeados que dão a estas massas informes, qualquer coisa
como a aparência duma foca espavorida. As âncoras de madeira de pau ferro, cuja pata única parece fixada à
haste pelas voltas complicadas do nó gordio, o enorme leme mantido no seu grande caixão por dois cabos
ligados, um deles ao talão do cadaste e passando por baixo da carena, o espesso tecido que substitui as velas, as
lanternas com placas de concha, as portinholas com largura que mal chegam para dar passagem ao tiro dos
grandes canhões fundidos, tudo espanta e confunde nesta bizarra montagem, monumento incontestável da
estranha teimosia dos chineses, curioso espécime da infância da navegação”.
Estes esboços poéticos, sucedendo às monótonas descrições contidas nas páginas precedentes, sobre
estes mesmos assuntos, distrairão por um curto instante aqueles dos nossos leitores que bem quizeram seguir-
nos até aqui; é esta a finalidade com que os apresentámos.
Sem ter a pretensão, se assim se pode dizer, de serem menos primitivos que os navios de Nearca, as
contruções indochinesas, apresentam certas particularidades que denotam da parte dos Anamitas, não menos
engenho e espirito prático, do que o dos chineses das antigas dinastias. Aparecem com dois aspectos diferentes:
na costa do Tonquim, na parte Norte da Indochina, predominância na construção local dos métodos chineses em
uso na província de Guangdong; no conjunto das costas do Annam e da Cochinchina, construção indígena com
raros contributos estrangeiros.
Não voltaremos às características da construção sino-tonquinesa que foram dadas mais acima nas descrições
do junco de balanceiro e da sampana de piratas da baía de Along (Cap. VII, Costas Sul). O nosso propósito, nas
páginas que seguem, será realçar as linhas gerais da construção indígenas tal como foram observadas nos
barcos da costa Indochinesa de 1884 a 1910.
SAMPANA FAMILIAR
A vasta baía de Along serve de refúgio a inumeráveis sampanas de todas as categorias que encontram nas
mil dobras da costa e no dédalo das suas ilhas, segurança completa e abrigos discretos para os que se dedicavam,
ainda há alguns anos, ao trutuoso ofício da pirataria. A maior parte destas sampanas são ocupadas por famílias
inteiras, vivendo exclusivamente do peixe em que à baía de Along é muito rica, e que homens, mulheres e
mesmo as crianças de pouca idade, pescam habilmente à linha ( Estampa 1). Os produtos da pesca são trocados
nas aldeias da costa, pelo arroz e outros géneros necessários à sua subsistência. Estas sampanas são duma
estrutura robusta, mesmo um pouco grosseira, com as extremidades planas e elevadas; a de ré com um leme
com porta perfurada de modelo chinês. Ao centro, ergue-se um rufo de pranchas cobertas de esteiras que servem
de abrigo à família, por vezes muito numerosa, que vive na calma da maravilhosa baía.
A sampana familiar, tão comum nos cursos de água chineses como já vimos mais atrás, é igualmente de
uso corrente nos arroios e nas costas abrigadas da costa indochinesa. Em 1793 as pessoas do séquito da Embaixada
de Lorde Macartney, tiveram ocasião de ver estas sampanas, quando passaram na baía de Turon (Tourane).
1) Mes Souvenirs Maritimes (1837-1863) pelo capitão de fragata E. Souville.
2) Vovages en Chine (1847-1850), pelo Comandante Jurien de la Graviêre.
522
Mereceram-lhes especial atenção as precauções tomadas para evitar que as crianças se afoguem. Eis o
que relatam sobre este assunto*:
“A baía tem muito peixe. Vêem-se aí botes, onde pescadores, mulheres e os filhos habitam todo o ano, A
câmara destes botes não tem por cima um convés plano como o dos navios, mas uma curvatura em forma de
abóbada arredondada; amarram-se ao pescoço das crianças bocados de cabaças, para, se caírem ao mar, a
cabeça ficar de fora, e não se afogarem *
A Estampa | mostra três crianças equipadas com cabaças, das quais uma se dedica com sucesso à pesca
à linha.
SAMPANA PARA PASSAGEIROS
Há um outro tipo de sampana de menores dimensões muito comum na baía de Along, tanto como em
Haiphong e no delta do rio Vermelho (Estampa 2). O casco delicadamente construído, com as extremidades
elevadas e bem lançadas, faz com que esta pequena sampana, émula da gôndola de Veneza, se especialize no
transporte de passageiros. Só tem convés a meio, debaixo duma comprida palhota que serve de habitação ao
proprietário e à família. A parte de vante é reservada para os viajantes. Chegada a noite, são instaladas esteiras
móveis nas duas extremidades para proteger a família do vento e da chuva. e para aumentar 0 alojamento, As
linhas do casco derivam das da piroga; a roda de proa arredonda-se numa curva elevada em forma de colher,
enquanto a parte de ré, mais elevada ainda, acaba em ponta com um leme com uma comprida madre, cuja cana
é manobrada por meio do pé pelo remador da popa.
Os tonquinenses, assim como os anamitas, remam em pé como os gondoleiros, balanceando o corpo para
vante; às mulheres sobretudo mostram na manobra dos remos graciosos movimentos, com um ritmo mais ou
menos acelerado conforme as circunstâncias do andamento. Algumas destas sampanas têm uma vela de pano
reforçada com varas transversais, largamente espaçadas, com escotas múltiplas, à maneira chinesa. O mastro é
um forte bambu, implantado num banco a vante da palhota. O casco é pintado de preto, sem qualquer ornamento,
nem mesmo o olho tradicional que decora cada bordo da proa da maior parte dos juncos dos mares da China.
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Estampa 2. Haiphong - Sampana para passageiros
* Vovage dans 1 intérieur de la Chine eten Tartarie, por Lord Macarmey, 1792-1794, Paris. E Buisson - An 7 de la Republique-Vol.
pág. 140,
CARTE DE LINDOCHINE.
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Estampa À Sampana SÃO dos navios chineses ( Agua - forte do Comandante Hennique +
Estampa B Pequeno Ding tononne da Uha de Hainan ( Agua - forte do Comandante Hennique )
MANH
A Estampa 3 representa um tipo de junco de mar chamado Manh ou Magn, da província de Nge An. no
Tonquim meridional. O esboço que reproduzimos fielmente foi executado pelo Comandante Hennique. Nenhuma
descrição o acompanha. Esta lacuna é tanto mais lamentável. quanto este tipo de junco é pouco vulgar, e o seu
desaparecimento será, talvez, um facto consumado no momento da publicação da presente obra. Teria sido
interessante levantar o véu que esconde aos nossos olhos de ocidentais, este velame original, único nos mares
da China. O seu corte bizarro, em forma de leque sulcado de múltiplos reforços entrelaçados não deixa de
despertar a atenção. Muitos pormenores, não menos importantes, mereceriam ser conhecidos. E assim que o
leme, de que se entrevê a cana e a extremidade da porta parecem pertencer ao tipo da China meridional, bem
como as múltiplas bolinas da vela que os anamitas raramente utilizam.
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Estampa 3 Manh - Junco de mar anamita
Sabendo o cuidado que o Comandante Hennique pôs na execução dos seus esboços, todos feitos à vista.
não se pode duvidar que estamos na presença de um tipo híbrido sino-anamita, cujo velame é de origem que não
podemos precisar. Voltamos a encontrar esta vela reforçada por fasquias divergentes, mas de um corte mais
simples, no junco chinês de balanceiro do golfo de Tonquim (Estampa 26, Tomo VHI - Costas do Sul) e num
pequeno junco de pesca de Fai Fo (Estampa 21). Este último tem, como o Manh, um leme com porta rectangu-
lar do tipo chinês, com madre vertical atravessando o casco.
526
Estampa do Gai Bão - Navio de cabotagent anamita
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Estampa 5 Grande Gai Bao - Navio de cabotagem anamita
GAIBAO
O junco Gai Bao representado nas Estampas 4 e 5, é, sem contradição, o tipo mais curioso, mais original
e também o mais atraente dos barcos da costa do Annam, e o que melhor caracteriza a construção local. O seu
fino corte, ligeiramente encurvado a meio, ergue-se nas extremidades e, sob as suas velas triangulares, ditas de
pendão, lembra pela silhueta adelgaçada, uma bela balceira. Entre a miríade de juncos que navegam nos mares
da China, o Gai Bao é único no seu género. O casco é feito de pranchas unidas a topo por meio de compridos
pregos de ferro, e ligadas às balizas por cavilhas de madeira. A ossada é formada por balizas, cujas partes
justapostas não se tocam, de anteparas transversais e de vaus por altura do convés, saídas na maior parte, por
fora do tabuado. Não há quilha aparente por fora do casco; esta consiste em pranchas espessas que se prolongam
para as duas extremidades do casco para formar a roda de proa e o cadaste. Alguns Gai Bao de grandes dimensões,
dedicando-se à cabotagem, apresentam, na forma do tabuado exterior, uma deformação que parece inexplicável
à primeira vista. Trata-se do adelgaçamento exagerado apresentado pelo casco pelo través do mastro grande,
enquanto que as extremidades mantêm a boca normal, (ver Estampa 6). Esta deformação tem por fim diminuir
a taxa aduaneira que é baseada na boca do junco, medida neste ponto. Já chamámos a atenção para esta fraude
em vários juncos doYangzi Jiang (Cap. IV ) e do Shandong (Cap. VII, Costas Norte). O casco é pintado a maior
parte das vezes de preto na parte superior; têm a cada bordo, a vante, o olho tradicional preto, sobre fundo
branco, mas maior em comprido que o que decora os juncos chineses.
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Estampa 6 Plano e corte de um Gai Bao
A parte inferior do casco é revestida com um betume branco feito de óleo de coco, de resina e de cal,
substituindo o calafeto e destinado a preservá-lo do taredo. Por vezes, a mesa das enxárcias do mastro grande é
ornamentada dos dois lados por uma faixa curva pintada de verde e realçada por uma lista branca a dizer com a
carena, que é da mesma cor. O maciço de madeira assente em cima da roda de proa, os guinchos e a extremidade
dos vaus em relevo, são pintados de vermelho. O interior do casco (Estampa 6) é dividido em vários
528
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compartimentos, cobertos por pranchas móveis ou de fasquias de bambu. A ré do mastro grande há um rufo de
madeira, ou uma simples palhota coberta de folhas de palmeira, servindo de abrigo à tripulação. A cozinha que
se segue, faz-se numa caixa, ou num enguadramento de madeira cheio de terra com um tripé ao pé do poço.
onde se recolhe a água da secagem do porão. No bordo oposto há uma selha, comunicando com o exterior, para
serviço da latrina.
Os mastros assentam por uma mecha em fortes pranchas colocadas sobre as balizas do fundo. A parte
inferior é quadrada e encerrada entre duas fortes falcas ligadas por cunhas de madeira. Guinchos, dispostos à
maneira chinesa para a manobra das velas. estão no pé dos dois mastros principais. Nos grandes Gai Bao a
manobra das âncoras faz-se por meio de um cabrestante colocado entre os dois mastros. A madre é furada na
parte superior por dois orifícios para receber as canas: o seu pé assenta por baixo do convés num suporte fixado
numa antepara. Os mastros são suportados por fortes ovéns constituídos por dois ou três juncos ligeiramente
torcidos; as extremidades superiores terminadas por anéis estão presas em cavilhas que atravessam o tope do
mastro; as extremidades inferiores abraçam o contorno canelado duma bigota. bloco de madeira de forma
oblonga escavada na parte central onde entra o cabo de rota destinado a espertar o ovém, Este cabo passa numa
abertura praticada entre o tabuado e uma forte peça de madeira aplicada no casco à maneira das mesas de
enxárcia dos nossos navios antigos.
As velas são envergadas em compridas antenas ladeando o mastro e numa retranca igualmente comprida.
São feitas de esteira de folhas de palmeira leves e flexíveis, mas deterioram-se rapidamente com a chuva e a
humidade. Os grandes Gai Bao, que atingem uma trintena de metros de comprido e cinco a seis de boca, têm
três mastros. cuja altura diminui progressivamente, o maior ao centro com cerca de quinze metros, o de vante
cinco a seis metros. Nos pequenos Gai Bao este último é as mais das vezes suprimido e sustituído por uma
bujarrona tesada na roda de proa. A vela grande atinge 25 metros de envergadura e outro tanto de guinda, e
quinze metros de tralha ao longo da esteira. À sua superfície ultrapassa cento e cinquenta metros quadrados: a
segunda vela é o terço da grande, e a de vante mais ou menos o sexto. A antena grande é formada de duas peças
que encaixam e são ligadas com rota: a extremidade inferior é presa no mastro por meio duma amarração
flexível, da mesma forma que a retranca, na qual é trincafiada a tralha. A retranca é sustentada por um amantilho
que passa num sapatilho na romã e é virado ao guincho. Uma ou duas carregadeiras, no alto da vela, permitem
reduzir a superfície do velame. Os grandes Gai Bao juntam a estas três velas. uma bujarrona e uma vela de
contramezena, envergadas numa retranca (Estampa 5). Estes barcos aguentam bem o mar, evoluem rapidamente
num curto espaço, por meio de um leme muito inclinado e de grande superfície e cujo pé desce abaixo do
tabuado de fundo (Estampa 6). A forma dada à porta para se ajustar à curva do cadaste tem por efeito diminuir
o esforço a fazer no leme, passando para vante do eixo de rotação uma parte da superfície da porta.
Os construtores anamitas, como os chineses, foram levados pela necessidade da construção a fazer o
leme compensado, do qual ignoravam certamente as vantagens. No fundeadouro o leme é içado e colocado ao
longo do costado por dois turcos aguentados por uma travessa. A vante, assente na roda de proa, uma outra
travessa com duas cavilhas de madeira, serve de guia ao cabo da âncora, a qual se amarra em seguida à volta do
cabrestante. A âncora é de madeira com duas patas. É muitas vezes lastrado por meio duma pedra fixada ao pé
da haste (Figura 6, Estampa 16). Os navios de cabotagem do Annam, como os da Cochinchina nunca se afastam
muito dos seus países, Não os vemos, como os juncos chineses, nos mares do Sul, na Malásia ou nas ilhas de
Sunda,
Há bastantes variedades de barcos de forma análoga à do Gai Bao mas de dimensões mais reduzidas. que
fazem cabotagem no rio de Saigão e nas costas da Cochinchina. A maior parte deles são usados no transporte do
sal, do peixe salgado e sobretudo do Nuoc Mam, espécie de condimento muito apreciado pelos anamitas. A
mastreação consta de dois mastros, um ao centro de grande diâmetro, outro à vante mais leve; um terceiro
mastro móvel de fraca dimensão pode ser colocado a um bordo ou outro, numa implantação colocada no exte-
rior da falca de ré. As velas são feitas de palha de arroz, do tipo de espicha, envergadas numa antena e numa
retranca. No convés a ré, uma comprida palhota serve de abrigo aos cinco ou seis homens da tripulação; é
protegida por uma falca móvel que se estende até à popa. O casco apresenta as mesmas decorações que as dos
Gai Bao do Amman com algumas pequenas variantes na cor da carena, que é a maior parte das vezes envernizada
com Tong You.
SAMPANA COM BORDAS COSIDAS
Os indígenas da costa do Annam não dispõem a maior parte das vezes de pregos para a construção das
suas embarcações, pelo que imaginaram, para montar o tabuado, um processo muito engenhoso que merece ser
descrito em pormenor. Estas embarcações pertencem ao tipo sampana e asseguram o transporte de passageiros
e mercadorias nos cursos de água e nas baías abrigadas, como as de Cam Ranh e de Qui Nhone. São relativamente
compridas, muito leves e atingem às vezes dimensões bastante grandes. As mais pequenas são formadas por
três pranchas (Estampa 8), as maiores por cinco (Estampa 7), com cada uma das pranchas indo de um extremo
ao outro do casco, que é assim formado de pranchas que não são emendadas. A primeira operação do construtor
consiste em perfilar as pranchas na largura e de topo de forma que uma vez justapostas e montadas a toda a
largura, a forma do casco seja obtida sem curvas nem balizas. A operação mais delicada é a ligação das pranchas
por meio de rota, depois a calafetagem das juntas.
As pranchas destinadas a serem ligadas são furadas a alguns centímetros do seu bordo comum e a pouco
mais ou menos 25 centímetros umas das outras, dois entalhes vizinhos comunicando entre eles por baixo e
colocados em face um do outro, à mesma altura nas duas pranchas (figura 3). Um fio de rota passa sucessivamente
em cada um destes entalhes para fazer um anel de que as duas extremidades estão solidamente unidas (figura 1).
Estes anéis sucessivos e todos iguais, são para receber bocados de madeira, ligeiramente arqueados em forma
de cunha, que permitirão a montagem das duas pranchas depois de terem sido introduzidas com força a golpes
de malhete (figura 3).
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Estampa 7 Annam - Sampana de cinco bordas cosidas
530
O vácuo existente por baixo destas. no ângulo formado pelas duas pranchas é cheio com fibras de coco
fortemente comprimidas a fim de assegurar a estanquecidade da junta. Para as embarcações de grandes dimensões
ou destinadas ao transporte de cargas pesadas. as cunhas são reforçadas e dobradas em comprido de forma que
debaixo de cada anel se sobreponham com três espessuras. o que aumenta consideravelmente a resistência da
montagem.
As figuras 1,2, 3, mostram os pormenores da montagem dos cascos formados por três e cinco pranchas
cosidas umas às outras. A Estampa 8 representa uma sampana do rio de Qui Nhone, com o comprido de dez
metros, mais ou menos, cujo casco é feito de três pranchas, cada uma indo de um extremo ao outro.
A Estampa 7 é um barco de pesca da baía de Cam Ranh duma quinzena de metros de comprido. com um
mastro único com vela e de um leme compensado, cuja porta, com 1,80m de comprido se liga à madre por dois
anéis de rota. Além das cinco pranchas que formam o casco, as extremidades de vante e de ré são levantadas por
uma falca, a fim de as proteger do mar. Esta falca de perfil triangular, é fixada à borda por simples amarração de
bambu. A de vante é ornamentada com o olho tradicional e uma figura simbólica em forma de alfange escavado
na madeira e pintado de vermelho. O mastro assenta sobre um maciço de madeira colocado directamente na
prancha do fundo. É suportado por dois ovéns de cada bordo, feitos de dois bambus levemente torcidos um no
outro. Dois compridos lemes colocados, um a vante a estibordo, outro a bombordo a ré assentando em toletes de
madeira fixos por lianas dentro da borda, completam o aparelho desta embarcação duma estrutura primitiva.
Os barcos com borda cosida foram objecto da seguinte descrição na Viagem à China e à Tartária, de
Lord Macartney em 1793 (Vol. IL página 153):
Estampa 8 Annam - Sumpana de tres bordas cosidas
“As canoas usadas vulgarmente na Cochinchina, consistem somente em cinco pranchas juntas. sem curvas,
nem nenhuma espécie de armação. Levam-se as pranchas ao fogo para lhes dar a forma conventente. São
reunidas lado à lado nas extremidades, e ligadas ou cosidas umas às outras pelos bordos, com pequenas cavilhas
e bambu fendido bastante fino para formar um fio flexível. Untam-se depois as costuras com uma pasta feita
com cal de conchas e água. Outras canoas são feitas simplesmente de vime*, e untadas por toda a parte com a
* Trata-se de barcos com carena entrançada que descreveremos nas páginas seguintes.
531
mesma pasta de cal de conchas, a fim de a água não poder entrar. Os naturais da Cochinchina pintam sempre
olhos na proa das suas canoas, como se quisessem dar a entender com isso que é preciso estar vigilante para as
conduzir. São notáveis pela sua habilidade em meter a proa no embate com as vagas, pela forma hirta como
estão de pé nas embarcações, e pela rapidez com que navegam”.
BARCOS DE CARENA ENTRANÇADA
À penúria da madeira de construção que se faz sentir na Cochinchina, no Tonquim e ao longo das costas
do Annam, onde as florestas são dificilmente acessíveis, conduziu os habitantes destas regiões a recorrer ao
bambu na construção dos seus barcos. Vêem-se nestas paragens muitas embarcações e mesmo barcos de mar
feitos com bambus entrançados.
Um dos meios de transporte correntemente usados pelos indígenas para ir duma aldeia para a outra ou
atravessar os rios é um simples cesto de forma oval, com 1,50 metros de comprido e 0,80 de largura, com
bordos reforçados e o fundo mantido separado por pranchas transversais (Estampa 9). A sua grande leveza
permite transportá-los às costas, para os abrigar, uma vez acabado o trabalho *.
Estampa 9 Annam - Sampana - cesto
* Os habitantes das margens do Tigre utilizam, entre Bassorá e Bagdad, um engenho deste género chamado “couffa”, uma espécie de
cesto redondo feito de folhas de palmeira entrançadas e cobertas com uma camada de betume. E tripulado por um homem que manobra
um remo, como se fosse um remo de gingar, ou melhor uma pagaia que mergulha sucessivamente a um bordo e outro.
332
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Estampa 10 Annam - Sampana de carena entrançada da baia de Qui Nhone
O tipo seguinte, por ordem de grandeza (Estampa 10), é a sampana usada pelos indígenas da baía de Cam
Ranh que se dedicam à pesca de mariscos. E uma espécie de piroga muito leve, de 2,50 por 3 metros, tendo as
duas extremidades reforçadas por pequenos bocados de madeira.
A proa eleva-se prolongada por uma pequena roda de proa ponteaguda, à qual está amarrada uma minúscula
âncora de madeira de forma usual com uma ou duas patas. À popa um pequeno leme com porta compensada
gira entre os dois ramos duma pequena prancha curva que atravessa o casco (Estampa 38, figura 6). O pescador
utiliza-o quando iça uma pequena vela num bambu implantado na travessa que une as duas bordas.
Em Qui Nhone, um pouco mais ao Norte, podem ver-se numerosas variedades destas embarcações feitas
inteiramente com bambu entrançado, que pescam não só na baía, como no alto mar. São verdadeiras pirogas,
mais ou menos compridas, construídas da mesma forma e tendo duas ou três velas. São conhecidas, segundo o
seu uso ou o género de pesca que praticam, por nomes tão diferentes, como Gai Manh, Gai Caou, Sou Hong.
Chong Beuil, etc.
A maior, conhecida pelo nome de Gai Manh (Estampa 11), tem, como o Gai Bao, três mastros ligeiramente
inclinados para ré. À sua altura diminui progressivamente do centro para vante. As velas são de pendão e
envergadas em compridas antenas e tesadas numa carangueja. A guinda a vante é muito pequena. A vela é
aumurada ao mastro no ponto de junção com a carangueja. O casco é pintado de preto; é enfeitado a vante com
o olho e nos bordos com duas figuras pintadas de amarelo em forma de foice. A proa é protegida por uma peça
de madeira móvel encastrada na roda de proa. Este dispositivo é comum também nos grandes juncos de carena
entrançada e bordas de madeira.
O Sha Hong (Estampa 12) é uma barca de pequeno modelo, tripulada por um ou dois homens que se
ocupam da pesca na baía de Qui Nhone. Não apresenta nada de especial, a não ser o velame que se compõe de
duas velas de baioneta envergadas em antenas implantadas no fundo da barca, para servir de mastros.
Estampa 11 Annam - Gai Manh, barco de pesca de Qui Nhone
Estampa 13 Gai Nane - Barco de cabotagem anamita
53d
Estampa 12. Sha Hong - Barco de pesca de Qui Nhone
Estampa 1 Gai lah - Grande barco de pesca de Qui Nhone
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Estampa 22. Hue - Junco Real
Estampa 25. Goh - Navio de cabotagem anamita de Quang Bint
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Estampa 24 Barco de guerra Indochinês em 1685, segundo Baron
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Estampa 23 Junco Real fundeado no rio de ue
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GAI NANE
Na costa que se estende entre à baía de Tourane e à de Qui Nhone, encontra-se um grande número de
Juncos de diversas dimensões com carena de bambus entrançados com bordas de madeira. São o Gai Nane
(Estampa 13) fazendo a cabotagem, na época em que não pescam, com o nome de Gai lah (Estampas 14,15).
Estes últimos tomam o nome de Gai Vieuil, sempre que o porão tem uma cobertura de bambu entrançado para
resguardar o peixe pescado pelos Gai lah. A carena é feita de finas e sólidas tiras de bambu ou de rota
cuidadosamente entrelaçadas como se fosse um cesto. A toda a sua volta há uma vara de madeira ligada à borda
por uma cavilhagem de rota. O interior deste casco é consolidado por varas longitudinais e por anteparas
transversais reforçadas por vaus, cujas extremidades saídas sobre a borda, mantêm à forma do casco. Estes
barcos não têm quilha; a prou e à popa são protegidas por uma forte peça de madeira formando roda de proa e
cadaste, na qual vêm fixar-se os extremos das bordas. Cada uma dessas bordas tem uma ranhura destinada a
receber, a de ré a madre do leme, a de vante uma peça de madeira igualmente móvel, com o fim de proteger
contra os choques a parte de baixo da carena. No fundeadouro, ou quando navegam em fundos baixos, o leme
447
é içado até à altura da linha de água, assim como a falsa roda de proa.
Esta última é levantada à mão enquanto que o leme, muito mais pesado, pode exigir O uso duma cábrea
instalada em permanência, no exterior do costado ( figura 7, Estampa 16). À Estampa 16 dá os pormenores do
interior de um junco de 16,50 metros de comprido, 3,70 de boca, de cinquenta toneladas e tripulado por oito
homens. O porão é dividido em compartimentos, por anteparas não estanques. As águas juntam-se no centro do
porão, donde são retiradas à mão com um bartedouro, e depois deitadas numa selha servindo de latrina, nas
proximidades da cozinha. A quase totalidade do convés é coberto por esteiras colocadas em cima de painéis
móveis, por cima do porão das mercadorias, do alojamento do patrão a ré, e da tripulação à vante. As paredes
interiores da carena são protegidas por um fasquiado de bambu e o fundo por um pavimento. A água do convés
escorre para o mar pelos embornais abertos numa falca móvel pouco elevada acima do convés.
A mastreação compreende dois ou três mastros: ao centro, o mastro grande ligeiramente inclinado para a
proa, o segundo, a vante, vertical e o terceiro, móvel, de pequenas dimensões, colocado fora do cixo numa ou
duas implantações fixadas no exterior do costado a ré. A implantação dos mastros a vante é formada por duas
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Estampa 15 Gai Nane - Barco de pesca anamita
falcas que assentam num vau ligado a uma antepara transversal. Nos juncos pequenos a implantação assenta,
por intermédio duma prancha, no fundo do cesto que sem isso não poderia aguentar a pressão de um grande
peso.
Os juncos de Qui Nhone arvoram às vezes no mastro de vante, uma grande bandeirola vermelha ou uma
bandeira de diversas cores içadas numa comprida vara fixa no tope do mastro (Estampa 14). Ornamentam
também a extremidade dos mastros duma borla ou um cata-vento de modelo chinês. Isto pode explicar-se pela
presença, na maior parte dos estaleiros de construção do Annan, de operários chineses que trouxeram do seu
país os emblemas distintivos dos seus juncos.
O aparelho consiste em dois fortes ovéns a cada bordo; só o mastro grande os tem, os outros são aguentados
apenas pelos cabos do seu velame. As velas são feitas de folhas de palmeira cortadas em fiadas e entrançadas
delicadamente; são de forma trapezoidal, do tipo de pendão, envergadas numa antena à maneira das velas
latinas, com uma tralha do gurutil um pouco a vante e pouco significativa. Os ovéns são feitos com dois ou três
Estampa L6 Gai Nane - Detalhes de instalações diversas
bambu torcidos: os cabos para à manobra das velas são de palha de manilha. Estes cabos de laborar consistem
numa adriça passando numa talha simples ou dobrada no alto do mastro € tesada no pé, depois num comprido
abo fixado na extremidade da antena para orientar a vela e fazendo retorno no convés ou então, para a vela
grande na antena servindo de cábrea a ré para içar o leme, e, enfim, de um cabo na parte de baixo da antena,
contornando o mastro com vista a manter a vela a uma certa distância dele. Estas velas são espertadas numa
retranca de bambu, o ponto de amura fixado no mastro, o outro extremo guarnecido com uma escota dupla. A
pequena vela de ré iça, tanto num bordo como no outro num mastro móvel que se levanta a sotavento, a fim de
não prejudicar a manobra da cana do leme. Os grandes juncos têm um guincho, no convés central, entre os dois
mastros de vante para içar as velas e manobrar as âncoras. Estas são de madeira, com duas patas, muitas vezes
lastradas com um pedra fixada à diamante (figura 6, Estampa 16)
Sob vela, quando o junco tem tendência a procurar inclinações perigosas, dois homens colocam-se
rapidamente numa prancha colocada a barlavento, a fim de manter o equilíbrio, ou pelo menos diminuir a
inclinação. De cada vez que se vira de bordo, a equipa recolhe rapidamente a bordo, empurra a prancha para o
bordo oposto e corre para ela. Esta prancha que serve de balanceiro é de uso constante nos juncos da Indochina.
Os chineses não à usam fora das regiões costeiras críticas vizinhas do Tonquim. Ver na Estampa I4 esta prancha
aguentada por talha dupla, a ré do mastro grande. O betume usado para impermeabilizar as carenas entrançadas
e as esteiras do convés e dos abrigos, é feito duma resina muito fluida, chamada dau ou dyao. e de cal. aplicadas
numa camada muito espessa, enquanto que a borda é passada a óleo de Tong You, o que lhe dá o aspecto duma
bela madeira envernizada. A decoração do casco consiste simplesmente no olho simbólico pintado em fundo
negro a cada bordo à vante.
A figura | da Estampa 16. representa uma parte do porão de ré com o chão colocado em cima da carena
539
entrançada, sendo os flancos protegidos por um fasquiado de bambu e na cabine do patrão com uma cobertura
de esteira. O porão por baixo do soalho comunica com o anterior por uma dupla abertura feita na antepara
transversal.
Figura 2. A cozinha é geralmente instalada no centro do barco próximo do mastro grande. Consiste numa
caixa de madeira, cheia com terra, enquadrada entre duas anteparas transversais. A um bordo, em b, um pequeno
compartimento para onde convergem as águas do porão. Estas águas são retiradas por meio de um bartedouro
e deitadas na dala, c, que também serve de latrina.
Figura 3. Borla do mastro enfeitada com um motivo de origem chinesa. Por cima há uma grande vara
pintada de diversas cores, desfraldando uma bandeira ou uma grande bandeirola de etamina vermelha.
Figura 4. Bigota servindo para tesar os ovéns. A tensão faz-se por meio de um cabo que circunda o vau
saliente.
Figura 5. Bartedouro em bambu entrançado para esvaziar o porão.
Figura 6. Ancora de madeira de tipo chinês lastrada com uma pedra na junção das patas.
Figura 7. Leme içado fora de água na posição que ocupa usualmente quando o barco está fundeado. Este
leme não tem ferragens, a madre é introduzida num esvaziamento circular praticado na peça de madeira fazendo
de cadaste, com um entalhe para que a porta se mova livremente, h), parte inferior do cadaste que protege a
carena entrançada.
O aparelho de elevação consiste numa forte vara a, b, assentando na saliência de um vau e fixada no outro
extremo na falca da embarcação. É furada na parte superior para deixar passar o estropo, c, em que se actua por
meio de um guincho para suspender o leme. Um segundo orifício em d, serve de guia ao cabo fixo no extremo
da grande antena para orientação da vela. g, reunião de duas varas fixas a ré, servindo de estribo para acesso ao
leme.
DOH-BARCO DE PASSAGEM DO RIO DE HUE
Vêem-se no rio de Hue várias espécies de barcos de passagem que recebem, conforme as respectivas
dimensões ou o seu serviço, os nomes específicos de Nau Pé, Tra Hong, Trai e Doh. Há uma categoria menos
vulgar, chamada Doh Di, uma espécie de “barco de flores”. Construído especialmente para os passeantes ou
para as pessoas que querem fazer festas requintadas no rio. Estes barcos têm uma grande câmara ornamentada
com um certo luxo.
O barco de passagem mais em voga é representado pela Estampa 17. A forma do casco deriva, como a da
maior parte das sampanas da Indochina, da piroga escavada num tronco de árvore cujo uso é geral em todos os
cursos de água destas regiões. As duas extremidades levantam e são bem lançadas; a parte de vante é fechada
por um pequeno painel inclinado em forma de “U “a de ré tem um leme com porta compensada, cuja madre
passa através do casco.
Encontraremos de novo este dispositivo, de inspiração ocidental, em muitas embarcações indochinesas.
A vela, de que estas sampanas estão geralmente equipadas, é aparelhada num mastro móvel instalado a vante da
comprida palhota que serve de abrigo à família e aos passageiros. O seu corte lembra o da vela do Manh
(Estampa 3), salvo por ser reforçada por simples fasquias transversais de bambu juntando as tralhas do gurutil,
A Estampa 18 representa um Doh de grande comprido, tripulado por uns doze remadores. O casco não
difere muito do anterior, a não ser pelo painel da popa que se prolonga por uma peça de madeira vertical tendo
no tope duas bandeirolas formadas de várias borlas de seda vermelha. Estas embarcações servem habitualmente
para o transporte dos mandarins ou acompanham-nos nas suas deslocações.
No fim do século XVII os mandarins dispunham, para as suas deslocações e visitas oficiais, de grandes
embarcações ricamente decoradas e conduzidas por numerosos remadores (Estampa 19), Eis a descrição de um
* Vovage dans Vintérieur de la Chine eten Tartarie, por Lord Macartney, 1792 à 1794 - Paris, F. Buisson, An 7 de la Republique -Vol.
H pe. 140.
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Estampa 17 Doh- Barco de passagem do rio de Hue
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Estampa 18º Dol - Grande barco de passagem do rio de Hue
destes barcos, ao serviço de um mandarim anamita, aquando da visita que fez a Lord Macartney. Embaixador
do Rei de Inglaterra, ao Imperador da China em 1793*.
“Um Cochinchinês de alto grau em dignidade não tardou a chegar a Turon (Tourane) para apresentar
cumprimentos do seu Senhor ao Embaixador. Vinha numa galera com convés, de construção leve. alongada e
própria a navegar com rapidez. Os remadores, que eram em grande número, estavam de pé. impelindo os remos
para ré, e repetiam frequentemente este movimento. A câmara principal estava no meio do convés, pintada de
forma muito agradável e envolvida por lanças e diferentes atributos da autoridade. Nas duas extremidades da
galera, havia várias bandeiras de cores diversas”.
“A canoa do Governador* era construída como as outras, mas era maior, tinha uma espécie de tigre
esculpido e dourado, e a popa era ornamentada com esculturas e vários desenhos pintados com cores muito
agradáveis. As principais personagens que andam nestas canoas sentam-se sempre à proa O que,
consequentemente, é contrário à maneira da Europa, onde se sentam à popa”.
A Estampa 19 é à reprodução da gravura “Canoa Cochinchinesa”, aparecida no 2º Volume das Viagens
de Lord Macartney, página 140.
* Vovage dans Vintérieur de la Chine eten Tartarie- por Lord Macarmes. Vol Il. pe. 154.
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Estampa 19 Canoa Cochinchinesa ( Lord Macarmey )
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Estampa 20 Gai Reuh - Pescadores com camaroeiro, rio de Hue
GAI REUH - PESCA COM CAMAROEIRO
Os pescadores da baía de Qui Nhone e do rio de Hué, usam para a pesca com camarociro uma embarcação
chamada Gai Reuh ou Gai Rau (Estampa 20), que apresenta um dispositivo muito original para à manobra da
rede. O processo de pesca é idêntico ao dos pescadores ocidentais. Consiste numa rede quadrada sustida por
duas varas flexíveis cruzadas e ligadas no ponto de junção à uma longa vara assentando no chão. O movimento
de báscula dado a esta vara por meio duma corda fixa ao seu topo permite baixar ou levantar a rede, só com um
homem. As grandes dimensões do camaroeiro anamita exigem um esforço mais considerável, que se obtém da
542
EO Ao MS 03 80 ERES 2 OTRAS IO DO DO mi mean,
maneira seguinte: a vara de manobra é substituída por duas cábreas reguláveis fixadas pelos pés a um eixo que
assenta na borda a vante da embarcação.
Os extremos destas duas cábreas são ligados por um cabo de um comprido tal que o ângulo formado por
este conjunto seja de cerca de 120º. A cábrea interior aguenta a rede montada nos dois bambus cruzados, a
outra, dirigida segundo o eixo da embarcação, tem no topo uma grande pedra fazendo contrapeso ao camaroeiro.
O aparelho assim equilibrado, é posto em movimento por dois homens que se deslocam nos degraus da cábrea
interior. A rede sai da água e só falta apanhar o peixe por meio duma pequena rede, semelhante ao que chamamos
camaroeiro. Os movimentos de subida e descida fazem-se assim com rapidez e sem fadiga do pessoal.
JUNCO DE FAI FO
O porto de Fai Fo, que fica a pouca distância da baía de Tourane e comunica com esta por um curso de
água navegável, foi durante muito tempo frequentado pelos barcos de cabotagem do Guangdong, o que lhe
valeu ser considerado pelos indígenas como um porto chinês. Por isso não é surpreendente encontrar nos seus
barcos as características da construção chinesa e a do tipo híbrido usado no Golfo do Tonquim. A Estampa 21.
mostra um barco de pesca, cuja vela lembra, pelas múltiplas varas divergentes, a do junco com balanceiro
descrito mais atrás (Estampa 26, Costas do Sul). Da mesma forma, o leme com porta quadrada cuja madre
atravessa o casco, é essencialmente do tipo cantonês. A mastreação consiste num grande mastro ao centro. com
vela de baioneta numa comprida antena que se amura a grande distância a vante do pé do mastro. A tralha do
gurutil é arredondada no topo, como as das velas do Guangdong e tem, no conjunto, um belo perfil oval.
A vante, pequena vela triangular envergada numa antena de bambu, fazendo as vezes de mastro. A vela
de ré. igualmente de fracas dimensões, é do tipo de pendão; é envergada numa retranca saída para o exterior.
O casco é pintado de preto, sem outro ornamento que não o olho simbólico a vante.
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Estampa 21 Barco de pesca de Fai Do
543
pertença ao género Manh descrito mais acima, o qual pelo seu leme com grande madre, as suas mesas de
enxárcia e os acessórios do casco, pode ser incluído no tipo Gai Bao (Estampa 4). O casco é untado com óleo de
Tong You, com excepção dos dois triângulos pintados de preto nas extremidades de vante e de ré das mesas de
enxárcia e da borda que são pintadas de vermelho. As âncoras são de ferro e de modelo ocidental com o cepo
junto do arganéu.
O junco de mar de grandes dimensões (Estampa 27) é de um modelo pouco comum nas costas da Indochina.
Pelo menos, assim parece. No seu conjunto, o casco apresenta as características da construção anamita, salvo na
parte de ré que é de tipo essencialmente chinês. A borda levanta-se em “cu de galinha”, com galeria avançada,
lembrando pela sua grande saliência à dos juncos chineses da ilha Song Ming na foz do Yangzi Jiang. O leme
tem uma comprida madre que passa através da plataforma perfurada da galeria e ainda a ultrapassa a uma
grande altura. A proa é bem lançada e tem a cada bordo um suporte para a âncora formado por uma viga de
madeira transversal. À mastreação compõe-se de três mastros, o de ré móvel podendo adaptar-se a um bordo ou
a outro, numa implantação exterior. No fundeadouro as velas são metidas num estojo de esteiras
impermeabilizadas, como é prática nos grandes juncos do Baixo Yangzi Jiang. Falta-lhe o cata-vento, cujo uso
é extremamente raro nas costas da Indochina, mas na extremidade do mastro de vante há um ornamento formado
por uma varinha vertical em forma de S, imitação da que se vê nos juncos chineses e no Gai Nane de Qui Nhone
(ver Estampa 16, figura 3). Os diversos compromissos feitos no arranjo destes juncos, mostram a inspiração
estrangeira trazida provavelmente por construtores chineses.
Estampa 27 Saigão - Junco de mar
546
SAIGÃO - SAMPANA PARA PASSAGEIROS
Há um tipo de sampana para passageiros muito comum no rio de Saigão e nos arroios do delta (Estampa
28). Assim como a do Tonquim, deriva, como a mator parte das embarcações da Indochina, da piroga primitiva
em uso nos numerosos cursos de água desta vasta região. É um casco leve, a rasar a água, afilado e levantado
nas extremidades, a de vante em forma de colher, decorada com uma cabeça de dragão e nos lados o olho
simbólico. A parte de ré, da mesma configuração, é igualmente elevada: tem à bombordo uma pequena falca
contorcida onde se fixa o tolete do remo da pessoa que governa, as mais das vezes o marido, enquanto à mulher
fica a vante, um e outro de pé manobrando cada um muito habilmente e num movimento harmonioso e flexível
um comprido remo num comprido tolete. O marido manobra, além disso, com o pé, à cana do leme cuja madre
é muito alta. A madre, moldada segundo a forma arredondada do cadaste, faz com que o leme fique assim
compensado e que a sua manobra se torne, consequentemente, mais fácil.
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Estampa 28. Suigão - Sampana para Passageiros
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A cobertura do rufo é confeccionada com muito cuidado. É indispensável, com efeito, neste país em que
as chuvas são frequentes e abundantes, proteger bem este pequeno domicílio, único ganha-pão do dono da
sampana. O tecto é feito de um cume em ripado de bambus entrecruzados, cobertos com um engradado de
folhas de palmeira. Um segundo ripado de bambus unidos, fixado segundo o comprido, em cima do outro,
completa a cobertura que é totalmente estanque. Os flancos da palhota são protegidos por um acolchoamento de
bambus.
Independentemente das sampanas de passagem, há no arroio de Cholen uma grande variedade de
embarcações usadas nas diferentes modalidades que as necessidades da população exigem. Como no rio de
Cantão, há cozinhas e restaurantes ambulantes, barbeiros, endireitas, leitores da fortuna, cujas chamadas
ensurdecedoras se juntam com os clamores dos barqueiros chineses e anamitas. A maior parte destas sampanas-
-estabelecimento são pequenas, conduzidas por um só homem, o qual com prodígios de equilíbrio, consegue
esgueirar-se nos mil meandros da cidade flutuante para vender os seus produtos,
Outras embarcações de um modelo maior que as sampanas de passagem (Estampas 29,30). são arranjadas
com um certo conforto para viagens de longa duração. Têm um grande rufo cujo interior está dividido em três
547
Os grandes juncos não são aparelhados para se aventurarem ao largo das costas; os que navegam no delta
instalam a vante do rufo um mastro aparelhado para receber uma vela. Têm uma âncora de ferro suspensa a
vante da plataforma. O casco é pintado de preto, sobriamente ornamentado a vante com o olho tradicional
esculpido num losango pintado de vermelho, a ré, e de cada lado do leme, o símbolo chinês do Yin Yang,
chamado Am Duong pelos anamitas. Este símbolo é igualmente pintado nos dois painéis da fachada de vante do
rufo, que tem no lintel da porta uma inscrição dourada em fundo vermelho enquadrado nos seus dois lados pela
bandeira da companhia (Estampa 32).
Entre os juncos de carga há em Saigão um, pouco vulgar, que possui bem as características da construção
chinesa. Distingue-se principalmente pela forma da popa e do leme (Estampa 33). Esta popa consiste num largo
painel quadrado e plano, ligeiramente inclinado, tendo a meio o leme com porta ordinária, cuja madre fica
encastrada em cavidades abertas em duas fortes peças de madeira transversais: a de baixo, fixa num painel um
pouco acima da linha de água tem uma larga abertura para permitir o livre movimento da porta, a do alto liga
as duas extremidades da borda. É sobre esta peça que assenta o peso do leme por intermédio duma espessa
cavilha de madeira atravessando a madre. Um cabo amarrado na porta e virado por um guincho permite levantar
o leme e fazê-lo assentar a sua patilha na travessa inferior. Este junco apresenta a mesma arrumação de convés
que o anterior, excepto o rufo que se estende sobre muito menor comprido, conservando a mesma forma de
cobertura, a mesma altura necessária para o uso do homem do leme. As formas de vante são afiladas e protegidas
por uma plataforma transbordante.
A Estampa 34 representa uma outra barca de carga de tonelagem média, com um comprido duma quinzena
de metros, equipada, como o grande junco de carga do arroio de Cholen, com um rufo de pranchas coberto com
um ripado de bambu, ao qual se tem acesso por degraus fixos à antepara de vante. O casco lembra o da sampana
de Saigão, rasa com a água, a parte de vante elevada estreita e saída, a parte de ré mais elevada e provida com
um leme com ferragens, com uma comprida madre, cuja cana é manobrada do convés a ré. O homem do leme
tem à sua disposição um grande remo que se apoia num tolete fixo por cima duma falca de perfil ondulado que
se levanta a ré. A parte posterior do rufo é ocupada pelo patrão e pela família, a de vante que protege um dos
painéis do porão das mercadorias é feita com paredes desmontáveis. O casco é cuidadosamente construído,
pintado de preto e decorado na falca da ré, com três círculos e o Yin Yang. A roda de proa apresenta a
particularidade de ter uma defensa de cabo, destinada a protegê-la dos choques das atracações. A amarração ao
longo das margens faz-se com uma vara ou um remo enterrado no fundo.
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Estampa 34º Saigão - Junco de carga
550
BARCO DE RODA
Podia-se ver no princípio deste século, ao longo dos cais do rio de Saigão, um estranho barco indígena
que não deixava de chamar a atenção e também os risos dos passeantes, pelo engenho primitivo usado para a
sua propulsão.
Era um navio com uma roda a ré (Estampa 35), movido pela força humana, à maneira do Luen Teh'ouan
de Cantão, descrito mais atrás. Este barco, tipo único nas águas indo-chinesas, fazia em 1905. data em que
obtive estas informações, um serviço quotidiano entre Saigão e Thu Dan Mot, numa distância de cerca de 50
quilómetros. O casco, com 18 metros de comprido, era raso com a água, tendo ao centro um grande ruto para Os
passageiros, a vante um mastro com vela e convés de manobra. Para ré, um pequeno rufo pouco elevado
fechando a maquinaria pelos cules-motores, depois uma plataforma um pouco mais baixa onde fica o homem
do leme e por baixo da qual se move a roda motora de pás. Por fim o leme com uma grande porta ordinária.
suspenso pela madre, do painel da popa.
A Estampa 36 representa o esquema do dispositivo de propulsão concebido pelo mesmo princípio do
Lun Chuan, e, verosimilmente, de inspiração cantonesa.
Estampa 35 Saigão - Barco de roda
Aqui, o número de cules-motores é só de oito, em vez dos doze a vinte do barco de Cantão. Os cules
actuam sobre oito pedais (pp) dispostos. em dois eixos paralelos (xx). A transmissão do movimento dos pedais
faz-se dos dois lados do barco por intermédio de manivelas (mm) que actuam sobre uma comprida biela (bb). à
qual faz mover por seu turno uma outra manivela (yy) da roda de pás (1). Duas barras transversais (tt). fixas por
cima dos pedais servem de apoio aos cules durante as suas longas e rudes travessias. Concebe-se que uma
máquina tão rudimentar esteja longe de funcionar com a regularidade e a precisão de um motor a vapor. Assim.
para evitar, tanto quanto possível, os caprichos inerentes à esta mecânica primitiva, estão colocados homens em
permanência junto de cada uma das manivelas para vigiar o seu funcionamento e verificar a passagem dos
pontos mortos por um movimento apropriado. As bielas movem-se no exterior do tabuado do casco. mas ficam
abrigadas pelas falcas ligadas ao painel da popa.
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Lstampa 36 Plano esquemático da maquinaria de um barco de roda
JANGADAS
As jangadas que descem o rio de Saigão são usadas a maior parte das vezes para o transporte de toros de
madeira, de pranchões esquadriados de jacarandá, de pau ferro e de ébano, de uso corrente na marcenaria
indochinesa. Estas madeiras não flutuam em virtude da sua grande densidade pelo que são dispostas numa
plataforma de bambus de seis à oito metros de largura e trinta a quarenta metros de comprido (Estampa 37). Os
toros e as pranchas assentam em antenas colocadas a distâncias regulares e no sentido da largura da jangada e
suficientemente elevados para evitar o contacto com a água. Estas diversas peças são ligadas umas às outras por
lianas e bambus entrançados. A tripulação é composta por uma dezena de homens que têm por abrigo uma
palhota construída numa plataforma a vante, sobre elevada de um metro acima do chão da jangada. A aparelhagem
é do mais sumário que há, dois ou três remos de grande pá a cada um dos extremos e alguns pedaços de cabos
para amarração. Não há cabrestante, nem espias de alagem para manobrar estas jangadas, cuja existência
efémera consiste numa única viagem de descida ao sabor da corrente.
Chegados ao destino os toros de madeira e os pranchões são desembarcados e a jangada desmontada para serem
vendidos os bambus que a compunham. Este meio de transporte não pode de forma nenhuma ser utilizado para
a subida, por falta de caminho de alagem neste vasto delta cortado por rios e por canais de margens tornados a
maior parte das vezes inacessíveis pela natureza e abundância da vegetação.
Estas jangadas descem com a corrente, utilizando compridos remos de seis a oito metros que são
manobrados à maneira de remos de gingar, ora para a propulsão, ora para a manobra.
No rio de Saigão e no delta do Mekong pode ver-se uma grande variedade destes meios de transporte.
As mais pequenas, formadas com quatro a cinco bambus conduzidas só por um homem, mais primitivas
ainda que a piroga escavada num tronco de árvore, as maiores, reservadas ao transporte de madeiras pesadas
podem atingir uma centena de metros de comprido e são equipadas da forma já descrita acima. Enfim, a jangada
de dimensão média, muito comum no deita e no Don vai servindo de barca de passagem. Esta jangada é formada
por duas grandes pirogas justapostas e suportando uma plataforma de bambu, na qual podem ir os viajantes
com o seu veículo e o cavalo, se for caso disso.
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Estampa 37 Jangada do rio de Saigão
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MÉTODO DA CONSTRUÇÃO ANAMITA
Apesar da nossa documentação sobre os barcos de mar da Indochina ser bastante sumária, procuraremos
no entanto tirar dela alguns ensinamentos interessantes, do ponto de vista dos métodos de construção anamita
quando comparados com os dos chineses.
“ara facilitar estes comentários, tomaremos como base a comparação em cada um dos países, dos dois
tipos de barco mais comuns, o Gai Bao anamita e por outro lado o Sha Chuan chinês, que possuem, um e outro,
as características da construção indígena isenta de qualquer contribuição estrangeira.
FORMAS DE CARENA: A carena dos navios de mar indochineses, como a dos juncos chineses, tem a maior
.
boca a ré, imitando assim a forma dos palmípedes, cujo corpo é mais largo na parte posterior. A forma é
arredondada com extremidades aguçadas, muito esguias e saídas, enquanto que o junco é de fundo chato, com
as extremidades fechadas por um painel.
Não há quilha aparente no exterior, mas um tabuado mais espesso no centro, formando nos extremos
roda de proa e cadaste.
OSSADA: O interior do casco compreende várias anteparas estanques e várias balizas cujas diferentes partes se
não juntam. As pranchas são unidas a topo por cavilhas e também ligadas às balizas com cavilhas de madeira.
Não há grampos de ferro a assegurar a ligação e a combater o esforço de arrancamento nem cintas a fazer
cintura à volta do costado, com o propósito de reagir contra a deformação longitudinal. Não há vaus transversais
cavilhados nas anteparas, a maior parte sai para o exterior do casco.
LEME: O leme do Gai Bao é o exemplo mais perfeito do tipo indígena sem nenhuma relação com o leme
chinês. A comprida madre inclinada é arredondada seguindo a curva do cadaste. A porta é estreita com ferragens
do modelo ocidental. Pode ser içado e tirado dos gonzos por meio de um guincho e colocado no convés a ré. A
Estampa 38 mostra diversas formas e montagens do leme nos barcos indochineses, que acabámos de descrever.
APARELHO: Mastros verticais ou ligeiramente inclinados para ré. A parte inferior do mastro é encastrada
entre duas falcas que assentam, assim como o pé, mum maciço de madeira fixado no fundo do porão. Este
mesmo dispositivo existe na maior parte dos juncos chineses de mar e de rio.
Os ovéns indochineses são feitos de dois ou três feixes de rota torcida de forma rudimentar, fixados ao
tope do mastro a uma sapata de laborar que se esperta numa mesa de enxárcia cavilhada na borda.
O chinês não usa ovéns, utiliza para este efeito os cabos volantes da vela. que esperta a barlavento.
Dispõe, além disso, para reforçar o porte do mastro, de um forte arco botante de madeira no plano longitudinal,
apotando-se no convés de um e doutro bordo, na face de vante do mastro.
Além das formas do casco, já tão diferentes uma da outra, é sobretudo pelo velame e pelo aparelho que o
barco anamita se distingue do junco chinês.
A vela triangular, dita de baioneta, que usa o Gai Bao e um grande número de barcos de pesca, é uma das
características mais evidentes da concepção indochinesa. Esta vela, duma forma única nos mares da China, não
oferece, nem no seu corte nem no seu aparelho, nenhum ponto em comum com a do Sha Chuan. A vela anamita
é feita de palha de folhas de palmeira, cortadas em lamelas e cosidas. Não é reforçada, como a vela chinesa, por
varas de bambu, mas simplesmente por panos transversais ligando as duas tralhas.
O uso da escota múltipla é pouco menos do que ignorado na Indochina; não existe no Gai Bao, tipo de
navio que melhor caracteriza a construção local. O anamita não tem o recurso, como o chinês, de reduzir a
superfície do velame, pelo simples artifício de arriar à verga superior. Utiliza, para isso, uma ou duas carregadeiras
que ferram a vela na parte mais elevada.
Graças à posição da antena que se esperta ao pé do mastro, a vela pode orientar-se por si própria nas
viragens de bordo, sem necessidade de cambar, operação que consiste em arriar um pouco a vela, depois baixar
um pouco o extremo da antena para a levar para ré do mastro, ao mesmo tempo que o ponto de amura.
“araremos aqui os nossos comentários, por falta de elementos de comparação acerca da marinha
indochinesa, assunto em que a nossa documentação é bastante sumária, como acabámos de ver. Gostaríamos
que este simples bosquejo mostrasse o interesse que há em continuar o estudo destes navios, com vista à
determinar a origem dos seus elementos. Não há dúvida que a forma da sua carena, com linhas esguias, não
deriva da piroga primitiva que se encontra em muito grande número nos cursos de água da Indochina, Quanto
à vela de baioneta, que chama tão justamente a atenção pelo seu corte desusado nos mares da China, várias
hipóteses serão sem dúvida apresentadas para explicar a sua presença nestes mares longínquos, pouco propícios
aliás ao seu uso.
JANGADAS E PIROGAS DO LAOS
Devo à amabilidade do Senhor Picanon, Inspector das Colónias, e de um letrado laociano, Tiao Phet
Sarath, que o acompanhava em 1914 numa missão à Luang Prabang, no Alto Laos, interessantes notas com
esquiços a apoiá-las, sobre os meios de transporte na bacia do Mekong. Esta documentação parecerá sem
dúvida incompleta àqueles que puderam verificar localmente o grande número e a variedade das embarcações
usados nesta região da Indochina dificilmente acessível. Mas por modesta que seja esta contribuição para o
estudo dos barcos de rio, queremos esperar que servirá de referência àqueles que, mais felizes que nós, poderão
consagrar alguns momentos livres à procura de novos documentos sobre esta marinha, tão pouco conhecida, e
A
colaborar assim com à obra empreendida pelo almirante Pâris, no seu “Souvenirs de Marine”.
Os meios de transporte utilizados no Alto Laos podem resumir-se aos dois tipos seguintes: as pirogas c as
Jangadas, únicos engenhos capazes de afrontar os perigosos obstáculos do Mekong, ambos os tipos comportando
numerosas variedades, adaptadas às necessidades de transporte e à natureza da navegação.
O Laociano está habituado à piroga desde a nascença; utiliza este meio de transporte em todas as
circunstâncias, € quaisquer que sejam as dificuldades do caminho, para ir duma margem à outra, de aldeia em
aldeia, fazer trocas de produtos necessários à sua subsistência. A capacidade de transporte da piroga é
insignificante. Pelo contrário, a jangada é por excelência o meio mais seguro para transportar grandes pesos €
grandes volumes durante o período de águas altas, que têm lugar do mês de Junho ao mês de Novembro.
A estes dois tipos é preciso juntar a jangada-piroga, formada como o nome indica, por uma reunião
destes dois géneros de barcos primitivos. As pirogas utilizadas no Mekong são de dois tipos: a piroga, no
sentido vulgar da palavra, feita de um tronco de árvore mais ou menos comprido, e a piroga composta por três
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Estampa 29 Grande sumpana para excursões
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Estampa 31 Grande junco de carga de Cholen
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O mesmo junco visto de vante
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Junco de carga navegando num arroio
556
pranchas justapostas fazendo de flutuador. Estas diversas categorias de meios de transporte serão brevemente
descritas nas linhas que se seguem.
JANGADA
A jangada representada pela Estampa 39, é constituída por uma plataforma de bambus. com o comprido
de vinte e cinco à trinta metros, a largura de sete à oito, na qual se construiu. por cima de um chão transversal,
uma palhota que serve de abrigo à tripulação e à carga. Esta plataforma é reforçada nos dois bordos e a todo o
comprido por um feixe de bambus, com vista à protegê-la contra os choques exteriores e a dar maior estabilidade
à jangada. As extremidades dos feixes ficam um metro acima da plataforma, com o fim de consolidar as partes
de vante e de ré expostas ao embate com os rochedos.
São reunidas por duas barras transversais que servem de apoio aos dois ou três remos colocados nas
extremidades de vante e de ré. Estes remos são na realidade pagaias, manobradas como o Sao chinês, com o fim
de dar direcção à jangada que desce com a corrente, À pagaia de uso generalizado nas jangadas e nas pirogas é
composta por três peças, um punho de dois a três metros de comprido e duas pranchas laterais formando a pá,
ligadas ao punho por travessas e ligações em bambu. Ao mesmo tempo que a pagaia que serve para o governo,
a tripulação usa compridas varas de bambu terminadas por um gancho duplo de ferro e, enterradas no fundo,
para empurrar ou para afastar dos rochedos. À tripulação, composta por oito a doze homens, não usa remos.
Estas jangadas só fazem a viagem de descida. Chegadas ao destino, são desmontadas e os bambus vendidos
no local, em lugares em que a sua raridade garante um lucro relativamente elevado.
O tráfego de Louang Prabang faz-se desta maneira até Vien Tiane e de lá para jusante. Nos cursos de água
tributários do Mekong, como o Nam Khane, as jangadas são de mais fracas dimensões, quinze a vinte metros de
comprido, por três a quatro metros de largura. A tripulação reduz-se então à cinco e oito homens.
JANGADA-PIROGA
Este tipo de jangada (Estampa 40) difere do anterior pelo facto do flutuador não ser constituído por uma
plataforma de bambus, mas por duas pirogas acopladas a um metro de distância uma da outra, reforçadas do
lado de fora com dois feixes de bambus destinados a proteger a jangada contra os choques exteriores, a aumentar-
-lhe a estabilidade e ao mesmo tempo a capacidade de transporte. E sobre este conjunto de pirogas e de feixes
de bambu que assenta, por meio de barras transversais, a plataforma em esteira sobre a qual se ergue à palhota
servindo de abrigo aos homens e à mercadoria. Estas jangadas têm de 20 a 25 metros de comprido, por cinco a
seis de largura. A sua resistência ao andamento é reduzida, e a sua velocidade aumentada pelo uso destas
pirogas de formas esguias. Graças à leveza duma espécie de bambu chamada Nai Hie. de que são precisas cerca
de 3.000 peças, mais ou menos, para formar à jangada, a capacidade de transporte pode ser elevada a oito e dez
toneladas. Os laocianos consideram este tipo de jangada como sendo muito mais rápido e mais prático do que
o anterior. À tripulação compõe-se duma dezena de homens, de que quatro manobram as pagatas para o governo
€ outros quatro, ou seis, ficam aos bordos para acelerar o andamento nas zonas de calma. Da mesma forma que
o tipo anterior, este só faz uma viagem de descida. Chegada ao destino à jangada é desmontada. os bambus
vendidos e as pirogas libertas dos seus entraves são utilizadas pela tripulação para subir o rio. Não há dúvida
que este processo de transporte é efectivamente mais rápido, a capacidade de transporte maior, e que a volta das
duas pirogas, com carga, significa um aumento de lucro.
PIROGA DE VIEN TIANE
Na região do Alto Laos, o curso do Mekong é cortado por numerosos rápidos e cheio de rochas que
tornam a navegação difícil e muitas vezes perigosa. As únicas embarcações capazes de afrontar estes obstáculos
são as pirogas estreitas com paredes muito espessas, escavadas num tronco de árvore (Estampa 41). O comprido
557
Estampa 40 — Alto Mekong - Junco de bambu sobre pirogas
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Estampa 42. Laos - Piroga de Louang Prabang
PIROGA DE CORRIDA
Esta comprida piroga é escavada num tronco de árvore único. É usada pelos Laocianos na altura das
corridas que são muito frequentes entre os habitantes do alto Mekong.
Assim como no “ Long Chuan,” barco-dragão dos chineses com o qual tem alguma analogia ( Ver Tomo
HI, Estampa 73 ) os homens, que são cerca duma trintena, sentam-se de cara para à proa, segurando nas duas
mãos uma pagaia que manobram sempre do mesmo bordo, uns a estibordo, outros a bombordo, enguanto que
no centro um grupo de músicos tange gongos para estimular a acção dos remadores. Sob formas diversas, este
tipo de barco está bastante divulgado na Índia, na Birmânia, assim como nas ilhas do Pacífico, seja como navio
de combate, armado de lanças e de flechas, seja como barco de recreio ou tate de cerimónias.
560
PIROGA DE CERIMÓNIA
Esta gravura a cores foi executada em 1910 por um laociano de Louang Prabang, o mesmo ao qual
ficámos a dever o esquiço das jangadas e pirogas do Alto Laos, descritas mais acima ( Estampa 43 ). Nenhuma
explicação foi dada pelo autor acerca da origem deste desenho, da época em que esta piroga de cerimónia
estava em uso no Álto Mekong, ou nos seus afluentes, tripulada por esta equipa de remadores, com trajos
rutilantes e cobertos com estranhos capacetes, à moda Carolíngia. E preciso ver neste desenho não o fruto da
sua imaginação, mas antes à cópia ou uma Interpretação duma estampa colorida que tenha consultado no seu
país natal.
Estampa 43 Alto Laos - Louang Prabang - Piroga de cerimónia
561
CONCLUSÃO
Eis-nos chegados ao fim do nosso estudo sobre os navios da Indochina e sobre os do mais antigo e do
mais vasto império do mundo, a China. Os elementos descritivos, assim como os esquiços, foram recolhidos no
decurso de muitas viagens efectuadas entre 1885 e 1910, ao longo das costas dos mares da China e nos seus
múltiplos contornos, desde a Manchúria até às fronteiras do Tonquim e para além até à Indochina, Bornéu e
Estreito de Malaca. Resultaram também das viagens ao interior das terras, através dos lagos e dos cursos de
água, subindo o vale do Yangzi Jiang e o da maior parte dos seus principais afluentes quase até aos confins do
Tibete e aos pontos extremos da navegação. Este trabalho é forçosamente incompleto e a tarefa que falta realizar
é ainda muito vasta se se considerar a imensidade destas frotas de comércio e o grande número de tipos que
podem ter escapado às nossas investigações. Numerosos estudos, de várias épocas, precederam, é verdade, este
que apresentamos hoje, nomeadamente em países estrangeiros. Foram acolhidos com favor pelos leitores, em
especial pelos marinheiros que encontraram nestes assuntos, a maior parte das vezes inéditos, um interesse que
nem sempre suspeitavam. É certo que uma das marcas mais distintivas entre as nações do Ocidente e a China
em particular, é esta marinha tão pouco conhecida e tão facilmente caluniada, porque tantas das suas concepções
estão longe das nossas, por vezes mesmo diametralmente opostas. Estas divergências parecem tanto menos
explicáveis, quanto os marinheiros de todos os países têm os mesmos instintos, os mesmos objectivos e a
mesma compreensão das dificuldades a vencer. São estes os elementos essenciais que os guiam nas suas
realizações e esta identidade de vistas é tão afim entre eles que se pode dizer sem qualquer reserva que os
marinheiros de todas as nações, excepto os da China, falam a mesma língua. E assim, que um marinheiro
ocidental embarcado num navio duma nação diferente da sua, se adaptará imediatamente, sem a menor hesitação,
às manobras mais imprevistas, enquanto que transportado num junco chinês, esse mesmo marinheiro ficará
desorientado, incapaz de utilisar os aparelhos que nunca lhe foram familiares. Mal será capaz de distinguir a
popa da proa do seu novo barco. Partindo desta falta de compreensão profissional será preciso evitar, como
tantos outros fizeram, antes mesmo de terem aflorado o assunto, a condenação de processos de construção e de
navegação que fizeram a nomeada duma nação tão antiga como a Humanidade. Serta conhecer muito mal o
marinheiro chinês, atribuir uma tal inferioridade numa profissão em que atingiu um domínio incontestado e que
há numerosos séculos assegura o arroz quotidiano a centenas de milhares de habitantes. Ficaríamos felizes de
ter revelado sobre esta marinha, na véspera do seu desaparecimento, alguns dados precisos capazes de dissipar
este preconceito e ajudar a prestar mais justiça aos seus marinheiros e aos seus construtores, que realizaram na
sua profissão concepções originais, essencialmente práticas, dignas de tomar lugar na primeira fila dos estudos
sobre Arqueologia Marítima.
562
VI
JUNCOS CHINESES
de Louis
HISTÓRIA DO JUNCO
CONSTRUÇÃO DO JUNCO
ORNAMENTAÇÃO E TIPOS
DESCRIÇÃO DOS JUNCOS
ALTO YANGZI JIANG
BAIXO YANGZI JIANG
COSTAS NORTE DA CHINA
COSTAS SUL DA CHINA
COSTAS LESTE
INDOCHINA
Audemard
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ESTE LIVRO DEVE SER ENTREGUE À BIBLIOTECA,
ANTES DA ÚLTIMA DATA MENCIONADA
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